OpiniãoEducação e leitura26 de setembro de 2026

Em 8 de setembro de 2026, a OCDE divulgou os resultados do PISA 2025 e confirmou, em escala planetária, aquilo que muitos professores já descreviam em voz baixa: os adolescentes de 15 anos nunca leram tão mal desde que a avaliação começou a ser aplicada. A reação pública seguiu um roteiro conhecido. Discute-se o celular na sala de aula, a caixa na porta da escola, o armário com cadeado. Em coluna publicada pelo El País neste sábado, a escritora e jornalista argentina Leila Guerriero desloca a pergunta para quem costuma ficar fora dela: alguém está medindo a capacidade dos adultos?1

A provocação merece ser levada a sério, e não apenas como figura de estilo. Guerriero lembra que a Holanda proibiu celulares nas escolas em 2024 e ainda assim registrou um de seus piores desempenhos em leitura; que a Espanha, com restrições em várias comunidades autônomas, teve os piores resultados em leitura e matemática desde o início da série; e que a Argentina, onde diversas jurisdições impuseram limites, também chegou ao seu pior patamar. Ela cita ainda um estudo segundo o qual os adolescentes argentinos simplesmente recuperam fora da escola as horas de tela perdidas dentro dela, dormindo mais tarde ou abrindo mão do esporte.1 A proibição, portanto, reorganiza o horário do consumo, mas não necessariamente o consumo.

O retrato que a colunista faz dos adultos é desconfortável justamente por ser banal: o pai que entrega o telefone para acalmar a birra, a mãe que empurra o carrinho olhando vídeos curtos em vez de conversar com o bebê, o jantar em que a tela é consultada a cada dois minutos. Nenhuma dessas cenas aparece nas planilhas do PISA. Todas elas aparecem na formação de um leitor.

O que o PISA 2025 mostrou sobre a leitura

Os números são robustos. A edição avaliou cerca de 760 mil estudantes em 91 países e economias. Na média da OCDE, a pontuação em leitura caiu para 461 pontos, 14 a menos que em 2022 e 28 a menos que em 2015, uma perda que a própria organização equipara a algo como um ano e meio de aprendizagem.2 Na apresentação dos resultados, o secretário-geral Mathias Cormann associou o desempenho ao tempo de tela para entretenimento: quanto mais horas de uso recreativo, piores os resultados em leitura, segundo a cobertura da agência EFE. A OCDE também registrou, pela primeira vez, o uso de chatbots nas tarefas escolares.

Média da OCDE em leitura no PISA: 489 pontos em 2015, 475 em 2022 e 461 em 2025 489 475 461 2015 2022 2025 Eixo vertical truncado para leitura da variação
Média da OCDE em leitura no PISA (pontos). Valores de 2015 e 2022 derivados das quedas de 28 e 14 pontos informadas pela OCDE na divulgação do PISA 2025. Brasil: 408 pontos em 2025 (410 em 2022).

O Brasil aparece em uma posição ambígua. Segundo o Inep, o país fez 408 pontos em leitura, variação estatisticamente irrelevante em relação aos 410 de 2022, e está entre os que mais avançaram desde 2006.3 A distância para a média da OCDE caiu de 102 para 58 pontos. Parte expressiva dessa aproximação, porém, se deve à queda dos países ricos, e não a um salto brasileiro. Encurtar a distância para quem está descendo não é o mesmo que subir.

Os adultos também foram medidos, e o resultado não é melhor

A resposta à pergunta de Guerriero existe, embora circule pouco fora dos círculos especializados. A OCDE mantém o PIAAC, a Pesquisa de Habilidades de Adultos, aplicada a cada dez anos a pessoas de 16 a 65 anos. O ciclo mais recente, divulgado em dezembro de 2024, avaliou 31 países e economias. A conclusão central é que, na última década, a proficiência média em leitura dos adultos só melhorou na Dinamarca e na Finlândia, permanecendo estável ou recuando em todos os demais. Cerca de um em cada cinco adultos foi classificado como de baixo desempenho em leitura e numeramento.4

O detalhe mais eloquente está no Education at a Glance 2025: na média dos países com dados comparáveis, adultos de 25 a 34 anos pontuaram 9 pontos abaixo de seus equivalentes do ciclo anterior, e os de 45 a 54 anos, 7 pontos abaixo. A OCDE interpreta a perda entre os mais velhos como sinal de um problema social mais amplo, ligado à falta de oportunidades de usar a habilidade no cotidiano.5 E, ironia que dialoga diretamente com a coluna do El País, a Holanda aparece entre os países em que a queda foi mais acentuada justamente entre os adultos jovens. Os pais das crianças holandesas que hoje ficam sem celular na escola também estão lendo pior.

Leitura não se decreta. Aprende-se por imitação, em casa, antes de qualquer prova internacional.Ewerton Lopes, Curador Editorial

O retrato brasileiro: 29% e 53%

O Brasil não participa do PIAAC, mas tem seu próprio termômetro. O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2024, conduzido pela Ação Educativa e pela Conhecimento Social, mostrou que 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais, o mesmo patamar de 2018. Entre os jovens de 15 a 29 anos, a proporção subiu de 14% para 16%.6 Apenas 10% da população atinge o nível proficiente, 27% dos trabalhadores estão na faixa do analfabetismo funcional e mesmo entre quem tem ensino superior há uma parcela com baixa capacidade de compreensão. Na faixa de 50 a 64 anos, o índice chega a cerca de metade das pessoas.

O hábito acompanha a habilidade. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, do Instituto Pró-Livro, registrou pela primeira vez mais não leitores (53%) do que leitores, com perda de 6,7 milhões de leitores em quatro anos.7 A escola como espaço de leitura caiu de 35% das menções em 2007 para 19%. Não por acaso, a edição passou a perguntar a crianças de 5 a 13 anos como elas enxergam os hábitos de leitura dos próprios pais. O instrumento começa a olhar para onde Guerriero aponta.

A proibição resolve metade da equação

O Brasil adotou sua resposta institucional com a Lei 15.100/2025, sancionada em janeiro de 2025, que veda o uso recreativo de aparelhos eletrônicos durante aulas, recreios e intervalos em toda a educação básica, com exceções pedagógicas, de saúde e de acessibilidade.8 A medida tem apoio amplo e fundamento razoável. O problema está no que ela revela sobre o modo como o país enxerga a questão: legislar sobre crianças é politicamente barato porque não exige nada dos adultos.

A literatura sobre o que os pesquisadores chamam de tecnoferência, a interferência dos dispositivos nas interações entre pais e filhos, ainda é jovem, mas aponta numa direção consistente. Revisão publicada na Child Development Perspectives por pesquisadoras da Universidade de Essex indica que o uso do smartphone pelos pais reduz atenção compartilhada, responsividade e acompanhamento do olhar, processos centrais para o desenvolvimento da linguagem de zero a cinco anos.9 Um acompanhamento da Universidade de Linköping, na Suécia, encontrou desenvolvimento de linguagem mais lento em crianças cujos pais usam mídia digital com frequência.10 Antes de ler um texto, a criança precisa de alguém que converse com ela.

Se a leitura é uma prática aprendida por imitação, a política pública que ignora o adulto trata o sintoma no lugar errado. Isso não significa culpar pais individualmente, muitos deles exaustos, com jornadas longas e pouco acesso a livros. Significa reconhecer que um país em que quase um terço da população adulta não compreende textos simples não resolverá a leitura das crianças apenas trancando celulares em armários.

O que Vonnegut anteviu

Guerriero encerra a coluna com Kurt Vonnegut. Em Galápagos, romance de 1985, o escritor imagina a humanidade um milhão de anos no futuro, reduzida a criaturas de cérebro minúsculo, e sugere que o entusiasmo de seus ancestrais em entregar às máquinas toda atividade possível era, no fundo, uma confissão de que não confiavam no próprio cérebro. Vonnegut prometeu devolver o dinheiro dos leitores caso errasse. A colunista observa que, se ele estivesse vivo, não precisaria reembolsar ninguém.111

A imagem ganha outra camada em 2026. O mesmo PISA que registrou a queda na leitura mediu, pela primeira vez, quantos adolescentes recorrem a chatbots para estudar. Adultos fazem o mesmo quando pedem resumos de relatórios que não leram, de contratos que assinam, de notícias que compartilham. A delegação não é o problema em si. O problema é quando ela deixa de ser escolha e passa a ser a única capacidade disponível.

Contraponto

Há boas razões para cautela diante do diagnóstico de involução. A própria OCDE evita atribuir a queda a uma única tecnologia e afirma que os dispositivos não são nocivos em si; o efeito depende do uso. A série de leitura já recuava antes dos smartphones se tornarem onipresentes, e a pandemia interrompeu a escolarização de uma geração inteira. O PIAAC de 2023 foi aplicado integralmente em tablet, o que exige prudência nas comparações com o ciclo anterior. A pesquisa sobre tecnoferência também registra efeitos positivos do uso parental de mídia, como apoio em momentos de estresse e acesso a informação. Por fim, o Brasil avançou em termos relativos nos últimos vinte anos, e proibições escolares costumam levar anos para produzir efeito mensurável. Toda geração, desde a desconfiança de Sócrates em relação à escrita, anunciou o declínio da seguinte. A diferença, desta vez, é que os instrumentos de medição existem e apontam, ao menos por ora, na mesma direção.

Perguntas frequentes

O que o PISA 2025 revelou sobre compreensão leitora?

A média da OCDE em leitura caiu para 461 pontos, 14 a menos que em 2022 e 28 a menos que em 2015, o nível mais baixo da série. O Brasil fez 408 pontos, resultado estável em relação a 2022.

Existe uma avaliação internacional da leitura de adultos?

Sim. O PIAAC, da OCDE, mede leitura, numeramento e resolução de problemas de pessoas de 16 a 65 anos a cada dez anos. No ciclo de 2023, a leitura dos adultos só melhorou na Dinamarca e na Finlândia.

O Brasil mede a capacidade de leitura dos adultos?

O Brasil não participa do PIAAC. O principal indicador é o Inaf, iniciativa da sociedade civil, que em 2024 apontou 29% de analfabetos funcionais entre 15 e 64 anos.

A proibição do celular nas escolas melhora a leitura?

As evidências ainda são inconclusivas. Países que restringiram o uso, como Holanda e Espanha, registraram quedas no PISA 2025, e há indícios de que adolescentes compensam o tempo de tela fora da escola.

O que é tecnoferência?

É a interferência de dispositivos digitais nas interações entre pais e filhos. Estudos associam o uso frequente do celular pelos pais a menor atenção compartilhada e a desenvolvimento de linguagem mais lento na primeira infância.

Referências

  1. Guerriero, Leila. "La involución". El País, 26 set. 2026. https://elpais.com/opinion/2026-09-26/la-involucion.html
  2. OCDE. Resultados do PISA 2025, divulgados em 8 set. 2026 (cobertura da agência EFE).
  3. Inep. "Pisa: Brasil está entre os países que mais avançaram em educação nos últimos 20 anos", set. 2026.
  4. OCDE. Do Adults Have the Skills They Need to Thrive in a Changing World? Survey of Adult Skills 2023, dez. 2024.
  5. OCDE. Education at a Glance 2025, capítulo sobre proficiência de adultos (PIAAC).
  6. Ação Educativa, Conhecimento Social e Fundação Itaú. Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2024.
  7. Instituto Pró-Livro. Retratos da Leitura no Brasil, 6ª edição, 2024.
  8. Brasil. Lei nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025.
  9. Morris, A. J.; Filippetti, M. L.; Rigato, S. "The Impact of Parents' Smartphone Use on Language Development in Young Children". Child Development Perspectives, 16(2), 2022.
  10. Universidade de Linköping. Pesquisa sobre tecnoferência e desenvolvimento infantil (grupo de Anett Sundqvist), 2020.
  11. Vonnegut, Kurt. Galápagos. 1985.
Este artigo de opinião dialoga com a coluna "La involución", de Leila Guerriero, publicada pelo jornal El País em 26 de setembro de 2026. As referências ao texto original foram parafraseadas e creditadas. Dados complementares foram obtidos em fontes independentes, listadas acima.