Durante três décadas, a internet foi descrita como uma praça pública global, um espaço onde qualquer pessoa, de qualquer país, poderia ler, publicar e conversar sem pedir licença. Em 2026, dois movimentos simultâneos colocam essa imagem em xeque. O primeiro é estatístico: segundo a Cloudflare, os robôs passaram a gerar mais tráfego do que os seres humanos. O segundo é político: governos, provedores de infraestrutura e plataformas estão redesenhando a rede em fatias regionais, cada uma com regras próprias de acesso e visibilidade. O colunista Alain McKenna, do jornal canadense La Presse, resume o diagnóstico com uma pergunta direta: a internet está quebrada?1 A resposta exige menos alarme e mais precisão sobre o que exatamente mudou.
O ponto de virada que chegou antes do previsto
Em junho, Matthew Prince, CEO da Cloudflare, empresa que filtra e protege o tráfego de uma parcela relevante dos sites do mundo, anunciou que os robôs haviam ultrapassado os humanos pela primeira vez na história da internet. Ele próprio admitiu a surpresa: a projeção da empresa apontava para o fim de 2027. Na ocasião, o painel público da companhia, o Cloudflare Radar, registrava 57,4% das requisições vindas de robôs, contra 42,6% de humanos2. Segundo o diretor financeiro da empresa, Thomas Seifert, o cruzamento efetivo ocorreu em maio, e Prince chegou a projetar que as máquinas poderão gerar cerca de mil vezes o volume humano em cinco anos, com a ressalva de que errou em todas as previsões anteriores.
De acordo com o levantamento citado pela La Presse, a fatia automatizada seguiu crescendo e hoje se aproxima de dois terços do tráfego medido1. Antes da era da IA generativa, a referência mais citada no setor girava em torno de 20%.
O motor dessa mudança não são os rastreadores tradicionais de buscadores, mas os chamados agentes de IA, aplicações que executam tarefas em nome do usuário. Como observou o diário argentino El Economista, um único agente encarregado de comprar uma câmera pode visitar milhares de páginas, enquanto uma pessoa abriria apenas algumas. Outros medidores apontam na mesma direção. O relatório anual da HUMAN Security indica que o tráfego automatizado cresceu oito vezes mais rápido que o humano em 20254, e o estudo Bad Bot 2026, da Thales/Imperva, estimou que os robôs responderam por 53% do tráfego global no ano passado, sendo 40% dessa parcela classificada como maliciosa3.
Tráfego não é população
O número exige leitura cuidadosa. O indicador da Cloudflare mede requisições de páginas HTML que passam pela rede da empresa, e não quantas pessoas ou máquinas estão conectadas. Em outras palavras, a maioria das visitas é feita por robôs, o que não significa que existam mais robôs do que usuários. Além disso, a Cloudflare enxerga aproximadamente um quinto do tráfego da web, e sua classificação entre humano e automatizado é probabilística e baseada em modelos proprietários, que pesquisadores externos não conseguem reproduzir. A tendência é robusta porque aparece em medidores independentes; a cifra exata, nem tanto.
Uma web reescrita para leitores de máquina
A La Presse aponta dois efeitos colaterais dessa virada1. O primeiro é editorial: sites e plataformas passam a organizar seu conteúdo para agradar aos robôs, e não às pessoas. Se a maioria dos clientes de um restaurante faz pedidos por meio de um assistente de IA, o cardápio será formatado para ser compreendido pela máquina, ainda que isso torne a experiência humana menos intuitiva.
Há uma consequência econômica direta. Métricas de audiência, impressões de anúncios e assinaturas foram construídas sobre a premissa de que uma página carregada corresponde a um par de olhos humanos. Quando a maior parte das cargas vem de agentes, essa premissa deixa de valer. Prince afirma que o futuro da web será o modelo de "pagar para rastrear", no qual robôs remuneram os sites que consomem. A própria plataforma lançada pela Cloudflare com esse objetivo, porém, ainda não ganhou tração.
Este jornal não está fora do fenômeno. Textos como este são estruturados com perguntas frequentes, glossário e dados marcados para que mecanismos de IA possam citá-los com precisão, prática conhecida como GEO, ou otimização para motores generativos. A diferença relevante não está entre escrever para humanos ou para máquinas, e sim entre adaptar a forma preservando a verificabilidade do conteúdo ou sacrificar o conteúdo para caber no formato.
A pergunta deixou de ser quem acessa a internet. Passou a ser quem a internet foi desenhada para servir.O Tecido · Análise editorial
O risco do colapso de modelo
O segundo efeito descrito pela La Presse é técnico: o chamado colapso de modelo, a degradação que ocorre quando sistemas de IA são treinados com conteúdo gerado por outras IAs1. O conceito ganhou formulação rigorosa em estudo publicado na revista Nature em julho de 2024, liderado por Ilia Shumailov, então em Oxford5. Os pesquisadores treinaram um modelo de linguagem com verbetes da Wikipédia e realimentaram o sistema com seus próprios resultados por nove gerações. Segundo a cobertura da Singularity Hub, os modelos passaram a repetir frases e, antes do colapso completo, começaram a "esquecer" temas pouco frequentes nos dados.
Esse esquecimento seletivo é o ponto mais relevante para o debate público. Um modelo que perde a cauda longa da informação tende a sub-representar línguas minoritárias, realidades regionais e conhecimento especializado. Para um país como o Brasil, cujo conteúdo em português já ocupa espaço menor nos grandes conjuntos de treinamento, o risco não é abstrato.
Fronteiras digitais: quando a infraestrutura vira alavanca
A segunda metade do diagnóstico trata de algo mais antigo do que os agentes de IA: a capacidade de empresas privadas e governos de decidir o que circula, onde e com qual velocidade. Outubro ofereceu três exemplos.
Starlink na Ucrânia
Na madrugada de 13 para 14 de outubro, autoridades ucranianas relataram que os terminais Starshield, a versão militar do Starlink, passaram a perder conexão acima de cerca de 160 km/h, o que afetou drones interceptadores usados contra ataques russos. O presidente Volodymyr Zelensky afirmou ao Kyiv Independent que testes com veículos em países da União Europeia mostraram que o limite valia apenas em território ucraniano, e classificou o episódio como uma operação planejada6. Elon Musk declarou que a empresa jamais desligaria os terminais nem os usaria como instrumento de barganha, e o presidente Donald Trump negou envolvimento, embora o britânico The Telegraph tenha publicado versão em sentido contrário com base em quatro fontes.
TikTok e o documentário sobre Musk
Segundo a La Presse, o TikTok proibiu qualquer publicidade, em sua rede, de um documentário crítico sobre Elon Musk1. O caso é menor em escala, mas ilustra o mesmo padrão: decisões de alcance tomadas sem regras públicas e sem possibilidade de contestação.
Meta e a eleição brasileira
No Brasil, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou a Meta de reduzir o alcance de suas publicações e de favorecer o adversário no segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro. A empresa negou tratamento desigual e atribuiu o problema a uma falha global em seu Gerenciador de Anúncios, causada por uma atualização de código em 9 de outubro, acrescentando que a campanha de Flávio Bolsonaro também relatou falhas. Em 15 de outubro, o ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral, proibiu a Meta de limitar o alcance de conteúdos políticos relacionados a ambos os candidatos e determinou a suspensão de anúncios eleitorais pagos por contas estrangeiras7. O plenário referendou a decisão no dia seguinte, com multa diária de R$ 500 mil em caso de descumprimento. As medidas valem igualmente para as duas candidaturas e terminam com o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
O ponto comum aos três episódios não é a intenção, que segue em disputa em cada caso, mas a estrutura: infraestruturas privadas exercem funções públicas, e as decisões que alteram o que milhões de pessoas veem ou conseguem fazer chegam ao público como falhas técnicas, comunicados unilaterais ou ordens judiciais emergenciais.
Do efeito Bruxelas ao efeito Canberra
Os Estados também redesenham a rede. Regimes autoritários, como o chinês, controlam há anos o que circula em suas redes internas. A novidade, segundo a La Presse, é que democracias seguem caminho semelhante por outras razões1. O "efeito Bruxelas" já descrevia como as regras digitais da União Europeia se espalham pelo mundo. A especialista em regulação e tecnologia Bronwyn Howell propôs neste ano um termo complementar, o "efeito Canberra", em referência à Austrália, que foi pioneira ao exigir verificação de idade em redes sociais. A ideia chegou à Europa, ao Canadá e aos Estados Unidos.
O argumento de Howell, relatado pela La Presse, tem dois passos. Como as regras variam de país para país, a experiência de usar a internet também passa a variar. E como apenas as grandes plataformas têm recursos para cumprir dezenas de regimes diferentes, a solução mais barata é adotar globalmente a versão mais rígida de todas1. O resultado seria uma rede simultaneamente mais fragmentada e mais concentrada. Um relatório produzido para o Parlamento Europeu já listava, entre as ameaças à internet unificada, o alinhamento da rede com fronteiras territoriais e a crescente concentração da economia digital8.
O Brasil no meio da corrente
O Brasil participa dos dois movimentos. Do lado da escala, o país registrou 168,7 milhões de usuários de internet no quarto trimestre de 2025, o equivalente a 90,5% da população com 10 anos ou mais, segundo a PNAD TIC do IBGE9. É um mercado grande o bastante para que agentes de IA o rastreiem intensamente e para que plataformas o tratem como prioridade regulatória.
Do lado da regulação, o Brasil é parte do efeito Canberra. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, a Lei nº 15.211/2025, conhecido como ECA Digital, entrou em vigor em 17 de março de 2026 e proibiu a autodeclaração de idade em serviços restritos a menores de 18 anos10. A fiscalização cabe à Agência Nacional de Proteção de Dados, transformada em agência reguladora no mesmo ano. Pelo cronograma divulgado pela autarquia, as sanções administrativas devem começar em novembro de 2026, e a fiscalização formal, em janeiro de 2027. Antes da vigência, o Cetic.br, vinculado ao NIC.br, mapeou as práticas de aferição de idade de 25 serviços digitais no país11, um ponto de partida útil para avaliar se as exigências serão cumpridas de forma proporcional ou apenas burocrática.
Se a tese de Howell estiver correta, o ECA Digital produzirá efeitos além do público que pretende proteger: plataformas tenderão a aplicar mecanismos de verificação de forma ampla, e serviços menores, inclusive brasileiros, enfrentarão custos de conformidade que as grandes empresas absorvem com facilidade. Se estiver errada, o Brasil terá apenas corrigido uma lacuna antiga de proteção infantil. A resposta depende menos da lei e mais da forma como a ANPD calibrar os requisitos técnicos.
Três objeções ao diagnóstico da "internet quebrada"
- A medição é parcial. O dado mais citado vem de uma única empresa, que observa cerca de um quinto da web e classifica o tráfego com modelos fechados. Mais requisições automatizadas não implicam, por si só, uma experiência humana pior.
- O colapso de modelo não é inevitável na prática. O experimento da Nature supôs a substituição total de dados humanos por sintéticos. Pesquisadores de Stanford indicaram que, quando dados sintéticos se acumulam ao lado dos reais, o colapso catastrófico se torna menos provável, e especialistas ouvidos pelo Science Media Centre da Espanha classificaram o valor do estudo como sobretudo teórico.
- Regulação nacional também é soberania. Para parte dos analistas, como os autores reunidos no projeto Tecnologia em Disputa, do site Outras Palavras, o discurso contra a fragmentação costuma defender um status quo de governança concentrado nos Estados Unidos. Regras locais sobre proteção infantil, dados e eleições podem reforçar o pluralismo, desde que acompanhadas de transparência e revisão judicial.
O que está em jogo
"Quebrada" talvez seja a palavra errada. A internet funciona, e funciona cada vez melhor para quem tem escala: empresas capazes de operar agentes em massa, plataformas capazes de cumprir dezenas de regimes jurídicos simultâneos e provedores cuja infraestrutura se tornou indispensável para Estados em guerra ou em eleição. O que se perdeu foi a premissa de neutralidade relativa que sustentava a imagem da aldeia global. Para o Brasil, as perguntas práticas são três: quem audita as decisões de alcance das plataformas fora do período eleitoral, como garantir que a verificação de idade não se converta em barreira de entrada para serviços nacionais, e como preservar conteúdo em português produzido por pessoas em uma rede cada vez mais lida e escrita por máquinas.
Perguntas frequentes
É verdade que há mais robôs do que pessoas na internet?
Não exatamente. Dados do Cloudflare Radar mostram que, desde maio de 2026, a maioria das requisições de páginas web que passam pela rede da Cloudflare é automatizada. O indicador mede tráfego, não indivíduos: a maior parte das visitas é feita por robôs, mas isso não significa que existam mais robôs do que usuários humanos.
Por que o tráfego de robôs cresceu tão rápido em 2026?
O principal fator são os agentes de inteligência artificial, aplicações que executam tarefas em nome do usuário, como pesquisar preços ou fazer compras. Um único agente pode visitar milhares de páginas para cumprir uma tarefa que uma pessoa resolveria com poucas visitas.
O que é colapso de modelo?
É a degradação de sistemas de IA treinados repetidamente com conteúdo gerado por outras IAs. Estudo publicado na Nature em 2024 mostrou que, ao longo de gerações, os modelos passam a repetir padrões e a esquecer informações pouco frequentes. O risco diminui quando dados humanos continuam presentes no treinamento.
O que é o efeito Canberra?
É o termo proposto pela especialista Bronwyn Howell para descrever a difusão global da exigência de verificação de idade online, iniciada na Austrália. Segundo esse raciocínio, como cumprir regras diferentes em cada país é caro, as grandes plataformas tendem a adotar a versão mais rígida em escala mundial.
O que o ECA Digital muda na internet brasileira?
A Lei nº 15.211/2025, em vigor desde 17 de março de 2026, proíbe a autodeclaração de idade como único mecanismo de verificação em serviços restritos a menores de 18 anos e atribui à ANPD a fiscalização. As sanções administrativas estão previstas para começar em novembro de 2026.
O que o TSE decidiu sobre a Meta nas eleições de 2026?
Em 15 de outubro de 2026, o TSE proibiu a Meta de limitar o alcance de conteúdos políticos sobre os dois candidatos à Presidência no segundo turno e de veicular anúncios eleitorais pagos por contas estrangeiras. A Meta negou interferência e atribuiu os problemas relatados a uma falha técnica global. As medidas valem até o fim do segundo turno.