O Brasil fechou 2025 com um número que dificilmente passaria despercebido em qualquer outra área da saúde pública: mais de 546 mil afastamentos do trabalho motivados por transtornos mentais, segundo o Ministério da Previdência Social, um salto de 15% em relação a 2024 e o segundo recorde da década.[1] Ansiedade e depressão já disputam com as doenças da coluna o posto de maior causa de licença médica no país. Diante de números assim, a tentação é simples: falar mais sobre saúde mental, ampliar o vocabulário clínico, ensinar todo mundo a reconhecer um sintoma. Mas um debate crescente entre pesquisadores pergunta se essa mesma ampliação não estaria, paradoxalmente, alimentando parte do problema.
O paradoxo da conscientização
Um artigo de opinião publicado em 26 de julho de 2026 pelo psicólogo pesquisador Clay Routledge no The New York Times argumenta que o excesso de atenção dedicado à saúde mental pode estar nos tornando mais vulneráveis ao sofrimento psicológico, não menos. Routledge, que dirige a iniciativa de educação pública Head Out, observa que a proporção de americanos que se declaram em má saúde mental vem subindo há décadas, mesmo com a multiplicação de campanhas, currículos escolares e aplicativos de bem-estar dedicados ao tema.[2]
O fenômeno tem nome na literatura científica: concept creep, ou "expansão conceitual". Quanto mais uma sociedade se volta para a saúde mental, mais sensível ela se torna a qualquer sinal que possa ser lido como sintoma, e mais depressa emoções comuns como luto, exaustão e solidão passam a ser descritas em linguagem clínica. O psicólogo australiano Nick Haslam, da Universidade de Melbourne, e a pesquisadora Jesse Tse documentaram esse deslocamento em uma série de estudos recentes: adultos americanos hoje classificam como "transtorno mental" fenômenos como luto prolongado, ciúme excessivo ou baixa autoestima, categorias que não constam nos manuais diagnósticos.[4]
Os mesmos autores encontraram uma relação direta entre a amplitude do conceito que uma pessoa tem de doença mental e a probabilidade de ela se autodiagnosticar sem qualquer avaliação profissional.[5] Pesquisas mostram que quase um terço dos adultos americanos, e cerca de metade da Geração Z, já se autodiagnosticaram algum transtorno mental com base em conteúdo visto em redes sociais, e que esse hábito costuma vir acompanhado de um conhecimento menos preciso sobre a condição em questão, segundo o mesmo artigo do Times.[2]
O retrato brasileiro
No Brasil, o pano de fundo já era preocupante antes desse debate chegar às páginas de opinião internacionais. Dados do inquérito Covitel 2023, reunidos pelo Observatório de Saúde Pública da Umane, mostram que 26,8% da população relatam sintomas de ansiedade e 12,7% convivem com depressão, o que coloca o país como o de maior prevalência de depressão na América Latina segundo a Organização Mundial da Saúde.[3] A desigualdade de gênero é acentuada: entre as mulheres, 34,2% relatam ansiedade e 18,1% depressão, contra 18,9% e 6,9% entre os homens.[3]
Esse cenário se reflete diretamente no mundo do trabalho. Somente em 2025, ansiedade generalizada e outros transtornos ansiosos somaram 161.303 afastamentos concedidos pelo INSS, o maior crescimento em números absolutos entre todas as condições, enquanto a depressão respondeu por mais de 126 mil licenças, superando causas tradicionais como fraturas.[1] São Paulo lidera o ranking regional, seguido por Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.[1]
Nem tudo é excesso de diagnóstico
Contraponto
Especialistas em saúde pública brasileira alertam que o discurso sobre "excesso de patologização" pode, se mal interpretado, reforçar justamente a barreira que mais atrasa o cuidado no país: o estigma. Psiquiatras ligados à Rede de Hospitais São Camilo apontam que uma parcela significativa da população ainda enxerga o tratamento de transtornos mentais como algo vergonhoso ou dispensável, o que adia diagnósticos e agrava consequências evitáveis.[8]
Estudos sobre estigma no Brasil também mostram que a saúde mental segue tratada como área secundária dentro do SUS, recebendo menos investimento proporcional do que outras especialidades médicas, o que torna qualquer discurso de "menos diagnóstico" arriscado se não vier acompanhado de mais acesso a cuidado qualificado.[8] Para essa linha de pesquisa, o problema não é falar sobre saúde mental, mas garantir que a linguagem clínica seja usada com precisão, e não como atalho para nomear qualquer desconforto cotidiano.
O que a evidência sugere fazer
Se o diagnóstico do problema divide opiniões, há mais consenso sobre parte da solução: tirar o corpo e a atenção de dentro da própria cabeça. Uma metanálise publicada no BMJ em fevereiro de 2024, reunindo mais de 200 estudos e cerca de 14 mil participantes, concluiu que caminhada, corrida leve, ioga, musculação e dança produzem reduções expressivas nos sintomas de depressão, com eficácia comparável à psicoterapia e a antidepressivos em quadros leves a moderados.[6]
Outra linha de pesquisa aponta para o valor de atos voluntários de bondade. Um experimento conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio comparou pessoas com sintomas elevados de ansiedade ou depressão distribuídas em três grupos: um praticando técnicas de terapia cognitivo-comportamental, outro planejando atividades sociais, e um terceiro realizando pequenos atos de gentileza, como cozinhar para um amigo ou ajudar um vizinho. Todos os grupos melhoraram, mas o grupo da gentileza apresentou o maior ganho, sobretudo em senso de conexão social.[7]
O achado sugere um mecanismo simples: dedicar atenção ao problema de outra pessoa parece aliviar a fixação na própria angústia. Routledge chega a uma conclusão semelhante em seu artigo: quanto mais a vida de alguém é percebida como significativa, isto é, quanto mais a pessoa sente que cumpre um papel relevante para os outros, maior a resiliência diante do estresse e menor o risco de depressão, ansiedade e comportamento suicida.[2]
Um equilíbrio possível
Nenhuma das partes desse debate defende abandonar o cuidado com a saúde mental ou fechar os CAPS. O que está em jogo é o tipo de atenção que se dedica ao tema: uma vigilância que amplia indefinidamente o que conta como sofrimento patológico, ou um investimento que combine acesso real a tratamento com estratégias que tirem as pessoas de dentro da própria cabeça, como atividade física regular, ação voluntária e um senso de propósito construído em relação aos outros. Entre o Brasil que bate recordes de afastamento e o debate internacional sobre concept creep, a pergunta que fica não é se devemos falar de saúde mental, mas como fazê-lo sem transformar toda dor comum em diagnóstico.