2 de setembro de 2026
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25 de Junho de 2026
Tecnologia & Desenvolvimento Humano

Quando o celular dos pais vira rival dos filhos

Pesquisas recentes convergem para uma conclusão incômoda: a hiperconexão dos adultos não afeta apenas sua produtividade — ela deixa marcas na saúde emocional das crianças e adolescentes que convivem com ela.

Redação O Tecido
Caderno Ciência
⏱ 10 min de leituraPublicado em: 25 de Junho, 2026

O que dizem os números

68%Dos pais admitem ser distraídos pelo celular na presença dos filhos (estudo 2020).
46%Dos adolescentes relatam que um dos pais se distrai com o telefone durante conversas.
600Adolescentes de 12 a 17 anos avaliados no estudo do Newport Healthcare (2026).
12 itensCompõem a Device Attachment Interference Scale (DAIS) usada na avaliação.

Há uma cena que se repete em lares de todo o mundo: uma criança faz uma pergunta, puxa a manga do casaco, espera — e o pai ou a mãe, com os olhos presos à tela, responde com um monossílabo sem erguer o rosto. O comportamento tem até nome em inglês: phubbing, contração de phone e snubbing (ignorar). O que era tema de artigos de etiqueta tornou-se, nos últimos anos, objeto de estudo em revistas científicas de psicologia — e os resultados vêm sendo cada vez mais preocupantes.

Um estudo publicado em abril de 2026 na revista Frontiers in Psychology mapeou com rigor o que acontece quando adolescentes percebem que seus cuidadores estão cronicamente distraídos por dispositivos digitais. A pesquisa, conduzida por pesquisadores do Newport Healthcare — organização clínica especializada em saúde mental juvenil nos Estados Unidos —, recrutou 600 adolescentes entre 12 e 17 anos e aplicou uma escala criada especificamente para o estudo, chamada Device Attachment Interference Scale (DAIS), composta por 12 perguntas sobre atenção, disponibilidade e qualidade das interações com o cuidador principal. Os resultados foram então cruzados com medidas estabelecidas de estilo de apego.

"Os momentos repetidos de distração parental, mesmo que breves, podem ter peso emocional significativo para adolescentes que ainda buscam atenção, validação e conexão de seus cuidadores."

— Frontiers in Psychology, abril de 2026 — ver estudo

O padrão encontrado foi claro e consistente: quanto mais os adolescentes percebiam seus cuidadores como inacessíveis por causa das telas, maior era o grau de apego inseguro identificado — tanto o tipo ansioso quanto o evitativo. O apego inseguro, conceito fundamentado na teoria do psiquiatra britânico John Bowlby, descreve a dificuldade de uma criança ou jovem em confiar na disponibilidade emocional do adulto de referência, o que tende a se desdobrar em dificuldades relacionais, baixa autoestima e maior vulnerabilidade à ansiedade e à depressão ao longo da vida.

O que a ciência entende por phubbing parental

O termo phubbing foi cunhado em 2012 por uma iniciativa do Macquarie Dictionary, na Austrália. Aplicado ao contexto familiar, o phubbing parental designa qualquer situação em que o uso do smartphone pelo cuidador interrompe ou prejudica a interação com a criança ou o adolescente. Estudiosos da área têm empregado também o termo technoference — interferência tecnológica — para descrever o mesmo fenômeno.

O problema não é novo, mas sua escala é inédita. Uma pesquisa realizada em 2020 revelou que 68% dos pais admitiam ser ao menos ocasionalmente distraídos por seus telefones na presença dos filhos. Uma pesquisa do Pew Research Center de 2024 encontrou que 46% dos adolescentes relatavam que um dos pais se distraía com o celular durante conversas ao menos ocasionalmente. A maioria dos estudos sobre efeitos de telas na infância concentrou-se até agora no uso dos próprios jovens — este novo campo de pesquisa inverte o olhar.

Teoria do apego e distração digital

A teoria do apego, proposta por Bowlby na segunda metade do século XX e refinada por Mary Ainsworth, sustenta que os padrões de relacionamento que uma criança estabelece com seus cuidadores nos primeiros anos de vida formam modelos internos que orientam como ela vai se relacionar com o mundo ao longo de toda a existência. Quando um cuidador está emocionalmente disponível e responde de forma consistente às necessidades da criança, o resultado tende a ser um apego seguro. Quando a responsividade é imprevisível ou insuficiente, surgem os padrões inseguros — ansiosos, evitativos ou desorganizados.

O que pesquisas recentes investigam é se a distração digital pode funcionar, para fins práticos, como uma forma de indisponibilidade emocional. Um estudo publicado em Children and Youth Services Review (2025) encontrou que o phubbing parental está positivamente associado à depressão em adolescentes, com a coesão familiar atuando como mediador: quanto mais o cuidador está absorvido pelo celular, menor tende a ser a coesão do grupo familiar, o que por sua vez eleva os indicadores de depressão. Outro estudo, publicado na Current Psychology em 2026, concluiu que o phubbing parental está associado a menor qualidade de vínculo com pares e a maior sofrimento psicológico — e que a conexão com a natureza pode funcionar como fator protetor, especialmente em estudantes mais velhos.

Um terceiro ângulo revela um ciclo preocupante: estudo publicado em Children's Health Care (2025), com 561 adolescentes entre 14 e 17 anos, verificou que o phubbing parental prevê significativamente o próprio comportamento de phubbing nos filhos (β = 0,521; p < 0,001). Em termos simples: pais que ignoram os filhos pelo celular tendem a criar filhos que ignoram outros pelo celular.

"O phubbing parental não apenas causa sofrimento direto — ele modela comportamentos digitais que os filhos reproduzem nas próprias relações."

— Children's Health Care, 2025 — ver estudo

O cenário brasileiro

O Brasil é um dos países com maior penetração de smartphones do mundo, o que torna o debate particularmente relevante aqui. Dados inéditos divulgados pelo Cetic.br em fevereiro de 2025, obtidos a partir das pesquisas TIC Domicílios e TIC Kids Online Brasil, mostram que, em uma década (2015–2024), o acesso à internet entre crianças de até 8 anos avançou de forma dramática: na faixa de 0 a 2 anos, a proporção de usuários saltou de 9% para 44%; entre crianças de 3 a 5 anos, de 26% para 71%; e entre as de 6 a 8 anos, de 41% para 82%. São crianças cujos pais pertencem, em sua maioria, às gerações que cresceram com a internet — e que hoje estão em plena faixa de adoção massiva de smartphones.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 (PeNSE), divulgada pelo IBGE em março de 2026, entrevistou 118.099 adolescentes de 4.167 escolas públicas e privadas e traçou um panorama inquietante da saúde mental da população jovem. Três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmaram sentir-se tristes sempre ou na maioria das vezes; 42,9% relataram irritabilidade constante; e 18,5% disseram que a vida não vale a pena ser vivida. Um dado adicional toca diretamente o tema da disponibilidade afetiva: 26,1% dos estudantes disseram sentir constantemente que "ninguém se preocupa" com eles.

Brasil: crianças conectadas (Cetic.br, 2024)

Crianças de 0 a 2 anos conectadas44% (eram 9% em 2015)
Crianças de 3 a 5 anos conectadas71% (eram 26% em 2015)
Crianças de 6 a 8 anos conectadas82% (eram 41% em 2015)
Total de crianças e jovens de 9 a 17 anos online25,5 milhões

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) atualizou em 2024 seu manual "#MenosTelas #MaisSaúde", recomendando evitar telas para menores de dois anos, limitar a uma hora diária para crianças de dois a cinco anos e a duas horas por dia para adolescentes. O documento, que passou a ser reforçado pela entrada em vigor do ECA Digital em março de 2026, concentra-se predominantemente nos hábitos das crianças — ainda que a SBP reconheça a importância do papel parental. A questão do comportamento digital dos próprios adultos permanece, na prática, um ponto cego das políticas públicas e das orientações clínicas brasileiras.

Como a distração vira ausência

Do ponto de vista neurológico e comportamental, o mecanismo pelo qual o phubbing parental afeta os filhos envolve ao menos dois caminhos distintos. O primeiro é direto: a indisponibilidade percebida do cuidador gera frustração, sensação de rejeição e, ao longo do tempo, expectativas negativas sobre a disponibilidade das figuras de apego — exatamente o terreno em que crescem os padrões inseguros descritos pela teoria de Bowlby. O segundo é modelado: crianças pequenas, em particular, são altamente sensíveis a pistas não verbais e tendem a imitar o comportamento de referência. Pesquisadores do campo da aprendizagem social, fundamentados em Bandura, sustentam que o uso constante do celular por adultos estabelece "normas familiares de mídia" que as crianças internalizam — independentemente do que lhes é dito verbalmente sobre o assunto.

Um metaestudo publicado no Journal of Medical Internet Research em 2025, que analisou dados de 53 estudos distintos, consolidou as associações entre phubbing parental e problemas internalizantes (ansiedade, depressão, baixa autoestima) e externalizantes (agressividade, comportamentos de risco) em crianças e adolescentes. A consistência dos resultados entre diferentes culturas e faixas etárias foi apontada pelos autores como um indicativo de que se trata de um fenômeno estrutural, não de um artefato de culturas específicas.

"Crianças pequenas são significativamente mais sensíveis a pistas não verbais do que adolescentes — o que as torna especialmente vulneráveis à influência de gestos físicos como o phubbing parental."

— PMC / NCBI, 2026 — ver estudo

O que a evidência sugere

A boa notícia, implícita nos próprios estudos, é que o apego não é um destino fixo: é um padrão em construção permanente, especialmente durante a infância e a adolescência. Pesquisa publicada em BMC Psychology em 2026 identificou que a resiliência modera o impacto do phubbing parental sobre a depressão — jovens com maior capacidade de regulação emocional absorvem melhor a distração dos pais. Do mesmo modo, a qualidade das interações presenciais que ocorrem em contextos livres de telas pode funcionar como contrapeso.

As recomendações que emergem da literatura são, em essência, simples: designar momentos e espaços livres de celular — refeições, hora de dormir, atividades partilhadas — e torná-los rotina. Pesquisadores ressaltam que não se trata de eliminar o uso de dispositivos, mas de torná-lo previsível e explicitamente separado dos momentos de presença. A chave não é a quantidade de tempo com os filhos, mas a qualidade da atenção durante esse tempo.

Para pais que trabalham com demandas digitais fora do horário de expediente — realidade crescente no Brasil, onde a fronteira entre vida profissional e pessoal foi radicalmente erodida pelo trabalho remoto —, a questão é mais complexa. Especialistas sugerem que nomear a situação para os filhos ("preciso responder isso agora, mas em dez minutos estou disponível") produz efeitos diferentes da distração silenciosa e irrespondida. A previsibilidade, mais do que a ausência total do dispositivo, parece ser o fator que protege o vínculo.

A geração que não sabia ser pai analógico

O próprio estudo da Frontiers in Psychology aponta, com alguma cautela, para uma especificidade geracional: os millennials — nascidos entre 1981 e 1996 —, hoje na faixa principal de parentalidade, são os primeiros adultos a terem crescido com a internet e, ao mesmo tempo, a criarem filhos já em um ambiente de smartphones ubíquos. Essa geração pode ser especialmente vulnerável a desenvolver padrões compulsivos de uso de dispositivos, exatamente porque não teve, na própria infância, a modelagem de uma relação equilibrada com a tecnologia. Criar filhos nesse contexto exige, por isso, uma consciência que não foi herdada — precisa ser construída ativamente.

A pergunta que uma criança fez à mãe — "você gosta mais do telefone do que de mim?" — registrada por uma das pesquisadoras envolvidas no estudo como o estopim da investigação, condensa em palavras simples o que a ciência agora tenta mensurar com escalas e coeficientes: a presença física, desacompanhada de presença emocional, não é suficiente para construir a segurança que uma criança precisa. O celular, nesse sentido, não cria ausência — ele revela e amplia uma que já estava acontecendo.

Fontes e referências

  1. Shackleford, K. E. et al. "Mommy, Do You Love Your Phone More Than Me?": Parental Device Use and the Adolescent-Caregiver Attachment Bond. Frontiers in Psychology, v. 17, abr. 2026. frontiersin.org
  2. Roh, M. et al. Parental Phubbing and Parenting Styles' Effect on Adolescent Bullying Involvement Depending on Their Attachments to Significant Adults. IJMHP, v. 28, n. 1, jan. 2026. techscience.com
  3. Fu, Z. Y. et al. Parental phubbing, poor peer attachment and psychological distress: the buffering role of connectedness to nature. Current Psychology, v. 45, 2026. link.springer.com
  4. Vangölü, M. S.; Padir, M. A. et al. The shadow of parental phubbing on adolescents' psychological adjustment. BMC Psychology, mar. 2026. link.springer.com
  5. Zhang, Y.; Song, K.; Niu, G. The Association Between Parental Phubbing and Preschoolers' Excessive Electronic Media Use. PMC/NCBI, 2026. pmc.ncbi.nlm.nih.gov
  6. Estudo com 561 adolescentes turcos (14–17 anos). The effect of parental phubbing on adolescents' smartphone addiction and phubbing behavior. Children's Health Care, 2025. tandfonline.com
  7. Sun, X. et al. Association between parental phubbing and adolescents' depression: Roles of family cohesion and resilience. Children and Youth Services Review, v. 169, 2025. sciencedirect.com
  8. Metaestudo JMIR. Parental Technoference and Child Problematic Media Use: Meta-Analysis. Journal of Medical Internet Research, jan. 2025. jmir.org
  9. Cetic.br / NIC.br. Estatísticas TIC para crianças de 0 a 8 anos de idade. Fevereiro de 2025. cetic.br
  10. IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar — PeNSE 2024. Divulgada em março de 2026. agenciabrasil.ebc.com.br
  11. SBP — Sociedade Brasileira de Pediatria. #MenosTelas #MaisSaúde — Atualização 2024. sbp.com.br
  12. Pew Research Center. Teens and Technology. 2024. pewresearch.org
  13. El País. "Mamá, ¿quieres más al teléfono que a mí?": los menores con padres enganchados al móvil son mais inseguros. 24 jun. 2026. elpais.com

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