TECNOLOGIA Atualizado em 19 de agosto de 2026

Em agosto, a feira de Yizhuang, na periferia de Pequim, vai reunir compradores de robôs vindos do Sudeste Asiático, do Oriente Médio e da América Latina. A Conferência Mundial de Robôs de 2026 reservou um dia inteiro para negócios de compra e venda, algo raro em eventos do setor, normalmente voltados a demonstrações técnicas. Um produtor rural tailandês pode procurar um robô pulverizador. Uma empreiteira saudita pode avaliar cães-robôs para inspeção de obras. Um produtor latino-americano pode perguntar o preço de uma colhedora automatizada. A lógica ali é comercial: o que essa máquina resolve.

Do outro lado do Pacífico, o debate segue outro roteiro. No fim de julho, a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) atualizou sua "Covered List", a lista de equipamentos considerados ameaça à segurança nacional, para incluir robôs humanoides e quadrúpedes de fabricação estrangeira[2]. A medida, formalizada no Aviso Público DA 26-786, impede que novos modelos desses robôs obtenham a autorização necessária para entrar no mercado americano[5].

O que muda, na prática

A restrição não é retroativa. Robôs já autorizados antes da decisão continuam podendo ser vendidos, importados e comercializados nos Estados Unidos, e quem já possui um desses equipamentos não precisa devolvê-lo[3]. O que fica bloqueado são os modelos novos, aqueles que ainda buscam autorização da FCC. Na prática, isso tende a travar o lançamento de gerações futuras de robôs estrangeiros no país, mesmo que a linha atual continue em prateleiras.

Segundo análise da consultoria jurídica Sidley Austin, a decisão da FCC não nasceu isolada. Ela se apoia em determinações de segurança nacional que já haviam colocado drones e roteadores domésticos chineses sob o mesmo tipo de restrição nos últimos meses[5]. O órgão regulador americano cita, entre outros pontos, falhas de segurança identificadas em robôs quadrúpedes de fabricantes chineses, incluindo um episódio de 2025 em que uma vulnerabilidade teria permitido a um invasor tomar controle remoto de unidades e mapear outros robôs próximos, hipótese descrita como risco de uma espécie de "botnet" de humanoides[5].

"A pergunta não deveria ser de onde o robô veio. Deveria ser o que ele pode fazer por nós."

Foi essa frase, do artigo de opinião do pesquisador Huang Rihan, diretor do Instituto Maritime Silk Road da Universidade Huaqiao, publicado no China Daily, que resume a posição de Pequim[1]. Para o autor, o receio diante de tecnologia nova não é novidade histórica, dos teares mecânicos às primeiras câmeras fotográficas, e caução regulatória não deveria significar fechamento de mercado. Ele defende um modelo próximo ao de segurança em aeroportos: todo equipamento é inspecionado, mas nenhum é recusado apenas por causa de sua origem[1].

A dianteira industrial chinesa

Por trás do debate regulatório está uma disputa por participação de mercado que já tem vencedor provisório. Levantamentos do setor apontam que a China concentrava cerca de 80% dos embarques mundiais de robôs humanoides em 2025, com fabricantes como Unitree e AgiBot puxando a expansão, e a expectativa é de que essa fatia cresça ainda mais em 2026[4]. No segmento de robôs quadrúpedes, o artigo do China Daily cita uma proporção semelhante, próxima de oito em cada dez unidades vendidas no mundo tendo origem chinesa[1].

O argumento chinês é que essa liderança não veio do isolamento, mas do oposto: décadas recebendo fábricas estrangeiras, componentes importados e concorrência interna intensa, o que teria forçado empresas locais a evoluir passo a passo em atuadores, sensores e sistemas de controle[1]. Já a leitura em Washington é a de que essa mesma abertura, somada à natureza sensível de máquinas com câmeras, microfones e conexão constante à internet, criou uma vulnerabilidade que a nova regra tenta fechar antes que se torne dependência estrutural do mercado americano.

Por que isso chega ao Brasil

A discussão não é apenas geopolítica. Ela toca diretamente um problema que a indústria brasileira já enfrenta: a falta de gente qualificada para o chão de fábrica. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, 23% das empresas industriais relatavam dificuldade para encontrar mão de obra qualificada em 2026, ante apenas 5% em 2020[8]. Uma pesquisa da FGV Ibre citada por entidades do setor de esquadrias mostra número ainda maior, com quase 59% das empresas relatando dificuldade para contratar ou reter funcionários[7].

É nesse contexto que 48% das empresas industriais brasileiras planejam investir em robôs multifuncionais até o fim de 2026, segundo estudo recente do setor, e o argumento não costuma ser cortar postos de trabalho, mas preencher vagas que simplesmente não encontram candidatos[6]. A pergunta prática para o comprador brasileiro, seja uma fábrica em Manaus ou uma cooperativa agrícola no interior de São Paulo, tende a ser a mesma do artigo do China Daily: qual robô resolve meu problema e a que custo, independentemente de onde ele foi fabricado.

Contraponto

Nem todos veem a restrição americana como protecionismo disfarçado. Executivos de empresas ocidentais do setor, como a fabricante americana Boston Dynamics, manifestaram apoio público à medida da FCC, argumentando que padrões de segurança cibernética claros são pré-condição para que a indústria robótica cresça de forma confiável, e não um obstáculo à inovação[3]. Sob essa ótica, a "Covered List" não fecha a porta à concorrência estrangeira em si, mas condiciona o acesso ao mercado a um crivo técnico que, segundo seus defensores, deveria existir independentemente do país de origem do fabricante.

O que parece certo é que nenhuma das duas posições resolve sozinha o problema de fundo descrito pelo autor chinês: uma cadeia produtiva de robótica é como uma floresta, formada por fornecedores de motores, montadoras, integradores e um mercado disposto a testar e errar, e isso não se constrói da noite para o dia, nem se substitui apenas com uma barreira regulatória[1]. Para o Brasil, que ainda importa a maior parte da tecnologia de automação que utiliza, o desfecho dessa disputa entre Washington e Pequim vai influenciar diretamente o preço, a disponibilidade e a origem dos robôs que chegarão às fábricas e ao campo nos próximos anos.

Perguntas frequentes

O que é a "Covered List" da FCC?

É uma lista de equipamentos e serviços de comunicação considerados risco à segurança nacional dos Estados Unidos, mantida desde 2019, que impede a autorização de novos modelos desses produtos no mercado americano.

A medida proíbe o uso de robôs chineses já vendidos nos EUA?

Não. A restrição vale apenas para novos modelos que buscam autorização a partir da decisão de julho de 2026. Equipamentos já autorizados continuam podendo ser vendidos e utilizados normalmente.

Qual a participação da China no mercado global de robôs humanoides?

Estimativas do setor indicam que fabricantes chineses responderam por cerca de 80% dos embarques mundiais de robôs humanoides em 2025, com expectativa de crescimento dessa fatia em 2026.

Por que a escassez de mão de obra no Brasil está ligada a esse debate?

Parte relevante da indústria brasileira relata dificuldade crescente para contratar trabalhadores qualificados, o que tem impulsionado planos de investimento em automação e robótica multifuncional como resposta prática ao problema.

Este artigo foi inspirado no texto de opinião "Robots need open doors, not visas", de Huang Rihan, publicado pelo China Daily em 19 de agosto de 2026. Leia o original em: chinadaily.com.cn.
Ewerton Lopes — Curador Editorial