Durante anos, um punhado de empresas americanas apostou todas as fichas em um único jogador. Meta, Palantir e outras gigantes bancaram parte da festa de posse de Donald Trump, financiaram projetos pessoais do presidente e cultivaram acesso direto à Casa Branca. Agora, com pesquisas indicando que os republicanos podem perder a maioria na Câmara dos Representantes nas eleições de meio de mandato em novembro, essas mesmas empresas estão fazendo algo revelador: escrevendo cheques generosos para o Partido Democrata e contratando ex-assessores democratas para se proteger de investigações que podem vir caso o Congresso mude de mãos.
A reportagem, publicada pelo The Wall Street Journal em 27 de agosto de 2026, descreve um movimento coordenado de blindagem política. A Meta doou 5 milhões de dólares à House Majority Forward e outros 5 milhões à Majority Forward, entidades ligadas à liderança democrata na Câmara e no Senado, doações que não exigem divulgação pública e que se somam aos 10 milhões de dólares que a empresa já havia entregado a um comitê alinhado a Trump. No total, a companhia de Mark Zuckerberg já destinou pelo menos 30 milhões de dólares a organizações políticas federais somente neste ano, distribuídos estrategicamente entre os dois lados do espectro partidário, segundo apurou o jornal.
Paramount Skydance contratou Shuwanza Goff, ex-diretora de assuntos legislativos do governo Joe Biden, para chefiar suas relações governamentais. A Kalshi, plataforma de mercados preditivos que tem o filho do presidente, Donald Trump Jr., como conselheiro estratégico, trouxe para o time a ex-assessora de Barack Obama Stephanie Cutter e o ex-assessor de Biden John Bivona. A OpenAI, por sua vez, organizou jantares em Washington reunindo parlamentares democratas e seu executivo-chefe, Sam Altman.
A frase, atribuída pelo WSJ ao estrategista democrata Cooper Teboe, resume o cálculo que hoje domina salas de reunião em Washington e no Vale do Silício. Executivos de Amazon, Chevron, Pfizer e UnitedHealth participaram neste verão de um seminário fechado da Câmara de Comércio dos Estados Unidos sobre como administrar investigações do Congresso, e o escritório de advocacia Cahill promoveu treinamento semelhante com a participação do próprio presidente do Comitê de Fiscalização da Câmara, o republicano James Comer. Nem todos, porém, estão trocando de aposta: Elon Musk planeja investir mais de 100 milhões de dólares para manter o Congresso nas mãos republicanas.
O que o episódio americano revela sobre regras, não sobre mercado
O caso ilustra, de forma didática, algo que a teoria da captura regulatória descreve há décadas: em setores fortemente dependentes de contratos públicos, licenças, dados regulados ou legislação favorável, o retorno de investir em relacionamento político costuma superar o retorno de investir apenas em produto ou eficiência. Não se trata de um fenômeno peculiar aos Estados Unidos. Trata-se de uma lógica estrutural que aparece, com roupagens diferentes, em praticamente todo sistema onde o Estado é comprador relevante, regulador setorial ou fiador de crédito subsidiado.
No Brasil, a comparação direta com doações empresariais de campanha é limitada por um detalhe jurídico central: desde 2015, o financiamento eleitoral por pessoas jurídicas é proibido. O Supremo Tribunal Federal julgou a Ação Direta de Inconstitucionalidade 4650 e decidiu, por oito votos a três, que a liberdade dada a empresas para doar a candidatos gerava o que o relator, ministro Luiz Fux, chamou de plutocratização do processo político. Levantamentos citados pela Transparência Internacional Brasil mostram que, antes da proibição, cerca de 74% de todo o dinheiro arrecadado em campanhas vinha de empresas, e que apenas 191 companhias, 1% dos doadores, respondiam por mais de 60% desse total nas eleições gerais de 2010.
Contraponto
Nem todo lobby ou doação política equivale a corrupção. Defensores da regulamentação da representação de interesses, incluindo a própria Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, argumentam que o problema não é o contato entre empresas e poder público, algo inevitável em qualquer economia regulada, mas a falta de transparência sobre quem fala com quem e por quê. Nos Estados Unidos, doações políticas são protegidas como manifestação de expressão desde a decisão da Suprema Corte em Citizens United v. FEC, de 2010, e figuras como o ministro Gilmar Mendes, no julgamento brasileiro de 2015, alertaram que restringir demais o financiamento privado poderia, paradoxalmente, dificultar a alternância de poder ao favorecer quem já detém mandato. Sob essa ótica, empresas que dialogam com os dois lados do espectro político não estariam necessariamente comprando favores, mas administrando risco regulatório de forma previsível, algo que praticamente todo setor intensivo em capital faz em algum grau.
Se a porta das doações diretas está fechada no Brasil, a porta das emendas parlamentares e dos contratos públicos ficou mais larga. Levantamento do Senado Federal mostra que, desde 2015, o Congresso Nacional ampliou de forma constante seu poder sobre a destinação do Orçamento por meio de emendas individuais, de bancada, de comissão e de liderança. Somente em 2025, segundo apuração do Correio Braziliense, a Câmara executou cerca de 1,3 bilhão de reais em indicações registradas apenas em nome de líderes partidários, sem identificar publicamente qual parlamentar escolheu cada uma das 1.341 emendas desse tipo, prática que investigações da Polícia Federal associam a esquemas de superfaturamento, licitações simuladas e propina envolvendo empresários e agentes públicos, segundo a Transparência Internacional Brasil.
Há ainda uma lacuna estrutural que amplia a opacidade: o Brasil segue sem lei que regule a atividade de lobby. Um projeto original de 2007, do deputado Carlos Zarattini, tramitou por quase duas décadas antes de a Câmara aprovar, no fim de 2022, uma versão consolidada que criaria um cadastro nacional de representantes de interesses. A proposta, porém, está parada no Senado desde então, segundo reportagem da Gazeta do Povo, mesmo com a pressão da OCDE, organização da qual o Brasil busca se tornar membro pleno. Enquanto isso, mais de 700 profissionais de relações institucionais atuam hoje apenas na América Latina, segundo o Anuário Origem Latam, sem qualquer obrigação legal de divulgar reuniões, clientes ou pautas defendidas junto a ministérios e ao Congresso.
O que o episódio americano e o cenário brasileiro têm em comum, então, não é o mecanismo, mas o efeito. Nos Estados Unidos, o dinheiro flui de forma legal e declarada para comitês partidários. No Brasil, ele é redirecionado para dentro do próprio Orçamento público, via emendas, contratos e um mercado de influência que segue sem regras claras. Em ambos os casos, o resultado observável é o mesmo: empresas cujo desempenho depende de decisões de Estado investem tanto em capturar essas decisões quanto em capturar seus mercados. Livre mercado, no sentido estrito do termo, pressupõe regras iguais para todos os competidores. O que esses casos descrevem é outra coisa, um sistema em que parte relevante da vantagem competitiva vem de moldar a regra a seu favor, não de vencer dentro dela.
Para o eleitor brasileiro, o alerta é direto. A extinção das doações empresariais em 2015 resolveu um problema visível, mas não eliminou o incentivo econômico por trás dele. Enquanto contratos públicos, emendas parlamentares e representação de interesses não regulamentada continuarem sendo canais abertos e pouco transparentes, o capital seguirá encontrando caminho até o poder, com ou sem cheque de campanha assinado.
Perguntas frequentes
Por que empresas americanas ligadas a Trump agora doam a democratas?
Porque pesquisas indicam risco real de os democratas retomarem a maioria na Câmara dos Representantes nas eleições de meio de mandato de novembro de 2026, o que abriria caminho para investigações e convocações sobre doações e contratos firmados com o governo Trump.
É legal uma empresa doar simultaneamente para republicanos e democratas nos Estados Unidos?
Sim. Doações a comitês e organizações políticas são permitidas e protegidas como manifestação de expressão desde a decisão da Suprema Corte em Citizens United v. FEC, de 2010, embora parte dessas doações, como as citadas na reportagem, não exija divulgação pública imediata.
Empresas podem doar para campanhas eleitorais no Brasil?
Não. Desde a decisão do Supremo Tribunal Federal na ADI 4650, em 2015, pessoas jurídicas estão proibidas de doar para candidatos e partidos políticos no Brasil. Somente pessoas físicas e recursos públicos, como o Fundo Especial de Financiamento de Campanha, podem financiar campanhas.
Se as doações empresariais são proibidas, como empresas influenciam políticos no Brasil?
Principalmente por meio de contratos públicos viabilizados por emendas parlamentares, lobby não regulamentado por lei e relações institucionais diretas com ministérios e parlamentares, canais que carecem de transparência equivalente à exigida nos Estados Unidos.
O Brasil tem lei que regula o lobby?
Não. Um projeto de lei sobre o tema tramita desde 2007, foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 2022 e permanece parado no Senado Federal até a publicação desta reportagem.
Ewerton Lopes — Curador Editorial