Este texto foi motivado pela reportagem "Le poids du patrimoine dans l'économie freine la mobilité sociale, selon une étude", publicada pelo jornal canadense Le Devoir em 24 de agosto de 2026, assinada por Alex Fontaine. Trechos e dados do estudo original do Desjardins são citados com atribuição direta. Leia a reportagem completa em ledevoir.com.
Um estudo divulgado pelo banco cooperativo Desjardins, em Quebec, no Canadá, colocou em números uma sensação que já é familiar a boa parte das famílias brasileiras: trabalhar duro deixou de ser garantia de ascensão econômica. Segundo os economistas Florence Jean‑Jacobs e Sonny Scarfone, autores da pesquisa, o problema não está exatamente na renda do trabalho, que cresceu acima da inflação nos últimos anos tanto no Canadá quanto no Brasil. Está no patrimônio, ou seja, no conjunto de bens, imóveis e investimentos acumulados ao longo da vida, que passou a se valorizar em ritmo muito superior aos salários[1].
O levantamento aponta que, para um casal de dois adultos com renda mediana em Quebec, a distância entre o primeiro e o terceiro quintil de patrimônio equivalia a cerca de nove anos de poupança em 1999. Em 2023, esse intervalo já havia saltado para mais de 20 anos. Entre o terceiro e o quinto quintil, a distância passou de pouco mais de 50 anos para quase 90 anos de poupança acumulada[1]. Em outras palavras: mesmo trabalhando e poupando de forma consistente, uma família de classe média levaria quase uma vida inteira para alcançar o patamar patrimonial de outra família em um quintil superior.
O contraste brasileiro: renda mais igual, patrimônio ainda distante
No Brasil, o retrato da desigualdade de renda tem seguido direção diferente da observada no Canadá. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgados pelo IBGE, mostram que o índice de Gini da renda domiciliar per capita recuou de 0,518 em 2023 para 0,506 em 2024, o menor patamar da série histórica iniciada em 2012[2]. Uma nota técnica do Ipea, assinada por Pedro Herculano Souza e Marcos Dantas Hecksher, confirma o movimento: ao longo de três décadas de pesquisas domiciliares, 2024 reuniu simultaneamente os melhores números de renda média, desigualdade e pobreza já registrados no país, impulsionados sobretudo pelo avanço de mais de 25% na renda real entre 2021 e 2024[3].
Esse cenário poderia sugerir que o Brasil está imune ao fenômeno descrito pela Desjardins. A leitura, porém, exige cautela. A queda do Gini mede desigualdade de renda corrente, não de patrimônio. E é justamente no campo patrimonial, sobretudo no imobiliário, que o país mostra sinais parecidos com os do estudo canadense. O Índice FipeZap, que acompanha preços de imóveis residenciais em 56 cidades brasileiras, registrou em 2024 alta de 7,73%, a maior valorização anual em 11 anos, superando com folga a variação dos salários no mesmo período[4]. Para famílias que dependem exclusivamente do salário para formar poupança, cada ano de valorização acelerada do metro quadrado empurra a casa própria um pouco mais para longe.
Mobilidade social: um problema anterior à valorização recente
A questão da mobilidade intergeracional, aliás, não é novidade na literatura econômica brasileira. Estudos baseados no Suplemento de Mobilidade Social da PNAD, aplicado em 1996 e novamente apenas em 2014, mostram que o grau de associação entre a renda dos pais e a renda dos filhos permanece elevado no Brasil quando comparado a outros países, ainda que tenha havido queda no coeficiente de persistência entre os dois períodos pesquisados[5]. Pesquisadores ligados ao Centro de Políticas Públicas do Insper também constataram que a mobilidade educacional aumentou de forma consistente desde os anos 1990, mas segue menor entre filhos de pais com pouca escolaridade, um indício de que a origem familiar continua pesando sobre as chances de ascensão[6].
Juntando as duas camadas, a de renda e a de patrimônio, o quadro brasileiro se aproxima do diagnóstico da Desjardins por um caminho distinto. Enquanto no Canadá o problema central é a distância crescente entre quintis de riqueza dentro de uma mesma faixa de renda, no Brasil a barreira histórica de mobilidade se soma agora a um mercado imobiliário que se valoriza mais rápido do que a capacidade de poupança das famílias assalariadas, tornando a compra da primeira casa própria um marco cada vez mais tardio na trajetória financeira de cada geração.
Contraponto: o otimismo dos indicadores de curto prazo
Nem todos os economistas veem motivo para alarme imediato. Defensores de uma leitura mais otimista argumentam que a queda simultânea do Gini de renda, da pobreza extrema e o crescimento real dos salários entre 2021 e 2024 representam avanços concretos e mensuráveis, capazes de ampliar a poupança das famílias no médio prazo[3]. Sob essa ótica, a valorização imobiliária recente refletiria também maior demanda por crédito habitacional subsidiado, como o Minha Casa Minha Vida, que ampliou faixas de renda elegíveis em 2024, e não apenas um afastamento estrutural entre patrimônio e trabalho. O debate, portanto, segue em aberto: trata-se de uma correção conjuntural de preços ou do início de uma tendência de longo prazo semelhante à observada em Quebec.
O que está em jogo: o "contrato social" do trabalho
O ponto mais delicado do estudo da Desjardins talvez não seja econômico, mas sim comportamental. Os autores observam que a crença de que o esforço individual é suficiente para melhorar de vida vem se corroendo entre os quebequenses, o que poderia alimentar demandas por maior intervenção fiscal e redistributiva por parte do governo[1]. No Brasil, onde a desigualdade histórica já legitima parte do debate sobre tributação de heranças e grandes patrimônios, a discussão ganha um capítulo adicional: se a queda recente da desigualdade de renda não vier acompanhada de acesso mais amplo a patrimônio, sobretudo habitacional, o otimismo dos indicadores de curto prazo pode não se traduzir em percepção real de progresso para as famílias brasileiras.
Perguntas frequentes
O que o estudo da Desjardins descobriu sobre patrimônio e mobilidade social?
O estudo mostra que, em Quebec, a distância patrimonial entre famílias de diferentes faixas de renda aumentou drasticamente desde 1999, passando de 9 para mais de 20 anos de poupança entre o primeiro e o terceiro quintil, e de 50 para quase 90 anos entre o terceiro e o quinto quintil, dificultando a ascensão econômica baseada apenas no trabalho.
A desigualdade no Brasil está aumentando ou diminuindo?
Segundo o IBGE, a desigualdade de renda no Brasil caiu para o menor nível da série histórica em 2024, com o índice de Gini recuando para 0,506. No entanto, essa métrica considera apenas a renda corrente, não o patrimônio acumulado pelas famílias.
Por que o mercado imobiliário é relevante para essa discussão?
Porque o imóvel é a principal forma de patrimônio para a maioria das famílias. O Índice FipeZap registrou em 2024 a maior valorização de imóveis em 11 anos no Brasil, um ritmo que tende a superar o crescimento dos salários e a alongar o tempo necessário para a compra da casa própria.
O Brasil tem baixa mobilidade social intergeracional?
Estudos acadêmicos baseados na PNAD indicam que a associação entre a renda dos pais e a renda dos filhos permanece relativamente alta no Brasil, embora tenha diminuído entre 1996 e 2014, especialmente na dimensão educacional.