Faltam menos de três semanas para a eleição geral de Quebec, marcada para 5 de outubro, e a corrida já revelou a proposta fiscal mais ambiciosa entre os cinco principais partidos. Ruba Ghazal, porta-voz de Québec solidaire (QS), defende um imposto sobre grandes fortunas e uma alíquota marginal de renda que chegaria perto de 60% para quem ganha mais de 113.500 dólares canadenses por ano.1 Hoje essa combinação de impostos federal e provincial já soma 53%. A proposta ultrapassaria a França, que cobra 55% na faixa mais alta, e a Dinamarca, referência mundial em tributação, com 56%.1
A promessa central de campanha, no entanto, não é essa alíquota marginal. É a taxação de fortunas acima de 25 milhões de dólares, batizada de imposto sobre os "ultrarricos". Segundo o partido, a medida atingiria cerca de 4 mil contribuintes e beneficiaria milhões de eleitores, um cálculo politicamente eficiente que ajuda a explicar por que QS escolheu o slogan "C'est possible" para a campanha.2
Um pacote fiscal mais amplo do que parece
O plano de Québec solidaire vai além do imposto sobre fortunas. O partido propõe elevar de 50% para 100% a taxa de inclusão do ganho de capital na venda de imóveis que não sejam residência principal, o que tornaria integralmente tributável o lucro obtido por pequenos proprietários que hoje contam com esse patrimônio como aposentadoria. Para compradores sem fins lucrativos, a taxa cairia a 25%, uma forma de estimular a oferta de moradia popular. Empresas com mais de 500 funcionários também veriam a alíquota sobre lucros subir de 11,5% para 13%, reduzindo a distância fiscal de Quebec para Ontário e Alberta e, com isso, recriando o incentivo para planejamentos tributários interprovinciais que já existiu no passado.
O financiamento de promessas como refeições gratuitas nas escolas públicas, transporte coletivo gratuito para jovens e idosos e a criação de uma rede de mercearias públicas depende, em grande parte, dessas mudanças. O pacote de gastos soma 40 bilhões de dólares em quatro anos, de quatro a seis vezes mais do que os outros partidos da corrida propõem.1
A questão não é apenas quanto se cobra do topo da pirâmide, mas se o Estado tem instrumentos para efetivamente cobrar. Em Quebec, isso passa por avaliar o patrimônio líquido de milhares de contribuintes todos os anos. No Brasil, passa por rastrear uma renda que, cada vez mais, não aparece como salário. Análise editorial · O Tecido
O contraste brasileiro: uma reforma mais tímida, mas recente
O paralelo com o Brasil é inevitável e revela distâncias importantes. A alíquota marginal máxima do Imposto de Renda de Pessoa Física no país continua em 27,5%, praticamente metade do que Quebec já pratica hoje e menos da metade da proposta de QS. A reforma sancionada em 2025, com vigência a partir de janeiro de 2026, ampliou a isenção para quem ganha até R$ 5 mil por mês, beneficiando cerca de 15 milhões de contribuintes, e criou um imposto mínimo progressivo para rendas anuais acima de R$ 600 mil, chegando a um teto de 10% para quem recebe mais de R$ 1,2 milhão por ano, incluindo dividendos.3
A diferença mais reveladora, porém, está na alíquota efetiva. Segundo estudo da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, quem ganha R$ 4,1 milhões por mês (o topo dos 0,01% mais ricos do país) paga hoje uma alíquota efetiva média de apenas 2,54%, próxima da faixa de 1,7% a 1,8% recolhida por quem recebe R$ 4 mil mensais.4 Trabalhadores comuns, presos à retenção na fonte, pagam entre 9% e 11% de sua renda.3 Cerca de 141 mil contribuintes serão afetados pelo novo piso de tributação.3
Dados do Ipea ajudam a dimensionar essa desigualdade: quem está no topo da renda no Brasil recebe, em média, 1.451% a mais do que o trabalhador brasileiro típico, cuja renda mensal gira em torno de R$ 3.222.3
A renda que escapa da comparação entre alíquotas
Comparar apenas percentuais nominais entre Quebec e Brasil, no entanto, esconde um fator estrutural. Uma parcela relevante da alta renda brasileira não é declarada como salário sob regime CLT, e sim como remuneração de pessoa jurídica, prática conhecida como pejotização. Levantamento da consultoria EXEC, que analisou 720 processos de contratação de alta liderança entre janeiro de 2024 e agosto de 2026, encontrou vínculo PJ em apenas 7,9% dos casos, mas identificou que 59% desses contratos já reproduzem o equivalente ao 13º salário e 75% incluem bônus ou participação nos resultados, uma recriação informal de benefícios trabalhistas dentro de um enquadramento fiscal mais vantajoso.5
O efeito prático é que boa parte da remuneração de executivos e profissionais de alta renda no Brasil circula por estruturas societárias tributadas pelo Simples Nacional, pelo lucro presumido ou por dividendos historicamente isentos, o que reduz artificialmente a base sobre a qual qualquer alíquota, marginal ou mínima, incide. É um mecanismo distinto do que Québec solidaire discute, mas que produz um resultado parecido: a distância entre a alíquota escrita na lei e o que efetivamente chega aos cofres públicos.
Contraponto
Economistas e a própria reportagem original da La Presse levantam um risco simétrico nos dois países. Em Quebec, elevar a tributação sobre lucros e ganhos de capital de grandes empresas pode reduzir o diferencial competitivo em relação a Ontário e Alberta, incentivando planejamentos tributários interprovinciais.1 No Brasil, o temor equivalente é que o avanço da fiscalização sobre altas rendas empurre ainda mais profissionais para arranjos de pessoa jurídica ou para a transferência de patrimônio ao exterior, na ausência de uma reforma mais ampla da tributação sobre o capital.
Há também uma questão de capacidade administrativa. A reportagem da La Presse observa que a Receita de Quebec (Revenu Québec) não está equipada para verificar o patrimônio líquido dos contribuintes na velocidade exigida por um imposto sobre fortunas.1 No Brasil, o desafio é análogo: rastrear dividendos e rendimentos de pessoas jurídicas ligadas a uma única pessoa física exige cruzamento de dados que a Receita Federal ainda está implementando junto ao novo imposto mínimo.
O que está em jogo até 5 de outubro
Nas pesquisas, Québec solidaire segue atrás da Coalition Avenir Québec, do Partido Liberal e do Partido Québécois, o que reduz a probabilidade de que o pacote fiscal completo vire lei nesta legislatura.2 Ainda assim, o debate cumpre uma função que ultrapassa o resultado eleitoral: força os demais partidos a se posicionarem sobre até onde a progressividade tributária pode avançar sem comprometer investimento e arrecadação, um dilema que o Brasil também não resolveu ao aprovar uma reforma do IR que isenta a base e mira o topo, mas convive com uma economia informal de alta renda que a legislação ainda não alcança por completo.
Perguntas frequentes
Por que Québec solidaire quer elevar a tributação da renda alta para perto de 60%?
O partido propõe financiar gastos sociais, como transporte coletivo gratuito e refeições escolares, aumentando gradualmente o imposto de renda combinado (federal e provincial) sobre quem ganha mais de 113.500 dólares canadenses por ano, dos atuais 53% para próximo de 60%.
Como o Brasil tributa hoje os super-ricos?
A alíquota marginal máxima do IRPF é 27,5%. Desde janeiro de 2026, um imposto mínimo adicional passou a incidir sobre rendas anuais acima de R$ 600 mil, chegando a 10% para quem ganha mais de R$ 1,2 milhão por ano, incluindo dividendos.
Por que comparar apenas as alíquotas nominais entre países pode enganar?
Porque a alíquota efetiva, o que de fato é pago sobre a renda total, costuma ser muito menor do que a alíquota marginal, especialmente quando parte da renda circula por estruturas societárias ou rendimentos historicamente isentos, como ocorre com dividendos no Brasil.
O que é pejotização e por que ela interfere nessa comparação?
É a prática de remunerar um profissional por meio de uma pessoa jurídica em vez de um contrato CLT. Entre executivos brasileiros, isso reduz a base tributável nominal mesmo quando benefícios como 13º salário e bônus continuam sendo pagos na prática.
Que risco os críticos apontam para o imposto sobre fortunas de Quebec solidaire?
Dois principais: a fuga de capital e investimento para outras províncias canadenses, e a falta de capacidade administrativa de Revenu Québec para avaliar anualmente o patrimônio líquido dos contribuintes visados.