Economia · Mercado de crédito · Inteligência artificial

Durante quase dois anos, a pergunta sobre a sustentabilidade do investimento em inteligência artificial foi feita sobretudo na bolsa, em debates sobre múltiplos de ações e valuations esticados. Em outubro de 2026, ela mudou de endereço. O lugar onde a dúvida aparece hoje com mais nitidez é o mercado de credit default swaps, os CDS, contratos que funcionam como um seguro contra o calote de uma empresa. Reportagem do Financial Times publicada nesta semana mostra que o volume semanal de CDS ligados às grandes empresas de tecnologia se aproximou de US$ 10 bilhões em outubro, contra pouco mais de US$ 1 bilhão em janeiro, segundo dados do Morgan Stanley Research.1

A mudança de termômetro importa. O acionista de uma empresa de IA ganha se a tese der certo; o credor, no máximo, recebe de volta o principal com juros. Por isso o mercado de crédito tende a olhar primeiro para o que pode dar errado. Ouvido pelo FT, o estrategista Manish Kabra, da Société Générale, resumiu a atenção dos investidores a dois indicadores: "CDS e fluxo de caixa livre".1 Ou seja, quanto custa se proteger contra o calote e quanto dinheiro sobra depois de pagar a conta dos data centers.

A montanha de dívida por trás dos data centers

O pano de fundo é uma mudança no modelo de financiamento da corrida pela IA. Até 2024, as hiperescaladoras (Alphabet, Amazon, Meta, Microsoft e Oracle) bancavam a maior parte do investimento com o próprio caixa. Em 2026, passaram a recorrer em escala inédita ao mercado de títulos. De acordo com o Morgan Stanley, citado pelo FT, empresas ligadas à IA levantaram cerca de US$ 466 bilhões em dívida até agora no ano, contra US$ 101 bilhões no mesmo período de 2025.1

Dívida ligada à IA mais que quadruplicou em um ano

Emissão estimada de dívida por empresas ligadas à IA, mesmo período de cada ano (US$ bilhões)

0 233 466 101 466 2025 2026
Fonte: Morgan Stanley, conforme reportagem do Financial Times (out/2026). Elaboração: O Tecido.

Os números de outras casas apontam na mesma direção. Cálculos da Vanguard com base em dados da Bloomberg indicam que as cinco hiperescaladoras emitiram US$ 132 bilhões em títulos até 31 de julho, o equivalente a 11% de toda a oferta de dívida corporativa de grau de investimento dos Estados Unidos, contra 2% em 2023 e 2024.6 A gestora TwentyFour Asset Management registra que a Alphabet vendeu um título de cem anos em libras, o primeiro de uma empresa de tecnologia desde 1997, e que a Amazon estendeu seus vencimentos em dólar até 2076.7 A lógica é de casamento de prazos: data centers são ativos de vida longa, e dívida de 30 a 50 anos acompanha essa duração.

Mais dívida significa mais demanda por proteção. Dados da Bloomberg reproduzidos pelo FT mostram que o volume acumulado negociado nos índices de CDS de grau de investimento e high yield dos EUA chegou a cerca de US$ 9,5 trilhões até 19 de outubro, já acima do recorde de 2025.1 E o perfil de quem compra mudou. Segundo o FT, gestores multimercado e de ações, que tradicionalmente não operavam esse instrumento, passaram a usar CDS como forma barata de proteger carteiras expostas à IA, o que ajudou a empurrar os preços para máximas históricas.1

Uma escada de risco: das hiperescaladoras às neoclouds

O dado mais revelador não é a alta em si, e sim a dispersão. O mercado não está tratando o setor de IA como um bloco homogêneo. Ele está montando uma escada de risco, com degraus bem definidos.

No degrau de baixo estão as gigantes de balanço sólido. Os CDS de cinco anos de Meta e Nvidia subiram para a faixa de 100 a 110 pontos-base, máximas do ano, enquanto Amazon e Alphabet rondam os 75 a 80 pontos e a Microsoft fica perto de 55, de acordo com dados da Bloomberg publicados pelo FT.1 São níveis elevados para a história dessas empresas, mas ainda compatíveis com o índice de referência de grau de investimento da América do Norte, próximo de 60 pontos.

No degrau do meio estão as empresas que combinam IA com alavancagem. O CDS da Oracle foi cotado a 322 pontos-base na segunda-feira, contra 144 no início do ano, e o da SpaceX atingiu 226 pontos, ante 110 quando o contrato começou a ser negociado, no fim de junho.1 No caso da Oracle, a pressão vem acompanhada de rebaixamento: em julho, a S&P cortou a nota da empresa para BBB-, um degrau acima do grau especulativo, citando o peso dos gastos com infraestrutura de IA, como relatou o Herald Corporation.5

O preço do seguro contra calote, empresa por empresa

Spread do CDS de 5 anos, em pontos-base, valores aproximados em meados de outubro de 2026

Microsoft Índice CDX IG Alphabet Amazon Nvidia Meta Broadcom SpaceX Oracle CoreWeave ~55 ~62 ~77 ~78 ~102 ~108 ~150 226 322 ~1.090 Escala linear de 0 a 1.100 pontos-base
Fonte: Bloomberg, conforme gráficos e dados publicados pelo Financial Times (out/2026). Valores com "~" são leituras aproximadas dos gráficos originais. Elaboração: O Tecido.

No topo da escada, isolada, está a CoreWeave. A chamada neocloud, empresa que aluga capacidade de processamento com chips da Nvidia para treinar e rodar modelos de IA, tem CDS de cinco anos negociado perto de 1.090 pontos-base, e parte de seus títulos já caiu para território de estresse, informa o FT.1 O jornal dá a dimensão concreta do preço: quem quiser proteger US$ 10 milhões em dívida da empresa precisa pagar US$ 1,82 milhão adiantado, mais parcelas trimestrais de US$ 125 mil.1 Na prática, isso equivale a desembolsar quase um quinto do valor segurado na largada, além de 5% ao ano.

Na quinta-feira, 15 de outubro, o contrato chegou a bater 1.194,5 pontos-base no intradia, recorde segundo a ICE Data Services, nível que embute uma probabilidade implícita de calote superior a 60% em cinco anos, segundo cálculos de mercado relatados pelo The Next Web.2 Os títulos sem garantia da empresa passaram a ser negociados abaixo de 80 centavos por dólar, e suas obrigações de dívida e arrendamento somavam cerca de US$ 52 bilhões ao fim de junho, de acordo com o Crypto Briefing, que também aponta cerca de US$ 4,4 bilhões a vencer até o fim de 2026.3

O crédito não pergunta se a inteligência artificial vai transformar a economia. Pergunta se cada dólar emprestado volta dentro do prazo.

Circularidade: por que o elo mais fraco preocupa

A CoreWeave seria apenas um caso isolado de empresa alavancada se não estivesse no centro de uma rede de relações cruzadas. A Nvidia vende os chips que a CoreWeave usa, detém cerca de 10% de seu capital e se comprometeu a comprar capacidade ociosa da própria cliente.2 No mesmo dia em que o CDS bateu recorde, o presidente da Nvidia, Jensen Huang, disse em Estocolmo que o custo de capital da CoreWeave está caindo e que a empresa não precisa de socorro.2

É justamente essa teia que inquieta parte do mercado. Segundo Dafforn, um dos especialistas ouvidos pelo FT, o grau de circularidade no sistema financeiro que sustenta o avanço da IA faz com que a deterioração do elo mais fraco possa se propagar para o conjunto.1 Fornecedores que financiam clientes, clientes que dependem de contratos de poucos compradores e investidores que carregam ações e títulos das mesmas empresas formam uma cadeia em que a falha de um ponto não fica contida.

Os reguladores já incorporaram o tema ao vocabulário oficial. No relatório de estabilidade financeira divulgado em 13 de outubro, o Fundo Monetário Internacional listou o colapso do boom da IA entre os três riscos capazes de interromper o período de calmaria nos mercados, ao lado do endividamento excessivo dos governos e de um grande ataque cibernético, como registrou o Central Banking.8 Em julho, o Banco da Inglaterra já havia apontado que empresas de IA recorrem aos mercados de dívida em escala sem precedentes, embora sem sinais, por ora, de que isso esteja tirando financiamento de outras empresas ou governos, segundo a agência Lusa reproduzida pelo ECO.10

O que o Brasil tem a ver com isso

À primeira vista, a disputa sobre o crédito da CoreWeave parece distante. Não é. Há pelo menos três canais pelos quais esse movimento chega ao país.

1. Apetite global por risco

Quando o FMI coloca uma correção da IA na lista curta de gatilhos para um aperto das condições financeiras globais, está falando de um choque que não respeita fronteiras.8 Em episódios de aversão a risco, investidores reduzem posições em ativos considerados mais arriscados, e mercados emergentes costumam estar nessa lista. Câmbio, prêmio de risco e fluxo para a bolsa brasileira reagem a esse tipo de reprecificação, mesmo sem exposição direta às empresas envolvidas.

2. A aposta nos data centers

O Brasil tenta se posicionar como destino da infraestrutura física da IA. Com o Redata, regime especial de tributação para data centers, a Brasscom estima atrair cerca de US$ 80 bilhões em investimentos até 2030 e elevar a capacidade instalada de 1.340 MW em 2026 para 2.529 MW em 2030.11 Estudo da FGV Projetos divulgado pelo Movimento Brasil Competitivo, citado pelo Times Brasil, calculava que implantar um data center no país custava 26,7% mais do que nos EUA antes do novo regime.13 O presidente da Scala Data Centers, Marcos Peigo, disse ao Brazil Journal que o país precisa correr para não perder a "segunda onda" de investimentos, impulsionada pela saturação do mercado americano.12

O ponto que o mercado de crédito acrescenta a esse debate é simples: o dinheiro que constrói data centers no Brasil vem do mesmo mercado de capitais global que agora cobra mais caro para financiar a IA. Um ambiente de crédito mais seletivo tende a favorecer projetos ancorados em clientes de grau de investimento e a punir estruturas mais alavancadas. Isso pode atrasar parte dos investimentos, mas também pode valorizar vantagens brasileiras concretas, como energia majoritariamente renovável, desde que a regulação estadual e a infraestrutura elétrica acompanhem.

3. Concentração de fornecedores

O terceiro canal é operacional. O mapeamento do Banco Central sobre o uso de inteligência artificial no sistema financeiro, apresentado no Relatório de Estabilidade Financeira, já apontava dependência de fornecedores externos, como resumiu o Let's Money.14 Se a saúde financeira de provedores de nuvem e capacidade computacional passa a ser questionada lá fora, a pergunta sobre quem sustenta a infraestrutura crítica usada por bancos brasileiros deixa de ser apenas técnica e passa a ser também de risco de contraparte.

O que observar nas próximas semanas

  • Balanços das big techs no fim de outubro. Projeções de investimento e, sobretudo, de fluxo de caixa livre vão dizer se a dívida nova está sendo coberta por geração de caixa ou apenas rolada.
  • Refinanciamento da CoreWeave. As condições obtidas para os vencimentos de 2026 serão o teste mais direto da confiança dos credores.3
  • Trajetória do CDS da Oracle. Por estar no limite do grau de investimento, a empresa funciona como termômetro do degrau intermediário da escada.
  • Possível emissão da Microsoft. A TwentyFour observa que ela é a única hiperescaladora que ainda não financiou no mercado de títulos o investimento de 2026 e 2027, o que sugere nova oferta de dívida longa pela frente.7
  • Próxima edição do Relatório de Estabilidade Financeira do BC. Vale acompanhar se o Banco Central incorpora o risco de crédito do ciclo de IA à sua leitura de vulnerabilidades externas.

Perguntas frequentes

O que é um credit default swap (CDS)?

É um contrato derivativo que funciona como um seguro contra o calote de uma empresa ou país. O comprador paga um prêmio periódico, expresso em pontos-base ao ano sobre o valor protegido, e recebe uma compensação se o emissor da dívida deixar de pagar. Quanto maior o risco percebido, mais caro fica o CDS.

Por que o volume de CDS ligados a empresas de IA disparou em 2026?

Porque a emissão de dívida para financiar data centers e chips saltou para cerca de US$ 466 bilhões em 2026, contra US$ 101 bilhões no mesmo período de 2025. Mais dívida gera mais demanda por proteção. Além disso, gestores de ações e multimercados passaram a usar CDS como hedge barato para sua exposição à tecnologia.

O preço do CDS da CoreWeave significa que a empresa vai quebrar?

Não necessariamente. O spread embute uma probabilidade implícita de calote elevada, mas é um preço de mercado, influenciado por liquidez e demanda por hedge, e não uma previsão. A empresa tem carteira contratada próxima de US$ 100 bilhões e a Nvidia afirma que ela não precisa de socorro.

As grandes empresas de tecnologia correm risco de calote?

O mercado não precifica isso como cenário base. Os CDS de Microsoft, Alphabet e Amazon seguem em níveis típicos de grau de investimento. O estresse está concentrado em empresas mais alavancadas, como CoreWeave e, em menor grau, Oracle e SpaceX.

Qual o impacto desse movimento para o Brasil?

Por três canais: o apetite global por risco, que afeta câmbio e fluxos para emergentes; o financiamento dos data centers que o país tenta atrair com o Redata; e a dependência de instituições financeiras brasileiras de fornecedores externos de IA e nuvem.

Nota editorial. Este artigo foi produzido a partir da reportagem "AI debt worries spark surge in default insurance trading", de Ramsay Hodgson e Euan Healy, publicada pelo Financial Times, que não foi traduzida nem reproduzida. Dados atribuídos ao FT foram creditados ao longo do texto. A análise, o contexto brasileiro e as informações complementares foram apurados por O Tecido a partir de fontes independentes.