Uma coluna densa de fumaça negra subiu neste sábado sobre os arredores do Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riad, horas depois de moradores relatarem explosões na capital saudita. Foi o primeiro alerta de ataque contra a cidade desde que os rebeldes houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, intensificaram a ofensiva contra o reino.1 O grupo afirmou ter atingido "locais sensíveis" em Riad e instalações da estatal Aramco no porto de Yanbu, no mar Vermelho, enquanto a coalizão liderada pelos sauditas dizia ter interceptado o míssil balístico e neutralizado outras investidas em Bish, Farasan e Taif.2,3
O episódio é a face mais visível de um avanço territorial que os houthis vinham construindo havia semanas. Em seis semanas, o grupo tomou 130 quilômetros adicionais de litoral iemenita no mar Vermelho, culminando na captura do porto de Moca e da ilha de Mayun (ou Perim).4 Com isso, passou a controlar de fato o estreito de Bab el Mandeb, única porta meridional para o mar Vermelho e o canal de Suez, por onde passam cerca de 30% do tráfego mundial de contêineres e 8% do petróleo transportado por via marítima.4
Um telefonema que não foi atendido
Diante do avanço sobre um ponto tão sensível do comércio global, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman recorreu a quem, por décadas, foi o fiador da segurança do reino. Segundo reportagens da Axios e da CNN citadas pelo jornal espanhol El País, MBS ligou duas vezes para Donald Trump pedindo que Washington bombardeasse posições houthis, repetindo o que os Estados Unidos fizeram em 2025. Desta vez, o presidente americano recusou.4
A resposta reforça um padrão que já vinha se desenhando desde o início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, em fevereiro deste ano. Ainda em campanha diplomática por outras frentes, Trump chegou a declarar publicamente que os próprios houthis vinham deixando passar a maior parte dos navios pelo estreito e mirando quase exclusivamente embarcações sauditas, sugerindo que o problema seria resolvido de outra forma que não a intervenção militar direta dos Estados Unidos.4
Oitenta e um anos de um acordo não escrito
O pacto remonta a 14 de fevereiro de 1945, quando o rei saudita Abdelaziz Ibn Saud e o presidente americano Franklin D. Roosevelt se encontraram a bordo de um navio de guerra dos Estados Unidos, no canal de Suez. Do encontro nasceu um entendimento verbal que atravessou 81 anos: Riad garantia fornecimento de petróleo a Washington em troca de proteção militar.4 Nem mesmo a nacionalidade saudita de 15 dos 19 autores dos atentados de 11 de setembro de 2001 abalou o arranjo de forma definitiva.
A pesquisadora Leyla Hamad Zahonero, do Centro de Estudos Árabes Contemporâneos, aponta que a guerra deflagrada contra o Irã em fevereiro marcou um ponto de inflexão real. Arábia Saudita e outras monarquias do Golfo perceberam que a prioridade da administração Trump na região não era protegê-las de retaliações iranianas, mas blindar Israel.4 Essa leitura se reforçou agora, com a ofensiva houthi avançando sem resposta militar americana.
A Meca que não protegeu
A fragilidade não se limita a Washington. Em agosto, Arábia Saudita, Paquistão e Turquia assinaram o Pacto de Defesa da Meca, apresentado como um compromisso de defesa mútua que o chanceler turco Hakan Fidan chegou a comparar a uma espécie de OTAN islâmica. Na prática, nem Islamabad nem Ancara se mobilizaram diante da ofensiva houthi.4
Para Fernando Carvajal, ex-integrante do painel de especialistas do Conselho de Segurança da ONU para o Iêmen, o interesse real de paquistaneses e turcos era vender armamento aos sauditas, não assumir compromissos de defesa coletiva.4 Os houthis, aponta o analista, também disputam "sua fatia do bolo saudita", ao buscar que Riad financie salários públicos atrasados desde 2018 na região sob controle rebelde e garanta acesso às receitas de petróleo e gás do sul iemenita.4
Nem todos os analistas leem a recusa de Trump como ruptura definitiva. Os Estados Unidos mantêm bases e a Quinta Frota naval na região do Golfo, além de contratos bilionários de venda de armas à Arábia Saudita, que seguem em vigor. Sob essa ótica, a inação atual seria menos um abandono estratégico e mais uma tática de pressão: forçar Riad a arcar sozinha com os custos de uma negociação direta com os houthis, sem comprometer recursos militares americanos em mais uma frente, enquanto Washington já lida com o desgaste da guerra contra o Irã aberta em fevereiro.
O preço que chega ao posto de gasolina brasileiro
O tabuleiro do mar Vermelho não é uma questão só do Oriente Médio. Em 11 de setembro, um ataque com drones atribuído a milícias pró-Irã no Iraque danificou o oleoduto saudita Leste-Oeste, que liga o campo petrolífero de Abqaiq a Yanbu e vinha escoando cerca de 3,5 milhões de barris diários desde que o Irã bloqueou parcialmente o estreito de Ormuz, em março.4 A combinação de frentes fechando ao mesmo tempo, Ormuz ao norte e agora Bab el Mandeb ao sul, ajuda a explicar por que o petróleo tipo Brent segue rondando a casa psicológica dos US$ 100 o barril.
O Brasil não está entre os países mais expostos a essa volatilidade, mas está longe de imune. Autossuficiente na produção de petróleo bruto, o país ainda importa cerca de 23% da demanda por derivados como diesel, gasolina e GLP, dependência que se agrava em regiões com parque de refino mais limitado, caso do Norte e de parte do Nordeste.8,9 Como a política de preços da Petrobras acompanha as cotações internacionais do barril Brent e a variação do dólar, altas lá fora tendem a chegar às bombas brasileiras de forma quase automática, em cascata das refinarias até o consumidor final.9
Em ano eleitoral, esse mecanismo vira também um problema político. Segurar preços artificialmente para conter a inflação pressiona a saúde financeira da Petrobras; repassar integralmente os aumentos pressiona o bolso do consumidor e os índices de inflação, num momento em que analistas já apontam risco de a Selic permanecer elevada por mais tempo caso o petróleo continue caro.8 O Ibovespa já reagiu a episódios anteriores da escalada no Oriente Médio com quedas pontuais, enquanto ações da própria Petrobras se beneficiam do barril mais caro, um contraste que resume o dilema.
Neutralidade sob teste
A crise também reacende um debate doméstico sobre política externa. O Itamaraty mantém a doutrina histórica de equidistância nos conflitos do Oriente Médio, evitando alianças militares formais e defendendo soluções negociadas sob o guarda-chuva da ONU, linha reafirmada quando o governo condenou os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã em fevereiro e depois saudou o cessar-fogo anunciado em abril.10,11
Críticos apontam que, nesse ciclo específico, a diplomacia brasileira tem se posicionado de forma mais dura contra Israel do que contra o Irã, o que fragilizaria o discurso de neutralidade e teria custo comercial numa região que historicamente ampliou as exportações brasileiras. O governo rebate que se trata apenas da aplicação consistente do princípio de defesa do direito internacional, sem viés declarado por qualquer das partes em disputa.10 O episódio saudita chega, assim, a um momento em que o Brasil tenta equilibrar princípio e pragmatismo comercial numa região cada vez mais fragmentada.
Para Riad, a equação é ainda mais dura. Em meio a uma crise de receita agravada pelo duplo bloqueio, em Ormuz e agora em Bab el Mandeb, e pelos danos ao oleoduto Leste-Oeste, o reino enfrenta uma escolha que Carvajal descreve como difícil: comprar uma paz cara com os houthis ou reengajar-se numa guerra que já custou até US$ 200 milhões por ano e que a trégua de 2022 apenas havia congelado.4 Qualquer um dos dois caminhos colide com a Visão 2030, o projeto do príncipe herdeiro para reduzir a dependência do petróleo e atrair investimento e turismo estrangeiros. Cercada por conflitos no Irã a leste, nos houthis ao sul, no Sudão a oeste e nas milícias pró-Irã no Iraque ao norte, a Arábia Saudita descobre que a paz projetada por seu príncipe está, por ora, mais distante do que a retórica oficial sugeria.4
Perguntas frequentes
Quem são os houthis e por que atacam a Arábia Saudita?
Os houthis, ou Ansarullah, são um movimento rebelde iemenita apoiado pelo Irã que controla o norte e o noroeste do Iêmen. Desde julho de 2026 declararam bloqueio naval contra navios sauditas e avançaram sobre o litoral do mar Vermelho, buscando controlar rotas comerciais estratégicas e negociar condições financeiras mais favoráveis com Riad.
Por que o estreito de Bab el Mandeb é tão importante?
É a única passagem meridional entre o mar Vermelho e o golfo de Áden, ligando ao canal de Suez. Por ali passam cerca de 30% do tráfego mundial de contêineres e 8% do petróleo transportado por mar, o que torna qualquer disrupção ali sensível para o comércio global.
Os Estados Unidos vão intervir para proteger a Arábia Saudita?
Até o momento, não. Trump recusou o pedido saudita de repetir os bombardeios feitos em 2025 contra os houthis, sinalizando que Washington não pretende abrir mais uma frente militar na região enquanto ainda lida com o desgaste da guerra contra o Irã, iniciada em fevereiro de 2026.
Como esse conflito chega ao preço da gasolina no Brasil?
O Brasil importa cerca de 23% dos derivados de petróleo que consome, e a Petrobras ajusta seus preços com base nas cotações internacionais do barril Brent e no câmbio. Altas no preço do petróleo causadas por bloqueios em Ormuz e em Bab el Mandeb tendem a se refletir, com defasagem, nas bombas de combustível brasileiras.
O que é o Pacto de Meca e por que não impediu os ataques?
É um acordo de defesa mútua assinado em agosto de 2026 entre Arábia Saudita, Paquistão e Turquia. Apesar da retórica de aliança militar, nenhum dos dois parceiros se mobilizou para apoiar Riad diante da ofensiva houthi, levando analistas a descrevê-lo como um instrumento mais comercial do que estratégico.