Política · Rússia
A Justiça russa negou provimento ao recurso do Yábloko contra sua exclusão da disputa parlamentar de setembro, um mês depois de a legenda liderar as intenções de voto entre os partidos de oposição. O caso expõe a estratégia do Kremlin diante do desgaste popular com a guerra na Ucrânia.
Durante alguns dias deste verão europeu, algo pareceu fora do lugar no tabuleiro eleitoral russo: um partido contrário à guerra, o Yábloko, chegou a figurar em segundo lugar em pesquisas de institutos ligados ao próprio governo. A adesão de eleitores, especialmente jovens, foi rápida o suficiente para preocupar o Kremlin, que havia autorizado o registro da sigla nas eleições legislativas marcadas para 18 a 20 de setembro. A guinada durou pouco. Em 17 de agosto, o Tribunal Supremo russo confirmou a decisão de primeira instância e retirou o Yábloko da disputa, sob acusação de irregularidades de campanha e suposto financiamento estrangeiro [1].
O que aconteceu com o Yábloko
Fundado em 1993 pelo economista Grigori Iavlínski, com o compromisso fundador de que a Rússia "nunca mais" travasse uma guerra, o Yábloko (que significa "maçã" em russo) era, até o veto, a única legenda entre as onze habilitadas a concorrer que defendia abertamente um cessar-fogo imediato e a abertura de negociações com a Ucrânia. Segundo reportagem do jornal mexicano La Jornada, analistas independentes avaliam que a Comissão Eleitoral Central primeiro autorizou o registro do partido, cuja popularidade rondava 1%, para sugerir que a sociedade apoiava em bloco a "operação militar especial", e recuou ao perceber, por pesquisas internas, que a legenda poderia obter entre 18% e 20% dos votos [2].
Em entrevista ao jornal espanhol El País, concedida em Moscou, o presidente do partido, Nikolái Rybakov, afirmou que o objetivo da campanha nunca foi conquistar cadeiras na Duma, mas pressionar Vladimir Putin a reconhecer o tamanho da rejeição popular à guerra. Rybakov chegou a dizer que, caso a mobilização mostre a Putin "cuánta gente en Rusia quiere la paz", o próprio presidente pode se ver forçado a rever sua política, já que "presta mucha atención a la opinión pública" [3]. O dirigente evitou detalhar o chamado "plano B" do partido após o veto, dizendo apenas que ele será anunciado quando as autoridades não puderem mais impedi-lo, e descartou qualquer convocação de manifestações de rua, por considerá-las perigosas para os apoiadores em um país onde protestos são proibidos.
"Se graças a essa campanha eleitoral um milhão de pessoas se mostrar abertamente a favor da mudança, ele [Putin] será obrigado a promovê-la", resumiu Nikolái Rybakov ao El País.— Nikolái Rybakov, líder do Yábloko, em entrevista ao El País
Repressão avança sobre a cúpula do partido
O veto eleitoral veio acompanhado de um golpe ainda mais duro contra a legenda. No mesmo dia em que o Supremo julgava o recurso do partido, um tribunal na região de Pskov condenou o vice-presidente do Yábloko, Lev Shlosberg, a 11 anos e um mês de colônia penal por "desacreditar" as Forças Armadas russas e divulgar "notícias falsas" sobre a guerra, segundo o veículo independente The Moscow Times. A acusação teve como pretextos sua participação em um debate público e o compartilhamento de uma capa de jornal britânico com a imagem de Putin [4].
A Anistia Internacional classificou o processo como uma "repressão flagrante" ao direito de expressão e cobrou a soltura imediata de Shlosberg, descrito pela entidade como alvo de perseguição por "defender um cessar-fogo e a diplomacia" [5]. Rybakov, em sua entrevista ao El País, citou o caso ao lembrar que seis integrantes do Yábloko já foram assassinados por convicções políticas ao longo dos 33 anos de história da legenda, e que dezenas de outros filiados foram multados, impedidos de disputar eleições ou incluídos na lista russa de "agentes estrangeiros" [3].
O contexto político mais amplo
O episódio se soma a uma série de restrições à oposição moderada no país. O opositor independente Boris Nadezhdin, que também tentou concorrer com uma plataforma antiguerra em pleitos anteriores, vive hoje no exílio. Segundo o site catalão Ara, a exclusão do Yábloko provocou reação imediata entre jovens eleitores, que se reuniram em frente ao Tribunal Supremo em Moscou durante a leitura da sentença, episódio descrito pelo ex-preso político Vladímir Kara-Murzá como sinal de que essa geração representa o "amanhã da Rússia" [6].
Nas eleições legislativas de setembro, restam concorrendo apenas partidos alinhados, em maior ou menor grau, ao Kremlin, entre eles o oficialista Rússia Unida. Com a saída do Yábloko da cédula, a Comissão Eleitoral Central russa eliminará a opção que ocupava a segunda posição na disputa, atrás apenas da legenda governista.
Perguntas frequentes
O que é o Yábloko?
É o partido político russo mais antigo em atividade contínua desde a queda da União Soviética, fundado em 1993 por Grigori Iavlínski. De orientação social-liberal, é atualmente a única legenda registrada na Rússia a defender publicamente um cessar-fogo na guerra contra a Ucrânia.
Por que o Yábloko foi barrado das eleições de 2026?
O Tribunal Supremo russo manteve, em 17 de agosto de 2026, a anulação do registro do partido nas eleições legislativas de setembro, sob acusações formais de irregularidades de campanha e de recebimento de doações consideradas "financiamento estrangeiro".
O que aconteceu com Lev Shlosberg?
O vice-presidente do Yábloko foi condenado, em agosto de 2026, a 11 anos e um mês de prisão por um tribunal na região de Pskov, sob acusação de "desacreditar" as Forças Armadas russas, no que organizações de direitos humanos classificam como perseguição política.
O veto ao Yábloko significa que não há oposição na Rússia?
Segundo o próprio líder do partido, Nikolái Rybakov, a legenda continua existindo apesar da repressão, embora reconheça que o espaço para oposição moderada tenha se estreitado por métodos que classifica como ilegais e desumanos.
Ewerton Lopes
Curador Editorial
Referências
- La Jornada. Corte de Rusia cierra la puerta al partido opositor Yabloko para participar en las elecciones de septiembre, 17 ago. 2026. Disponível em: jornada.com.mx.
- La Jornada. Corte de Rusia niega al partido Yabloko participar en las urnas, 18 ago. 2026. Disponível em: jornada.com.mx.
- González Cuesta, Javier. Nikolái Rybakov, líder de Yábloko: "Hemos demostrado al mundo cuánta gente en Rusia quiere la paz". El País, 22 ago. 2026. Disponível em: elpais.com.
- The Moscow Times. Judge Sentences Lev Shlosberg to 11 Years in Prison for Anti-War Statements, 17 ago. 2026. Disponível em: themoscowtimes.com.
- Amnesty International. Russia: Anti-war politician Lev Shlosberg sentenced to 11 years and one month in prison amid mounting pressure on his Yabloko party, ago. 2026. Disponível em: amnesty.org.
- Ara. Rusia veta el único partido contrario a la guerra e indigna a los jóvenes y a la oposición, ago. 2026. Disponível em: en.ara.cat.