Seis anos depois de a Organização Mundial da Saúde declarar a pandemia de Covid-19, ainda não existe consenso sobre como ela começou. E, segundo a bióloga molecular Alina Chan, autora do livro "Viral: The Search for the Origin of Covid-19" e fundadora de uma organização que monitora pesquisas com patógenos, praticamente ninguém está de olho nos experimentos que poderiam originar a próxima. Em artigo publicado no New York Times em 17 de agosto, Chan reconstrói dois episódios recentes que, para ela, expõem o mesmo problema: a ausência de um órgão independente capaz de vetar pesquisas perigosas antes que elas aconteçam1.
O primeiro caso remonta a fevereiro de 2025, quando a revista científica Cell publicou um estudo de virologistas chineses que analisaram quase mil amostras de morcegos coletadas em cinco províncias e armazenadas no Instituto de Virologia de Wuhan. O objetivo declarado era identificar, com antecedência, quais vírus animais estariam mais próximos de conseguir infectar seres humanos. Os pesquisadores encontraram parentes do MERS, coronavírus com taxa de letalidade superior a 30% entre casos confirmados, e demonstraram que um deles conseguia entrar em células humanas pela mesma porta de entrada usada pelo SARS-CoV-21.
O vírus foi cultivado em células de laboratório que imitam vias aéreas, nariz e intestino humanos, onde se multiplicou. Os cientistas chegaram a propor testá-lo em camundongos geneticamente modificados para expressar o mesmo receptor humano, um passo típico de pesquisas de "ganho de função", nas quais um patógeno é deliberadamente tornado mais transmissível ou mais letal em condições controladas. Todo o trabalho foi realizado fora de contenção máxima, em nível de biossegurança considerado insuficiente por virologistas ouvidos por Chan diante de um vírus com potencial de se espalhar pelo ar1.
Um segundo alerta, do outro lado do mundo
Cerca de um mês depois, em Fort Detrick, Maryland, um funcionário encontrou um rasgo em um traje de proteção usado em um dos laboratórios de contenção máxima dos Estados Unidos, instalação que trabalha com patógenos como ebola e hantavírus. O FBI investigou o caso, concluiu que o dano foi deliberado, mas não identificou o responsável. A apuração também revelou outras falhas de protocolo que, segundo Chan, provavelmente não teriam vindo à tona sem o incidente. O laboratório ficou fechado por quase seis meses1.
Para a autora, os dois episódios mostram o mesmo ponto cego: em países como China e Estados Unidos, cientistas podem coletar coronavírus novos, aperfeiçoá-los em laboratório sob condições relativamente baixas de biossegurança e, em tese, até provocar um surto sem infringir regra alguma. Não existe, hoje, um padrão obrigatório e amplo o bastante para regular pesquisas com patógenos de potencial catastrófico, definido e fiscalizado por alguém além dos próprios pesquisadores e das agências que financiam o trabalho1.
Laboratórios de risco máximo se multiplicam pelo mundo
O problema não é hipotético nem raro. Levantamentos independentes mostram que o número de laboratórios de biossegurança nível 4 (BSL-4 ou, na sigla brasileira, NB4) mais que dobrou em pouco mais de uma década. O Global BioLabs Report, projeto do King's College London em parceria com a George Mason University, contabilizou 51 unidades em operação e outras 18 em construção ou planejamento em 27 países já em 2023, um salto em relação às 59 instalações mapeadas dois anos antes em apenas 23 países2. A pesquisadora Filippa Lentzos, uma das responsáveis pelo mapeamento, resume o dilema: quanto mais laboratórios e mais pessoas manipulando patógenos perigosos, maior o risco agregado, especialmente em países que ainda constroem seus primeiros laboratórios de máxima contenção sem ter amadurecido a governança de biorrisco correspondente2.
Vazamentos de laboratório, aliás, são mais comuns do que se costuma supor. Uma revisão de 2024 citada por Chan identificou cerca de 300 casos de trabalhadores infectados por patógenos que estudavam entre 2000 e 2021, boa parte deles em instalações um ou dois degraus abaixo da contenção máxima. Como o levantamento depende de notificação voluntária, os próprios autores descreveram esse número como "apenas a ponta do iceberg"1. Episódios de escape do SARS e de vírus similares em Pequim, Taipé e Cingapura entre 2003 e 2021 reforçam que mesmo instalações de alta contenção não são infalíveis1.
O Brasil entra no jogo da contenção máxima
Esse debate deixou de ser distante para o Brasil. O país está construindo, no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, o Órion: o primeiro laboratório de biossegurança nível 4 da América Latina, integrado ao acelerador de partículas Sirius. Até a pandemia, o Brasil contava com cerca de 60 laboratórios NB3, mas nenhum NB4, o que obrigava o envio ao exterior de amostras de patógenos mais perigosos, como o vírus Sabiá3. A conclusão da obra é esperada para 2026, com início de operação em 20284.
O projeto amplia a capacidade científica do país e deve reduzir a dependência de laboratórios estrangeiros para estudar agentes de alto risco presentes em território nacional. Mas ele também insere o Brasil, pela primeira vez, no grupo de países que precisam responder à mesma pergunta feita por Chan em relação aos Estados Unidos e à China: quem, além dos próprios cientistas e da instituição que os financia, decide se um experimento com um patógeno de potencial pandêmico é seguro o bastante para prosseguir? O Global BioLabs Report já havia sinalizado, mesmo antes do início das obras do Órion, que países que abrem seus primeiros laboratórios de contenção máxima tendem a apresentar pontuações mais baixas em gestão de biorrisco justamente por não terem, ainda, arcabouço regulatório amadurecido2.
A tentativa mais recente de regular o setor nos EUA
Nos Estados Unidos, maior financiador público mundial de pesquisa em doenças infecciosas, o histórico regulatório é de avanços e recuos. Cada governo desde o de Barack Obama tentou impor algum tipo de controle a pesquisas de ganho de função, para em seguida ver a regra ser revogada ou reescrita pelo governo seguinte. Em julho de 2026, o governo Trump publicou uma nova política para pesquisas de ganho de função financiadas com dinheiro público, substituindo uma regra da era Biden que havia sido suspensa pelo próprio Trump um dia antes de entrar em vigor, em 20251.
A nova política é, em alguns pontos, mais rígida do que a anterior: proíbe diretamente os experimentos mais perigosos, em vez de apenas submetê-los a revisão, e cria um órgão independente para avaliar os casos ambíguos, com ameaça de até cinco anos de inelegibilidade para financiamento federal a instituições que não reportarem esse tipo de trabalho1. Chan reconhece o avanço, mas aponta três lacunas que, para ela, esvaziam boa parte do ganho: a política não alcança pesquisas privadas, sem financiamento federal; o novo órgão independente pode apenas recomendar, sem poder de veto sobre as agências de fomento; e a própria caça a novos vírus na natureza, etapa em que começou tanto o estudo da Cell quanto o programa de coronavírus de morcegos de Wuhan, fica de fora da categoria de pesquisa sujeita a revisão obrigatória1.
Contraponto
Nem todos os cientistas veem a regulação adicional como resposta proporcional ao risco. Defensores da pesquisa de ganho de função argumentam que entender quais mutações tornariam um vírus mais transmissível ajuda a antecipar quais variantes vigiar na natureza e a preparar contramedidas antes de um surto real. Outros pesquisadores alertam que regras mais rígidas nos Estados Unidos podem simplesmente deslocar experimentos sensíveis para países com fiscalização ainda mais frágil, um risco que a própria Chan reconhece em seu texto ao defender que os Estados Unidos usem sua influência sobre revistas científicas, fornecedores de insumos e financiadores privados para elevar o padrão de triagem onde quer que a pesquisa aconteça1.
Há também quem veja no debate sobre a origem da Covid-19 um terreno politicamente contaminado: o principal projeto de lei em tramitação, a Risky Research Review Act, aprovada por 11 votos a 2 na Comissão de Segurança Interna do Senado americano, nasceu em meio a divergências pessoais entre seu autor, o senador Rand Paul, e o ex-diretor do instituto de doenças infecciosas dos EUA, Anthony Fauci, o que tem dificultado sua votação em plenário até agora1,5.
O que ainda falta
Chan defende a criação de uma agência independente nos moldes da Comissão Reguladora Nuclear americana, com autoridade para conhecer o que cada laboratório pesquisa, quem financia o trabalho, qual seu histórico de segurança e quantas pessoas vivem nas proximidades. Ela lista seis capacidades que, na avaliação dela, nenhuma política em vigor reúne por completo: um padrão nacional único, aplicado a toda pesquisa de risco independentemente da fonte de financiamento, cobertura de toda a cadeia (da coleta de vírus na natureza até seu aprimoramento em laboratório), poder de veto real sobre experimentos, obrigatoriedade de investigar qualquer suspeita de acidente com canal para denúncias, e concentração dos experimentos mais arriscados em instalações seguras, afastadas de grandes centros urbanos1.
A proposta legislativa mais avançada nesse sentido, a Risky Research Review Act, criaria um conselho independente com orçamento anual de US$ 30 milhões para avaliar pesquisas de alto risco, mas sua autoridade, como a da própria política de 2026, pararia onde termina o dinheiro público: nenhuma das duas alcança laboratórios financiados exclusivamente por capital privado1,5. Enquanto isso não muda, argumenta Chan, o mundo seguirá sem uma resposta simples caso outro vírus escape de um laboratório, seja nos Estados Unidos, na China ou, agora, potencialmente, no próprio Brasil.
Perguntas frequentes
O que é pesquisa de "ganho de função"?
É um conjunto de experimentos em que um patógeno é deliberadamente alterado para se tornar mais transmissível, mais letal ou mais capaz de infectar novas espécies, incluindo humanos, geralmente para antecipar riscos ou testar contramedidas.
Já se sabe como a Covid-19 começou?
Não há consenso. Agências de inteligência e academias científicas nos Estados Unidos e em outros países divergem entre origem natural (zoonótica) e origem laboratorial, e algumas revisaram suas avaliações ao longo dos últimos anos.
O Brasil tem laboratório de biossegurança nível 4 (NB4)?
Ainda não em operação. O Órion, em construção no CNPEM, em Campinas, será o primeiro da América Latina, com conclusão da obra prevista para 2026 e início de operação em 2028.
Existe algum órgão que fiscalize pesquisas de risco pandêmico no mundo todo?
Não. Cada país regula, quando regula, apenas a pesquisa feita em seu território e, em geral, apenas a financiada com dinheiro público. Não há autoridade internacional com poder de veto sobre esse tipo de experimento.