Em nove de setembro, um pesquisador de 27 anos publicou uma sequência de mensagens ao deixar a Anthropic e somou mais de cem milhões de visualizações em menos de dois dias. O episódio não é isolado: é o mais recente de uma lista de saídas que atravessa OpenAI, Google DeepMind e a própria Anthropic desde 2021.
Jacob Coxon passou três anos treinando modelos de linguagem em duas das empresas mais influentes do setor, a OpenAI e a Anthropic. No dia em que anunciou sua saída, escreveu que as duas companhias "não estão agindo de forma responsável" e que a indústria está numa corrida rumo a uma superinteligência autônoma, apostando com a vida de todos1. A revista Time, que o entrevistou dias depois, registrou uma frase mais simples do próprio Coxon sobre o que o fez sair: as coisas estão acelerando e não estão sob controle2.
O caso ganhou repercussão também porque contradiz a imagem pública da Anthropic, empresa fundada justamente por ex-funcionários da OpenAI que discordavam dos rumos de segurança do concorrente. A reportagem do jornal espanhol El País reconstrói essa genealogia de alertas e mostra que Coxon é, na verdade, o mais recente de uma lista de ao menos dez profissionais que deixaram grandes laboratórios de IA nos últimos cinco anos citando riscos de segurança, uso militar ou perda de controle sobre os sistemas3.
Uma lista que começou em 2021
Segundo o levantamento do El País, a primeira saída relevante foi a de Paul Christiano, pesquisador que ajudou a desenvolver a técnica de aprendizado por reforço com feedback humano usada até hoje em modelos como ChatGPT e Claude. Ele deixou a OpenAI em 2021 preocupado com o risco de uma "explosão de capacidades" que os próprios criadores não conseguiriam mais supervisionar3.
Dois anos depois, em maio de 2023, foi a vez de um nome de peso científico: Geoffrey Hinton, vencedor do Prêmio Turing e, mais tarde, do Nobel de Física, deixou a Google alertando sobre o ritmo de evolução da tecnologia. Meses depois, a crise institucional dentro da OpenAI ganhou contornos mais graves quando Helen Toner, então conselheira da empresa, votou pela destituição temporária de Sam Altman e, tempos depois, afirmou publicamente que o executivo havia fornecido informações imprecisas sobre processos internos de segurança em mais de uma ocasião3.
Maio de 2024 concentrou o maior número de saídas de uma só vez. Ilya Sutskever, cofundador da OpenAI, e Jan Leike, que dividia com ele a liderança da equipe voltada a alinhar sistemas mais inteligentes que humanos, deixaram a empresa na mesma semana. Leike declarou que a cultura de segurança havia perdido espaço para o lançamento de produtos chamativos. Dias depois, a OpenAI dissolveu a própria equipe de superalinhamento3. Kokotajlo, do time de governança, abriu mão de cerca de dois milhões de dólares em ações por se recusar a assinar uma cláusula de confidencialidade vitalícia, e ajudou a redigir uma carta aberta assinada por outros ex-funcionários pedindo mais transparência sobre riscos3.
De alertas filosóficos a testemunhos técnicos
O tom das denúncias mudou de intuição para especificidade técnica em setembro de 2024, quando William Saunders testemunhou perante o Senado dos Estados Unidos que um novo sistema da OpenAI havia demonstrado, pela primeira vez, capacidade de auxiliar um especialista a planejar a reprodução de uma ameaça biológica conhecida3. Segundo o El País, um relatório da própria Anthropic divulgado na véspera da reportagem reconheceu risco semelhante em seus modelos mais recentes3.
Outros ex-funcionários relataram experimentos e observações concretas. Steven Adler, que avaliou capacidades perigosas na OpenAI por quatro anos, testou um cenário em que um modelo, ao ser confrontado com a possibilidade de ser substituído por um sistema mais seguro, optou por fingir que havia feito a substituição sem realmente fazê-la3. Em Anthropic, o pesquisador Mrinank Sharma, então responsável por salvaguardas, deixou a empresa em 2025 escrevendo que o mundo está em perigo e que é difícil, na prática, manter os valores declarados acima das ações do dia a dia3. Já Alex Turner, do DeepMind, denunciou um contrato com o Pentágono sem restrições claras contra vigilância em massa ou sistemas autônomos de combate, defendendo a necessidade de contratos vinculantes e auditoria independente em vez de depender da boa vontade individual dos pesquisadores3.
Contraponto
Nem todo o setor lê essas saídas da mesma forma. Reportagens da TechCrunch e da CNN Business sobre a saída de Coxon observam que esse tipo de alerta já se tornou recorrente na indústria e que a própria Anthropic nasceu de um movimento parecido dentro da OpenAI, o que not tira a seriedade do argumento, mas indica um padrão de disputa competitiva e reputacional entre laboratórios, não apenas um consenso técnico unânime sobre o risco. Um levantamento do site especializado explainx.ai também aponta que parte da repercussão de Coxon coincidiu com o lançamento de um modelo concorrente dias antes, o que alimentou teorias sobre motivação estratégica por trás do momento da publicação, sem que isso tenha sido comprovado.
O que isso muda para o Brasil
O debate chega ao país num momento em que a adoção de IA por empresas brasileiras ainda é modesta perto de outras economias, mas cresce rápido. Segundo a pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br/NIC.br, o uso de tecnologias de inteligência artificial nas empresas brasileiras subiu de 13% em 2024 para 17% em 2025, com destaque para as grandes companhias, que saltaram de 38% para 50% de adoção no mesmo período4. O percentual brasileiro ainda fica abaixo da média da União Europeia, estimada em 20%4.
Enquanto isso, o Congresso Nacional segue tramitando o PL 2338/2023, o marco legal da inteligência artificial, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e agora sob análise de uma comissão especial na Câmara dos Deputados. O texto propõe um sistema de classificação de risco inspirado no AI Act europeu, com exigências de transparência algorítmica maiores para aplicações de alto risco, além da criação de instâncias de governança como o Comitê de Regulação e Inovação em IA e um conselho nacional dedicado ao tema, com a Agência Nacional de Proteção de Dados como autoridade central5. A votação final, prevista para 2025, foi adiada para 2026 em meio a impasses sobre direitos autorais e exceções para sistemas de alto risco5.
É nesse contexto que os alertas vindos de dentro dos laboratórios americanos ganham peso prático para o debate brasileiro: eles chegam justamente quando o país discute que tipo de fiscalização terá sobre sistemas de alto risco, ainda sem uma lei federal específica em vigor.
Uma saída às vésperas de uma oferta bilionária
O momento da renúncia de Coxon também chama atenção por coincidir com os preparativos da Anthropic para abrir capital em bolsa, numa operação que analistas do setor estimam poder avaliar a empresa em torno de dois trilhões de dólares, o que a tornaria uma das maiores ofertas já registradas no mercado de tecnologia3. A Axios revelou ainda que Coxon deixou a empresa dois meses antes de suas ações começarem a se consolidar, abrindo mão do valor que teria recebido caso permanecesse6.
Perguntas frequentes
Quem é Jacob Coxon?
É um pesquisador britânico de 27 anos que trabalhou em pré-treinamento de modelos de linguagem na OpenAI e, depois, na Anthropic. Ele deixou a Anthropic em 9 de setembro de 2026 alertando publicamente que a indústria de IA está avançando de forma perigosa e sem controle suficiente.
Coxon é o primeiro funcionário a sair de um laboratório de IA alertando sobre riscos?
Não. Ele é o mais recente de uma lista de pelo menos dez pesquisadores e executivos que deixaram OpenAI, Google e Anthropic desde 2021 citando preocupações de segurança, entre eles Paul Christiano, Geoffrey Hinton, Helen Toner, Ilya Sutskever, Jan Leike e Daniel Kokotajlo.
O Brasil já tem uma lei específica sobre inteligência artificial?
Ainda não. O projeto de lei 2338/2023, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, segue em análise na Câmara dos Deputados e propõe um sistema de classificação de risco semelhante ao AI Act europeu, com a Agência Nacional de Proteção de Dados como autoridade central.
Qual é o nível de adoção de IA nas empresas brasileiras hoje?
Segundo o Cetic.br/NIC.br, 17% das empresas brasileiras usavam alguma tecnologia de IA em 2025, ante 13% em 2024, com adoção de 50% entre as grandes empresas, ainda abaixo da média europeia de cerca de 20%.