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O Québec foi às urnas em 5 de outubro e saiu delas com uma configuração sem precedentes. O Parti Québécois (PQ), liderado por Paul St-Pierre Plamondon, formará o próximo governo com 28,0% dos votos válidos, a menor fatia já obtida por um partido vencedor na história da província, segundo levantamento da Radio-Canada[2]. Com 59 das 127 cadeiras da Assembleia Nacional, cinco a menos do que as 64 necessárias para a maioria, o novo gabinete dependerá das oposições para aprovar cada projeto de lei.
A leitura mais imediata do resultado aponta para fragmentação. Os administradores do Parlement jeunesse du Québec (PJQ), simulação parlamentar que funciona desde 1949, propõem outra interpretação. Em artigo publicado no La Presse, Gabrielle Bertrand e Vincent Raymond argumentam que a ausência de maioria pode ser tratada menos como sintoma de uma sociedade dividida e mais como uma oportunidade de governar por convergência[1]. A tese merece exame, porque toca em uma questão que o Brasil também enfrenta neste mês de outubro: o que acontece com a democracia quando a antipatia entre campos políticos cresce mais rápido do que a divergência sobre ideias.
Uma Assembleia sem dono
Os números da noite eleitoral desenham um parlamento de cinco forças desiguais. Além dos 59 deputados do PQ, o Parti libéral du Québec (PLQ) elegeu 40, o Parti conservateur du Québec (PCQ) fez 19 e o Québec solidaire (QS) ficou com 9. A Coalition avenir Québec (CAQ), que governou por oito anos, não elegeu nenhum deputado, embora tenha recebido 13,3% dos votos[2]. A distribuição dos votos foi de 28,0% para o PQ, 24,2% para os liberais e 20,7% para os conservadores.
A virada é notável em ambas as pontas. O PQ havia eleito apenas três deputados em 2022, e o PCQ de Éric Duhaime passou de menos de 2% dos votos em 2018 a uma bancada de 19 cadeiras, concentrada em cinco regiões[3]. Na semana seguinte à eleição, St-Pierre Plamondon reuniu seus candidatos em Drummondville e anunciou uma postura de colaboração, ao mesmo tempo em que pediu à bancada que se mantivesse mobilizada para uma eventual nova campanha. A vida média de um governo minoritário no Québec fica entre 18 e 24 meses, lembrou o jornal Le Soleil[4].
O primeiro-ministro designado descartou formar coalizão formal e indicou que buscará apoios caso a caso. Também disse que se reuniria com cada líder de oposição, e Duhaime já sinalizou pontos de interesse comum, como a redução de impostos sobre bens usados e cortes de gastos públicos, segundo a Global News[5]. Os deputados tomaram posse em 15 de outubro, e a composição do conselho de ministros estava prevista para ser anunciada nesta quarta-feira (21).
A tese do La Presse: governar por convergência
O argumento de Bertrand e Raymond parte de uma distinção simples. Governo minoritário é uma condição aritmética; governo colaborativo é uma escolha de comportamento. Para os autores, decisões construídas com apoio de mais de um partido tendem a ganhar legitimidade junto ao eleitorado e a reforçar a confiança nas instituições[1].
Eles citam precedentes da própria Assembleia Nacional. O mais conhecido é o tribunal especializado em violência sexual e conjugal, criado pelo projeto de lei 92 e aprovado por unanimidade em novembro de 2021, iniciativa que o então ministro da Justiça, Simon Jolin-Barrette, apresentou como a primeira do gênero no mundo, conforme reportagem da Canadian Press[6]. Outro é o regime de união parental, que estendeu proteções patrimoniais a casais em união de fato com filhos. A lei 56 também passou por unanimidade, em junho de 2024, num contexto em que 42% dos casais quebequenses vivem em união de fato e 65% das crianças nascem fora do casamento, de acordo com o governo do Québec[7]. Os autores mencionam ainda a regulação da venda de bebidas energéticas a menores de 16 anos[1].
O texto avança além do inventário legislativo. Bertrand e Raymond descrevem a democracia como uma comunidade de diálogo, que depende de comportamentos como respeito e honestidade, e recusam a ideia de que essa responsabilidade caiba apenas aos eleitos. A população, sustentam, também precisa renovar seu compromisso com esses valores, e a educação democrática seria um dos caminhos para isso[1].
Um laboratório sem disciplina partidária
É nesse ponto que entra a experiência que os autores conhecem de perto. O PJQ reúne, todos os anos, cerca de uma centena de jovens de 18 a 25 anos vindos de todas as regiões do Québec. Entre 26 e 30 de dezembro, eles ocupam o Salão Azul da Assembleia Nacional para debater quatro projetos de lei redigidos pelos próprios participantes, enquanto outro grupo cobre a sessão como imprensa, no jornal simulado La Colline, segundo o guia oficial da simulação[8]. A iniciativa nasceu em 1949 como uma organização anglófona e religiosa, o Older Boys' Parliament, e só adotou o nome atual em 1986. A Élections Québec apoia o programa e, em 2022, o diretor-geral eleitoral Pierre Reid atuou como vice-governador na abertura da legislatura simulada[9].
A regra que distingue o PJQ é a ausência de linha partidária. Cada participante fala em nome próprio. Os autores insistem que isso não produz consenso automático; produz outro tipo de dissenso. Na formulação deles, «la parole déliée permet de révéler des vérités que la ligne de parti efface»[1], ou seja, quando a palavra não está presa à orientação de bancada, emergem nuances e interesses comuns que a disciplina partidária costuma apagar. Segundo o artigo, a simulação debateu a ajuda médica para morrer já em 1992, mais de duas décadas antes de a Assembleia Nacional aprovar a lei sobre cuidados de fim de vida, em 2014[1].
O contraste com outro formato reforça o ponto. O mesmo prédio recebe o Parlement étudiant, simulação criada em 1987 que organiza os estudantes em duas formações políticas sujeitas à disciplina de partido. As duas experiências convivem há décadas e permitem observar, em escala reduzida, o efeito que a estrutura partidária exerce sobre a qualidade do debate.
A tese do PJQ não é que a divergência desaparece quando os partidos saem de cena. É que ela fica mais precisa.
O que a pesquisa diz sobre polarização afetiva
O artigo do La Presse usa a expressão polarização afetiva, conceito que a ciência política separa da polarização ideológica. A primeira mede a antipatia entre grupos; a segunda, a distância entre as posições que eles defendem. A distinção ganhou evidência brasileira em junho deste ano, com um estudo publicado na revista Nature Communications por pesquisadores da Universidade de Oxford e da FGV Ebape, liderados por Anna Petherick, conforme reportagem da BBC News Brasil[10].
Os pesquisadores acompanharam entre 2 mil e 3 mil brasileiros em cinco rodadas, de abril de 2022 a janeiro de 2023. Numa escala de 0 a 100, os entrevistados davam, em média, 72 pontos ao próprio grupo e 17 ao rival. A distância se apoiava em caricaturas. Bolsonaristas estimavam que 81% dos lulistas defendiam legalizar o aborto no primeiro trimestre de gestação, quando o índice real era de 46%. Lulistas supunham que apenas 27% dos bolsonaristas apoiavam cotas para estudantes de baixa renda, quando o apoio real se aproximava de 80%[10].
O dado mais relevante para o debate quebequense veio do experimento. Quando os participantes recebiam os números reais, a hostilidade ao grupo adversário diminuía, sem que a avaliação do próprio grupo mudasse. Os autores reconhecem que não mediram a duração desse efeito. Ainda assim, o resultado oferece uma versão testável da intuição do PJQ: parte da polarização afetiva se alimenta de uma percepção errada sobre o que o outro lado de fato pensa, e espaços que expõem as posições reais tendem a reduzi-la.
E o Brasil?
A comparação chega em momento oportuno. No primeiro turno de 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47,04% dos votos válidos, contra 45,15% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e os dois voltam às urnas no domingo, 25 de outubro, segundo a Agência Senado[11]. Petherick previu, ainda em junho, que uma disputa apertada entre dois campos já entrincheirados tenderia a repetir o aumento de antipatia observado em 2022[10].
Do ponto de vista institucional, o Brasil conhece há muito a situação que o Québec vive agora. Nenhum presidente eleito desde a redemocratização governou com maioria própria no Congresso, arranjo que o cientista político Sérgio Abranches batizou, em 1988, de presidencialismo de coalizão[14]. A diferença está menos na necessidade de negociar e mais na moeda da negociação. Em um parlamento minoritário, o governo pode cair numa votação de confiança, o que obriga acordos visíveis em torno de projetos específicos. No modelo brasileiro, o apoio costuma ser construído com ministérios, cargos e execução de emendas, e a convergência programática aparece com menos frequência no centro da conversa. A pergunta que o caso quebequense devolve ao Brasil, portanto, não é se haverá negociação no próximo mandato, mas sobre o quê.
No campo da educação democrática, o país também tem seu laboratório. A Câmara dos Deputados realiza desde 2004 o Parlamento Jovem Brasileiro, que leva a Brasília 78 estudantes do ensino médio, em número proporcional às bancadas estaduais, para apresentar, debater e votar projetos de lei de autoria própria[12]. Uma pesquisa publicada na Revista de Sociologia e Política, da UFPR, ouviu egressos de dez edições e registrou ganhos de capacidade analítica e de compreensão da atividade parlamentar[13]. A escala, porém, segue modesta diante de um eleitorado de mais de 150 milhões de pessoas.
Os limites da aposta na convergência
- Instabilidade embutida. Governos minoritários duram, em média, menos de dois anos no Québec. O próprio St-Pierre Plamondon pediu à bancada que se preparasse para nova campanha, sinal de que todos os partidos têm incentivo para se posicionar visando a próxima eleição, e não apenas para cooperar.
- A clivagem que não se negocia. A promessa de um terceiro referendo sobre soberania divide a Assembleia em eixo próprio. Somados, PQ e QS reúnem 68 cadeiras, maioria favorável à independência, o que pode produzir alinhamentos estáveis justamente no tema mais divisivo.
- Unanimidade não é sinônimo de qualidade. O tribunal especializado, citado como êxito transpartidário, foi aprovado por todos os partidos apesar das críticas da juíza-chefe da Corte do Québec, Lucie Rondeau, que apontou risco de interferência política no Judiciário e na presunção de inocência[6]. Acordo amplo pode reduzir o escrutínio.
- Laboratório não é campo. Os participantes de simulações são selecionados e motivados, e uma legislatura sem consequência eleitoral retira justamente o incentivo que gera a disciplina partidária. Transpor o modelo para o parlamento real exige mais do que boa vontade.
O que observar nos próximos meses
Três testes devem indicar se a tese de Bertrand e Raymond resiste ao exercício do poder. O primeiro é orçamentário: votações de crédito e de orçamento funcionam como votos de confiança e mostrarão com quem o PQ consegue compor. O segundo é temático: acordos pontuais com liberais ou conservadores em custo de vida, serviços públicos e clima indicariam convergência real, enquanto a dependência exclusiva do QS sinalizaria um governo organizado pelo eixo da soberania. O terceiro é de calendário: a forma como o governo tratar o referendo dirá se a colaboração é um método ou apenas uma etapa tática antes do confronto.
O valor do artigo do La Presse está menos na previsão e mais no critério que propõe. Em vez de medir a saúde de uma democracia pelo tamanho da maioria do governo, sugere medi-la pela capacidade de os adversários descobrirem o que realmente pensam uns dos outros. É um critério que se aplica tanto à Assembleia Nacional do Québec quanto à mesa de jantar brasileira na véspera de um segundo turno.
Perguntas frequentes
Quem venceu a eleição de 2026 no Québec?
O Parti Québécois, de Paul St-Pierre Plamondon, com 28,0% dos votos válidos e 59 das 127 cadeiras. É um governo minoritário, pois a maioria exige 64 cadeiras. O Parti libéral elegeu 40 deputados, o Parti conservateur 19, o Québec solidaire 9 e a Coalition avenir Québec nenhum.
O que é um governo minoritário?
É um governo formado por um partido que não detém sozinho a maioria das cadeiras do parlamento. Para aprovar leis e orçamentos, ele precisa do apoio ou da abstenção de ao menos parte da oposição. No Québec, esse tipo de governo dura em média de 18 a 24 meses.
O que é o Parlement jeunesse du Québec?
É uma simulação parlamentar e jornalística não partidária criada em 1949, que reúne anualmente cerca de cem jovens de 18 a 25 anos na Assembleia Nacional do Québec. Os participantes debatem quatro projetos de lei e falam em nome próprio, sem disciplina de partido.
Qual a diferença entre polarização afetiva e ideológica?
A polarização ideológica mede a distância entre as posições políticas dos grupos. A afetiva mede a antipatia entre eles. Estudo da Universidade de Oxford e da FGV publicado em 2026 na Nature Communications mostrou que, no Brasil, a hostilidade entre lulistas e bolsonaristas diminui quando as pessoas conhecem as opiniões reais do outro grupo.
Qual a relação entre o caso do Québec e o Brasil?
Os dois países lidam com governos que dependem de apoio de outros partidos. No Brasil, o arranjo é chamado de presidencialismo de coalizão. A diferença está na forma de negociação: em parlamentos minoritários, os acordos tendem a girar em torno de projetos; no Brasil, frequentemente envolvem cargos e emendas.
Referências
- BERTRAND, Gabrielle; RAYMOND, Vincent. «Gouverner sans diviser : et si c'était possible ?». La Presse+, outubro de 2026. Disponível aqui.
- Radio-Canada. «Le Parti québécois de PSPP remporte les élections», 6 out. 2026.
- La Presse Canadienne / Noovo Info. «Le PQ formera un gouvernement minoritaire: 5 points à retenir des élections», 6 out. 2026.
- La Presse Canadienne / Le Soleil. «Le PQ doit se préparer à une campagne électorale "éventuellement"», 9 out. 2026.
- Global News. Reportagem sobre as prioridades do primeiro-ministro designado Paul St-Pierre Plamondon, out. 2026.
- The Canadian Press / Global News. «Quebec adopts new bill for specialized court for sexual assault victims», 26 nov. 2021.
- Gouvernement du Québec. «Adoption à l'unanimité du projet de loi no 56», 2 jun. 2024.
- Parlement jeunesse du Québec. Guide à l'intention des médias, 74e législature.
- Élections Québec. «73rd Legislature of the Parlement jeunesse du Québec», 22 nov. 2022.
- BBC News Brasil / Estado de Minas. «"Polarização afetiva" explica a antipatia entre lulistas e bolsonaristas», 6 jun. 2026. Estudo de Petherick et al., Nature Communications.
- Agência Senado. «Flávio Bolsonaro e Lula disputam o segundo turno das eleições para presidente», 4 out. 2026.
- Câmara dos Deputados. Programa Parlamento Jovem Brasileiro.
- Revista de Sociologia e Política (UFPR). «Juventude e educação para a democracia: relatos de egressos do Parlamento Jovem Brasileiro».
- ABRANCHES, Sérgio. «Presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro». Dados, v. 31, n. 1, 1988.