Profissões · Trabalho e Tecnologia TAXI

Um carro para diante de um endereço em Londres, as portas se abrem e ninguém desce do banco do motorista, porque não há motorista. A cena, que já é rotina em Wuhan, San Francisco e Phoenix, chegou à capital britânica neste mês e reacendeu uma pergunta que o mundo do trabalho vinha adiando: o que acontece quando dirigir deixa de ser uma profissão que qualquer pessoa pode aprender rápido e passa a ser uma tarefa de máquina1?

A colunista Pilita Clark, do Financial Times, chamou atenção para um ponto pouco discutido nesse debate: o táxi e o transporte por aplicativo não são apenas uma forma de ganhar dinheiro rápido, são historicamente a porta de entrada de imigrantes no mercado de trabalho de países ricos. Em Londres, os quase 15 mil motoristas de táxi preto e os 105 mil motoristas por aplicativo da cidade sentem esse risco de perto agora que os robotáxis circulam nas ruas centrais1.

O avanço global dos robotáxis já tem números para mostrar

O mercado de robotáxis, hoje ainda pequeno, é avaliado em cerca de US$ 4,43 bilhões, mas projeções de consultorias do setor apontam para algo perto de US$ 188,91 bilhões até 2034, um salto de mais de 40 vezes em uma década8. Esse crescimento já provoca movimentos concretos: em setembro, a Uber anunciou corte de 10% do quadro de funcionários corporativos, justamente para redirecionar recursos à construção de sua rede de veículos autônomos, em parceria com empresas como a Waymo4.

A China oferece o laboratório mais avançado. Em Wuhan, a Baidu opera desde 2022 o Apollo Go, serviço de robotáxi sem qualquer motorista humano a bordo. Um estudo publicado em abril, com mais de 200 mil observações diárias de taxistas tradicionais ao longo de 2024, encontrou queda de 11% na renda média diária desses profissionais depois da chegada dos carros autônomos, além de jornadas mais longas, mais estresse e mais motoristas em busca de outra ocupação3. Cidades americanas como San Francisco registraram o mesmo padrão: o valor pago por corrida aos taxistas caiu depois que os robotáxis passaram a competir pelas mesmas ruas.

Nem tudo tem corrido sem sobressaltos. Em abril, uma falha de sistema parou de forma abrupta mais de 100 robotáxis no meio de vias em Wuhan. Cinco meses antes, um apagão de energia havia interrompido a operação de carros autônomos em San Francisco. São episódios que lembram que a tecnologia, mesmo em fase avançada de operação comercial, ainda tem limites operacionais relevantes.

Por que a profissão de motorista importa tanto para quem está começando de novo

O dado mais revelador da coluna de Clark vem de um estudo sueco. Na Suécia, mais de 60% dos taxistas nasceram fora do país, e a pesquisa mostrou que a renda mensal de imigrantes salta quase 50% depois que eles passam no exame escrito exigido para dirigir táxi. Ao mesmo tempo, a dependência desses trabalhadores de benefícios sociais cai 25%2.

A explicação não é só financeira. Dirigir por aplicativo ou por táxi permite trabalhar em horários flexíveis, sem exigir domínio fluente do idioma local nem diplomas que empregadores reconheçam de imediato, algo raro em profissões formais que dependem de escala fixa, como limpeza ou cozinha industrial. Um pesquisador da Universidade de Uppsala que participou do estudo sueco pondera que a leitura otimista de que "a tecnologia sempre cria outro emprego em algum lugar" tende a ignorar que imigrantes já enfrentam taxas de desemprego mais altas em boa parte da União Europeia2.

Para quem chega recomeçando em outro país, dirigir costuma ser a ponte mais rápida entre desembarcar e se sustentar.

O retrato brasileiro: quase dois milhões de motoristas e regras ainda em rascunho

No Brasil, o pano de fundo é diferente do europeu, mas a escala do problema é, se possível, maior. Levantamento da fintech GigU, divulgado em 2025, apontou o país como o que tem o maior número absoluto de motoristas cadastrados na Uber no mundo: 1,4 milhão de profissionais, quase 18% de toda a base global da empresa5. Somando quem trabalha para os principais aplicativos de transporte e entrega (Uber, 99, iFood e Zé Delivery), pesquisa do Cebrap com a Amobitec chegou a mais de 1,66 milhão de motoristas e entregadores ativos, enquanto reportagens recentes já falam em cerca de 2 milhões de brasileiros vivendo dessa renda67.

Diferentemente de Londres ou da Suécia, no caso brasileiro esse contingente não é composto majoritariamente por imigrantes recém-chegados, mas a lógica de porta de entrada se repete de outra forma: para brasileiros desempregados, e também para uma parcela de venezuelanos e haitianos que enfrentam dificuldades de revalidação de diploma e de domínio do português, o volante costuma ser o caminho mais rápido até a primeira renda. É um trabalho que, no entanto, já nasce precário, sem os direitos trabalhistas de um vínculo formal, o que torna qualquer impacto futuro dos robotáxis ainda mais sensível por aqui.

A boa notícia, do ponto de vista regulatório, é que o Brasil está distante do momento em que um carro sem motorista poderia efetivamente substituir esses profissionais. O Código de Trânsito Brasileiro exige condutor habilitado ao volante e, segundo o Ministério dos Transportes, não existe hoje legislação específica que autorize a circulação de veículos totalmente autônomos no país9. O Projeto de Lei 1317/2023, do deputado Alberto Fraga, tenta preencher essa lacuna: prevê cadastro nacional dos veículos, seguro obrigatório contra acidentes e testes prévios autorizados pelo Contran antes de qualquer circulação comercial. A proposta avançou na Comissão de Viação e Transportes da Câmara em 2025, mas ainda depende de aprovação na Comissão de Constituição e Justiça, no plenário da Câmara e no Senado para virar lei7.

O que isso significa na prática

Enquanto a lei não muda, nenhum carro pode circular legalmente pelas ruas brasileiras sem um condutor humano habilitado no banco do motorista, mesmo que o veículo tenha recursos avançados de piloto automático. Isso dá ao país um intervalo de tempo que outras economias já não têm mais: espaço para desenhar política pública antes que o problema chegue, e não depois.

Contraponto: nem toda a conta fecha no vermelho

A indústria de robotáxis argumenta que boa parte dos empregos eliminados na direção reaparece em outras funções: limpeza, manutenção e reposicionamento das frotas, operação remota de veículos à distância e suporte técnico. Em Nashville, onde a Lyft passou a oferecer corridas em robotáxis da Waymo pelo próprio aplicativo, metade dos 72 funcionários de um depósito de operações veio justamente do quadro de ex-motoristas, em vagas descritas como mais estáveis e, em alguns casos, mais bem remuneradas.

Executivos de Lyft e Uber também apostam em um modelo híbrido, no qual o próprio motorista de hoje se torna dono do veículo autônomo de amanhã, disponibilizando-o na plataforma sem precisar dirigir. É uma aposta ainda especulativa, mas que evita tratar a automação como um jogo de soma zero entre humanos e máquinas.

Modelagens de mercado, ainda assim, projetam um cenário bem mais duro no longo prazo: a expansão dos robotáxis poderia eliminar até 76% das vagas de motorista de linha de frente, incluindo táxi e transporte por aplicativo. Algumas cidades americanas já reagem taxando operadores de veículos autônomos e usando o dinheiro arrecadado para financiar a requalificação de taxistas. É um modelo que autoridades brasileiras, municipais e federais, fariam bem em observar antes que a discussão deixe de ser hipotética.

O que observar daqui para frente

A curadoria d'O Tecido vai acompanhar três frentes com atenção: a tramitação do PL 1317/2023 no Congresso, o comportamento dos grandes aplicativos de transporte no Brasil diante da pressão global por automação, e os primeiros dados nacionais, ainda inexistentes, sobre o efeito da automação veicular na renda de quem hoje vive de dirigir. Nenhuma dessas frentes tem desfecho certo, mas todas already começaram a se mover.

Este artigo utiliza como ponto de partida a coluna "Robotaxis are coming for important jobs and immigrants will bear the brunt", de Pilita Clark, publicada originalmente pelo Financial Times e disponível em ft.com. Trechos e dados citados foram reelaborados e contextualizados para o público brasileiro, com pesquisa adicional independente da redação. Nenhuma parte do texto original foi reproduzida ou traduzida integralmente.

Perguntas frequentes

O que é, afinal, um robotáxi?

É um veículo de transporte de passageiros capaz de operar sem motorista humano, usando sensores, câmeras e inteligência artificial para tomar decisões de condução. Difere de recursos como piloto automático adaptativo, que ainda exigem atenção constante de quem está ao volante.

Robotáxis já podem circular legalmente no Brasil?

Não. O Código de Trânsito Brasileiro exige condutor habilitado no veículo, e o Ministério dos Transportes confirma que não há legislação específica para veículos totalmente autônomos. Um projeto de lei que criaria essas regras (PL 1317/2023) ainda tramita no Congresso.

Quantos motoristas de aplicativo existem no Brasil hoje?

O Brasil tem 1,4 milhão de motoristas cadastrados só na Uber, o maior contingente do mundo na plataforma. Somando outros aplicativos de transporte e entrega, estimativas recentes falam em cerca de 2 milhões de brasileiros que vivem dessa renda.

Por que imigrantes são particularmente afetados pela chegada dos robotáxis?

Historicamente, dirigir táxi ou carro de aplicativo é uma das formas mais rápidas de imigrantes conseguirem renda em um novo país, por exigir pouca burocracia de reconhecimento profissional e permitir jornadas flexíveis. Um estudo sueco mostrou aumento de quase 50% na renda de imigrantes após virarem taxistas.

Os robotáxis vão eliminar mais empregos do que criam?

Os dados ainda são mistos. Um estudo em Wuhan mostrou queda de 11% na renda de taxistas após a chegada dos robotáxis, e modelagens apontam corte de até 76% nas vagas de motorista no longo prazo. Ao mesmo tempo, surgem novas funções em manutenção, limpeza de frota e operação remota.