Um rio pode carregar mais do que água. Carrega também, em concentrações que a maior parte da regulação ambiental do planeta ainda não sabe medir direito, resíduos de antibióticos, antidepressivos, anti-hipertensivos e substâncias químicas que não se degradam nunca. É essa a conclusão central de um novo levantamento conduzido pela Universidade de York, no Reino Unido, que analisou 93 rios em 31 países europeus e encontrou contaminação farmacêutica generalizada, inclusive em regiões consideradas remotas, como cursos d'água da Islândia1.
Um retrato europeu que expõe uma lacuna global
O estudo é conduzido por Alistair Boxall, professor de Ciências Ambientais em York e um dos pesquisadores por trás do maior levantamento já feito sobre poluição farmacêutica em rios, publicado em 2022 com amostras de mais de mil pontos em 104 países15. O novo projeto europeu inclui rios espanhóis como o Manzanares, o Jarama e o Henares, este último apontado como um dos locais mais contaminados de todo o continente, sobretudo por concentrações elevadas de antibióticos associadas à atividade industrial da região1.
Segundo o levantamento, a Espanha aparece em segundo lugar entre os países europeus com as maiores concentrações médias de fármacos em seus rios, atrás apenas da Romênia1. O dado importa para além da geografia ibérica: ele confirma um padrão que pesquisas anteriores já vinham descrevendo em outras partes do mundo, incluindo a América do Sul, onde rios em países de renda média e baixa costumam concentrar os piores índices justamente por combinarem alto consumo de medicamentos com infraestrutura de saneamento incompleta3.
Metformina, sulpirida e o problema dos antibióticos
Entre as substâncias mais recorrentes está a metformina, usada no tratamento do diabetes tipo 2, cuja presença reflete tanto a prevalência da doença quanto as altas doses prescritas aos pacientes1. Aparecem também cafeína, cotinina (produto de degradação da nicotina), o antipsicótico sulpirida e a carbamazepina, usada no tratamento de epilepsia1. Mas é a presença de antibióticos em concentrações elevadas, especialmente no rio Henares, que mais preocupa pesquisadores, por seu papel documentado na aceleração da resistência antimicrobiana1.
PFAS: os compostos que a regulação não alcança
O estudo também mapeou a presença de PFAS, os chamados poluentes eternos, em praticamente todas as amostras coletadas. As concentrações individuais são baixas, mas os limites de segurança propostos para essas substâncias também são extremamente baixos, o que coloca vários rios europeus em situação de risco segundo os próprios parâmetros regulatórios1.
O ponto mais incômodo da entrevista talvez seja estrutural: a regulação química europeia monitora sistematicamente menos de 50 substâncias, enquanto a sociedade utiliza algo próximo de 350 mil compostos químicos diferentes. Isso significa, segundo Boxall, que a fiscalização olha apenas para a ponta de um problema muito maior, deixando de fora milhares de moléculas que provavelmente já afetam ecossistemas aquáticos e, possivelmente, a saúde humana1.
O Brasil também está no mapa da contaminação
Embora o novo estudo de Boxall seja europeu, o país já apareceu em levantamentos anteriores conduzidos pelo mesmo grupo de pesquisa. O estudo de 2022, que testou mais de mil pontos amostrais ao redor do mundo, incluiu rios na Amazônia, no Nordeste e no Sudeste brasileiro, com contaminação farmacêutica detectada em todas as amostras nacionais4.
Pesquisas conduzidas por universidades e institutos brasileiros reforçam esse quadro. Um levantamento no rio Atibaia, em São Paulo, identificou antibióticos como amoxicilina, cefalexina e norfloxacino, entre os fármacos antimicrobianos mais comercializados no país7. Já pesquisadores da Fiocruz encontraram claritromicina, sulfametoxazol e azitromicina em água bruta e tratada nas bacias que abastecem a cidade do Rio de Janeiro, junto a milhares de genes de resistência antimicrobiana identificados por metagenômica9.
O Instituto Oswaldo Cruz também registrou, durante a pandemia, um salto de mais de três vezes na detecção de bactérias resistentes a antibióticos em amostras hospitalares monitoradas entre 2019 e 2021, um sinal de que a pressão seletiva sobre micro-organismos não vem apenas do uso clínico direto, mas também da circulação ambiental contínua dessas moléculas8.
Saneamento incompleto como fator agravante
O elo entre poluição farmacêutica e infraestrutura sanitária é direto. Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, com ano de referência 2023, mostram que 59,7% da população brasileira tem acesso à rede coletora de esgoto e que 78,7% do volume coletado recebe algum tipo de tratamento antes de retornar aos corpos d'água11. Isso deixa uma parcela expressiva do esgoto nacional sendo despejada sem qualquer tratamento em rios, córregos e igarapés, o mesmo caminho percorrido pelos resíduos de medicamentos excretados pelo corpo humano.
O Instituto Trata Brasil calcula que mais de 90 milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso à coleta de esgoto, com forte concentração de déficit nas regiões Norte e Nordeste10. Some-se a isso um hábito de descarte inadequado de medicamentos: estudos brasileiros indicam que a maioria da população joga remédios vencidos no lixo comum ou no vaso sanitário, prática que alimenta diretamente a presença de fármacos em cursos d'água6.
Por que as estações de tratamento não resolvem sozinhas
Um ponto técnico explica boa parte do problema, tanto na Europa quanto no Brasil: as estações de tratamento de esgoto foram projetadas para remover matéria orgânica em grandes quantidades, não para capturar micropoluentes presentes em concentrações mínimas, como fármacos e desreguladores endócrinos2. Estudos brasileiros estimam taxas de remoção que variam bastante conforme a molécula, indo de cerca de 70% para parte dos fármacos até percentuais bem menores para antibióticos e para a carbamazepina, um dos compostos mais persistentes5.
Isso não é uma falha isolada de operação, mas um problema de desenho original do sistema. Modernizar estações de tratamento para remover micropoluentes exige tecnologia adicional, como oxidação avançada ou filtração por carvão ativado, o que eleva custos em um setor que, no Brasil, já enfrenta déficit crônico de investimento.
Contraponto
Nem todos os especialistas veem a regulação química como o gargalo mais urgente. Parte da indústria farmacêutica argumenta que a prioridade deveria ser investir em saneamento básico e em programas de descarte responsável de medicamentos, medidas de custo mais imediato e efeito comprovado, antes de redesenhar moléculas terapêuticas, um processo caro, demorado e que pode reduzir a eficácia clínica de tratamentos essenciais. Há também quem questione se o risco à saúde humana já está de fato demonstrado com o rigor científico necessário para justificar novas exigências regulatórias, distinguindo entre efeitos observados em laboratório e efeitos confirmados em populações expostas cronicamente em condições reais.
O que pode ser feito
Boxall aponta três frentes possíveis: substituir, quando houver alternativa terapêutica equivalente, medicamentos com maior risco ambiental documentado; investir em tecnologias de tratamento capazes de remover micropoluentes nas estações de esgoto; e, a médio prazo, pressionar a indústria farmacêutica a considerar o impacto ambiental já na fase de desenho de novos fármacos, sem comprometer sua função terapêutica1.
Para o Brasil, a agenda tem um ponto de partida mais básico e menos glamouroso: ampliar a cobertura de coleta e tratamento de esgoto, hoje ainda distante da meta de universalização prevista para 2033 pelo marco legal do saneamento10. Sem isso, qualquer debate sobre regulação de fármacos específicos corre o risco de discutir o sintoma e ignorar a causa estrutural.
Perguntas frequentes
O que o novo estudo europeu sobre contaminação de rios descobriu?
O levantamento liderado por Alistair Boxall, da Universidade de York, analisou 93 rios em 31 países europeus e encontrou contaminação farmacêutica generalizada, incluindo em regiões remotas como a Islândia. A Espanha aparece como o segundo país europeu com maior concentração média de fármacos nos rios, atrás da Romênia, e o rio Henares, na região de Alcalá de Henares, foi identificado como um dos pontos mais contaminados do estudo.
Quais medicamentos são mais encontrados nos rios?
Entre os compostos mais frequentes estão a metformina (usada no diabetes tipo 2), a sulpirida (antipsicótico), a carbamazepina (usada em epilepsia) e diversos antibióticos, além de cafeína e cotinina, um subproduto da nicotina.
O Brasil enfrenta o mesmo problema de contaminação farmacêutica em rios?
Sim. Estudos anteriores da mesma linha de pesquisa já haviam detectado contaminação farmacêutica em rios da Amazônia, do Nordeste e do Sudeste brasileiro. Pesquisas locais também identificaram antibióticos no rio Atibaia (SP) e genes de resistência antimicrobiana nas bacias que abastecem o Rio de Janeiro, em um cenário agravado pela cobertura ainda incompleta de coleta e tratamento de esgoto no país.
Por que as estações de tratamento de esgoto não removem esses poluentes?
A maioria das estações de tratamento foi projetada para remover matéria orgânica em grandes volumes, não para capturar micropoluentes presentes em concentrações muito baixas, como fármacos e desreguladores endócrinos. Remover essas substâncias exige tecnologias adicionais, mais caras, que ainda não são padrão na maior parte das estações brasileiras e de boa parte do mundo.
Qual é a relação entre poluição farmacêutica em rios e resistência antimicrobiana?
A exposição contínua de bactérias presentes em rios a resíduos de antibióticos favorece a seleção de micro-organismos resistentes, um processo que pode depois afetar a eficácia de tratamentos em humanos. A Organização Mundial da Saúde estima cerca de 1,27 milhão de mortes anuais associadas diretamente à resistência antimicrobiana no mundo, com o Brasil registrando cerca de 34 mil mortes diretamente atribuídas ao problema por ano.