Caderno Política · Estados Unidos · Armas e democracia
O tiro que matou o ativista conservador Charlie Kirk em 10 de setembro de 2025, durante um evento ao ar livre na Utah Valley University, em Orem, abriu uma ferida política nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, uma conta. Um ano depois, a pergunta que circula entre corretores, gestores públicos e advogados não é apenas quem falhou na segurança do evento, mas quem arca com as consequências financeiras de um ataque armado. A resposta que o mercado americano encontrou tem nome técnico e crescimento acelerado: o seguro contra agressor ativo, chamado em inglês de active assailant insurance.
Segundo reportagem do Financial Times, o estado de Utah contratou essa cobertura cerca de dois meses após o assassinato, para proteger campi universitários, escolas e órgãos estaduais.1 O motivo foi uma lacuna. Embora o presidente Donald Trump tenha classificado o crime como ato de terrorismo, não havia garantia de que a apólice de terrorismo do estado cobriria as perdas. Um corretor que assessora Utah explicou ao jornal britânico que esse tipo de contrato está atrelado sobretudo a danos materiais, e o ataque contra Kirk praticamente não os produziu.1
O que é o seguro contra agressor ativo
Trata-se de uma cobertura criada para preencher o espaço deixado pelas apólices tradicionais de propriedade e de responsabilidade civil. De acordo com a corretora Marsh, esses produtos costumam ser acionados por ataques físicos, premeditados e maliciosos, cometidos por agressores armados presentes no local.2 O pacote vai além da indenização: inclui interrupção de negócios, despesas médicas e funerárias, aconselhamento psicológico, gestão de crise e acesso a empresas privadas de resposta a incidentes. Compradores ouvidos pelo FT apontam esse acesso como um dos principais argumentos de venda.1 As primeiras apólices do gênero surgiram por volta de 2011 e 2012, segundo a corretora londrina New Dawn Risk.3
O perfil dos clientes diz muito sobre o momento americano. Escolas, governos locais, fundos imobiliários de private equity e campanhas políticas estão entre os compradores, de acordo com o FT. Registros de gastos mostram que o America Pac, comitê de ação política de Elon Musk, pagou mais de US$ 85 mil a uma seguradora do Alabama especializada em coberturas políticas e de responsabilidade.1 Quando uma campanha eleitoral passa a comprar proteção contra atiradores, a violência armada deixa de ser hipótese remota e entra na planilha de custos da democracia.
Um mercado que cresce na proporção do medo
Levantamento do Financial Times com corretores e seguradoras indica que compradores americanos pagam hoje mais de US$ 100 milhões por ano em prêmios de apólices exclusivas contra atiradores ativos, o dobro do valor registrado em 2020. Os Estados Unidos respondem por mais da metade da demanda global.1 Em escala mundial, uma estimativa de consultoria de mercado citada pela New Dawn Risk calcula que o segmento movimentou US$ 1,35 bilhão em prêmios em 2024 e projeta crescimento anual composto de 17,6% até 2033, o que o levaria a US$ 5,25 bilhões.3 Trata-se de projeção, construída sobre premissas de consultoria, e não de dado consolidado do setor.
O preço varia conforme o histórico do local. O FT relata que imóveis sem registro de ataques obtêm cobertura por menos de um ponto percentual do valor segurado, enquanto propriedades que já sofreram um episódio podem pagar prêmios de até 20% do limite contratado, algo em torno de US$ 200 mil por US$ 1 milhão de cobertura.1 A violência passada vira precificação futura, e comunidades já atingidas passam a pagar mais caro para continuar existindo.
As cláusulas também revelam o que o mercado considera risco aceitável. Uma apólice contratada pela cidade de Lake Worth Beach, na Flórida, para escolas públicas e autoridades habitacionais, analisada pelo jornal britânico, oferece US$ 1 milhão por evento, sem cobertura para quem sofre apenas dano psicológico, e exclui ataques com drones ou com armas montadas em veículos.1
Cultura de armas e acesso fácil: o risco que se tenta segurar
Nenhum outro país rico precisa de um produto financeiro desse porte porque nenhum outro combina tantas armas em circulação com tamanha facilidade de acesso. O Small Arms Survey, projeto de pesquisa sediado em Genebra, estimou em 393 milhões as armas em mãos de civis nos Estados Unidos, o equivalente a 120,5 para cada 100 habitantes, mais que o dobro do segundo colocado, o Iêmen, segundo compilação da Statista.4
A consequência aparece nas estatísticas de mortalidade. Dados do CDC, compilados pelo Pew Research Center, mostram que 44.447 pessoas morreram por ferimentos de arma de fogo em 2024, ou 12,8 por 100 mil habitantes, o quinto maior total desde 1968. A taxa de suicídios por arma está perto do recorde histórico.5 Houve melhora nos homicídios: segundo o Centro de Soluções para a Violência Armada da Universidade Johns Hopkins, a taxa caiu 15,8% em relação a 2023, mas ainda assim 15.364 pessoas foram mortas a tiros no ano.6
A relação entre acesso e violência não é apenas intuitiva. A quinta edição de The Science of Gun Policy, síntese publicada pela RAND Corporation em janeiro de 2026 que revisa quase três décadas de estudos, classificou no seu nível mais alto de confiabilidade a evidência de que leis de porte permissivo, conhecidas como shall-issue, aumentam homicídios totais, homicídios por arma e crimes violentos. O mesmo grau de evidência associa as leis de stand your ground ao aumento de homicídios por arma. Na direção oposta, leis que restringem o acesso de crianças e adolescentes a armas reduzem suicídios e homicídios entre jovens, e períodos de espera para compra têm evidência moderada de reduzir suicídios por arma e homicídios em geral.7 O padrão é consistente: políticas que dificultam o acesso em momentos de crise salvam vidas; políticas que ampliam o porte cobram um preço.
Há, ainda, uma dimensão cultural que nenhuma apólice alcança. A arma ocupa no imaginário americano o lugar de símbolo de liberdade individual, protegida pela Segunda Emenda e sustentada por uma indústria e por grupos de pressão com enorme peso eleitoral. Em ambiente de polarização, esse arsenal disperso encontra alvos políticos. A Polícia do Capitólio investigou 14.938 casos de ameaças e comportamentos preocupantes contra congressistas, familiares e assessores em 2025, alta de quase 58% sobre 2024 e recorde da série.8 Como lembrou o Axios, os últimos anos somaram duas tentativas de assassinato contra Trump, o assassinato da deputada estadual Melissa Hortman, em Minnesota, e a morte de Kirk.8
O caso Kirk ilustra por que a conta financeira pesa. O FT descreve Utah como alvo de processo movido pela família do ativista. Tecnicamente, o que existe até aqui é uma notificação formal, o chamado notice of claim, apresentada em 9 de setembro de 2026 pela viúva Erika Kirk e outros familiares, etapa exigida pela lei local antes de uma ação contra entes públicos. Segundo a ABC News e o portal KSL, o documento aponta a universidade, o estado, a polícia do campus, seu chefe e a ex-reitora Astrid Tuminez como prováveis réus e alega falhas na proteção dos telhados próximos ao local do evento. A notificação não fixa valor.9
O crescimento desse seguro expõe uma escolha política implícita. Em vez de reduzir a exposição ao risco por meio de regras de acesso, o sistema americano precifica a exposição e a distribui em prêmios pagos por escolas, prefeituras e, no fim da linha, contribuintes. A lógica é racional para cada comprador isolado, mas coletivamente transforma o tiroteio em custo operacional recorrente. Segundo dados da S&P citados pelo FT, as seguradoras americanas receberam US$ 163 bilhões em prêmios de responsabilidade civil em 2024, cerca de 0,5% do PIB, e a cobertura contra agressores armados é a camada mais recente dessa arquitetura.1
O espelho brasileiro
No Brasil, o debate não passa por apólices contra atiradores, mas parte do mesmo ponto: quantas armas circulam e quem tem acesso a elas. O Atlas da Violência 2026, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), registrou 29.870 homicídios por arma de fogo em 2024, o equivalente a 70,1% dos 42.590 homicídios do país, conforme noticiou o Jornal da USP. O mesmo levantamento contou 53 proposições apresentadas na Câmara dos Deputados em 2025 para ampliar ou facilitar o acesso legal a armas.10
A pesquisa nacional aponta na mesma direção da americana. Estimativas do FBSP indicam que cada aumento de 1% na circulação de armas eleva os homicídios entre 1,2% e 2%.10 Estudo de Daniel Cerqueira e João Manoel de Mello, citado no Atlas da Violência do Ipea, concluiu que, sem o Estatuto do Desarmamento de 2003, a taxa de homicídios teria crescido 12% a mais até 2007.11
O país viveu seu próprio experimento de expansão. Com a flexibilização das regras no governo Bolsonaro, os registros de caçadores, atiradores e colecionadores (CACs) dispararam: em 2022, o Exército concedeu 329.493 certificados a pessoas físicas. Com as novas regras editadas em 2023, o número caiu para 67.859 em 2024, redução de 79,4%, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em dados divulgados pelo Poder360.12 O estoque, porém, permanece. A edição de 2026 do Anuário, divulgada em julho, contabiliza 2,1 milhões de registros ativos de armas, 1,6 milhão delas em mãos de CACs, das quais cerca de 480 mil com certificados vencidos.12 Arma é bem durável: a política de hoje convive com o arsenal de ontem.
O paralelo político também preocupa. Levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global mapeou 714 casos de violência política entre novembro de 2022 e outubro de 2024, incluindo 182 assassinatos e atentados, e identificou 2024 como o ano mais violento da série iniciada em 2016.13 Com o primeiro turno das eleições gerais marcado para 4 de outubro de 2026, a experiência americana funciona como alerta. Onde armas abundam e a polarização se aprofunda, a segurança de candidatos, comícios e instituições deixa de ser tarefa pontual e vira despesa permanente.
O que o seguro não cobre
Um seguro protege balanços, não pessoas. Ele reembolsa funerais, paga consultores de crise e financia a reforma de um prédio atingido, mas não devolve ninguém. A expansão acelerada desse mercado nos Estados Unidos mede, com precisão contábil, o custo de uma escolha política: tolerar um nível de acesso a armas que nenhum outro país rico aceita e, em seguida, pagar para conviver com as consequências.
Para o Brasil, que reconstruiu parte do controle sobre armas e ainda carrega um estoque herdado, a lição é prática. Reduzir a exposição ao risco custa menos, em vidas e em dinheiro, do que aprender a precificá-lo.
Perguntas frequentes
O que é seguro contra agressor ativo?
É uma cobertura, também chamada de seguro contra atirador ativo ou contra armas letais, que protege organizações contra perdas causadas por ataques armados premeditados, como tiroteios e atropelamentos intencionais. Costuma incluir indenizações, despesas médicas e funerárias, interrupção de negócios, gestão de crise e acesso a consultores de resposta a incidentes.
Por que Utah contratou esse seguro após a morte de Charlie Kirk?
Segundo o Financial Times, não havia clareza de que a apólice de terrorismo do estado cobriria as perdas do ataque, porque esse tipo de contrato se vincula sobretudo a danos materiais. Cerca de dois meses após o assassinato, Utah contratou cobertura específica para universidades, escolas e órgãos estaduais.
Quanto os americanos gastam com seguro contra atiradores?
De acordo com corretores e seguradoras ouvidos pelo FT, mais de US$ 100 milhões por ano em prêmios de apólices exclusivas, o dobro de 2020. Os EUA respondem por mais da metade da demanda global.
Mais armas significam mais violência?
A síntese de evidências da RAND Corporation (2026) encontrou evidência forte de que leis de porte permissivo aumentam homicídios e crimes violentos e de que restringir o acesso de jovens a armas reduz mortes. No Brasil, estimativas do FBSP indicam que cada aumento de 1% na circulação de armas eleva os homicídios entre 1,2% e 2%. Há pesquisadores que contestam a correlação, e a evidência sobre várias políticas específicas ainda é limitada.
O que o caso americano ensina ao Brasil?
Que ampliar o acesso a armas produz custos duradouros, humanos e financeiros. O Brasil tem 2,1 milhões de registros ativos de armas, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, e 70,1% dos homicídios de 2024 foram cometidos com arma de fogo, segundo o Atlas da Violência 2026.
Referências
- HARRIS, Lee. The booming business of insuring against US gun violence. Financial Times, 2026. https://www.ft.com/content/5ad7c42c-b95d-47b8-8dfd-896c1deda1df
- Marsh. Active assailant coverage.
- New Dawn Risk. Is active assailant insurance the next cyber?, 2025 (inclui projeção da Growth Market Reports).
- Small Arms Survey. Estimating Global Civilian-Held Firearms Numbers, 2018 (via Statista).
- Pew Research Center. What the data says about gun deaths in the U.S., abril de 2026 (dados do CDC).
- Johns Hopkins Center for Gun Violence Solutions. Annual Gun Violence Data 2024.
- RAND Corporation. The Science of Gun Policy, 5ª edição, janeiro de 2026.
- U.S. Capitol Police. USCP Threat Assessment Cases for 2025, janeiro de 2026; Axios, janeiro de 2026.
- ABC News; KSL.com; Deseret News. Reportagens sobre a notificação da família Kirk contra a Utah Valley University, setembro de 2026.
- Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Atlas da Violência 2026 (via Jornal da USP, julho de 2026).
- Ipea e FBSP. Atlas da Violência 2019; Cerqueira e De Mello (2014).
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública, edições 2025 e 2026 (via Poder360).
- Terra de Direitos e Justiça Global. Violência Política e Eleitoral no Brasil, 3ª edição.
- Omnilert. Active Assailant Insurance: Coverage, Costs and Risk Reduction, agosto de 2026.