Em 1677, o naturalista britânico Robert Plot descreveu e ilustrou um fragmento ósseo tão avantajado que, sem qualquer categoria científica para explicá-lo, o atribuiu a um humano gigante de tempos bíblicos. Não havia, ainda, a palavra "dinossauro". Não havia sequer a ideia de que a Terra pudesse ter sido, num passado remoto, palco de criaturas monstruosas que nada tinham a ver com o relato do Gênesis. Essa ideia só começaria a se impor quase um século e meio depois, e o processo foi tudo menos tranquilo.
É esse processo de ruptura que o jornalista científico norte-americano Edward Dolnick reconstrói no livro Dinosaurios en la cena (em tradução livre, "Dinossauros no jantar"), resenhado pelo crítico Toni Pou no jornal espanhol El País. Segundo a resenha, Dolnick descreve como, na Inglaterra vitoriana da primeira metade do século XIX, o estudo da natureza era encarado como uma via de aproximação com Deus, até que os fósseis desenterrados na costa inglesa passaram a sugerir algo que a Bíblia simplesmente não previa: um mundo antigo, violento e extinto muito antes da criação do homem (El País, 06/08/2026).
O marco costuma ser 1824, ano em que o geólogo William Buckland, primeiro professor de geologia de Oxford, descreveu formalmente o Megalosaurus a partir de fósseis encontrados em Oxfordshire. Buckland calculou um animal carnívoro de mais de doze metros, "do volume de um elefante", e imaginou hábitos anfíbios que hoje sabemos incorretos. Ainda assim, foi a primeira vez que a ciência reconheceu, por escrito, a existência de um réptil terrestre gigantesco e extinto (CNN Brasil).
Buckland não trabalhava sozinho, ainda que a história tenha demorado a reconhecer isso. Em Lyme Regis, a autodidata Mary Anning já vinha desenterrando répteis marinhos completos desde os doze anos de idade, incluindo o primeiro ictiossauro descrito cientificamente e, mais tarde, o primeiro plesiossauro. Ela também identificou o que havia dentro dos chamados coprólitos, fezes fossilizadas que Buckland usaria para reconstruir dietas e ecossistemas pré-históricos. Correspondia-se com os principais geólogos da época, mas, por ser mulher e de origem modesta, viu boa parte de seu trabalho publicado sob o nome de outros (Ciência Hoje).
O nome "dinossauro" só apareceria em 1842, cunhado pelo anatomista Richard Owen para agrupar Megalosaurus, Iguanodon e Hylaeosaurus numa categoria própria, distinta de répteis modernos. A partir daí, o efeito cultural foi imediato: em 1852, ao abrir Casa Desolada com um Megalosaurus caminhando por um Londres enlameado, Charles Dickens já podia contar com o leitor reconhecendo a referência. Da descrição científica ao imaginário popular, o caminho havia sido notavelmente curto.
O mesmo abalo, do outro lado do Atlântico
Se a Inglaterra vitoriana precisou de décadas para digerir a ideia de um passado sem Deus como protagonista único, o Brasil viveria sua própria versão tardia dessa história. O primeiro dinossauro brasileiro só seria descrito em 1970, quando o paleontólogo norte-americano Edwin Colbert batizou o Staurikosaurus pricei, encontrado no Rio Grande do Sul quatro décadas antes. Ele inaugurou uma linhagem de achados que hoje soma mais de 50 espécies catalogadas em território nacional, segundo o paleontólogo Luiz Eduardo Anelli, autor do Novo Guia Completo dos Dinossauros do Brasil (National Geographic Brasil).
Entre esses achados está o Berthasaura leopoldinae, terópode sem dentes descrito em 2021 por pesquisadores do Museu Nacional da UFRJ em parceria com o Centro Paleontológico da Universidade do Contestado, a partir de fósseis encontrados no Paraná. É um dos esqueletos de dinossauro mais completos já recuperados no país e recebeu esse nome em homenagem à imperatriz Maria Leopoldina, entusiasta das ciências naturais no Brasil do século XIX (Agência Brasil).
Há também uma camada mais melancólica nessa história. Parte do acervo paleontológico reunido pelo Museu Nacional desde sua fundação, em 1818, foi perdida no incêndio que destruiu boa parte do prédio em 2018. Alguns fósseis brasileiros relevantes, guardados havia décadas sem estudo completo, desapareceram antes mesmo de serem plenamente compreendidos pela ciência que ajudaram a formar (Mundo Pré-Histórico).
Contraponto: o quanto essa ruptura foi, de fato, repentina
Nem todos os historiadores da ciência descrevem a virada vitoriana como um choque abrupto entre fé e razão. Parte da historiografia mais recente argumenta que muitos dos protagonistas dessa história, entre eles o próprio Buckland, eram religiosos praticantes que não viam contradição entre suas descobertas e sua teologia, tentando conciliar os fósseis com leituras não literais do Gênesis antes que a teoria da evolução tornasse essa conciliação mais difícil.
A resenha de Toni Pou sobre o livro de Dolnick também aponta uma ressalva editorial: os saltos temporais da narrativa, segundo o crítico, geram certa desorientação cronológica ao leitor, dificultando situar com precisão o que já era conhecimento estabelecido em cada momento e o que ainda era hipótese em disputa (El País).
Uma disputa que a ciência não fechou de vez
O episódio inglês do século XIX raramente é tratado como uma curiosidade fechada no passado. O embate entre explicações literais de origem religiosa e o registro fóssil segue vivo hoje em diferentes países, inclusive no Brasil, onde pesquisas de opinião e debates educacionais eventualmente reacendem a discussão sobre o ensino da evolução nas escolas. A diferença, dois séculos depois de Buckland, é que o volume de evidência fóssil acumulado, incluindo o próprio material brasileiro, deixou pouco espaço para que a controvérsia seja tratada como uma disputa científica em aberto.
Para quem quiser se aprofundar na reconstrução histórica que deu origem a este texto, o livro Dinosaurios en la cena, de Edward Dolnick, reúne a galeria de personagens excêntricos, do próprio Buckland a Mary Anning, que tornou possível essa virada de visão de mundo.
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Nota editorial: Este texto foi inspirado na resenha de Toni Pou sobre o livro de Edward Dolnick, publicada pelo jornal El País em 06 de agosto de 2026, sob o título "Cuando los dinosaurios extinguieron a Dios" (leia o original aqui). O conteúdo foi reapurado de forma independente por O Tecido, com fontes brasileiras e internacionais adicionais listadas nas referências.