2 de setembro de 2026
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São Paulo, maio de 2026
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Política Industrial

Quando o Estado aposta: os pilares do Brasil global e o que vem depois

Embraer, Petrobras e o agronegócio não nasceram do mercado livre. Nasceram de décadas de subsídio, proteção e pesquisa pública. O mundo já escolheu os próximos setores. O Brasil ainda hesita.

Redação  |  Caderno Política  |  O Tecido

Há uma narrativa conveniente que circula em certos círculos empresariais e nos editoriais mais liberais da imprensa brasileira: a de que a Embraer venceu porque é eficiente, que o agronegócio prospera por mérito próprio e que a Petrobras existiu apesar do Estado, não por causa dele. É uma narrativa confortável. É também, em larga medida, falsa.

Os três maiores casos de sucesso da indústria brasileira no cenário internacional foram construídos sobre décadas de intervenção estatal deliberada — crédito subsidiado, pesquisa pública, proteção de mercado, compras governamentais e, no caso da Embraer, a própria criação da empresa pelo governo militar em 1969. Entender esse fato não é fazer apologia ao dirigismo irresponsável. É, simplesmente, ler a história com honestidade.

A Embraer que o mercado não criaria sozinho

Quando o Brigadeiro Ozires Silva convenceu os militares a fundar a Empresa Brasileira de Aeronáutica, o Brasil não tinha tradição aeronáutica, não tinha mercado consumidor de aviões regionais e certamente não tinha capital privado disposto a bancar décadas de prejuízo até que o negócio se tornasse viável. O Estado entrou com tudo: capital, infraestrutura, o ITA para formar engenheiros e contratos militares que garantiram receita nos anos magros.

A privatização de 1994 não foi o fim do apoio estatal — foi sua reinvenção. O BNDES continuou financiando exportações via PROEX. Linhas de crédito subsidiadas tornaram os aviões da Embraer competitivos frente a Airbus e Boeing. Mais recentemente, governo federal e empresa anunciou investimentos conjuntos de R$ 20 bilhões até 2030, em aviação sustentável e novos produtos. O mercado chegou depois — depois que o Estado abriu o caminho.

"Nenhum setor estratégico vira campeão mundial sem que o Estado apareça como cliente, financiador e protetor nos anos de alto risco."

O agro que aprendeu a colher o que o Cerrado não dava

O milagre agrícola brasileiro não foi obra da mão invisível. Foi obra da Embrapa. Fundada em 1973, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária investiu décadas adaptando soja, milho e algodão ao Cerrado — um bioma que os agronômicos europeus consideravam impróprio para a agricultura intensiva. O Estado pagou a conta da pesquisa. O setor privado colheu os frutos.

Os subsídios ao agronegócio datam da ditadura de 1964 e nunca pararam. Hoje, cerca de R$ 157,6 bilhões em isenções fiscais federais são destinados ao setor — aproximadamente 40% do total de renúncias tributárias da União. O Plano Safra 2023 chegou a R$ 364 bilhões em crédito subsidiado. São números que tornam qualquer discurso sobre o "agro que se fez sozinho" difícil de sustentar com a calculadora na mão.

R$ 158bi
Renúncias fiscais federais destinadas ao agronegócio no período analisado
R$ 364bi
Plano Safra 2023 — maior pacote de crédito agrícola da história do Brasil
R$ 300bi
Nova Indústria Brasil — financiamentos até 2026 via BNDES e Finep

O caso Musk: o maior beneficiário do Estado que prega o Estado mínimo

Para quem ainda tem dúvidas sobre o papel do Estado na criação de campeões tecnológicos, o caso de Elon Musk é instrutivo — e bastante irônico. O homem que chefia um órgão chamado Departamento de Eficiência Governamental, cujo objetivo declarado é cortar gastos públicos, construiu sua fortuna sobre um dos maiores pacotes de subsídio estatal da história recente dos Estados Unidos.

Uma análise do Washington Post publicada em 2025 identificou que Musk e suas empresas receberam ao menos US$ 38 bilhões em contratos governamentais, empréstimos, subsídios e créditos fiscais em mais de 20 anos. A Tesla não teria sobrevivido sem um empréstimo de US$ 465 milhões do Departamento de Energia concedido em 2008, quando a empresa estava à beira da falência. Cerca de um terço dos lucros históricos da Tesla veio da venda de créditos regulatórios criados pelo governo californiano. A SpaceX se ergueu sobre contratos da NASA e do Pentágono que, durante anos, foram sua única fonte de receita real.

A SpaceX faturou entre US$ 2 e 4 bilhões por ano em contratos governamentais entre 2021 e 2024. O Estado americano não financiou um empresário — financiou uma indústria inteira: veículos elétricos, energia solar, exploração espacial comercial. Musk foi o empreendedor que soube capitalizar melhor essa aposta pública.

O que o mundo já decidiu — e o Brasil ainda pondera

País / BlocoSetorInvestimento público
Estados UnidosSemicondutores (CHIPS Act)US$ 52 bilhões
ChinaChips e IA (Big Fund III)US$ 47,5 bilhões
União EuropeiaChips e manufatura (Chips Act)€ 43 bilhões
Coreia do SulSemicondutores (K-Chips Act)US$ 23 bilhões
FrançaIA e inovação industrial€ 109 bilhões
Arábia SauditaIA e tecnologia (Transcendence)US$ 100 bilhões
BrasilNova Indústria Brasil (todos setores)R$ 300 bilhões

O Brasil aparece na tabela — o programa Nova Indústria Brasil, lançado em 2024, prevê R$ 300 bilhões em financiamentos até 2026, com metas em saúde, bioeconomia, energia renovável, infraestrutura e defesa. É um passo. Mas é um passo dado enquanto o resto do mundo corre.

Onde o Brasil tem vantagem comparativa real

A questão relevante não é se o Brasil deve ter política industrial. Essa discussão já foi encerrada — pelo mercado, pela história e pelos dados. A questão é em quais setores apostar, com que critério e com que governança.

Há pelo menos seis áreas onde o Brasil parte de uma posição privilegiada. A primeira é a energia renovável e o hidrogênio verde: o país tem a combinação mais favorável do planeta — irradiação solar intensa no Nordeste, ventos constantes no litoral, hidrelétricas, biomassa em abundância. A Europa e a Ásia estão dispostas a pagar caro por hidrogênio verde brasileiro. Faltam regulação, infraestrutura portuária e financiamento de longo prazo.

A segunda é a saúde e a farmacêutica nacional. O setor responde por cerca de 10% do PIB e por aproximadamente um terço da pesquisa científica do país, mas produz apenas 45% dos medicamentos que consome. A pandemia evidenciou tanto a vulnerabilidade dessa dependência quanto a capacidade técnica existente — Fiocruz e Butantan produziram vacinas para meio continente. Com incentivos equivalentes aos que a Embraer recebeu, o Brasil poderia ter uma indústria farmacêutica de classe mundial em duas décadas.

A terceira é a bioeconomia amazônica. É o único ativo desse tipo no planeta. Bioativos, cosméticos, fitoterápicos, créditos de carbono, conhecimento tradicional sistematizado. A Natura demonstrou que é possível construir uma empresa global com essa base. Mas o potencial explorado ainda é mínimo diante do que existe.

A quarta é a agritech — juntar a força bruta do agronegócio com inteligência artificial, biotecnologia e sustentabilidade. A Embrapa poderia ser reinventada como o equivalente nacional do DARPA agrícola, combinando pesquisa pública com startups privadas. A quinta é defesa e tecnologia crítica, onde a Embraer já tem presença e onde a Nova Indústria Brasil estabelece a meta de 50% de autonomia em tecnologias de soberania. A sexta, e talvez a mais promissora no horizonte de dez anos, é a inteligência artificial com dados tropicais: 215 milhões de brasileiros, uma língua própria, o maior banco de dados de saúde pública do mundo via SUS. É uma vantagem comparativa que nenhum outro país tem.

A lição que os três pilares ensinam

Embraer, Petrobras e agronegócio ensinam três coisas ao mesmo tempo. Primeira: o Estado pode criar campeões globais quando aposta com critério, paciência e continuidade. Segunda: o custo do acerto é alto, mas o custo do erro — ou da omissão — é ainda maior. Terceira: o subsídio sem contrapartida de desempenho, transparência e governança degenera em captura por interesses privados.

O Brasil tem hoje uma janela. A transição energética global está criando demanda por ativos que o país tem em abundância. A pandemia mostrou que dependência tecnológica é um risco de segurança nacional. A corrida pela IA está apenas começando, e o jogo ainda não está definido.

O que falta, como sempre, é menos diagnóstico e mais decisão.


Fontes: Washington Post (análise dos subsídios às empresas de Musk, fev. 2025); Agência Brasil / Governo Federal (Nova Indústria Brasil, 2024; Plano Safra 2023); DIRBI / Receita Federal (isenções ao agronegócio); Stanford HAI — AI Index Report 2025; Semiconductor Industry Association (SIA); Agência Gov (Embraer / governo federal, fev. 2025); Portal da Indústria — CNI.

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