Caderno Livros · Inteligência artificial e autoria

Este artigo foi inspirado na entrevista de Pauline Gravel com o pesquisador Paramveer Dhillon publicada pelo jornal canadense Le Devoir: «Les lecteurs préfèrent les écrits générés par l'IA quand ils l'ignorent». O texto não é tradução nem reprodução: trechos atribuídos ao Le Devoir estão creditados, e o restante foi apurado em fontes independentes.

A pergunta que a literatura evitou durante anos chegou à rentrée francesa de 2026 com nome, sobrenome e editora. C'était ça ou mourir, romance de estreia do escritor haitiano-canadense Thélyson Orélien sobre migração, vencedor do Prix du roman Fnac e com traduções negociadas para mais de vinte países, foi retirado da seleção do Prêmio Goncourt depois que um detector de texto artificial apontou probabilidade altíssima de redação por máquina. Ao mesmo tempo, um estudo da Universidade de Michigan chegou a uma conclusão que torna o episódio ainda mais incômodo: quando não sabem a origem do texto, leitores, inclusive especialistas formados em escrita criativa, tendem a preferir a prosa de uma IA treinada na obra de um autor à de escritores humanos.12

As duas histórias se encontram em uma entrevista do pesquisador Paramveer Dhillon ao jornal Le Devoir, de Montreal. A conversa ajuda a separar o que é evidência científica, o que é suspeita e o que ainda é terreno aberto para editoras, prêmios e legisladores. Inclusive no Brasil.

O que o estudo de Michigan realmente mediu

O trabalho, assinado por Tuhin Chakrabarty, Jane C. Ginsburg e Paramveer Dhillon e disponível como preprint no arXiv, é um experimento pré-registrado. Escritores com mestrado em escrita criativa (o MFA americano) e três modelos de IA de fronteira (ChatGPT, Claude e Gemini) produziram trechos de até 450 palavras imitando o estilo de 50 autores premiados. Em comparações às cegas, 28 leitores com formação em escrita criativa e 516 leitores com ensino superior escolheram qual trecho era mais fiel ao estilo do autor imitado e qual estava mais bem escrito.2

O resultado depende de como a máquina foi usada. Quando a IA recebia apenas instruções e exemplos no próprio comando (o chamado in-context prompting), os especialistas rejeitavam com clareza o texto artificial, tanto em fidelidade quanto em qualidade. Os leitores gerais, porém, já atribuíam melhor qualidade de escrita à máquina. O quadro se inverteu quando os pesquisadores fizeram o ajuste fino (fine-tuning) do ChatGPT com as obras completas de cada autor: aí, até os especialistas passaram a preferir a IA, e a vantagem entre leitores gerais ficou ainda maior.2

CenárioLeitores especialistasLeitores gerais
IA só com instruções no comandoPreferem fortemente o humanoSem preferência no estilo; preferem a IA na qualidade
IA ajustada com a obra completa do autorPreferem a IA (razão de chances de 8,16 no estilo e 1,87 na qualidade)Preferem a IA com margem maior (16,65 no estilo e 5,42 na qualidade)
Detecção por ferramentas automáticas97% dos textos sem ajuste foram sinalizados como IA, contra 3% dos textos ajustados

Fonte: Chakrabarty, Ginsburg e Dhillon, preprint arXiv 2510.13939. Razão de chances acima de 1 indica preferência pela IA.

O dado mais importante para o debate público talvez seja o último. Segundo a análise dos autores, o ajuste fino elimina os vícios estilísticos que denunciam a máquina, como a densidade de clichês. Sem esses sinais, o texto deixa de ser reconhecido por pessoas e por detectores. Ao Le Devoir, Dhillon explicou a vantagem em termos de memória: um leitor atento de um autor guarda talvez uma centena de padrões da sua escrita, enquanto o modelo consegue registrar e reproduzir milhares deles.1

Há limites que convém registrar. Os trechos eram curtos, o ajuste fino foi feito em um único modelo, e preferir um parágrafo não equivale a preferir um romance inteiro, que exige coerência de voz por centenas de páginas. Os próprios autores reconhecem que transformar a saída da IA em prosa publicável de longa extensão ainda demanda trabalho humano.2

O caso Orélien: o que se sabe e o que se supõe

A acusação partiu em 21 de setembro de uma conta anônima no X chamada «Balance ton Claude», em referência ao assistente da Anthropic, que submeteu trechos do livro ao detector americano Pangram. O romance, publicado primeiro no Canadá pela Boréal e depois na França pela Grasset, virou o centro da temporada literária. Testes feitos por veículos franceses também apontaram probabilidade muito elevada de texto gerado por máquina, e a Academia Goncourt retirou o título da seleção alegando a necessidade de preservar um prêmio dedicado à literatura escrita por pessoas, como relatou a Paris Match Belgique.3

Em 13 de outubro, em texto enviado à agência AFP, Orélien negou que qualquer frase do livro tenha sido criada por uma máquina. No mesmo comunicado, reconheceu ter cometido plágios em textos publicados após sua chegada ao Canadá, depois que a imprensa quebequense encontrou ao menos cinco artigos de 2012 a 2014 que reproduziam trabalhos de outros autores.3 A admissão não prova o uso de IA no romance, mas pesou na percepção pública do caso.

Dhillon, na entrevista ao Le Devoir, mostra-se convencido do uso intensivo de modelos de uso geral, sem ajuste fino, o que explicaria por que o detector os identificou. Ele aponta construções de frase típicas desses sistemas e lembra que um texto apenas revisado por IA para corrigir erros de digitação e ortografia costuma registrar algo entre 5% e 6% no Pangram, muito longe do índice de 92% atribuído ao romance no teste citado pelo jornal.1

A fronteira que importa não é entre usar ou não usar IA, mas entre o escritor que usa a ferramenta e a ferramenta que escreve no lugar do escritor.

O especialista francês Alexandre Gefen, diretor de pesquisa do CNRS e estudioso das humanidades digitais, ofereceu uma leitura mais cautelosa, também reproduzida pelo Le Devoir. Para ele, o romance carrega marcas documentadas dos modelos de linguagem, como a reformulação negativa, as tríades e o aforismo de fechamento, mas não exibe outras, como a baixa variação no tamanho das frases, o vocabulário excessivo e os conectores argumentativos típicos da geração automática. Se houve assistência, conclui Gefen, ela não tem a forma de um texto produzido de uma só vez.1 Dhillon concorda nesse ponto: os modelos atuais não escrevem um romance inteiro sozinhos, e quem os usa costuma conduzi-los parágrafo a parágrafo, com instruções precisas.

Contraponto

Detectores de IA são indícios, não sentenças. O próprio diretor-executivo do Pangram, Max Spero, já afirmou que a ferramenta nunca deveria ser o árbitro final, mas o ponto de partida para uma investigação, como lembrou a emissora quebequense Noovo Info ao testar o software.4 O estudo de Michigan, aliás, mostra o problema pelo outro lado: textos de IA bem ajustados passam quase sempre despercebidos. Um detector que acerta com textos rudimentares e falha com os sofisticados tende a punir o uso amador e deixar escapar o profissional.

Também há quem veja no caso um julgamento antecipado. A revista Slate criticou a rapidez com que jornalistas e comentaristas aderiram a uma acusação baseada em um algoritmo, e a editora Grasset protestou contra afirmações categóricas sobre o livro. Por outro lado, quatro textos de Orélien de 2014 submetidos ao mesmo detector teriam registrado 0% de IA, segundo a conta que fez a denúncia, o que reforça a hipótese de mudança no modo de escrever.5 Até aqui, nenhuma das duas versões foi comprovada de forma conclusiva.

Por que a autoria ainda importa

Questionado sobre por que não seria aceitável escrever com IA, Dhillon recorre ao velho adágio de que «escrever é pensar». Se a máquina redige, deixa de ser possível saber quanto das ideias pertence de fato ao autor.1 O argumento é forte porque desloca a discussão da estética para a responsabilidade. Um romance não é apenas um conjunto de frases agradáveis: é um registro de escolhas feitas por alguém que responde por elas.

Um segundo trabalho do mesmo grupo, apresentado na conferência CHI 2026, acompanhou escritores que descobriram ter preferido, sem saber, trechos produzidos por máquina. Segundo os autores, a experiência provocou uma espécie de crise de identidade e abalou a confiança desses profissionais no próprio julgamento estético.6 A crise é compreensível, mas talvez revele menos sobre a máquina do que sobre o critério. Se o valor de um livro fosse medido apenas pela preferência às cegas por um parágrafo, a autoria seria irrelevante. Ela não é, porque o leitor compra também a garantia de que há uma pessoa por trás daquela experiência.

Diluição de mercado e direito autoral

O estudo não foi pensado só para a crítica literária. Ele foi desenhado para dialogar com o quarto fator do fair use americano, que avalia o efeito de um uso sobre o mercado potencial da obra original.2 Em comunicado da School of Information de Michigan, Dhillon resumiu o ponto: imitar a voz de um escritor com IA deixou de ser raro ou caro, e passou a ser algo escalável.7

Ao Le Devoir, o pesquisador descreveu o efeito econômico: com custo de produção próximo de zero, há quem publique mais de uma centena de livros por ano em autopublicação, sem informar o uso de IA. São obras muitas vezes fracas que inundam plataformas e tornam os livros de autores humanos mais difíceis de encontrar.1 A Amazon reagiu a esse movimento ainda em 2023, quando passou a exigir que autores do Kindle Direct Publishing declarassem conteúdo gerado por IA e limitou a três o número de novos títulos por dia por conta, como registrou a Authors Guild.8

Como saída, Dhillon propõe duas medidas. A primeira é a obrigação de informar o uso de IA, por analogia com o joalheiro que distingue o diamante natural do produzido em laboratório. A segunda é uma certificação de autoria humana, nos moldes dos selos de alimentos orgânicos.1 A comparação é útil porque não proíbe nada: apenas devolve ao leitor a informação de que ele precisa para escolher.

O que isso significa para o Brasil

O debate chega a um país com um mercado leitor fragilizado. A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostrou que em 2024, pela primeira vez na série iniciada em 2007, os não leitores (53%) superaram os leitores (47%). O levantamento ouviu 5.504 pessoas em 208 municípios, como resumiu o blog da Companhia das Letras.9 Em um mercado que encolhe, a concorrência de títulos produzidos em escala industrial tende a pesar mais sobre autores iniciantes e pequenas editoras, justamente os que dependem de ser descobertos.

No plano legal, o tema está em aberto. O PL 2338/2023, o marco regulatório da inteligência artificial aprovado pelo Senado, tem uma seção dedicada a direitos de autor que permite ao titular vetar o uso de suas obras em sistemas de IA e prevê remuneração quando há uso comercial. Na comissão especial da Câmara, esse foi o ponto de maior divergência entre os convidados das audiências públicas, segundo levantamento da agência Aos Fatos.10 Setores editorial, musical, audiovisual e jornalístico pressionam pela manutenção da proteção, enquanto parte da comunidade jurídica e tecnológica teme custos que travem o desenvolvimento nacional de modelos.

O caso Orélien acrescenta uma camada que o projeto ainda trata pouco: a transparência diante do leitor. A remuneração pelo treinamento resolve uma parte do problema, a dos autores cujas obras alimentam os modelos. Não resolve a outra, a do comprador que leva para casa um romance sem saber como ele foi feito. Uma regra de divulgação, aplicada a editoras e plataformas, seria mais simples de fiscalizar do que qualquer detector e menos sujeita a erros de julgamento.

Para editoras e prêmios brasileiros, a lição imediata é de processo. Contratos podem prever declaração expressa sobre o uso de IA. Regulamentos de prêmios podem definir o que é aceitável, distinguindo revisão, pesquisa e apoio à organização de ideias da redação delegada. E nenhuma decisão deveria se apoiar apenas em um detector, ferramenta que serve para levantar perguntas, não para encerrá-las.

Perguntas frequentes

Os leitores preferem textos escritos por IA?

Depende do método. No estudo da Universidade de Michigan, leitores especialistas rejeitaram textos de IA produzidos apenas com instruções, mas passaram a preferi-los quando o modelo foi ajustado com a obra completa do autor imitado. Leitores gerais já preferiam a qualidade da IA no primeiro cenário e ampliaram essa preferência no segundo. A comparação foi feita às cegas, com trechos de até 450 palavras.

O que é o caso Thélyson Orélien?

É a polêmica em torno do romance C'était ça ou mourir, do escritor haitiano-canadense Thélyson Orélien, acusado em setembro de 2026 de ter sido escrito com uso intensivo de IA após testes no detector Pangram. O livro foi retirado da seleção do Prêmio Goncourt. O autor nega o uso de IA, mas admitiu plágios em textos antigos.

Detectores de IA como o Pangram são confiáveis?

Eles são considerados úteis para identificar textos gerados por modelos de uso geral, mas não são infalíveis. O próprio diretor do Pangram afirma que a ferramenta não deve ser o árbitro final. O estudo de Michigan mostra que textos de IA ajustados com a obra de um autor foram sinalizados em apenas 3% dos casos.

Como o Brasil regula o uso de obras protegidas por IA?

O PL 2338/2023, aprovado pelo Senado e em análise na Câmara dos Deputados, prevê que titulares possam vetar o uso de suas obras no treinamento de IA e recebam remuneração em caso de uso comercial. Esse trecho é o mais disputado na comissão especial que examina o projeto. Até a publicação deste texto, a lei não estava em vigor.

Quais soluções são propostas para proteger leitores e autores?

O pesquisador Paramveer Dhillon defende a divulgação obrigatória do uso de IA na produção de livros e, como alternativa, uma certificação de autoria humana semelhante aos selos de produtos orgânicos. Plataformas como a Amazon já exigem a declaração de conteúdo gerado por IA na autopublicação.

Evelyn Cordeiro

Evelyn Cordeiro — Fundadora do Inspiravalley e do canal Pensadoria no YouTube.