Série · Inteligência Artificial no Canadá · Parte 1

Imagine um operário no primeiro dia de trabalho numa fábrica de peças aeroespaciais. Em vez de um manual de centenas de páginas ou de esperar por um colega experiente, ele coloca um óculos de realidade aumentada e vê, projetadas sobre a própria máquina, as instruções da tarefa: onde apertar, em que ordem, com que torque. Um sistema de inteligência artificial compara o que ele está fazendo com uma execução de referência e avisa, na hora, se algo saiu do padrão. Essa cena já é rotina em algumas fábricas do Quebec, graças à startup montrealesa DeepSight, fundada em 2018 por Nicolas Bearzatto, Francis Dubé e Louis-Antoine Genin-Brien.[1]

Como a plataforma funciona

A lógica da DeepSight é capturar o conhecimento de quem já sabe fazer a tarefa, em vez de tentar descrevê-lo em texto. Um funcionário experiente veste óculos inteligentes (do tipo HoloLens) enquanto executa seu trabalho normalmente. O sistema registra a posição das mãos, os movimentos da cabeça, o ritmo de execução e as explicações verbais dadas em voz alta. A inteligência artificial organiza esses dados brutos e gera, em minutos, uma sequência de instruções em três dimensões, que passa a ficar disponível para os próximos funcionários em um tablet ou nos próprios óculos.[1]

O software por trás desse processo, batizado de DS Studio, foi desenhado para que supervisores de produção, e não programadores, consigam ajustar e enriquecer os módulos de treinamento sem escrever uma linha de código.[2] É uma resposta direta a um problema recorrente da automação industrial: ferramentas poderosas demais para o dia a dia do chão de fábrica.

A tecnologia funciona como um instrutor invisível, guiando a mão do operário e sinalizando, em tempo real, quando algo foge do padrão esperado. Paráfrase da fala de Francis Dubé, cofundador da DeepSight, à La Presse

Da linha de montagem à inspeção de aviões

Os casos de uso citados pela empresa vão do simples ao crítico. Na rede de restaurantes St-Hubert, cliente da DeepSight, apenas um pequeno grupo de especialistas sabia recalibrar as máquinas para trocar formatos de embalagem. Com o sistema de realidade aumentada, qualquer funcionário do turno consegue seguir o procedimento sozinho, sem precisar telefonar para um técnico de plantão de madrugada.[1]

Já na Airbus Canada, um dos clientes mais recentes, a aplicação é outra: padronizar o controle de qualidade e documentar processos que precisam atender a normas rígidas do setor aeroespacial. A empresa mantém registros de tudo o que foi feito numa aeronave durante toda a sua vida útil, e uma ferramenta capaz de capturar evidências de conformidade a cada etapa reduz o risco de falhas de rastreabilidade.[1] A companhia informa que colabora com a Airbus Canadá num projeto piloto para modernizar inspeções aeronáuticas usando análise de imagem em tempo real.[2]

Por que isso ganhou tração agora

O momento não é aleatório. Uma pesquisa da associação Manufacturiers et Exportateurs du Québec, citada pela revista L'actualité, apontou que 98,5% das empresas do setor manufatureiro da província relatavam falta de mão de obra.[3] Nesse cenário, treinar rápido deixou de ser um diferencial competitivo e passou a ser condição de sobrevivência operacional, especialmente para empresas que dependem de conhecimento acumulado por trabalhadores perto da aposentadoria.

Contraponto

Nem tudo é ganho automático. Especialistas em ergonomia e relações de trabalho têm alertado, em debates sobre wearables industriais, que dispositivos capazes de registrar cada movimento de um funcionário levantam questões de vigilância e privacidade no ambiente de trabalho, sobretudo quando os dados de desempenho alimentam avaliações individuais. Há também uma barreira de custo: óculos de realidade aumentada de uso industrial ainda representam um investimento considerável para pequenas e médias empresas, o público que mais precisaria da solução para compensar a escassez de mão de obra qualificada.

Soma-se a isso um limite técnico reconhecido pela própria DeepSight: replicar automaticamente, sem intervenção humana, o julgamento fino de um especialista continua fora do alcance da tecnologia atual, que depende de capturas bem estruturadas e de revisão editorial dos módulos gerados.[4]

O que isso diz sobre o Brasil

A distância entre o Quebec e o chão de fábrica brasileiro é maior na infraestrutura do que na necessidade. Levantamentos da Confederação Nacional da Indústria mostram que o uso de alguma tecnologia digital pela indústria brasileira saltou de 48% em 2016 para 69% em 2022, um avanço real, mas que ainda deixa a maior parte das empresas em estágios iniciais de maturidade.[5] A Pintec, pesquisa de inovação do IBGE divulgada em 2025, é mais específica: 59,2% das empresas industriais brasileiras utilizam apenas uma ou duas tecnologias digitais, sinal de que a digitalização ainda é rasa mesmo onde já começou.[6]

Isso importa porque o problema que a DeepSight resolve em Montreal (transferir conhecimento prático de trabalhadores experientes para novatos, sem depender de manuais estáticos) é estrutural também aqui. Programas como o Senai Centro 4.0 já testam inteligência artificial aplicada à manutenção preditiva e ao controle de qualidade em fábricas brasileiras,[7] mas o treinamento assistido por realidade aumentada ainda é praticamente ausente do debate público sobre modernização industrial no país, concentrado majoritariamente em automação de linha e análise de dados de produção.

O caso quebequense sugere um caminho complementar e relativamente barato de escalar: em vez de digitalizar processos do zero, capturar o conhecimento que já existe dentro da fábrica, nas mãos de quem trabalha ali há décadas, antes que ele se perca com a aposentadoria.

Esta reportagem foi inspirada na entrevista de Anaïs Desjardins com Francis Dubé, publicada originalmente pelo jornal canadense La Presse, sob o título "Former ses employés grâce à la réalité augmentée". A apuração original em francês, incluindo detalhes técnicos e depoimentos completos, pode ser lida em: plus.lapresse.ca.

Perguntas frequentes

O que é a DeepSight?

É uma empresa de tecnologia de Montreal, no Canadá, fundada em 2018, que desenvolve uma plataforma de treinamento industrial combinando realidade aumentada e inteligência artificial. O sistema capta o trabalho de funcionários experientes e transforma esse conhecimento em instruções visuais para novos operários.

Como a inteligência artificial entra nesse processo?

A IA processa os dados captados pelos óculos ou tablets (movimento das mãos, posição da cabeça, ritmo de execução) e os organiza automaticamente em uma sequência de etapas em 3D. Ela também compara, em tempo real, o trabalho de um novo funcionário com uma execução de referência, sinalizando desvios.

Quais empresas usam essa tecnologia?

Entre os clientes citados publicamente estão a rede St-Hubert, no Canadá, e a Airbus Canadá, no setor aeroespacial. A empresa também expandiu presença na Europa por meio de parceria com a ActARion.

Existe algo parecido sendo usado no Brasil?

Ainda não em escala relevante. Iniciativas como o Senai Centro 4.0 já aplicam inteligência artificial à manufatura brasileira, principalmente em manutenção preditiva e controle de qualidade, mas o uso de realidade aumentada para captura e transmissão de conhecimento prático entre trabalhadores segue incipiente no país.

Ewerton Lopes — Curador Editorial