Caderno Ciência · História da ciência

Em resumo Um estudo publicado em 5 de outubro de 2026 no Journal of the History of Biology mostra que Rosalind Franklin identificou indícios de estrutura helicoidal no DNA a partir da Fotografia 49, feita em 2 de maio de 1952, e produziu a famosa Fotografia 51 justamente para obter uma versão mais nítida daquilo que já tinha visto. A pesquisa contradiz o relato de James Watson segundo o qual Franklin não compreendia as próprias imagens, mas confirma que o modelo completo da dupla hélice, com pareamento de bases e cadeias antiparalelas, foi formulado por Watson e Crick.

Durante mais de meio século, a história da descoberta da estrutura do DNA foi contada a partir de um instante de revelação. Em janeiro de 1953, Maurice Wilkins mostra a James Watson uma imagem de difração de raios X produzida no King's College de Londres, e o jovem americano, segundo seu próprio relato, fica de boca aberta e com o pulso acelerado. A imagem era a Fotografia 51, feita por Rosalind Franklin e seu orientando Raymond Gosling. O enredo deixava implícita uma segunda tese, menos explícita e mais duradoura: a de que a autora da foto a teve diante dos olhos por meses sem entender o que ela mostrava.

Essa segunda tese acaba de perder sustentação documental. No artigo "Photograph 49 is the Key to Understanding the History of Rosalind Franklin's DNA Photograph 51", o historiador da ciência Alistair Sponsel, do Science History Institute, na Filadélfia, e o biofísico Brian Sutton, do King's College London, reconstituem os cadernos de laboratório de Franklin e chegam a uma conclusão simples: ela já tinha visto a hélice antes da foto que a tornou célebre[2]. A notícia foi antecipada pela revista Science[3] e repercutida pelo jornal espanhol El País, em reportagem de Daniel Mediavilla[1].

O que o novo estudo sobre Rosalind Franklin revela

O ponto de partida dos pesquisadores foi uma lacuna que alimentou décadas de especulação. Franklin era uma experimentalista metódica, que costumava anotar extensamente cada imagem produzida. Sobre a Fotografia 51, porém, os registros são escassos. Para muitos comentadores, o silêncio era a prova de que ela não tinha percebido a importância do que estava diante de si.

Sponsel e Sutton mostram que o silêncio tem outra explicação. As anotações densas existem, mas estão associadas a uma imagem anterior, a Fotografia 49, obtida em 2 de maio de 1952 com a mesma amostra de DNA e nas mesmas condições experimentais. Segundo a Science, os autores demonstram que Franklin reconheceu ali um padrão compatível com uma hélice e usou a imagem para calcular, pela primeira vez, o comprimento de cada volta da espiral, 34 ångströms (3,4 nanômetros), além do número de bases por volta, com uma ressalva entre parênteses: "se houver uma hélice"[3].

A Fotografia 49 tinha um defeito. O suporte do filme dentro da câmera havia se deslocado, o que deixou a imagem mal enquadrada, segundo a reconstituição dos autores[3]. Franklin conseguiu extrair dela os dados de que precisava, mas não uma imagem apresentável. Por isso, de acordo com o site Live Science, ela iniciou a exposição da Fotografia 51 no mesmo dia em que examinou a 49[4].

Esquema da difração em X e da hélice do DNA À esquerda, esquema simplificado do padrão em forma de X típico da forma B do DNA. À direita, esquema de uma hélice com passo de 3,4 nanômetros e dez bases por volta. Padrão em X (esquema) 1 volta 3,4 nm ~10 bases Hélice (esquema simplificado)
Ilustração editorial, sem escala. O padrão em X das imagens de difração da forma B do DNA indica uma estrutura helicoidal; a distância entre as manchas permite calcular o passo da hélice. Na Fotografia 49, Franklin estimou 34 Å (3,4 nm) por volta e cerca de dez bases por volta. Fonte dos valores: Sponsel e Sutton (2026), via Science.

Por que a Fotografia 51 tem tão poucas anotações

A distinção que os autores propõem é entre dois tipos de imagem científica. A Fotografia 49 seria o registro experimental, a imagem de trabalho que produziu dados novos. A Fotografia 51 seria a peça de demonstração, feita para comunicar aquele resultado com a máxima nitidez possível. Sponsel resumiu a ideia ao Live Science dizendo que, na cabeça de Franklin, eram imagens de naturezas diferentes, e que o esforço de refazer a exposição da mesma amostra é sinal de que ela sabia ter algo importante nas mãos[4].

A Fotografia 51 é tão nítida porque Franklin sabia exatamente o que queria registrar quando a fez.

Essa leitura também responde à pergunta que costuma vir em seguida: se ela sabia, por que não publicou imediatamente? A resposta está no plano de pesquisa que Franklin redigiu em fevereiro de 1952. Ela trabalhava com duas formas do DNA, então chamadas de A e B. A forma B, retratada nas Fotografias 49 e 51, é a que existe nas células. A forma A aparece quando a molécula é desidratada em laboratório e, nas imagens, parecia oferecer mais dados quantitativos. Franklin decidiu caracterizar primeiro a forma A, com o rigor matemático que a cristalografia da época exigia[4].

Enquanto ela fazia esse trabalho lento, a Fotografia 51 circulou sem seu conhecimento. Wilkins a mostrou a Watson no início de 1953. Em 25 de abril daquele ano, a revista Nature publicou três artigos em sequência: o modelo de Watson e Crick, um texto de Wilkins e colaboradores e o artigo de Franklin e Gosling com os dados experimentais, apresentado como apoio ao modelo dos dois pesquisadores de Cambridge.

O que Franklin sabia e o que ainda faltava

O estudo não autoriza a leitura oposta e igualmente simplificadora de que Franklin teria descoberto sozinha a dupla hélice. Como destaca a reportagem do El País, em maio de 1952 ela sabia que a molécula tinha forma helicoidal, mas ainda não havia estabelecido como as duas cadeias se organizavam nem como seus componentes se encaixavam[1].

A contribuição de Watson e Crick foi de outra natureza. Eles construíram um modelo físico que combinava as pistas da difração com o que se sabia da química do DNA, incluindo as proporções entre bases descritas por Erwin Chargaff. Nesse modelo, as duas cadeias correm em sentidos opostos e as bases se pareiam de modo específico, adenina com timina e guanina com citosina. As "dez bases por volta" calculadas por Franklin eram, na verdade, dez pares de bases. O pareamento explicava algo que nenhuma fotografia mostraria por si só: como cada fita carrega a informação necessária para reconstruir a outra, e portanto como a herança genética se copia.

Há, ainda, um registro anterior que já apontava nessa direção. Em 2023, o zoólogo Matthew Cobb e o historiador Nathaniel Comfort publicaram na Nature uma análise de documentos inéditos, entre eles o rascunho de uma reportagem de 1953 nunca publicada, que descrevia Franklin e Wilkins como integrantes de uma equipe que chegava às mesmas conclusões por outra via[5]. Segundo o El País, Brian Sutton também já havia mostrado, naquele mesmo ano, que as notas de Franklin do início de 1953 consideravam explicitamente uma hélice de duas cadeias, com fosfatos voltados para fora e bases para dentro[1]. O trabalho atual recua essa compreensão para maio de 1952.

Como "A Dupla Hélice" moldou a memória da descoberta

A distorção sobre o papel de Franklin tem uma fonte identificável: o livro A Dupla Hélice, que Watson publicou em 1968[6]. O texto é um relato em primeira pessoa, e o próprio prefácio de Lawrence Bragg, diretor do Laboratório Cavendish, advertia que se tratava de impressões e não de história. Ainda assim, foi o livro que fixou a versão popular.

Nele, Watson se refere à cientista com apelidos depreciativos, comenta sua aparência e afirma que ela era incompetente para interpretar imagens de raios X, embora suas fotografias fossem consideradas as melhores da época. A reportagem do El País lembra que a obra foi controversa desde antes de sair: Crick e Wilkins protestaram contra o modo como eram retratados, a Harvard University Press desistiu de publicá-la e Crick chegou a classificar o texto como enganoso[1]. No epílogo, Watson reconhece que suas primeiras impressões sobre Franklin estavam em boa parte erradas. Ela, no entanto, já não podia responder: morreu de câncer de ovário em abril de 1958, aos 37 anos.

Como o Nobel não é concedido postumamente, o prêmio de Fisiologia ou Medicina de 1962 foi dividido entre Watson, Crick e Wilkins. Watson morreu em 6 de novembro de 2025, aos 97 anos, com a reputação também marcada por declarações racistas que o levaram a perder títulos honorários no Cold Spring Harbor Laboratory[9]. O estudo de Sponsel e Sutton chega, portanto, menos de um ano depois da morte do último protagonista vivo do episódio.

O fio brasileiro: crédito, carreira e cristalografia

A técnica que Franklin dominava, a difração de raios X, continua no centro da biologia estrutural, e o Brasil tem hoje uma das infraestruturas mais avançadas do mundo para praticá-la. A primeira estação de pesquisa a operar no Sirius, a fonte de luz síncrotron do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, foi a linha Manacá, dedicada à cristalografia de macromoléculas. Em 2020, ela foi usada para resolver estruturas de proteínas do SARS-CoV-2, sob coordenação da física Ana Carolina Zeri, como registrou a Revista Pesquisa FAPESP[8]. Os princípios físicos são os mesmos das câmeras de Franklin; a escala de precisão é outra.

A questão do reconhecimento também tem correspondência local. Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação divulgados em fevereiro de 2025 pela Agência Gov mostram que as mulheres são maioria entre os bolsistas de mestrado (54%) e de doutorado (53%) do CNPq, mas ocupam apenas 35,5% das bolsas de produtividade em pesquisa, concedidas aos cientistas de maior destaque[7]. O padrão, conhecido como "efeito tesoura", mostra que a perda de mulheres ocorre nos estágios em que o mérito passa a ser certificado por pares.

O caso Franklin não explica essa assimetria, mas ilustra um mecanismo que ela envolve: o crédito científico depende não apenas de quem produz o dado, mas de quem controla a narrativa sobre ele. Autoria de artigos, ordem de nomes, acesso a comitês de avaliação e tempo disponível para publicar rapidamente são variáveis que pesam na distribuição de reconhecimento. Franklin escolheu o caminho mais lento e rigoroso para a forma A; outros publicaram primeiro e contaram a história depois.

Perguntas frequentes

Rosalind Franklin descobriu a dupla hélice do DNA?

Não sozinha. O estudo de 2026 mostra que ela identificou a forma helicoidal e calculou o passo da hélice (3,4 nm) em maio de 1952. O modelo completo, com duas cadeias antiparalelas e pareamento específico de bases, foi proposto por Watson e Crick em 1953, usando dados dela.

O que é a Fotografia 49?

É uma imagem de difração de raios X do DNA na forma B, feita por Franklin em 2 de maio de 1952. Apesar de mal enquadrada por um deslocamento do filme, foi a partir dela que Franklin registrou o padrão helicoidal e fez seus cálculos, segundo Sponsel e Sutton.

Qual a diferença entre a Fotografia 49 e a Fotografia 51?

Ambas usam a mesma amostra e as mesmas condições. A 49 foi a imagem de trabalho, que gerou os dados; a 51 foi feita em seguida para obter uma versão nítida e publicável do mesmo padrão. Por isso a 51 tem poucas anotações.

Por que Franklin não recebeu o Nobel?

Ela morreu em abril de 1958, aos 37 anos, e o Prêmio Nobel não é concedido postumamente. O prêmio de 1962 foi dividido entre Watson, Crick e Wilkins.

Onde o estudo foi publicado?

No Journal of the History of Biology, em 5 de outubro de 2026, assinado por Alistair Sponsel (Science History Institute) e Brian Sutton (King's College London).

Nota de atribuição: este texto foi produzido a partir da reportagem "Rosalind Franklin sí había visto la hélice: una foto olvidada cambia la historia de la estructura del ADN", de Daniel Mediavilla, publicada pelo El País em 7 de outubro de 2026, e complementado com o artigo original no Journal of the History of Biology e reportagens da Science e do Live Science. Trechos atribuídos ao El País foram parafraseados.

Ewerton Lopes — Curador Editorial