Economia · Energia · Comércio global
Este artigo tem como ponto de partida a análise de Carol Ryan publicada no The Wall Street Journal em 30 de setembro de 2026, "China Has the Power to Bail Out the Diesel Market. Will It Use It?". Os dados atribuídos ao WSJ são creditados ao longo do texto. A análise, o contexto brasileiro e as demais fontes são de responsabilidade de O Tecido.

O mundo procura diesel, e o país com mais capacidade para produzi-lo prefere, por enquanto, guardá-la. Enquanto as refinarias dos Estados Unidos trabalham perto de 97% de utilização, as chinesas operam em torno de 75% da capacidade máxima, segundo dados da consultoria Vortexa citados pelo The Wall Street Journal1. É a maior folga de refino do planeta, e ela está em Pequim, não em Washington.

A diferença importa porque o diesel virou o gargalo da economia global em 2026. Nos Estados Unidos, a média nacional chegou a US$ 6,53 por galão em 22 de setembro, quase 77% acima de um ano antes, segundo dados da AAA compilados pelo Chase3. O recorde anterior, de junho de 2022, caiu logo no início do mês. Na Costa do Golfo, a margem entre o diesel e o petróleo bruto ultrapassou US$ 100 por barril, cerca de cinco vezes o patamar anterior ao conflito no Oriente Médio, de acordo com o American Action Forum2.

Por que o diesel virou o combustível mais escasso de 2026

Três choques se sobrepuseram. O primeiro é a guerra com o Irã, iniciada no fim de fevereiro, que interrompeu repetidamente o tráfego no Estreito de Ormuz. O segundo veio da Rússia, historicamente o segundo maior exportador de diesel do mundo, que proibiu as vendas externas do combustível em 9 de julho e estendeu o veto até o fim de 2026 após ataques ucranianos a suas refinarias, como relata o Utah News Dispatch6. Segundo a Newsweek, esses ataques reduziram a produção russa de diesel em quase 30%5. O terceiro é estrutural: com as refinarias americanas no limite, não há de onde tirar volume extra no curto prazo.

Foi nesse contexto que, na cúpula realizada em Washington na semana passada, o presidente Donald Trump pediu a Xi Jinping que ampliasse as exportações chinesas de derivados1. A cinco semanas das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro, a Casa Branca também mantém sobre a mesa uma alternativa impopular entre as petroleiras: proibir a exportação de diesel americano. Trump disse que a medida está sendo considerada "muito seriamente", segundo a CNBC, e estrategistas do Morgan Stanley alertaram que o efeito poderia ser o oposto do pretendido, com diesel mais caro no mundo e repique na gasolina americana4.

2026 não é 2022: por que Pequim hesita

A China já socorreu o mercado antes. Em setembro de 2022, meses depois da invasão russa da Ucrânia, Pequim emitiu cotas extras de exportação e, em novembro daquele ano, o país embarcava cerca de 680 mil barris de diesel por dia, o que ajudou a esfriar os preços globais, lembra o WSJ1.

Desta vez, o movimento é mais tímido. Pequim restringiu as exportações de gasolina e diesel em março para proteger seus estoques e só as relaxou no meio do ano5. Os embarques de diesel em setembro chegaram a cerca de 500 mil barris diários, ante uma média de 166 mil entre abril e julho, segundo a Vortexa1. O incentivo financeiro para ir além é evidente: a margem de exportação das refinarias chinesas passou de US$ 21,40 por barril em janeiro para US$ 100,58 em setembro, segundo a Argus Media citada pelo jornal americano1.

Ainda assim, analistas ouvidos pelo WSJ não esperam uma repetição de 2022. A prioridade declarada de Pequim é o abastecimento interno, não o lucro das refinarias. O suprimento de petróleo cru está mais volátil, novas cotas poderiam recolocar compradores chineses no mercado de óleo e pressionar o barril, e a escassez de navios-tanque encareceu o frete entre o Golfo Pérsico e a China1. Sem mudar a política, as refinarias chinesas conseguiriam embarcar algo como 100 mil barris diários adicionais no quarto trimestre, usando cotas que ficaram ociosas durante a proibição do primeiro semestre.

Exportações chinesas de diesel em milhares de barris por dia Comparação entre a média de abril a julho de 2026 (166 mil), setembro de 2026 (cerca de 500 mil), setembro somado às cotas ociosas (cerca de 600 mil, estimativa) e o pico de novembro de 2022 (cerca de 680 mil). Média abr-jul 2026 Setembro 2026 Set. 2026 + cotas ociosas (estimativa) Pico nov. 2022 166 ~500 ~600 ~680
Exportações chinesas de diesel, em milhares de barris por dia. Fonte: Vortexa, via The Wall Street Journal. A barra tracejada é um cálculo de O Tecido que soma aos embarques de setembro o volume adicional estimado a partir das cotas ainda não utilizadas.

A conta ajuda a dimensionar o problema. Pela Agência Internacional de Energia, as exportações globais de diesel somaram 4,6 milhões de barris diários em agosto, contra 5,1 milhões um ano antes1. O buraco, portanto, é de cerca de meio milhão de barris por dia. As cotas chinesas ociosas cobririam algo como um quinto dessa lacuna. Ajudam, mas não resolvem.

O efeito colateral que favorece Pequim: diesel caro, energia limpa em alta

Há uma leitura que vai além do mercado de derivados. Cada mês de combustível fóssil caro melhora a conta das alternativas, e é justamente nelas que a China concentra sua vantagem industrial. Em março, logo após o início da guerra, as exportações chinesas de painéis solares atingiram o recorde de 68 gigawatts, o dobro do mês anterior, segundo o think tank Ember, que observou alta mais forte justamente nas regiões mais atingidas pela crise energética11. As exportações dos chamados "novos três" (células solares, veículos elétricos e baterias de lítio) cresceram 70% na comparação anual naquele mês, para US$ 21,6 bilhões, conforme análise do Carbon Brief12.

O movimento não se limitou a um pico. De janeiro a maio, os "novos três" somaram mais de US$ 96 bilhões em exportações, 47% acima do mesmo período de 2025 e cerca do dobro dos níveis de 2022, segundo dados do Ember reportados pela Energy Intelligence13. O mesmo Ember estima que a frota global de veículos elétricos já deslocou 1,8 milhão de barris diários de demanda por petróleo em 202511, volume mais de três vezes maior que o buraco atual no comércio mundial de diesel.

Para Pequim, segurar o diesel custa pouco. Custa caro para quem depende dele, e esses são exatamente os clientes que a indústria chinesa de painéis e baterias quer conquistar.

O ponto central não é atribuir à China uma estratégia oculta, mas reconhecer uma convergência de interesses. A decisão de priorizar o mercado interno tem justificativas próprias de segurança energética. O efeito colateral dessa prudência, porém, joga a favor do setor exportador chinês: preços altos por mais tempo aceleram decisões de governos e empresas que buscam reduzir a exposição ao petróleo, e quase todas essas decisões passam por cadeias de suprimento chinesas. A China, que eletrificou boa parte da própria economia, sente menos o choque que ajuda a prolongar.

Onde o Brasil entra nessa equação

A dependência mudou de endereço

O Brasil importa entre 25% e 30% do diesel que consome, segundo levantamento publicado pela CNN Brasil8. Até o primeiro semestre, o principal fornecedor era a Rússia, responsável por 47% do diesel importado em 2025. Com o veto de Moscou, os Estados Unidos passaram a responder por 68% das importações brasileiras em julho e agosto, segundo dados do Comex Stat, do MDIC, compilados pela eixos7. A migração foi rápida: em julho, a participação russa nas cargas agendadas já havia caído para 17%, de 64% em junho, conforme dados da Abicom reportados pelo Brazil Journal17.

O calendário agrava a exposição. Entre 2017 e 2025, as vendas de diesel em outubro ficaram em média 10% acima da média mensal, puxadas pelo plantio da safra de verão e pelo escoamento do milho7. A Petrobras já contratou cerca de 650 milhões de litros importados para o mês, segundo reportagem da Reuters repercutida pelo Click Petróleo e Gás10. Uma restrição americana às exportações atingiria o país justamente no pico da demanda agrícola. As alternativas no Oriente Médio e na Índia ficaram meses sem embarcar por causa da guerra, e a China, mesmo que libere mais volume, fica do outro lado do planeta, com frete encarecido.

O subsídio como amortecedor, e seu custo

Internamente, o governo tem segurado o preço com dinheiro público. Em 27 de setembro, prorrogou por 30 dias a subvenção de R$ 2,12 por litro, e as subvenções a combustíveis já somam R$ 47 bilhões, segundo o presidente Lula, com impacto estimado em cerca de R$ 7 bilhões por mês no pacote mais recente8. A distância entre o preço praticado pela Petrobras e a paridade de importação chegou a R$ 3,89 por litro em setembro, nível recorde calculado pela Abicom e noticiado pelo NC News9. Com uma diferença desse tamanho, importadores privados têm pouco incentivo para trazer cargas, o que concentra o risco de abastecimento na estatal.

Um amortecedor adicional vem do biodiesel. Em Paulínia, o produto chegou a ser negociado cerca de 9% abaixo do diesel importado, segundo a Raion Consultoria, citada pela CNN Brasil8. É uma vantagem estrutural que poucos importadores de diesel têm.

A eletrificação avança, mas não onde o diesel pesa

O Brasil também é parte da onda de energia limpa chinesa. Os veículos eletrificados alcançaram 23,3% dos emplacamentos de veículos leves em julho, recorde histórico, com alta de 123% no acumulado do ano, segundo o Vrum14. Em agosto, novo recorde mensal de 57.386 unidades, e a frota eletrificada acaba de superar a marca de 1 milhão de veículos, de acordo com a ABVE, citada pelo Mixvale15. As importações de veículos fabricados na China cresceram 105% entre janeiro e julho, com mais de 180 mil unidades, segundo a Anfavea, conforme publicado pelo Despachante Dok16.

Há, porém, um descompasso importante. Carros de passeio no Brasil rodam com gasolina e etanol. O diesel move caminhões, máquinas agrícolas, ônibus e parte da ferrovia. A eletrificação que chega pelos portos alivia a gasolina, não o diesel. Para o combustível que realmente pressiona a inflação de alimentos e fretes, os substitutos relevantes no horizonte próximo são o biodiesel, o biometano e a eletrificação de frotas urbanas, frentes em que o país depende menos de importações chinesas e mais de política pública própria.

O que observar nas próximas semanas

Quatro variáveis devem definir o rumo do diesel até o fim do ano. A primeira é se Pequim emitirá novas cotas de exportação para o quarto trimestre, sinal que o mercado lerá como disposição de aliviar os preços. A segunda é a decisão americana antes das eleições de 3 de novembro. Os relatos ainda divergem: enquanto Trump mantém a proibição em avaliação, há informações de que o governo tem pedido às refinarias que reduzam voluntariamente os embarques8. A terceira é a duração do veto russo, hoje previsto até dezembro. A quarta, doméstica, é a renovação da subvenção brasileira no fim de outubro, quando o custo fiscal acumulado entrará de vez no debate.

Em 2022, a China escolheu ser a válvula de escape do mercado. Em 2026, tem a mesma capacidade e menos pressa. Para quem depende de diesel importado, como o Brasil, a lição é que a segurança de abastecimento passou a depender de decisões tomadas em duas capitais que disputam, entre si, o desenho do sistema energético do futuro.

Perguntas frequentes

Por que o preço do diesel bateu recorde em 2026?

A guerra com o Irã interrompeu o tráfego em Ormuz, a Rússia proibiu exportações de diesel desde julho e as refinarias americanas estão no limite. Nos EUA, a média chegou a US$ 6,53 por galão em 22 de setembro.

A China pode ajudar a baixar o preço do diesel?

Tecnicamente sim, pois opera com cerca de 75% da capacidade de refino. Mas prioriza o mercado interno. Cotas não utilizadas permitiriam cerca de 100 mil barris diários adicionais no quarto trimestre, cerca de um quinto da queda nas exportações globais.

Por que a China não repete o que fez em 2022?

O petróleo cru está mais volátil, o frete ficou mais caro e novas cotas poderiam pressionar o preço do barril ao levar compradores chineses de volta ao mercado.

Como a crise do diesel afeta o Brasil?

O país importa entre 25% e 30% do diesel e hoje depende dos EUA para 68% dessas compras. Uma restrição americana coincidiria com o pico de consumo da safra. O governo prorrogou a subvenção de R$ 2,12 por litro por 30 dias em 27 de setembro.

Diesel caro favorece a energia limpa chinesa?

Sim, na prática. Combustível fóssil caro melhora a conta de painéis, baterias e elétricos, setores dominados pela China, cujas exportações bateram recordes em 2026. Não há evidência, porém, de que isso seja uma estratégia deliberada.

O que aconteceria se os EUA proibissem a exportação de diesel?

O alívio interno tende a ser parcial. Refinarias americanas perderiam mercado e poderiam cortar produção, encarecendo a gasolina, e importadores como o Brasil perderiam seu principal fornecedor.