Saúde Alimentação e sociedade 3 de outubro de 2026 Leitura: 9 min

Nas geladeiras dos supermercados europeus, entre os iogurtes proteicos e o kefir, uma categoria voltou a ocupar espaço neste ano: garrafas que prometem substituir uma refeição inteira. São os chamados shakes substitutos de refeição, bebidas prontas com proteína, vitaminas e minerais em quantidades calculadas, vendidas a quem tem pouco tempo e muita preocupação com nutrição. Reportagem do jornal espanhol El País publicada em 3 de outubro mostra que grandes grupos de laticínios, como Kaiku, Alpro e Nestlé, passaram a disputar esse mercado, enquanto médicos e nutricionistas questionam o que se perde quando comer vira uma tarefa a ser resolvida depressa.1

O movimento não é um modismo isolado. Ele combina três forças que também atuam no Brasil: a escassez de tempo, a cultura do desempenho que transformou proteína e "macros" em vocabulário cotidiano, e uma indústria que identificou na conveniência nutricional uma de suas fronteiras de crescimento mais rentáveis.

O que são os shakes substitutos de refeição

Um shake substituto de refeição é um alimento formulado industrialmente para fornecer, em uma única porção, uma quantidade definida de calorias, proteínas, carboidratos, gorduras, fibras, vitaminas e minerais, com a proposta de ocupar o lugar de um almoço ou jantar. Diferentemente das bebidas proteicas comuns, voltadas a complementar a dieta, esses produtos se apresentam como a refeição em si.

A ideia não é nova. Segundo o El País, o primeiro produto do gênero a ganhar fama foi o Slim-Fast, lançado nos Estados Unidos em 1977 com a promessa de ajudar a emagrecer, o que colou à categoria uma associação duradoura com dietas restritivas.1 Em 2013, o Soylent, criado por um jovem engenheiro do Vale do Silício, deslocou o argumento para a eficiência: nutrir o corpo sem cozinhar nem sair da mesa de trabalho. A geração atual de produtos, vendida em garrafas refrigeradas no varejo comum, leva essa lógica adiante.

Por que a indústria aposta agora

Os movimentos societários de 2026 dão a medida do interesse. Em junho, a Nestlé anunciou a compra dos 51% restantes da alemã Yfood, empresa fundada em Munique em 2017 e da qual já detinha 49% desde 2023. Segundo a própria Nestlé, a marca faturou cerca de 150 milhões de euros em 2025, com crescimento de dois dígitos, e vende em 30 países, como registrou o Just Drinks.2 A Bloomberg apurou, com fontes ouvidas sob anonimato, que a operação avaliou a empresa em cerca de 450 milhões de euros, e a expansão para fora da Europa, a começar pelos Estados Unidos, é o objetivo declarado.

Três meses antes, a Danone havia fechado acordo para comprar a britânica Huel, especialista em refeições em pó e prontas para beber, por quase 1 bilhão de euros, de acordo com fontes ouvidas pela Reuters e reproduzidas pelo The Cattle Site.3 A Huel havia faturado 214 milhões de libras em 2024. Em agosto, a autoridade de concorrência do Reino Unido liberou a transação sem investigação aprofundada, com conclusão prevista para setembro, segundo o The Plant Base.4

O discurso das empresas converge. À reportagem espanhola, a Kaiku afirmou que seus produtos buscam cobrir uma refeição completa em momentos pontuais, e não programas de emagrecimento; a Nestlé disse que a proposta da Yfood é oferecer uma refeição equilibrada para situações específicas, sem substituir as refeições tradicionais.1 O argumento central é o tempo: consumidores que querem se cuidar, mas cuja rotina não permite cozinhar.

O que cabe na garrafa e o que fica fora dela Diagrama comparando atributos de um shake substituto de refeição com os de uma refeição com comida de verdade. O que cabe na garrafa e o que fica fora dela SHAKE SUBSTITUTO REFEIÇÃO DE VERDADE ✓ Calorias e macronutrientes exatos ✓ Vitaminas e minerais adicionados ✓ Consumo em poucos minutos ✓ Portátil, sem preparo ✗ Matriz alimentar original ✗ Variedade de fibras e bioativos ✗ Mastigação, convívio, cultura ✓ Nutrientes na matriz original ✓ Fibras e compostos bioativos diversos ✓ Mastigação e sinais de saciedade ✓ Dimensão social e cultural ✗ Exige tempo, renda e habilidade ✗ Composição varia a cada prato ✗ Mais difícil de transportar

Figura 1. Síntese editorial de O Tecido a partir das avaliações de especialistas ouvidos pelo El País e das diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira.

O argumento nutricional e seus limites

A crítica dos especialistas não recai sobre a qualidade técnica das fórmulas. Maira Bes-Rastrollo, catedrática de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade de Navarra, reconheceu ao El País que as bebidas são bem desenhadas, mas observou que alimentos frescos são mais complexos que a soma de seus nutrientes: carregam fibras de tipos variados e componentes bioativos que a indústria ainda não consegue reproduzir. Para ela, o shake é um bom recurso logístico de emergência, não um equivalente biológico da comida.1

Há também uma questão de classificação. Pelo sistema NOVA, desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP e adotado pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, produtos formulados a partir de frações isoladas de alimentos, como proteínas, açúcares e óleos, acrescidos de aditivos, enquadram-se como ultraprocessados.5 A própria reportagem espanhola chega a essa conclusão sobre os shakes. A Nestlé, por sua vez, sustenta que a preferência por alimentos pouco processados e a busca por soluções práticas podem conviver.1

«Nutrir células e não comunidades.»

Maira Bes-Rastrollo, Universidade de Navarra, ao descrever ao El País o risco de uma sociedade que reduz a alimentação a uma operação funcional

Do emagrecimento ao controle: a mudança de discurso

Nenhum dos anúncios das novas bebidas fala em perder peso. Ainda assim, a nutricionista Esther Sainz, que atende jovens com transtornos do comportamento alimentar (TCA) em Madri, disse ao El País que as campanhas continuam apelando a valores como disciplina e autocontrole. Na leitura dela, o foco migrou do emagrecimento para a busca de uma alimentação perfeita, mas "o pano de fundo continua sendo o controle".1

Sainz ressalta que um produto, sozinho, não causa um transtorno alimentar, condição de origem multifatorial. O risco apontado é outro: reforçar sintomas já presentes em pessoas vulneráveis, ao oferecer uma forma de comer em que cada caloria é conhecida de antemão e o prato desaparece. É uma distinção relevante para a cobertura em saúde, que costuma oscilar entre o alarme e a indiferença.

A mesma especialista oferece a chave sociológica do fenômeno: num contexto que valoriza produtividade e eficiência, o ato de comer deixou de ser necessidade biológica e momento social para virar uma tarefa a resolver com rapidez. Bes-Rastrollo concorda ao afirmar que os shakes crescem não porque as pessoas os prefiram a uma boa salada, mas porque a estrutura social dificulta comer comida de verdade.1

O cenário brasileiro

No Brasil, os shakes "refeição completa" no formato europeu ainda não têm a mesma presença no varejo, mas o terreno está preparado. A série de artigos sobre ultraprocessados publicada pela revista The Lancet em novembro de 2025, coordenada pelo epidemiologista Carlos Monteiro, da USP, estimou que esses produtos passaram de 10% para 23% da alimentação dos brasileiros desde os anos 1980, como resumiu o Brasil 61.6 Dos 93 países analisados, o consumo cresceu em 91, segundo a Agência Brasil.7 Pelo indicador de consumo individual da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 do IBGE, a fatia era de 19,7% das calorias, conforme estudo publicado na Revista de Saúde Pública.8 As bases são diferentes, mas a direção é a mesma.

Participação dos ultraprocessados na alimentação brasileira Barras mostrando 10 por cento nos anos 1980 e 23 por cento na estimativa recente da série The Lancet de 2025. Ultraprocessados na alimentação dos brasileiros Participação na dieta, em % Anos 1980 10% Estimativa atual 23% Fonte: série The Lancet sobre ultraprocessados (Monteiro et al., 2025), via Brasil 61.

Figura 2. Escala proporcional. Estimativas baseadas em pesquisas nacionais de orçamento familiar; não comparáveis diretamente ao indicador de consumo individual da POF 2017-2018 (19,7%).

O mercado vizinho, o de bebidas proteicas, cresce rápido. Levantamento da Scanntech citado pela SuperVarejo registrou alta de 40,5% em volume entre o primeiro semestre de 2023 e o de 2024, e de 12,8% no ano seguinte.9 Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais (ABIAD), o país é o quinto maior mercado de produtos proteicos e alimentos funcionais, e dados da Euromonitor indicam que 88% do consumo de produtos proteicos se concentra em bebidas em pó ou prontas, de acordo com o Mundo do Marketing.10 Pesquisa Tetra Pak e Ipsos com consumidores de 17 países apontou que 59% dos brasileiros preocupados com saúde preferem opções prontas para beber pela conveniência, segundo a Tetra Pak.11

Uma norma que ainda fala em peso

Há um detalhe regulatório que torna o caso brasileiro peculiar. Enquanto as empresas europeias se esforçam para descolar os shakes do emagrecimento, a categoria sanitária brasileira que abriga produtos destinados a substituir refeições é justamente a de "alimentos para controle de peso". A RDC 715/2022 da Anvisa distingue, por exemplo, alimentos para manutenção de peso por substituição de uma refeição e alimentos para redução de peso por substituição parcial ou total das refeições diárias.12 Desde a RDC 843/2024, esses produtos precisam ser notificados à agência. Na prática, uma marca que queira vender no Brasil uma "refeição completa em garrafa" terá de decidir em que moldura regulatória se encaixa, e essa escolha diz muito sobre o discurso que poderá usar no rótulo.

O contraste com a política alimentar oficial é nítido. O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, recomenda preferir alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias, e orienta comer com regularidade e atenção, em ambientes apropriados e, sempre que possível, acompanhado.5 O shake substituto é, em quase todos esses pontos, o oposto do que o documento propõe.

O que está em jogo

O avanço dos shakes substitutos expõe um problema que antecede o produto: a pobreza de tempo. Se cozinhar virou luxo ou fonte de estresse, como observam as especialistas ouvidas pelo El País, a resposta de mercado tende a ser uma solução individual, embalada e vendida, para uma questão de organização social do trabalho e da cidade.1 A série da Lancet vai na mesma direção ao sustentar que o avanço dos ultraprocessados não decorre de escolhas individuais, mas de estratégias corporativas, e cita o Programa Nacional de Alimentação Escolar brasileiro como exemplo de política pública capaz de reduzir sua presença.7

A indústria aposta que as refeições líquidas seguirão a trajetória dos iogurtes proteicos, da kombucha e dos snacks funcionais. Para o leitor brasileiro, a pergunta útil não é se o shake é "bom" ou "ruim", mas em que lugar da rotina ele entra: como recurso eventual num dia caótico ou como substituto permanente de uma refeição que deixou de caber na agenda. No segundo caso, o problema não está dentro da garrafa.

Se a relação com a comida está difícil

Preocupação intensa com calorias, rigidez alimentar ou culpa ao comer podem ser sinais que merecem atenção profissional. No SUS, a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde, que pode encaminhar a serviços de saúde mental. Em São Paulo, há programas universitários especializados, como o AMBULIM, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, e o PROATA, da Unifesp. Um mapeamento divulgado em 2026 como preprint na plataforma SciELO Preprints aponta que a oferta desses serviços no país ainda é escassa e concentrada.14

Perguntas frequentes

Shake substituto de refeição é saudável?

Depende do uso. As fórmulas atuais costumam ter bom perfil de proteínas, vitaminas e minerais, mas especialistas como Maira Bes-Rastrollo, da Universidade de Navarra, consideram que não equivalem biologicamente à comida de verdade, por não reproduzirem a variedade de fibras e compostos bioativos dos alimentos frescos. O uso ocasional é visto como recurso logístico; o uso permanente não é recomendado.

Posso substituir todas as refeições por shakes?

A substituição total de refeições só é usada em situações clínicas específicas e por tempo limitado, com acompanhamento de médico ou nutricionista. Para a população geral, o Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda basear a dieta em alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias.

Shakes substitutos de refeição são ultraprocessados?

Pela classificação NOVA, criada por pesquisadores da USP e adotada pelo Guia Alimentar brasileiro, sim: são produtos formulados a partir de ingredientes isolados, como proteínas, açúcares e óleos, com adição de aditivos. As empresas argumentam que o processamento permite concentrar nutrientes de forma equilibrada.

Como esses produtos são regulados no Brasil?

A Anvisa enquadra produtos destinados a substituir refeições na categoria de alimentos para controle de peso, regida pela RDC 715/2022, que define subtipos para manutenção, redução ou ganho de peso. Desde a RDC 843/2024, esses alimentos devem ser notificados à agência antes da comercialização.

Shakes de refeição ajudam a emagrecer?

Em programas supervisionados, há evidência de que a substituição parcial de refeições favorece a perda de peso, segundo meta-análise publicada na Obesity Reviews em 2019. As marcas europeias recentes, porém, afirmam que seus produtos não são destinados ao emagrecimento, e sim a refeições pontuais em rotinas sem tempo.

Qual a relação entre esses produtos e transtornos alimentares?

Especialistas afirmam que um produto, isoladamente, não causa transtorno alimentar, condição de origem multifatorial. A preocupação é que a comunicação centrada em controle e precisão calórica reforce sintomas em pessoas vulneráveis. Quem identifica sinais de sofrimento na relação com a comida deve procurar avaliação profissional, inclusive pela rede do SUS.

Nota de crédito. Este texto foi produzido por O Tecido a partir da reportagem "Los batidos sustitutivos reconquistan los supermercados", de Andrea García Baroja, publicada pelo jornal El País em 3 de outubro de 2026, disponível em elpais.com. As declarações atribuídas a especialistas e empresas ouvidos pelo El País foram traduzidas e resumidas pela redação. Os dados sobre o Brasil e o contexto de mercado vêm de fontes independentes indicadas ao longo do texto.
Por Ewerton Lopes — Curador Editorial