Na quarta-feira (26), a Nvidia reportou um trimestre recorde e viu suas ações saltarem 8,7%, o segundo maior ganho de valor de mercado em um único dia na história do mercado americano. A empresa, avaliada em cerca de US$ 5 trilhões, aproveitou o momento para fazer algo incomum: defender publicamente, com números e argumentos, sua estratégia de emprestar o próprio balanço patrimonial para financiar a compra de seus chips por clientes como OpenAI e outros laboratórios de inteligência artificial.
A diretora financeira da companhia, Colette Kress, reconheceu que parte do mercado chama esse arranjo de "financiamento circular", mas rejeitou o rótulo. Segundo ela, laboratórios como OpenAI e Anthropic estão crescendo mais rápido do que seus balanços e perfis de crédito conseguem sustentar sozinhos, e a Nvidia entra como uma espécie de ponte financeira até que essas empresas consigam captar dívida em condições normais de mercado.
O mecanismo por trás do "flywheel"
O caso mais emblemático é o projeto de data center em Portsmouth, Ohio, que pretende se tornar o maior do mundo, com 10 gigawatts de capacidade. A Nvidia se comprometeu a garantir parte do valor da obra junto à desenvolvedora SB Energy, do grupo SoftBank, em troca do direito exclusivo de fornecer chips para a primeira metade do projeto. Ao mesmo tempo, a empresa também deve financiar a compra desses mesmos chips pela OpenAI, cliente final da infraestrutura, em um pacote que soma centenas de bilhões de dólares.
É esse círculo (a Nvidia investe em quem constrói o data center, financia quem vai comprar os chips e ainda aporta capital diretamente no laboratório de IA que vai usar tudo isso) que gerou desconforto entre investidores quando veio a público, meses antes, um plano ainda maior de apoio ao mesmo projeto. Diante da reação negativa, a própria Nvidia reduziu o valor da garantia para menos da metade do que estava sendo negociado originalmente, segundo reportagem do Wall Street Journal.
"Reconhecemos a dimensão desse apoio, e sabemos que alguns vão chamar isso de financiamento circular. Nós vemos de forma diferente." — Colette Kress, CFO da Nvidia
O CEO Jensen Huang comparou publicamente a estratégia à forma como a empresa gerencia sua cadeia de suprimentos, garantindo insumos críticos quando há visibilidade de demanda futura. Analistas como John Belton, gestor da Gabelli Funds, concordam que o mecanismo acelera a construção de data centers e reduz o custo de capital para empresas menores de nuvem, embora reconheçam que o tema seja "polarizador" para as ações da companhia.
Ecos da bolha pontocom
O paralelo histórico não é sutil. Nos anos 1990, empresas de telecomunicações e internet trocaram financiamento entre si para inflar receitas mutuamente, num arranjo muito parecido com o atual. Quando a demanda real não acompanhou os investimentos, o colapso foi rápido e profundo. Gestores ouvidos pela CNN Brasil apontam que o risco mais concreto hoje não está necessariamente na demanda por IA, que segue forte, mas numa eventual alta de juros, que penalizaria de forma desproporcional empresas de IA ainda distantes de gerar lucro consistente.
A diferença, segundo parte do mercado, é que a demanda por capacidade computacional hoje parece genuína e a oferta de energia, chips e data centers está atrasada em relação a ela, ao contrário do fim dos anos 1990, quando a infraestrutura de fibra óptica foi construída antes de existir demanda suficiente para preenchê-la.
Contraponto
Nem todo analista compra a narrativa de risco sistêmico. Para Gary Tan, gestor de portfólio da Allspring Global Investments, a natureza interconectada do ecossistema de IA é real, mas os riscos de curto prazo são mitigados pela solidez dos balanços, do fluxo de caixa e da qualidade de crédito dos principais players envolvidos. Já Jan Frederik Slijkerman, estrategista de mercado, argumenta que essas relações fazem sentido estratégico porque ajudam empresas a ganhar escala mais rápido, e que o ciclo mais amplo de investimento em IA está apoiado em geração real de valor econômico, mesmo que negócios ou modelos específicos acabem decepcionando pelo caminho.
O fator China: quem herda a liderança se os EUA tropeçarem
É aqui que o debate financeiro vira geopolítico. Nos últimos quatro anos, os Estados Unidos restringiram a exportação de chips avançados para a China, na tentativa de conter o avanço tecnológico e militar do país. O efeito colateral foi acelerar justamente o que Washington queria evitar: a corrida chinesa pela autossuficiência em semicondutores.
A Huawei planeja quase dobrar a produção de seu chip de IA mais avançado, o Ascend 910C, para cerca de 600 mil unidades em 2026, com a fundição estatal SMIC como parceira. Segundo o índice de IA 2026 da Universidade Stanford, a distância entre os melhores modelos de linguagem americanos e chineses caiu para cerca de 2,7%, praticamente irrelevante em termos práticos. Empresas como Alibaba, DeepSeek e ByteDance já recebem aprovações condicionais de Pequim para importar chips H200 da própria Nvidia, um sinal de que a China negocia dos dois lados: compra tecnologia ocidental quando é vantajoso e constrói a própria quando é bloqueada.
O argumento estratégico é direto. Se o boom de investimento em IA nos Estados Unidos desacelerar de forma abrupta, seja por um estouro de bolha, por juros mais altos ou por um caso de inadimplência em algum dos elos desse financiamento circular, o efeito não seria apenas financeiro. Seria também uma pausa no ritmo de investimento em capacidade computacional americana justamente no momento em que a China reduz a distância tecnológica e amplia o uso doméstico de seus próprios chips. Analistas de mercados emergentes, como Varun Laijawalla, da Ninety One, já descrevem um "estreitamento significativo" da vantagem americana, turbinado por fundos estatais chineses que compraram ações de tecnologia após a liquidação global do setor de chips neste ano.
O que isso significa para o Brasil
O Brasil está longe de ser espectador nessa disputa, mesmo sem fabricar chips avançados. O país concentra cerca de 48% da capacidade de data centers em operação na América Latina e responde por 71% da capacidade em construção na região, segundo o relatório Latin America Data Center Report da consultoria JLL, o que o torna dependente direto da demanda global por infraestrutura de IA, tanto para cima quanto para baixo.
Do lado público, o governo federal ampliou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) com um novo aporte de R$ 2,3 bilhões, somando a um investimento total anunciado de R$ 2,6 bilhões voltado a supercomputação nacional, uma "Nuvem Brasileira" ainda em fase inicial e redução de dependência externa de chips, com participação de BNDES, ABDI, Serpro e do Ministério da Gestão. A expectativa é que parte relevante desse edital de supercomputação seja vencida pela própria Nvidia, o que evidencia como mesmo a estratégia de soberania digital brasileira permanece, por ora, apoiada em fornecedores americanos.
Do lado do comércio exterior, a Semiconductor Industry Association registrou vendas globais de semicondutores de US$ 791,7 bilhões em 2025, alta de 25,6% ante o ano anterior, com forte concentração de produção em Taiwan, Coreia do Sul, Singapura e China. Como o Brasil não produz esses componentes em escala relevante, qualquer desaceleração no ciclo de investimento global em IA tende a se refletir rapidamente nas importações brasileiras de servidores e equipamentos de data center, um setor que a consultoria Gartner projeta crescer 47% globalmente em 2026, para US$ 2,59 trilhões.
Na prática, isso posiciona o Brasil numa espécie de meio-campo estratégico: dependente da continuidade do boom americano de IA para justificar seus próprios investimentos em data centers, mas também cortejado pela China em tecnologia e por Washington em segurança de dados, num equilíbrio que o próprio governo já descreveu publicamente como o objetivo de "não depender de uma única empresa, tecnologia ou país".
Perguntas frequentes
O que é o "financiamento circular" da Nvidia?
É o arranjo pelo qual a Nvidia investe capital, oferece garantias de crédito ou financia diretamente empresas que, em troca, usam esse dinheiro para comprar os próprios chips da Nvidia. O mesmo capital circula entre fornecedor, cliente e financiador, o que dificulta separar receita gerada por demanda real de receita sustentada por dinheiro que a própria Nvidia colocou no sistema.
Por que esse modelo preocupa parte do mercado financeiro?
Porque arranjos parecidos já apareceram na bolha das empresas pontocom nos anos 1990, quando companhias infladas por financiamento cruzado colapsaram assim que a demanda real não acompanhou o ritmo dos investimentos. O receio é que uma desaceleração no boom da IA exponha vulnerabilidades semelhantes entre laboratórios, provedores de nuvem e a própria Nvidia.
Se a bolha da IA estourar, os Estados Unidos perdem a liderança para a China?
Não é automático, mas é o principal risco geopolítico do cenário. Uma desaceleração abrupta no investimento americano em capacidade computacional coincidiria com uma China que já reduziu a distância técnica de seus modelos de IA para cerca de 2,7% frente aos melhores modelos americanos e que dobra a produção de chips próprios, como o Ascend da Huawei, para reduzir a dependência de fornecedores ocidentais.
O Brasil está exposto a esse risco?
Sim, principalmente pelo lado da infraestrutura. O país concentra a maior fatia de data centers da América Latina e depende de equipamentos importados para sustentar esse crescimento. Uma desaceleração global no investimento em IA tenderia a reduzir a demanda por essa infraestrutura e afetar diretamente as importações brasileiras de servidores, chips e sistemas de armazenamento.