Em abril de 2025, cerca de 400 cientistas e especialistas que trabalhavam de forma voluntária na sexta edição da Avaliação Nacional do Clima dos Estados Unidos, a National Climate Assessment (NCA), receberam um e-mail curto. O escopo do relatório estava "sendo reavaliado", dizia a mensagem, e todos os colaboradores estavam liberados de suas funções, segundo reportagem da NPR.3 Um ano e meio depois, parte desse grupo voltou a publicar. Agora, fora do governo.
Como relata o The Washington Post nesta terça-feira (20), o primeiro artigo da U.S. Climate Collection, iniciativa conjunta da American Geophysical Union (AGU) e da American Meteorological Society (AMS), reúne 175 colaboradores e mapeia em que pontos a ciência do clima avançou desde a última avaliação oficial, concluída em 2023.1 Os autores principais incluem Melissa Kenney, do Instituto do Meio Ambiente da Universidade de Minnesota, e Costa Samaras, da Universidade Carnegie Mellon, ambos dispensados do relatório federal.
O texto, intitulado Research Priorities for Robust Climate Assessments in the United States, foi publicado simultaneamente na revista Earth's Future, da AGU, e no Bulletin of the American Meteorological Society, conforme divulgou a Universidade de Oklahoma, uma das instituições participantes.2 Não se trata de um relatório de conclusões, mas de um roteiro: o que mudou no conhecimento científico, o que ainda precisa ser avaliado e onde novas sínteses seriam mais úteis para governos, empresas e comunidades.
Do e-mail de dispensa ao site fora do ar
A dispensa dos autores foi o primeiro de uma série de movimentos. No fim de junho de 2025, o site globalchange.gov, que reunia as cinco edições já publicadas da NCA e mais de 200 publicações do programa federal, deixou de funcionar, segundo o Los Angeles Times.4 A NASA chegou a anunciar que hospedaria os relatórios, mas recuou poucos dias depois, alegando não ter obrigação legal de fazê-lo, como registrou a Spectrum News.5
Em julho de 2026, a Casa Branca reativou o U.S. Global Change Research Program (USGCRP), órgão que produz a avaliação por determinação do Congresso, e colocou à frente dele Matthew Wielicki, ex-geoquímico da Universidade do Alabama conhecido por questionar o consenso científico sobre o clima, conforme apurou o E&E News/Politico.6 Ao Washington Post, o Escritório de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca não respondeu sobre o andamento da sexta edição.1
"A ciência do clima precisa continuar avançando mesmo que não seja politicamente favorecida." Costa Samaras, Carnegie Mellon, ao The Washington Post
Por que a síntese científica é infraestrutura pública
Para entender o que está em jogo, é preciso separar dois tipos de trabalho científico. Um é a pesquisa original, que produz dados e artigos. O outro é a síntese: ler centenas ou milhares de estudos, pesar evidências conflitantes, estimar graus de confiança e traduzir tudo em diagnósticos que um prefeito, uma seguradora ou um engenheiro de barragem consigam usar. A NCA pertence à segunda categoria.
Esse trabalho é caro, lento e, segundo os pesquisadores ouvidos pelo Washington Post, historicamente financiado pelo governo federal. Também não costuma ser prioridade das revistas científicas, o que deixou os autores dispensados sem um lugar óbvio para publicar.1 A AGU e a AMS se propuseram a preencher essa lacuna com uma coleção de acesso aberto e revisada por pares, distribuída por seus periódicos. No comunicado de lançamento, o presidente da AGU, Brandon Jones, descreveu esse tipo de estudo como a base das decisões públicas e privadas, de planejadores urbanos a seguradoras.7
As duas sociedades fazem questão de dizer que a coleção não substitui a avaliação oficial. A ideia é manter vivo o tipo de pesquisa que sustentaria futuras avaliações, sejam elas feitas por estados, municípios, pelo governo federal ou por colaborações internacionais como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).1
O que o novo roteiro identifica
O artigo percorre sistemas planetários, ambientes naturais, setores econômicos e regiões dos Estados Unidos. Algumas frentes se destacam pela relevância que extrapola o território americano:
- Eventos compostos. Ondas de calor, incêndios florestais e sobrecargas na rede elétrica tendem a ocorrer juntos e a se reforçar, criando riscos que os protocolos tradicionais de defesa civil, pensados para um desastre por vez, não cobrem bem.1
- Inteligência artificial e data centers. O consumo crescente de eletricidade e de outros recursos por centros de processamento de dados aparece como nova fonte de emissões que ainda não foi avaliada de forma ampla.1
- Modelos regionais e locais. Os autores pedem avaliação dos avanços em modelagem climática na escala em que as decisões de adaptação são tomadas, a de bacias, cidades e bairros.1
- Ciência de atribuição. Os métodos que estimam quanto a mudança do clima contribuiu para um evento extremo específico evoluíram desde 2023 e precisam ser incorporados.1
- Florestas. A seção coordenada por Serita Frey, da Universidade de New Hampshire, trata ao mesmo tempo da vulnerabilidade das florestas e do seu potencial para mitigar o aquecimento, segundo a própria universidade.8
A menção à ciência de atribuição tem peso político particular. Logo após sua nomeação, Wielicki questionou publicamente essa área nas redes sociais, perguntando se atribuir eventos extremos ao clima não seria apenas viés de confirmação, segundo o Washington Post, republicado pelo Anchorage Daily News.6 O roteiro dos cientistas dispensados aponta justamente o campo que o novo responsável pela avaliação oficial coloca em dúvida.
Os argumentos do governo e os limites da iniciativa
A administração Trump sustenta que não está abandonando a ciência, mas corrigindo seus excessos. A ordem executiva sobre "ciência padrão-ouro", assinada em maio de 2025, afirma que agências federais usaram cenários de aquecimento extremos baseados em premissas improváveis, como registrou o Los Angeles Times.4 A Casa Branca justificou a nomeação de Wielicki como forma de impedir que o USGCRP fosse usado como veículo de agendas políticas, segundo a Environment+Energy Leader.9 Mesmo entre cientistas houve quem apontasse trechos da quinta edição com linguagem de tom mais normativo, ainda que reconhecendo o rigor do conjunto, segundo a S&P Global.10
Do lado dos pesquisadores, há limites reconhecidos. Uma coleção de artigos não tem mandato legal, não coordena as agências federais que alimentam a avaliação oficial e não carrega o peso institucional de um documento entregue ao Congresso. Jesse Keenan, da Universidade Tulane, observou à S&P Global que retomar o trabalho do ponto em que parou exigiria suporte técnico e compromisso real.10 Boa vontade acadêmica não substitui, por completo, uma estrutura de Estado.
O espelho brasileiro
O caso americano interessa ao Brasil menos como notícia estrangeira e mais como teste de estresse. A pergunta que ele coloca é direta: quem garante a síntese científica sobre o clima quando ela deixa de ser prioridade de governo?
O país tem uma estrutura própria. O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) foi criado em 2009 pelos ministérios do Meio Ambiente e da Ciência, Tecnologia e Inovação, nos moldes do IPCC, conforme a Agência FAPESP.11 Seu primeiro Relatório de Avaliação Nacional, apresentado em 2013 com a participação de mais de 340 pesquisadores, projetou aumento de 3 °C a 6 °C na temperatura do país até 2100, a depender do cenário de emissões.11 Diferentemente dos Estados Unidos, onde a Lei de Pesquisa sobre Mudanças Globais de 1990 exige uma avaliação a cada quatro anos, o Brasil não tem um ciclo de avaliação nacional com periodicidade fixada em lei.
No campo das políticas, houve avanço recente. O Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima aprovou o novo Plano Clima em 15 de dezembro de 2025, e o Ministério do Meio Ambiente publicou em fevereiro de 2026 a Estratégia Nacional de Adaptação, com 16 planos setoriais, 312 metas e 810 ações, segundo o Jornal de Brasília.12 Entre as metas está a de que todos os estados e ao menos 35% dos municípios tenham planos de adaptação até 2035. Organizações da sociedade civil, porém, apontaram à Agência Brasil que o plano não foi institucionalizado por lei.13 Em outras palavras, depende da continuidade política, o mesmo ponto frágil exposto nos Estados Unidos.
As mesmas lacunas, em versão nacional
As prioridades listadas pelos cientistas americanos têm correspondência quase direta por aqui. A plataforma AdaptaBrasil, mantida pelo MCTI com o INPE e a RNP, calcula índices de risco climático para os 5.570 municípios e passou a oferecer, desde julho de 2026, um Painel Cidades com projeções para 2030 e 2050, informou o INPE.14 Um levantamento da Agência Pública com esses dados mostrou que 1.641 municípios têm risco alto ou muito alto associado a chuvas, e que apenas 19% das cidades contam com sistema de alerta antecipado para deslizamentos.15
A tragédia do Rio Grande do Sul, em 2024, expôs o limite da escala. Reportagens da época registraram que municípios gravemente atingidos apareciam na plataforma com risco baixo ou médio para inundações, o que ilustra a mesma necessidade apontada pelo roteiro americano: modelos regionais e locais mais finos.16 O debate sobre data centers também chegou ao país. O governo lançou em setembro de 2025 uma política nacional para o setor, com o regime tributário Redata, que perdeu validade no fim de fevereiro de 2026 sem votação no Congresso, segundo o Dialogue Earth.17 Estimativas do setor citadas pela Convergência Digital indicam que os data centers consumiram 1,7% da energia elétrica do país em 2024, com projeção de 4% em 2030.18 A avaliação sistemática desse impacto, porém, ainda não existe.
O que fica para quem decide
A resposta da AGU e da AMS mostra que as sociedades científicas podem funcionar como reserva institucional quando o Estado recua. Mas também revela o custo da improvisação: trabalho voluntário, sem orçamento dedicado, sem coordenação entre agências e sem a autoridade formal de um documento oficial. Para seguradoras, bancos, empresas de infraestrutura e prefeituras, que usam essas avaliações como linha de base de risco, a diferença não é acadêmica.
Para o Brasil, a lição é preventiva. Sínteses científicas sobre o clima funcionam como infraestrutura pública, tão necessárias quanto estações meteorológicas ou redes de alerta. Dar a elas periodicidade definida em lei, financiamento estável e autonomia técnica é uma forma de protegê-las das oscilações de qualquer governo, de qualquer orientação. Nos Estados Unidos, essa proteção existia no papel e, ainda assim, mostrou-se insuficiente. Aqui, ela sequer foi formalizada.
Perguntas frequentes
O que é a National Climate Assessment?
É o relatório oficial dos Estados Unidos sobre os efeitos da mudança do clima no país, exigido pelo Congresso a cada quatro anos desde a Lei de Pesquisa sobre Mudanças Globais de 1990. A quinta edição foi publicada em 2023 e é produzida pelo U.S. Global Change Research Program.
Por que os autores da sexta edição foram dispensados?
Em abril de 2025, cerca de 400 colaboradores receberam um e-mail informando que o escopo do relatório estava sendo reavaliado. A Casa Branca não detalhou os motivos à época. Em 2026, o programa foi reativado sob a direção de Matthew Wielicki, crítico do consenso científico sobre o clima.
O que é a U.S. Climate Collection e ela substitui o relatório oficial?
É uma coleção de artigos científicos de acesso aberto e revisados por pares, organizada pela American Geophysical Union e pela American Meteorological Society. Seus organizadores afirmam que ela não substitui a avaliação oficial, mas mantém ativa a pesquisa de síntese que sustentaria futuras avaliações nacionais, estaduais ou internacionais.
Quais lacunas o primeiro artigo da coleção identifica?
Entre outras, o artigo de 175 colaboradores destaca eventos extremos compostos, o consumo de energia por inteligência artificial e data centers, modelos climáticos regionais e locais, avanços na ciência de atribuição e o papel das florestas.
O Brasil tem uma avaliação climática nacional equivalente?
O Brasil conta com o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, criado em 2009, cujo primeiro Relatório de Avaliação Nacional saiu em 2013, além da plataforma AdaptaBrasil, que calcula riscos climáticos por município. Não há, porém, um ciclo de avaliação com periodicidade definida em lei. O Plano Clima, aprovado em 2025, orienta as políticas até 2035, mas também não foi convertido em lei.
Nota de atribuição: Este artigo foi elaborado a partir de reportagem de Erin Douglas publicada pelo The Washington Post em 20 de outubro de 2026, complementada por apuração independente em fontes americanas e brasileiras. Trechos atribuídos ao jornal foram resumidos com redação própria do O Tecido.