A Anthropic, empresa criadora do assistente Claude, chega à reta final de sua oferta pública inicial com um paradoxo difícil de ignorar: nunca vendeu tanto e nunca registrou um prejuízo tão grande. Segundo uma versão preliminar do prospecto de IPO examinada pelo The Wall Street Journal1, a companhia faturou cerca de US$ 16,3 bilhões no primeiro semestre de 2026, ante US$ 1,1 bilhão um ano antes, e fechou o período com prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões. Os dois números são verdadeiros ao mesmo tempo. Entender por que é o primeiro passo para avaliar uma operação que pode se tornar a maior estreia da história das bolsas.
- A receita da Anthropic cresceu quase 15 vezes na comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, chegando a US$ 16,3 bilhões.
- Do prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões no semestre, cerca de US$ 72 bilhões são ajustes contábeis ligados a instrumentos de captação, sem saída de caixa.
- Os compromissos futuros com computação e infraestrutura superam US$ 600 bilhões, a maior parte em contratos não canceláveis.
- Dois clientes respondem por cerca de um quinto da receita, e o próprio prospecto trata riscos de comportamento dos modelos de IA como risco financeiro.
- O Brasil é o terceiro maior mercado de uso do Claude, o que torna a economia da empresa relevante para o custo da IA no país.
Receita cresce mais rápido do que o custo de computação
O dado mais revelador do documento talvez não seja o salto do faturamento, mas a relação entre o que a empresa vende e o que gasta para manter seus modelos funcionando. De acordo com o WSJ1, a Anthropic desembolsou quase US$ 9 bilhões com capacidade computacional e infraestrutura no semestre, contra US$ 2,3 bilhões no mesmo intervalo de 2025. Em todo o ano passado, foram US$ 7,3 bilhões em computação para US$ 4,6 bilhões de receita, ou seja, a empresa gastou mais em seis meses de 2026 do que em doze meses de 2025.
Colocados lado a lado, os números mostram uma inversão. No primeiro semestre de 2025, cada dólar de receita exigia cerca de US$ 2,09 em computação. No ano fechado de 2025, a proporção caiu para US$ 1,59. No primeiro semestre de 2026, ficou próxima de US$ 0,55, segundo cálculo do O Tecido com base nos valores divulgados. É essa curva, mais do que o faturamento absoluto, que sustenta a tese de que modelos de IA de fronteira podem se tornar um negócio com margem positiva.
O prejuízo de US$ 80,7 bilhões e o que ele não significa
Dos US$ 80,7 bilhões de prejuízo líquido no semestre, cerca de US$ 72 bilhões decorrem de lançamentos contábeis ligados à variação do valor justo de notas conversíveis e outros instrumentos usados para captar recursos, informa o WSJ1. O mecanismo é contraintuitivo. Quando a avaliação da empresa sobe, sobe também o valor estimado dessas obrigações, que podem se converter em ações, e o aumento entra no resultado como perda, ainda que nenhum dinheiro saia do caixa. Em termos simples, a Anthropic registra prejuízo porque passou a valer mais.
O padrão já aparecia nos números de 2025, revelados pela Reuters2 no fim de setembro: prejuízo líquido de US$ 42 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 34 bilhões eram cobrança contábil desse tipo, e prejuízo operacional de pouco mais de US$ 8 bilhões. A empresa encerrou o ano com US$ 20,28 bilhões em caixa e aplicações de curto prazo.
Isso não torna o prejuízo irrelevante. A diluição embutida nesses instrumentos é concreta para quem comprar ações na oferta, já que parte do valor futuro da companhia está comprometida com credores que podem virar acionistas. E o resultado operacional de 2025, mesmo limpo dos ajustes, foi negativo. O ponto é que o número de manchete mede sobretudo a valorização da empresa no mercado privado, e não a velocidade com que ela queima caixa.
A questão central do IPO não é quanto a Anthropic perde no papel, mas quanto custa produzir cada dólar de receita e quem controla esse custo.
Concentração de clientes e dependência da nuvem alheia
O prospecto expõe duas concentrações. A primeira é de clientes: cerca de um quinto da receita do semestre veio de apenas dois compradores, e a empresa espera que uma parcela significativa do faturamento continue dependendo de poucos contratos no futuro previsível, segundo o WSJ1. Em 2025, a proporção era ainda maior, perto de um quarto, e a Reuters2 registrou o alerta de que vários desses grandes clientes não estão presos a contratos de longo prazo.
A segunda concentração é de fornecedores, e é ela que define a economia do negócio. A Anthropic assumiu cerca de US$ 450 bilhões em contratos de nuvem para os próximos sete a dez anos, em sua maioria não canceláveis, informa o WSJ1. Estão previstos US$ 111 bilhões com o Google, US$ 110 bilhões com a Amazon Web Services e US$ 31 bilhões com a Microsoft, valores devidos independentemente do uso efetivo. Há ainda até US$ 86 bilhões para alugar chips da Nvidia por meio das provedoras Nscale e Lambda e um compromisso superior a US$ 160 bilhões para arrendar chips do Google em acordo com a Broadcom. O total passa de US$ 600 bilhões e pode crescer até US$ 150 bilhões com negociações em curso.
O arranjo tem uma circularidade que merece atenção. Amazon e Google estão entre os primeiros parceiros estratégicos da Anthropic, lembra a Reuters2, e são ao mesmo tempo seus maiores fornecedores e concorrentes diretos no mercado de modelos de IA. O próprio prospecto reconhece que a empresa pediu mais capacidade do que esses parceiros estavam dispostos a oferecer e que eles passaram a enxergá-la cada vez mais como rival1. A resposta tem sido desenvolver data centers próprios por arrendamento de longo prazo e contratar operadores terceirizados, alguns com histórico operacional curto e instalações potencialmente menos confiáveis.
Quando o risco da IA vira risco de balanço
Cerca de um terço do prospecto é dedicado a fatores de risco, segundo o WSJ1; a Reuters2 contabilizou aproximadamente 80 de 261 páginas na versão que examinou. Entre os riscos listados está a possibilidade de modelos desalinhados causarem danos reais. A empresa relata que sistemas de IA podem exibir comportamentos de autopreservação para evitar o desligamento e gerar respostas semelhantes a chantagem em testes controlados.
O passo seguinte é financeiro. A Anthropic admite responder, em alguns casos, por danos causados por seus modelos, como vazamento de dados ou incidentes de segurança, e adverte que um incidente catastrófico poderia gerar prejuízos tão grandes que nenhuma apólice cobriria1. Na prática, o discurso de segurança que diferenciou a empresa no mercado corporativo aparece no documento de oferta como passivo contingente, algo que o investidor precisa precificar.
Outro risco listado é político. A resistência à construção de data centers, diz a empresa, tornou-se mais organizada e coordenada entre jurisdições, e a visibilidade da marca pode atrair atenção adicional a projetos associados a ela1. A maior parte da capacidade atual está nos Estados Unidos, e a Anthropic já assinou cartas de intenção para construir fora do país, sem que o prospecto, segundo o relato do WSJ, identifique os destinos.
Governança, remuneração e o fundo de benefício público
A Anthropic é constituída como public benefit corporation no estado de Delaware, forma jurídica que obriga a empresa a ponderar o interesse público ao lado do lucro. A dias da listagem, a companhia anunciou que destinará 5% de suas ações a um novo Anthropic Public Benefit Fund, sujeito à aprovação dos acionistas, com possibilidade de acréscimo de 2% a cada valorização de 50% da empresa, a critério do conselho, segundo a Al Jazeera3. O fundo não poderá financiar lobby nem doações políticas. Somado ao compromisso dos cofundadores de destinar 80% de sua participação pessoal à filantropia e a um programa de doação de ações por funcionários, cerca de 20% do capital ficará reservado a fins públicos.
Na remuneração, os números são modestos para o padrão das grandes empresas de tecnologia. O WSJ1 informa que Dario Amodei, presidente-executivo, e Daniela Amodei, presidente, receberam salário-base de cerca de US$ 655 mil em 2025, com remuneração total de aproximadamente US$ 18 milhões e US$ 16,5 milhões, respectivamente, em grande parte em ações e opções.
Valuation em disputa: de US$ 2 trilhões a US$ 1,5 trilhão
A trajetória de avaliação foi vertiginosa. A empresa submeteu o rascunho confidencial do formulário S-14 à SEC em 1º de junho, dias depois de uma rodada de US$ 65 bilhões que a avaliou em US$ 965 bilhões. Em agosto, a Fortune5, citando o Financial Times, relatou uma meta próxima de US$ 2 trilhões. Em meados de outubro, a Reuters informou que parte dos investidores atuais e potenciais passou a considerar algo perto de US$ 1,5 trilhão para uma listagem prevista para novembro, conforme repercutiu o Yahoo Finance6. A Anthropic não divulgou faixa de preço.
A revisão acompanha uma desaceleração relativa. A receita do terceiro trimestre, de US$ 16,8 bilhões segundo o que a empresa comunicou a investidores, cresceu cerca de 45% sobre o trimestre anterior, depois de ter mais que dobrado no segundo, de acordo com o The Next Web7 e o Yahoo Finance6. Anualizada, essa receita equivale a cerca de US$ 67 bilhões. Pelas contas do O Tecido, uma avaliação de US$ 1,5 trilhão corresponderia a aproximadamente 22 vezes esse valor; a de US$ 2 trilhões, a perto de 30 vezes.
O caso cético
A casa de pesquisa independente New Constructs classificou a operação como o IPO mais absurdo de 2026 e estimou que, para justificar US$ 2 trilhões, a Anthropic precisaria lucrar o dobro do que a Nvidia lucrou em doze meses, relatou a CNBC8. O relatório aponta prejuízos operacionais crescentes e a concorrência de modelos abertos, e chega a avaliar o capital da empresa em cerca de US$ 144 bilhões7. Somem-se a isso a concentração de clientes e contratos de computação que não podem ser cancelados se a demanda recuar.
O caso otimista
Quem defende a avaliação aponta a queda acentuada do custo de computação por dólar de receita, um faturamento que se multiplicou em poucos trimestres e uma posição forte no mercado corporativo, sobretudo em programação. A parcela dominante do prejuízo é contábil, e o caixa de mais de US$ 20 bilhões ao fim de 2025 dá margem de manobra. Para esse grupo, os compromissos de infraestrutura são o preço de entrada num mercado em que capacidade computacional é a principal barreira competitiva.
O que o prospecto diz ao Brasil
O interesse brasileiro no documento não é apenas de mercado financeiro. De acordo com o Anthropic Economic Index, citado pela Bloomberg Línea9, o Brasil é o terceiro país que mais usa o Claude, atrás de Estados Unidos e Índia, e a empresa prepara um escritório em São Paulo ainda em 2026, com foco em grandes clientes corporativos. Isso significa que bancos, varejistas, hospitais e empresas de software brasileiros que adotam o Claude estão expostos, indiretamente, à estrutura de custos revelada no prospecto.
Três implicações merecem atenção. A primeira é preço: a queda do custo de computação por dólar de receita abre espaço tanto para reduzir tarifas quanto para ampliar margens, e a escolha entre uma coisa e outra tende a ficar mais pressionada depois que a empresa tiver acionistas cobrando lucro trimestral. A segunda é dependência: contratos cobrados em dólar, com um fornecedor que por sua vez depende de poucos provedores de nuvem, somam risco cambial a risco de concentração para quem constrói produtos sobre esses modelos. A terceira é infraestrutura.
Nesse último ponto, o Brasil tem ambição e limitações conhecidas. A justificativa do projeto de lei do Redata, regime especial de tributação para data centers, situa o país em décimo lugar no mercado global, com cerca de 2% de participação, conforme a DPL News10. O regime, que havia perdido validade com o fim da medida provisória original em fevereiro, voltou a avançar como projeto de lei e foi aprovado pelo Senado no início de setembro, segundo a agência ICE11, com base em informações da ANSA. A Industrial Info Resources contabiliza mais de 260 projetos de data centers no país, que somam quase US$ 88 bilhões12.
O gargalo apontado por analistas do setor não é demanda nem capital, mas energia firme e transmissão10. O prospecto da Anthropic acrescenta um elemento a esse debate: se a resistência local a data centers já é tratada como risco de negócio por uma das maiores compradoras de capacidade do mundo, países que disputam esses investimentos precisarão oferecer, além de incentivo fiscal, previsibilidade regulatória e licenciamento socialmente legitimado.
O que observar até a listagem
- Prospecto público. O documento examinado pelo WSJ é preliminar. A versão registrada publicamente na SEC, obrigatória antes do roadshow, permitirá confrontar os números.
- Faixa de preço e tamanho da oferta. A distância entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhões dirá quanto do otimismo privado o mercado público aceita.
- Resultado operacional ajustado. A definição de cada métrica ajustada importa mais do que o número de manchete.
- Novos contratos de computação. Os até US$ 150 bilhões em negociação podem elevar ainda mais as obrigações de longo prazo.
- Votação do fundo de benefício público e o detalhamento de sua governança, prometido para os próximos meses.
Perguntas frequentes
Quanto a Anthropic faturou no primeiro semestre de 2026?
Cerca de US$ 16,3 bilhões nos seis meses encerrados em 30 de junho de 2026, ante US$ 1,1 bilhão no mesmo período de 2025, segundo o prospecto preliminar examinado pelo The Wall Street Journal.
Por que a Anthropic teve prejuízo de US$ 80,7 bilhões?
Aproximadamente US$ 72 bilhões vêm de ajustes contábeis na variação do valor justo de notas conversíveis e outros instrumentos de captação. Quando a avaliação da empresa sobe, essas obrigações valem mais e o aumento é lançado como perda, sem saída de caixa.
Quanto a Anthropic deve gastar com computação nos próximos anos?
Os compromissos de infraestrutura superam US$ 600 bilhões, incluindo cerca de US$ 450 bilhões em contratos de nuvem com Google, Amazon Web Services, Microsoft e outros, em grande parte não canceláveis. Negociações em andamento podem acrescentar até US$ 150 bilhões.
Qual o valor esperado do IPO da Anthropic?
A empresa não divulgou faixa de preço. Relatos de agosto falavam em cerca de US$ 2 trilhões; em outubro, parte dos investidores passou a discutir algo próximo de US$ 1,5 trilhão. A última rodada privada, em maio de 2026, avaliou a companhia em US$ 965 bilhões.
Qual a importância do Brasil para a Anthropic?
O Brasil é o terceiro país que mais usa o Claude, segundo o Anthropic Economic Index citado pela Bloomberg Línea, e deve receber um escritório da empresa em São Paulo em 2026, voltado ao mercado corporativo.