POLÍTICA · RÚSSIA
Este artigo se apoia, entre outras fontes, na análise de Alexandra Prokopenko publicada originalmente no The New York Times em 18 de setembro de 2026, sob o título "This Is How Putin Took Total Control". Leia o texto original: nytimes.com/2026/09/18/opinion/putin-russia-parliamentary-elections.

Entre os dias 18 e 20 de setembro, a Rússia realiza a primeira eleição parlamentar desde que lançou a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022. O resultado já é dado como certo: o partido governista Rússia Unida deve confirmar maioria confortável na Duma Estatal, a câmara baixa do parlamento russo. Cinco semanas antes do pleito, a Suprema Corte retirou da disputa o Yabloko, único partido registrado que defende publicamente um cessar-fogo com a Ucrânia, sob a alegação formal de violações de direitos autorais durante a campanha.2 Trata-se de um detalhe simbólico: mesmo em uma eleição sem risco real de perda para o Kremlin, o regime de Vladimir Putin optou por não correr nenhum risco.

A votação de domingo é menos um teste eleitoral do que um retrato de como duas décadas de engenharia institucional culminaram em um sistema no qual, segundo análises recentes, praticamente nenhum ator dentro da Rússia (governador, empresário, ministro ou general) mantém espaço próprio de poder fora da vontade presidencial.2

O pacto que sustentou o primeiro Putin

No início dos anos 2000, o arranjo entre Putin e as elites russas era relativamente simples: em troca de previsibilidade econômica, a classe dirigente abriria mão de poder político real. Os governadores foram os primeiros a sentir a mudança. Representantes presidenciais foram instalados acima deles e, posteriormente, o Kremlin retirou dos governadores o assento automático no Conselho da Federação, a câmara alta do parlamento, onde antes usavam seus votos para barrar leis indesejadas. Em 2004, sob o argumento do combate ao terrorismo e contrariando decisão anterior do Tribunal Constitucional, Putin extinguiu as eleições diretas para governador. Governadores deixaram de ser políticos com base própria de apoio e passaram a ser gestores regionais indicados.

O mesmo raciocínio foi aplicado aos oligarcas que enriqueceram nas privatizações dos anos 1990. A mensagem do Kremlin era direta: mantenha distância da política e o patrimônio acumulado permanece intocado. A prisão de Mikhail Khodorkovsky em 2003, então o homem mais rico da Rússia e financiador de partidos de oposição, encerrou qualquer dúvida sobre a validade da regra para todos. Nos anos seguintes, episódios como a troca de cadeiras com Dmitri Medvedev em 2012 (que permitiu a Putin retornar à presidência sem respeitar o espírito dos limites de mandato), o assassinato do ex-vice-primeiro-ministro Boris Nemtsov em 2015, e a prisão do então ministro da Economia Alexei Ulyukayev em 2016 reforçaram periodicamente o mesmo recado: negócios seguiam liberados, política pertencia a um único homem.

"A perda de garantias não libertou a elite russa. Fez o oposto: quando o Estado pode retirar segurança, patrimônio e carreira, e as sanções fecharam a saída para o exterior, a adaptação individual tornou-se a única estratégia racional." Alexandra Prokopenko, The New York Times, 18 de setembro de 2026

A guerra reescreve as regras do jogo

Esse arranjo, que durou quase duas décadas, começou a se romper com a invasão da Ucrânia. Sob o peso das sanções ocidentais e de uma economia pressionada por gastos militares crescentes, a tomada de decisões no Kremlin se centralizou de forma acentuada. Orçamentos públicos passaram a ser classificados como sigilosos, e o parlamento concedeu recentemente ao Ministério das Finanças poderes ampliados de gasto discricionário. Governadores regionais assumiram funções de recrutamento militar e de repasse de indenizações a famílias de soldados mortos, enquanto veteranos de guerra passaram a ocupar governos estaduais e cargos federais de peso, formando uma nova camada da elite pessoalmente ligada a Putin.

Nacionalizações: o patrimônio deixa de ser garantia

Nenhuma frente ilustra melhor essa mudança do que a onda de nacionalizações que se intensificou após 2022. A Procuradoria-Geral russa passou a reabrir, sistematicamente, contratos de privatização dos anos 1990, sob a justificativa de que teriam violado a soberania econômica do país. A escala do fenômeno é expressiva: nos seis primeiros meses de 2026, apreensões de ativos privados responderam por 42% do valor total de fusões e aquisições realizadas na Rússia.2 Desde o início da guerra, estimativas independentes apontam para dezenas de bilhões de dólares em ativos transferidos ao controle estatal.3

O caso mais emblemático é o da Rusagro, uma das maiores produtoras agrícolas do país. Seu fundador, Vadim Moshkovich, havia sido senador por oito anos pela região de Belgorod e chegou a se reunir com Putin no dia em que a invasão foi lançada. Preso desde março de 2025 sob acusações de fraude e suborno, viu a Justiça russa transferir ao Estado 68% das ações da companhia em maio de 2026; em julho, autoridades confirmaram a confiscação de aproximadamente 7,6 bilhões de dólares em bens ligados a ele, a maior apreensão individual da série de nacionalizações do período de guerra.4 A gestão da empresa passou a um subsidiário do banco estatal Rosselkhozbank.5 Duas décadas de lealdade ao regime não pouparam Moshkovich: ele segue detido enquanto responde ao processo.

Nem todos os episódios terminam em prisão. O bilionário Andrey Melnichenko, após ver a Justiça mover-se contra uma empresa de energia sob seu controle, optou por um acordo de aproximadamente 335 milhões de dólares, valor próximo ao que havia pago pela companhia em 2018; as acusações foram então retiradas. Somado a um decreto presidencial que coloca ativos russos de empresas estrangeiras sob controle estatal, à espera de redistribuição a proprietários aprovados pelo Kremlin, o episódio sugere que a riqueza na Rússia atual é mantida sob condições ditadas por Putin, não propriamente possuída.

Contraponto

Vozes próximas ao Kremlin e alguns analistas de mercado descrevem esse processo em termos distintos: para eles, trata-se de um combate legítimo à corrupção herdada das privatizações turbulentas dos anos 1990 e de uma resposta necessária ao isolamento econômico imposto pelas sanções ocidentais, garantindo soberania sobre setores estratégicos como energia e produção de alimentos. Após a nacionalização da Rusagro, por exemplo, as ações da companhia subiram na bolsa de Moscou, um sinal, segundo investidores locais, de expectativa de maior estabilidade na governança da empresa sob controle estatal.6

Críticos rebatem que a seletividade dos casos, movidos mais por proximidade ao poder do que por critérios jurídicos consistentes, e a ausência de garantias mesmo para figuras historicamente leais ao regime indicam concentração de poder, não recuperação institucional.

Carreiras sob suspeita permanente

A mesma lógica de condicionalidade se estende às carreiras dentro do aparato de Estado, talvez a frente onde a mudança pós-2022 seja mais nítida. Reshuffles sempre existiram na política russa, mas tornaram-se mais frequentes e mais arbitrários. Em abril de 2024, o vice-ministro da Defesa Timur Ivanov foi preso por acusações de suborno; semanas depois, três generais e um alto funcionário de compras também foram detidos. O então ministro da Defesa, Sergei Shoigu, que comandava a pasta havia quase 12 anos em plena guerra, foi remanejado ao Conselho de Segurança naquele mesmo mês, sem qualquer explicação de desgraça política.

Outros episódios se somam a essa lista. Em julho de 2025, o ministro dos Transportes, Roman Starovoyt, foi demitido sem justificativa; horas depois, tirou a própria vida, enquanto investigadores avançavam em um caso de desvio de recursos de sua gestão anterior como governador da região de Kursk. Em setembro do mesmo ano, Dmitri Kozak deixou a administração presidencial após 25 anos ao lado de Putin, também sem qualquer explicação pública.

O que isso significa para o Brasil

Para o Brasil, a consolidação de poder na Rússia não é um episódio distante. Os dois países mantêm uma relação comercial ativa, com a Rússia figurando entre os principais parceiros comerciais do país fora do bloco ocidental, sobretudo na exportação brasileira de soja, carnes, café e açúcar em troca de fertilizantes russos, insumo estratégico para o agronegócio nacional.7 Em fevereiro de 2026, o vice-presidente Geraldo Alckmin classificou o intercâmbio entre os dois países como "aquém do potencial das duas economias" durante reunião de alto nível com o primeiro-ministro russo Mikhail Mishustin no Palácio do Itamaraty.8 A diplomacia brasileira mantém, publicamente, postura de neutralidade em relação à guerra na Ucrânia, ao mesmo tempo em que aprofunda laços dentro do Brics, bloco presidido pelo Brasil em 2025.

Essa proximidade comercial ocorre em um momento no qual instituições internacionais de referência em qualidade democrática, como o Instituto V-Dem da Universidade de Gotemburgo, apontam que o mundo vive o nível mais baixo de democracia desde o fim dos anos 1970, com quase três quartos da população mundial vivendo sob algum grau de regime autocrático.9 A Rússia figura, nesse retrato, não como exceção isolada, mas como um dos casos mais avançados de um fenômeno que o próprio relatório descreve como cada vez mais presente também em democracias historicamente consolidadas.

O que esperar do domingo

Nada na votação de 18 a 20 de setembro deve surpreender: funcionários locais, cujos cargos dependem de entregar números favoráveis ao centro, vão reportar resultados a um sistema que finge acreditar neles. O produto final será uma maioria simultaneamente esmagadora e frágil, fácil de montar e igualmente fácil de desmontar, caso um dia isso se torne conveniente ao próprio Kremlin. É esse o resultado prático de 25 anos de engenharia política: um país com um único árbitro e uma classe dirigente treinada a seguir instruções, mesmo quando essas instruções mudam sem aviso.

Perguntas frequentes

Quando ocorre a eleição parlamentar russa de 2026?

A votação para a Duma Estatal, câmara baixa do parlamento russo, ocorre entre 18 e 20 de setembro de 2026, a primeira eleição legislativa do país desde a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022.

Por que o partido Yabloko foi retirado da disputa?

A Suprema Corte russa anulou o registro do Yabloko, único partido oficialmente registrado com plataforma contrária à guerra na Ucrânia, cerca de cinco semanas antes do pleito, sob alegação de violações de direitos autorais durante a campanha. Dezenas de candidatos do partido também foram afastados sob acusações de extremismo em processos separados.

O que aconteceu com a empresa Rusagro e seu fundador?

Vadim Moshkovich, fundador da Rusagro, uma das maiores produtoras agrícolas da Rússia, está preso desde março de 2025 sob acusações de fraude e suborno. Em maio de 2026, uma corte russa determinou a transferência de 68% das ações da empresa ao Estado; em julho, autoridades confirmaram a apreensão de cerca de 7,6 bilhões de dólares em ativos ligados a ele.

Como Putin reduziu o poder dos governadores russos?

A partir de 2000, o Kremlin instalou representantes presidenciais acima dos governadores e retirou seu assento automático no Conselho da Federação. Em 2004, Putin extinguiu as eleições diretas para governador, transformando-os em gestores regionais indicados pelo poder central.

O Brasil mantém relações comerciais com a Rússia apesar da guerra?

Sim. A Rússia está entre os principais parceiros comerciais do Brasil fora do eixo ocidental, com destaque para exportações brasileiras de soja, carnes, café e açúcar em troca de fertilizantes russos. O Itamaraty mantém postura declarada de neutralidade em relação ao conflito na Ucrânia.