Caderno Economia · Política Monetária & Dívida Pública

Em 19 de agosto, o Tesouro dos Estados Unidos anunciou que dobraria o tamanho de suas recompras de títulos longos, de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação, mirando o trecho de 10 a 30 anos da curva. O movimento veio dias depois de o rendimento do título de 30 anos americano tocar a máxima em 19 anos. As taxas caíram na hora do anúncio e, no dia seguinte, já haviam voltado ao patamar anterior. Para investidores e economistas, o episódio reacendeu uma pergunta que atravessa fronteiras: até que ponto um governo pode empurrar para baixo o preço da própria dívida sem pagar o preço disso mais tarde?

Nota editorial: Este artigo foi motivado pelo artigo de opinião "Let the Bond Market Speak", de Stanley Druckenmiller, publicado pelo The Wall Street Journal em 24 de agosto de 2026. O texto original, que defende a tese de que o Tesouro americano está sufocando um sinal legítimo do mercado, pode ser lido na íntegra em wsj.com/opinion/let-the-bond-market-speak. O conteúdo abaixo não é uma tradução: é uma reportagem original de O Tecido, com apuração e contextualização brasileira independentes.

O que o Tesouro americano fez, e por que incomodou tanto

A gestão da dívida pública americana tem, historicamente, uma regra não escrita: comprar e vender títulos para manter o mercado funcionando, não para definir o preço que esse mercado deveria ter. Druckenmiller, fundador do Duquesne Family Office e uma das vozes mais respeitadas do mercado financeiro global, argumenta que a operação anunciada em agosto rompeu essa fronteira1. Segundo ele, não havia sinais de disfunção real, como leilões fracassados ou trava de liquidez nos bancos, apenas um mercado precificando corretamente um cenário de inflação persistente acima da meta, desemprego baixo e déficit fiscal em torno de 5,8% do PIB em plena atividade econômica plena2.

O pano de fundo importa. A dívida bruta dos Estados Unidos ultrapassou os US$ 40 trilhões nesta mesma semana de agosto, segundo dados do Tesouro americano2. O gasto com juros líquidos deve superar US$ 1 trilhão neste ano fiscal, mais do que o orçamento de defesa do país, de acordo com projeções do Congressional Budget Office (CBO)3. Para Druckenmiller, ao suprimir artificialmente o rendimento dos títulos longos, o Tesouro reduz a pressão política para que o Congresso finalmente discuta reformas na Previdência e nos programas de saúde, os principais motores do déficit de longo prazo.

"Cada ponto-base de rendimento suprimido artificialmente é um subsídio à procrastinação fiscal."

O Brasil já viveu uma versão dessa história em 2026

Para o leitor brasileiro, o debate soa familiar. Em março deste ano, o Tesouro Nacional promoveu a maior intervenção no mercado de títulos públicos em mais de uma década, recomprando R$ 43,6 bilhões em papéis prefixados e indexados à inflação em apenas dois dias, mais do que havia recomprado durante toda a pandemia de covid-194. O movimento buscava conter a escalada dos juros futuros em meio à guerra entre Estados Unidos e Irã e a incertezas domésticas, entre elas o risco de uma nova paralisação de caminhoneiros. Em julho, o secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, e o subsecretário da Dívida Pública, Francisco Segundo, voltaram a sinalizar disposição para intensificar recompras, desta vez com foco nas NTN-Bs, papéis atrelados à inflação que somam cerca de R$ 2,3 trilhões em estoque5.

A diferença de escala entre as duas economias é evidente, mas o mecanismo é o mesmo: um Tesouro que compra de volta sua própria dívida longa para conter a alta de juros que o próprio mercado está sinalizando como resposta ao risco fiscal. E o pano de fundo brasileiro também tem seus próprios números desconfortáveis. A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) fechou junho em 81,9% do PIB, o maior nível desde a pandemia, segundo o Banco Central6. Em apenas três anos e meio, a relação dívida/PIB subiu 10,2 pontos percentuais6. O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 55,3 bilhões em junho, alta de 17,4% em relação ao mesmo mês de 20256.

Selic em queda, mas dívida em alta

Há uma diferença importante que merece nota: enquanto o Federal Reserve mantém sua política monetária separada da gestão da dívida do Tesouro americano, ao menos formalmente, o Banco Central brasileiro segue reduzindo a Selic. Em agosto, o Copom cortou a taxa básica pela quarta vez consecutiva no ano, de 14,25% para 14,00% ao ano, decisão unânime dos sete diretores7. A inflação acumulada em 12 meses, medida pelo IPCA, estava em 4,44% em julho, acima do centro da meta de 3% mas dentro da banda de tolerância7. Ainda assim, mesmo com juros nominais elevados, o custo de carregar a dívida pública brasileira continua sendo o principal motor da alta da DBGG mês a mês, segundo o próprio Banco Central6.

Contraponto

Nem todo analista concorda com a leitura de que recompras de títulos representam uma manipulação de preços. Autoridades do Tesouro Nacional e economistas de mercado argumentam que, em momentos de estresse agudo, com volatilidade excessiva e liquidez escassa em determinados vencimentos, a atuação do Tesouro é parte do funcionamento normal de qualquer mercado de dívida soberana, brasileiro ou americano8. Segundo essa visão, o objetivo não é fixar um preço artificial, mas evitar que distorções técnicas, como a falta de contrapartes dispostas a negociar, se transformem em uma espiral de venda desordenada que prejudicaria toda a curva de juros, encarecendo o crédito para famílias e empresas.

Nessa leitura, o problema não estaria na ferramenta em si, mas na frequência e na escala com que ela passa a ser usada. Um Tesouro que recompra ocasionalmente, em momentos de disfunção comprovada, está fazendo gestão de liquidez. Um Tesouro que recompra repetidamente, em resposta direta a cada alta de juros, está, na prática, tentando fixar um preço, um objetivo mais difícil de sustentar e mais custoso de abandonar.

Por que isso importa para quem não investe em título público

O rendimento dos títulos públicos longos funciona como uma espécie de termômetro da confiança dos investidores na capacidade de um país de honrar suas dívidas no futuro. Quando esse termômetro sobe de forma consistente, o efeito se espalha: financiamento imobiliário fica mais caro, empresas pagam mais para captar recursos, e o próprio governo precisa destinar uma fatia maior do orçamento só para pagar juros, em vez de investir em saúde, educação ou infraestrutura. É exatamente esse encadeamento que preocupa economistas em ambos os países, ainda que em graus diferentes.

No caso brasileiro, o Ministério da Fazenda e o Banco Central têm reiterado que a situação fiscal está sob controle e que as recompras fazem parte do arsenal padrão de gestão da dívida, usado também em 2013 e em 2018, durante episódios de estresse como as manifestações de junho e a greve dos caminhoneiros4. Já para críticos do arcabouço fiscal atual, o uso recorrente da ferramenta em 2026, somado ao crescimento contínuo da DBGG, sugere que o mercado está, à sua maneira, pedindo um ajuste mais robusto nas contas públicas, na linha do que Druckenmiller defende para os Estados Unidos.

O que observar daqui para frente

Nos Estados Unidos, as recompras ampliadas do Tesouro devem rodar de 9 de setembro a 4 de novembro, período que coincide com a reta final da campanha eleitoral de meio de mandato, o que já gerou críticas sobre a coincidência entre calendário político e calendário de dívida1. No Brasil, a próxima reunião do Copom está marcada para 15 e 16 de setembro, com o mercado projetando mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic até o fim do ano, segundo o Boletim Focus7. Em paralelo, o Tesouro Nacional deve seguir monitorando a curva de juros das NTN-Bs, com autoridades já sinalizando que novas recompras extraordinárias não estão descartadas caso a pressão volte a subir9.

O ponto levantado por Druckenmiller, de que o mercado de títulos é, na prática, o único disciplinador fiscal que resta quando o debate político trava, encontra eco direto na experiência brasileira recente. A pergunta que fica, dos dois lados do equador, é a mesma: comprar tempo com recompras de dívida resolve o problema de fundo, ou apenas adia a conversa sobre o ajuste que, mais cedo ou mais tarde, alguém vai ter que fazer?

Perguntas frequentes

O que são recompras de títulos públicos (buybacks) e por que os governos as fazem?

São operações em que o Tesouro de um país recompra no mercado secundário títulos de dívida que já havia emitido antes. O objetivo declarado costuma ser dar liquidez a papéis pouco negociados ou suavizar oscilações bruscas na curva de juros. Críticos apontam que, quando usadas com muita frequência em resposta direta a altas de juros, essas operações podem funcionar como uma forma disfarçada de conter artificialmente o preço da dívida.

Qual é a diferença entre a intervenção do Tesouro americano e as recompras do Tesouro Nacional brasileiro?

A escala é bem diferente: os EUA dobraram operações para pelo menos US$ 4 bilhões por leilão, enquanto o Tesouro brasileiro chegou a recomprar R$ 43,6 bilhões em dois dias em março de 2026. Mas o mecanismo de fundo é semelhante, ambos os países usaram a recompra para conter a alta de rendimentos de longo prazo em um contexto de déficit fiscal elevado.

A dívida bruta do governo brasileiro está subindo mesmo com a Selic em queda?

Sim. A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) chegou a 81,9% do PIB em junho de 2026, o maior patamar desde a pandemia, segundo o Banco Central, mesmo com o Copom promovendo cortes consecutivos na Selic ao longo do ano. O principal motor da alta continua sendo a incorporação de juros nominais sobre o estoque já existente da dívida.

Por que o rendimento dos títulos de 30 anos é considerado tão importante pelos mercados?

Porque reflete a confiança dos investidores na capacidade de um governo pagar sua dívida no longo prazo, funcionando como referência para outras taxas de juros da economia, incluindo financiamento imobiliário e crédito corporativo. Uma alta persistente costuma sinalizar preocupação com a trajetória fiscal do país.

Ewerton Lopes — Curador Editorial