Política · Geopolítica

Em resumo

  • Em 20 de setembro de 2026, Mark Carney fez a primeira visita oficial de um primeiro-ministro canadense a Saint-Pierre-et-Miquelon, território francês que Donald Trump incluiu num mapa coberto pela bandeira americana.
  • No dia 24, a inteligência militar da Dinamarca apontou risco "baixo, mas crescente" de um ataque russo limitado contra um país da OTAN nos próximos meses.
  • Na ONU, em 22 de setembro, Trump justificou o acordo de petróleo com a Venezuela com a frase "ao vencedor pertencem os despojos".
  • Para o Brasil, que vai às urnas em 4 de outubro, o episódio reforça a pergunta sobre como uma potência média se posiciona num hemisfério onde a Doutrina Monroe voltou ao vocabulário oficial.

A cerca de 25 quilômetros da costa da Terra Nova e a mais de 4 mil quilômetros de Paris, um arquipélago de aproximadamente 5.800 habitantes raramente frequenta o noticiário internacional. Saint-Pierre-et-Miquelon, último pedaço da antiga Nova França ainda sob bandeira francesa, virou manchete porque entrou, sem pedir licença, na cartografia política de Donald Trump. No domingo, 20 de setembro, o presidente Emmanuel Macron recebeu ali o primeiro-ministro Mark Carney para um almoço de trabalho que, pela escolha do lugar, disse mais do que o comunicado final.2

Os dois líderes seguiriam dias depois para a Assembleia Geral da ONU e poderiam ter se reunido em Manhattan. Preferiram a ilha. Segundo o The Globe and Mail, o encontro ocorreu menos de duas semanas depois de Trump publicar no Truth Social uma imagem com a bandeira dos Estados Unidos cobrindo a América do Norte, parte do Caribe e a área onde fica o território francês.3

Em coluna publicada no Le Devoir, a cientista política Élisabeth Vallet, diretora do Observatório de Geopolítica da Cátedra Raoul-Dandurand, em Montreal, lê o encontro como uma confirmação: a crise fabricada a partir de Washington não é passageira, e os aliados deixaram de apostar que ela se dissipa sozinha quando o mandato de Trump terminar, em janeiro de 2029.1 O argumento merece ser examinado por partes, porque junta três frentes que costumam ser tratadas separadamente: o Atlântico Norte, o flanco oriental da Europa e o hemisfério americano, onde o Brasil está.

Um arquipélago no centro da Doutrina Monroe

Não é a primeira vez que Saint-Pierre-et-Miquelon incomoda Washington. Vallet lembra que, em dezembro de 1941, quando o almirante Émile Muselier tomou o arquipélago em nome da França Livre, o secretário de Estado americano Cordell Hull reagiu com desdém às "chamadas" forças navais do general De Gaulle e pressionou o Canadá a devolver as ilhas ao governo de Vichy.1 O episódio é um lembrete de que a Doutrina Monroe, formulada em 1823 para afastar potências europeias do continente, sempre conviveu mal com os restos de império europeu nas Américas.

A pressão atual tem várias camadas. Em abril de 2025, o anúncio tarifário da Casa Branca atribuiu ao arquipélago uma alíquota de 50%, uma das mais altas da lista, como registrou análise publicada no The Conversation.4 A isso se somam os mapas: o de 7 de setembro, segundo a ArcticToday, cobria também a Groenlândia e, pela primeira vez, a Islândia, e foi publicado sem texto ou declaração de política que o acompanhasse.5

Há ainda um dado estratégico menos conhecido. De acordo com Vallet, o arquipélago abriga a única estação norte-americana de sensores do Galileo, o sistema europeu de navegação por satélite, e depende de cabos submarinos vindos da Terra Nova para suas comunicações, o que o tornou alvo de ataques cibernéticos de negação de serviço ao longo deste ano.1 Um território pequeno, portanto, mas com uma função que interessa diretamente à autonomia tecnológica europeia.

Distâncias de Saint-Pierre-et-Miquelon Comparação entre a distância do arquipélago até a Terra Nova, cerca de 25 km, e até Paris, cerca de 4.300 km. UM TERRITÓRIO, DUAS DISTÂNCIAS Até a Terra Nova (Canadá) ≈ 25 km Até Paris (capital que o administra) ≈ 4.300 km Escala linear. População: cerca de 5.800 habitantes.
Fontes: Le Devoir (distância até Paris); The Globe and Mail e France 24 (distância até a Terra Nova e população). Elaboração: O Tecido.

O que Carney e Macron foram dizer na ilha

O conteúdo concreto da reunião foi modesto, mas coerente com uma estratégia. Carney anunciou que Canadá e França passarão a compartilhar sistemas de lançamento espacial e instalações de recepção de dados de satélite, e mencionou tempestades provocadas pela mudança climática e pela erosão de normas democráticas, sem citar Trump nominalmente.3 A viagem ocorreu dias depois de o premiê canadense acolher a ideia de o Canadá se tornar o primeiro "membro associado" da União Europeia, conceito ainda sem definição jurídica, segundo a France 24.2

A leitura de fundo vem de janeiro. Em Davos, Carney descreveu uma "ruptura" na ordem internacional e defendeu que potências médias cooperem para reduzir sua exposição à coerção econômica dos mais fortes.4 O discurso no Parlamento Europeu e a escala em Saint-Pierre dão forma prática a essa tese. Vallet observa que os aliados, depois de tentarem inicialmente esperar a tempestade passar, passaram a admitir que os ventos contrários não desaparecerão por mágica depois de 2028.1

O flanco oriental: guerra híbrida e o teste do Artigo 5

A segunda frente é a Europa. Na quinta-feira, 24 de setembro, o Serviço de Inteligência de Defesa da Dinamarca (FE) publicou uma avaliação não classificada segundo a qual existe um risco "baixo, mas crescente" de a Rússia realizar um ataque militar limitado contra um ou mais países da OTAN que fazem fronteira com seu território.6 Os cenários descritos incluem ataques isolados com armas de longo alcance contra infraestrutura vital para o apoio à Ucrânia, operações de bandeira falsa com drones de fabricação ucraniana e o envio de um número reduzido de tropas, possivelmente sem insígnias.6

O mesmo documento cita a tentativa frustrada de ataque com drone ao aeroporto de Leipzig/Halle, que as autoridades alemãs atribuem a um planejamento russo, e classifica como o incidente mais grave envolvendo forças dinamarquesas o episódio de 14 de setembro, quando uma fragata russa disparou sinalizadores contra um helicóptero militar da Dinamarca perto de Gedser.6 Segundo a Breaking Defense, o FE espera que a guerra híbrida russa se intensifique, com ciberataques capazes de afetar funções essenciais e sabotagens com alto risco de vítimas.7

O ponto político está no Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte, que trata um ataque contra um aliado como ataque contra todos. Na leitura de Vallet, a Rússia testa a aplicabilidade desse compromisso num momento em que ele se enfraquece por dois lados: pela contestação interna, com o primeiro-ministro eslovaco questionando o princípio, e pelo desengajamento americano.1 A colunista resume a relação entre as duas frentes numa fórmula que ajuda a entender por que a pressão sobre o Canadá e a pressão sobre a Europa se alimentam.

"O predador também é um facilitador."

Élisabeth Vallet, Le Devoir (tradução livre)

"Ao vencedor, os despojos": a política externa como terreno livre

A terceira frente foi exposta no púlpito da ONU. Em 22 de setembro, Trump defendeu a guerra contra o Irã, que se aproxima dos sete meses, afirmou que poderia "aniquilar" o país caso não haja acordo e previu uma negociação somente depois das eleições legislativas americanas de novembro, segundo a NBC News.8 Sobre a Venezuela, onde forças americanas capturaram Nicolás Maduro em 3 de janeiro, Trump celebrou um acordo envolvendo 65 bilhões de barris de petróleo e completou: "ao vencedor pertencem os despojos".9

Analistas do Council on Foreign Relations leram o discurso como uma afirmação de controle, senão de domínio, dos Estados Unidos sobre o hemisfério, com menções a Cuba e ao México no mesmo movimento.10 Vallet acrescenta uma hipótese sobre o calendário: se as eleições de meio de mandato inverterem o equilíbrio no Congresso, o presidente pode se refugiar na política externa, único terreno em que tem ampla margem de manobra, e tornar-se mais imprevisível para maximizar os dois anos que lhe restam.1 Mesmo uma vitória ampla da oposição dificilmente produziria maioria capaz de derrubar vetos, lembrou a revista conservadora The American Conservative, o que limita o alcance de qualquer freio legislativo sobre poderes de guerra.11

A coluna do Le Devoir registra ainda outros sinais da mesma deriva: a recepção de Xi Jinping na Casa Branca, acompanhada de advertências chinesas sobre Taiwan, e o convite de Trump a Vladimir Putin para a cúpula do G20 em Miami, encontro do qual o líder russo está pessoalmente ausente desde 2022.1

E o Brasil nessa geografia?

O Brasil discursou antes de Trump na mesma sessão, como manda a tradição da Assembleia Geral desde 1955. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a credibilidade da ONU nunca esteve tão baixa, criticou a paralisia do Conselho de Segurança e afirmou que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém", conforme a íntegra publicada pelo Poder360.12 A imagem do quintal é uma resposta direta à retórica hemisférica de Washington, e dialoga com a posição que o governo tomou em janeiro, quando Lula classificou a operação americana em Caracas como uma afronta grave à soberania venezuelana e um precedente perigoso, segundo o Conjur.13

A política externa, porém, entrou na disputa doméstica. O discurso ocorreu a 12 dias do primeiro turno, que opõe Lula ao senador Flávio Bolsonaro (PL), descrito pelo Nexo como aliado do governo Trump.14 Isso significa que a pergunta sobre como o Brasil deve se relacionar com Washington será respondida, em parte, pelo eleitor. Independentemente do resultado, o caso canadense oferece uma referência útil: Ottawa não rompeu com os Estados Unidos, mas passou a diversificar parceiros em defesa, energia, minerais críticos e tecnologia para reduzir a vulnerabilidade a um vizinho que deixou de ser previsível.4

A diferença é de escala e de posição. O Canadá divide fronteira, moeda de fato e sistema de defesa com os Estados Unidos; o Brasil tem mais distância geográfica e mais margem para diversificar, mas também divide fronteira com a Venezuela e sente os efeitos humanitários e migratórios de qualquer intervenção ali. A tese de Carney sobre potências médias interessa ao Brasil justamente porque o país é, por definição, uma delas.

O que observar nos próximos meses

Três datas ajudam a testar a tese. A primeira é 4 de outubro, com o primeiro turno no Brasil, que definirá o tom da relação com Washington até 2030. A segunda é 3 de novembro, com as eleições legislativas americanas, que podem alterar o equilíbrio no Congresso e, segundo a hipótese de Vallet, empurrar a Casa Branca ainda mais para a política externa. A terceira é a cúpula do G20 em Miami, no fim do ano, onde a eventual presença de Putin mediria até onde vai a reaproximação entre Washington e Moscou. No meio disso, a definição jurídica do "membro associado" canadense na UE dirá se a guinada de Ottawa para a Europa tem substância ou é, por ora, simbolismo bem encenado numa ilha do Atlântico Norte.

Perguntas frequentes

O que é Saint-Pierre-et-Miquelon e por que virou notícia?

É um arquipélago francês de cerca de 5.800 habitantes a aproximadamente 25 km da Terra Nova, no Canadá. Virou notícia após Donald Trump publicar, em setembro de 2026, um mapa cobrindo a região com a bandeira americana, e após receber, em 20 de setembro, a primeira visita oficial de um primeiro-ministro canadense, Mark Carney, ao lado do presidente Emmanuel Macron.

O que Canadá e França acertaram no encontro?

Os dois países anunciaram o compartilhamento de sistemas de lançamento espacial e de instalações de recepção de dados de satélite, além de ampliar a cooperação regional entre o Canadá Atlântico e o arquipélago em crescimento econômico, transição energética e resiliência climática.

O que diz o relatório da inteligência dinamarquesa sobre a Rússia?

Publicado em 24 de setembro de 2026, o relatório do Serviço de Inteligência de Defesa da Dinamarca aponta risco baixo, mas crescente, de a Rússia realizar um ataque militar limitado contra países da OTAN vizinhos ao seu território, e prevê intensificação da guerra híbrida, com ciberataques e sabotagens.

O que Trump quis dizer com "ao vencedor pertencem os despojos" na ONU?

Na Assembleia Geral de 22 de setembro de 2026, Trump usou a frase ao celebrar um acordo sobre 65 bilhões de barris de petróleo venezuelano, firmado depois que forças americanas capturaram Nicolás Maduro em janeiro. A expressão foi lida por analistas como afirmação de domínio dos Estados Unidos sobre o hemisfério.

Como o Brasil se posicionou?

Na abertura da Assembleia Geral, Lula criticou a perda de credibilidade da ONU e afirmou que o Brasil não cabe no quintal de ninguém. Em janeiro, o governo brasileiro condenou a operação americana na Venezuela como violação da soberania e do direito internacional.

Nota de atribuição: este texto dialoga com a coluna "Le prix des mots", de Élisabeth Vallet, publicada no jornal Le Devoir (Montreal). Trechos e ideias atribuídos à autora são citados com crédito e em tradução livre. A coluna original pode ser lida em ledevoir.com. As demais informações foram apuradas de forma independente pela curadoria de O Tecido.