Opinião · Eleições 2026 · Economia
No domingo, 25 de outubro, o Brasil escolhe entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. A disputa chega ao fim tão apertada quanto começou: no primeiro turno, Flávio somou 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula1, e a pesquisa Datafolha mais recente registra 51% a 49%, empate técnico2. A campanha transformou a eleição num plebiscito sobre duas biografias. Este artigo parte de outra premissa: quem subir a rampa em 1º de janeiro de 2027 herdará um quadro econômico adverso que nenhum dos dois controla e que tende a cobrar seu preço da população ao longo do mandato.
A pergunta relevante, portanto, não é se haverá dificuldade. É quem vai pagar por ela.
A inflação que vem de fora
A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, iniciada com os ataques a Teerã em 28 de fevereiro, já passa de oito meses sem horizonte de desfecho. O barril do Brent chegou a US$ 119,50 em março e, mesmo depois do recuo, seguia cerca de 21% acima do nível anterior ao conflito no fim de agosto3. A OCDE elevou para 4,2% a inflação americana projetada para 2026, 1,2 ponto acima da estimativa anterior4. Na Ucrânia, as rodadas de negociação mediadas por Washington ao longo do ano terminaram sem cessar-fogo5. São duas guerras abertas, nenhuma com data para acabar.
O Brasil, produtor de petróleo, absorve parte do choque melhor do que importadores líquidos, mas não está imune. O IPCA subiu 0,82% em setembro, acima dos 0,60% esperados pelo mercado, e o acumulado em 12 meses voltou a romper o teto da meta, chegando a 4,58%6. O próprio Copom inclui choques de petróleo, clima e energia, além de câmbio depreciado, entre os riscos de alta para a inflação7.
Quando o devedor mais seguro do mundo paga mais caro
O efeito mais duradouro das guerras talvez não esteja no preço do combustível, e sim no custo do dinheiro. Guerra é gasto, e gasto em países já endividados vira prêmio de risco. Os Estados Unidos operam com déficit fiscal projetado em torno de 6% do PIB em 2026 e dívida pública acima de 120% do PIB8. Em 7 de outubro, o título de 10 anos do Tesouro americano chegou a 5,34% e o de 30 anos a 5,72%, os maiores níveis desde 2002, enquanto as preocupações fiscais da França pesavam sobre os mercados europeus9.
A transmissão para o Brasil é direta. Quando o ativo considerado livre de risco passa a pagar mais, o investidor exige ainda mais para financiar um emergente. Isso limita a queda dos juros por aqui. A Selic está em 13,75% desde 16 de setembro7, ainda entre as taxas reais mais altas do mundo, e o custo recai sobre as contas públicas: em 12 meses até agosto, os juros nominais da dívida somaram R$ 1,18 trilhão, o equivalente a 8,86% do PIB, e a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB, o maior nível desde o início de 202110.
Em outras palavras: o país entra no próximo mandato pagando caro para rolar uma dívida grande, num mundo em que o dinheiro ficou mais caro para todos.
O real forte e a tentação da saída
Há um dado que parece contradizer o pessimismo. O real se valorizou 10,19% frente ao dólar em 2026 até 7 de outubro, com a moeda americana a R$ 4,99, depois de terminar 2025 em R$ 5,5011. Mas câmbio apreciado às vésperas de uma eleição pode ser menos um atestado de confiança do que uma janela.
O investidor estrangeiro que entrou no fim do ano passado acumula ganho cambial expressivo, somado a juros de dois dígitos. Definida a eleição, o incentivo racional é embolsar o lucro em vez de dobrar a aposta de longo prazo e arriscar devolvê-lo numa virada do câmbio. Trata-se de hipótese de risco, não de previsão, mas ela não é isolada: a Abinee já apontava a possibilidade de uma desvalorização do real descolada do movimento global do dólar justamente no segundo semestre de 202612. Se a saída acontecer, a sequência é conhecida.
O agro deixa de ser garantia
Boa parte dos dólares que sustentam o real vem do campo, e é aí que o horizonte escurece. A China, destino de 71% das exportações brasileiras de soja e de 54% da carne bovina, colocou a segurança alimentar no centro do 15º Plano Quinquenal (2026 a 2030); estimativas privadas projetam queda de 25% nas importações chinesas de soja até 2030, cerca de 23,5 milhões de toneladas13. O Ministério da Agricultura chinês prevê recuo de 6,1% já em 2026 e redução de até 30% até o fim da década, apoiada em novas tecnologias de ração que diminuem o uso de farelo14.
Somam-se a isso barreiras crescentes, inclusive exigências de rastreabilidade e desmatamento zero que a própria China tende a incorporar à medida que ganha autonomia tecnológica13, e o risco climático, que em safras ruins reduz o volume exportado. Menos dólares entrando pela balança comercial significa pressão adicional para que o real se desvalorize, o que realimenta a inflação descrita acima. O pilar que mais contribuiu para a estabilidade externa do país na última década passa a ser, ele mesmo, uma fonte de incerteza.
A pergunta relevante não é se haverá dificuldade nos próximos quatro anos, mas quem vai pagar por ela.
Dois caminhos para a mesma parede
Diante desse quadro, a diferença entre os candidatos não está no diagnóstico, que ambos evitam detalhar, e sim na forma de distribuir o ajuste.
O programa de Flávio Bolsonaro tem como marca o chamado "tesouraço": corte de gastos equivalente a 1,5% do PIB, privatizações, concessões e redução da estrutura administrativa15, com eliminação de ao menos dez ministérios, estimativa de cerca de R$ 190 bilhões e redução da alíquota do IVA16. O candidato promete manter o Bolsa Família e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, mas sem aumentar ou criar impostos e sem especificar de onde virá a compensação17.
É nesse ponto que, na avaliação deste editor, mora o maior risco social. Quase metade da despesa federal é Previdência e pessoal; boa parte do restante é saúde, educação e benefícios sociais18. Um corte dessa magnitude que exclua por princípio qualquer tributação adicional sobre o topo da pirâmide tende a recair sobre quem depende do serviço público. A Argentina é o exemplo mais próximo, e não por acaso a campanha adotou a tesoura como símbolo, à semelhança da motosserra de Javier Milei15. O ajuste argentino derrubou a inflação, mas a pobreza voltou a subir para 32,3% no primeiro semestre de 2026, os salários reais seguem abaixo do nível de dezembro de 2023, e cortes em aposentadorias e assistência social responderam por quase um quarto da redução real de gastos19.
A cadeia é previsível: menos renda disponível, menos consumo, menos receita para as empresas, menos contratação. O desemprego brasileiro está na mínima da série histórica, 5,4% no trimestre encerrado em junho20, e é justamente esse ativo que um ajuste recessivo colocaria em risco. Juros menores podem melhorar balanços corporativos por efeito contábil, ao reduzir a despesa financeira, mas balanço melhor não se converte automaticamente em vagas quando a demanda encolhe.
O caminho de Lula tampouco é indolor. A aposta do governo foi elevar a arrecadação no topo, com tributação de fundos exclusivos e offshores, para sustentar a isenção do IR16. Ainda assim, a dívida bruta subiu mais de 11 pontos percentuais no terceiro mandato21, projeções de mercado indicam 90,4% do PIB em 2028, e estabilizá-la exigiria superávit primário entre 1,5% e 2% do PIB22, algo que o governo não entregou. Um quarto mandato sem âncora fiscal crível significa juros altos por mais tempo, e juros altos também destroem emprego, apenas de forma mais lenta e menos visível. Some-se a isso um Congresso eleito com perfil mais alinhado à direita23, pouco disposto a aprovar novas fontes de receita.
Em síntese: um caminho arrisca uma recessão de demanda concentrada nos mais pobres; o outro arrisca um impasse fiscal que mantém o crédito caro para todos. Nenhum dos dois escapa do ambiente externo.
O que cobrar antes de domingo
Nenhum candidato vai encerrar a guerra no Golfo, baixar os juros americanos ou reescrever o plano quinquenal chinês. O que está em jogo é a distribuição do custo. Três perguntas deveriam ser respondidas antes do voto: quais despesas, nominalmente, serão cortadas e quem as utiliza hoje; de onde virá a receita para manter as promessas sociais que ambos fazem; e qual é o plano para proteger o emprego se o choque externo se aprofundar em 2027.
Quem responder com slogans, seja de tesoura ou de estrela, está pedindo um cheque em branco num momento em que o país não tem saldo para isso.
Perguntas frequentes
Por que a guerra no Irã afeta os juros no Brasil?
Porque eleva o preço do petróleo e a inflação global, piora as contas de países já endividados, como os Estados Unidos, e faz os juros dos títulos americanos subirem. Com o ativo mais seguro do mundo pagando mais, investidores exigem retorno ainda maior para financiar o Brasil, o que limita a queda da Selic.
O dólar baixo é um bom sinal para a economia?
Em parte. Ajuda a conter a inflação de importados, mas também cria incentivo para que investidores estrangeiros realizem lucros após a eleição. Uma saída concentrada de capital pode provocar desvalorização rápida do real.
A China vai deixar de comprar soja brasileira?
Não de imediato. O plano chinês prevê redução gradual das importações até 2030, e há divergência entre analistas sobre a viabilidade das metas. O risco está na concentração: a China absorve cerca de 71% das exportações brasileiras de soja.
O ajuste fiscal é inevitável no próximo mandato?
Com dívida bruta perto de 83% do PIB e juros nominais acima de 8% do PIB, algum ajuste é amplamente esperado. A divergência entre os candidatos está em como fazê-lo: priorizando corte de despesas ou combinando controle de gastos com aumento de arrecadação no topo da renda.
Este é um artigo de opinião. As análises refletem a visão do autor e não representam posição institucional de O Tecido, publicação apartidária que não apoia candidaturas. Dados atualizados até 20 de outubro de 2026.