Opinião · Educação

Todos os anos, quando um relatório internacional mede o que os estudantes aprenderam, o mesmo teatro se repete: consultores de tertúlia, secretários de educação e ministros sobem ao palco para explicar um fracasso que, no fundo, poucos deles observaram de perto. É essa a provocação central do escritor espanhol Antonio Muñoz Molina em artigo publicado no El País1: depois da divulgação do Pisa, ouviu-se opinar "copiosamente" especialistas de todo tipo, mas nenhum professor de sala de aula foi convidado a falar. A cena, escrita sobre a Espanha, poderia ter sido descrita em qualquer estado brasileiro na semana em que o Pisa 2025 voltou a expor o atraso da aprendizagem no país.

Este texto comenta e contrapõe ideias do artigo "El saber ya no ocupa lugar", de Antonio Muñoz Molina, publicado no jornal El País em 12 de setembro de 2026. As ideias do autor são citadas e contextualizadas para o público brasileiro, sem tradução ou reprodução integral do original.

O Brasil no espelho do Pisa 2025

Os números divulgados pela OCDE em 8 de setembro de 2026 confirmam um padrão que já dura mais de uma década. O Brasil obteve 377 pontos em matemática, 409 em ciências e 408 em leitura, ficando entre os últimos colocados de um ranking com 89 países2. Em matemática, a área mais crítica, o país figura na 71ª posição, o que representa, segundo especialistas ouvidos pela imprensa, um atraso de aproximadamente 4,6 anos escolares em relação à média da OCDE3. O dado mais desconfortável não é a posição em si, mas a estabilidade: as variações em relação a 2022 não foram estatisticamente significativas, o que indica estagnação, não colapso nem melhora.

Há também um contraponto factual que merece registro, e que o próprio Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) faz questão de destacar: na comparação de duas décadas, o Brasil está entre os países que mais avançaram em proficiência desde 20064. Progresso lento e insuficiente, portanto, não é o mesmo que ausência de progresso. Mas essa distinção raramente sobrevive ao debate público, que prefere a narrativa mais simples do fracasso total ou do sucesso repentino.

"Nada ofende mais os ideólogos de grandes planos redentores do que a obstinação da realidade em não se acomodar às suas previsões." Antonio Muñoz Molina, em referência aos planos educacionais impostos sem consulta a quem ensina

Quem cala não é quem sabe

A tese de Muñoz Molina é incômoda justamente porque é verificável: a cada novo resultado ruim, aparecem teóricos da pedagogia, gestores públicos e políticos disputando a narrativa de quem errou menos, mas o professor que está na sala de aula, todos os dias, com salário defasado e turma lotada, raramente é chamado a opinar sobre o desenho das próprias políticas que precisa executar. No Brasil, essa ausência tem um custo estrutural mensurável. Um professor do ensino médio recebia, em 2020, cerca de 82% da renda média de outros profissionais com ensino superior completo, e 68% dos docentes brasileiros precisam lecionar em mais de uma escola para fechar a conta no fim do mês5.

Essa precarização não fica sem efeito sobre quem decide, ou não, seguir a carreira. Segundo projeções da Semesp citadas por entidades sindicais, o número de professores em atuação pode cair 20,7% até 2040 se o ritmo atual de formação e evasão docente for mantido6. É um apagão anunciado, discutido há anos em teses acadêmicas e boletins sindicais, mas que raramente chega ao centro do debate quando o assunto é "por que o Brasil vai mal no Pisa".

Contraponto

Nem toda crítica aos especialistas em educação é justa. Pesquisadores em didática e avaliação educacional produzem, há décadas, evidências sobre alfabetização, formação docente e currículo que sustentam políticas bem-sucedidas em outros países. O problema apontado por Muñoz Molina não é a existência de conhecimento técnico, mas o hábito de formular políticas de cima para baixo, sem testar sua aplicação com quem vai executá-la em sala de aula. Descartar a pesquisa educacional em bloco seria trocar um vício por outro.

Também é preciso reconhecer que parte da melhora recente registrada no Brasil, sobretudo em atenção e engajamento, resultou de uma política concreta e mensurável: a restrição do uso de celulares em escolas, definida por lei federal e não por um comitê de especialistas isolado da prática.

O celular fora da sala e o que isso ensina

Se há um contraexemplo recente ao pessimismo de Muñoz Molina, ele está justamente no Brasil. A Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis em escolas públicas e privadas de educação básica, completou um ano de vigência com indicadores favoráveis: pesquisa nacional do Ministério da Educação (MEC), em parceria com o Inep e o Instituto Alana, mostrou que 95% dos gestores escolares perceberam melhora na concentração dos alunos, e 80% dos estudantes relataram sentir-se mais focados nas aulas7. O acesso à internet dentro das escolas, medido pela pesquisa TIC Kids Online Brasil, caiu de 51% em 2024 para 37% em 20258, coincidindo com a regulamentação da lei.

O episódio ilustra exatamente o ponto que falta no texto espanhol: uma política que funcionou parcialmente foi construída com escuta direta de professores e gestores, não apenas de gabinetes técnicos, e seus efeitos foram medidos, não apenas anunciados. É pouco diante do tamanho do problema educacional brasileiro, mas é um raro exemplo de política pública testada contra a realidade da sala de aula, e não contra a vontade de quem a desenhou.

Perguntas frequentes

O que o Pisa 2025 revelou sobre o Brasil?

O Brasil obteve 377 pontos em matemática, 409 em ciências e 408 em leitura, ficando entre os últimos colocados de 89 países avaliados, com estagnação em relação à edição de 2022 e um atraso estimado em 4,6 anos escolares na matemática frente à média da OCDE.

Qual é a crítica de Antonio Muñoz Molina no artigo do El País?

O escritor argumenta que o debate público sobre educação, na Espanha, é dominado por especialistas, políticos e comentaristas que raramente consultam professores da rede básica antes de formular ou avaliar políticas educacionais, repetindo um padrão que ele compara ao dos planejadores soviéticos que culpavam "sabotadores" pelo fracasso de seus planos.

A proibição do celular nas escolas brasileiras deu resultado?

Pesquisas do MEC, Inep e Instituto Alana, após um ano de vigência da Lei nº 15.100/2025, indicam que 95% dos gestores escolares perceberam melhora na concentração dos estudantes e 80% dos alunos relataram mais foco durante as aulas.

Por que faltam professores no Brasil?

Baixos salários, jornadas fragmentadas em múltiplas escolas e alta evasão nos cursos de licenciatura reduzem o interesse pela carreira docente. Projeções indicam possível queda de 20,7% no número de professores em atuação até 2040 caso a tendência atual não seja revertida.