Caderno Economia · Estados Unidos

Faltando treze dias para as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, um dos nomes mais associados à ortodoxia fiscal americana decidiu tratar a integridade do voto como tema de política econômica. Robert E. Rubin, secretário do Tesouro entre 1995 e 1999 no governo Bill Clinton, publicou nesta quarta-feira no The New York Times um artigo de opinião em que argumenta que uma eventual tentativa do governo Donald Trump de interferir no resultado eleitoral seria, antes de tudo, um choque de confiança sobre a economia americana.1

A tese não é nova no debate acadêmico, mas ganha peso pelo autor e pelo momento. Rubin sustenta que o mercado está subestimando um risco que, na leitura dele, deixou de ser remoto. Nas palavras do ex-secretário, os mercados "not pricing in what I consider a meaningful risk", ou seja, não estariam precificando aquilo que ele considera um risco relevante.1 A pergunta que interessa ao leitor do caderno Economia é outra: por quais canais um conflito institucional em Washington chegaria aos juros, ao câmbio e, no limite, ao bolso de quem vive no Brasil?

O argumento de Rubin: eleição como infraestrutura econômica

O ponto de partida do artigo é eleitoral. Segundo Rubin, a economia foi o principal tema para os eleitores americanos em quatro das seis eleições de meio de mandato deste século, e 2026 caminha para repetir o padrão, com custo de vida, tarifas e a guerra no Irã no centro das preocupações.1 A novidade está no risco que ele coloca ao lado desses temas: o que descreve como a disposição declarada do presidente de interferir no processo.

O ex-secretário enumera movimentos já feitos pelo governo, como a amplificação de alegações de fraude, cortes em estruturas de defesa contra interferência estrangeira e a pressão sobre estados para usar uma base de dados considerada sujeita a erros na limpeza de cadastros eleitorais. Também lista temores mais extremos que circulam entre analistas: agentes federais armados em locais de votação, apreensão de urnas e o uso de uma brecha procedimental envolvendo o secretário-geral da Câmara (o clerk) para impedir a posse de deputados democratas eleitos quando o novo Congresso se instalar, em 3 de janeiro.1

A conexão com a economia vem em dois tempos. No curto prazo, Rubin lembra que o investimento corporativo já está fraco fora do setor de inteligência artificial e que o índice de incerteza da Federação Nacional de Empresas Independentes (NFIB) roda 32% acima da média histórica.1 Os dados mais recentes publicados pela própria entidade sustentam o diagnóstico: em junho, o Índice de Incerteza da NFIB estava em 89 pontos, muito acima da média histórica de 68.16 No longo prazo, o argumento é institucional: eleições livres e a transferência pacífica de poder sustentariam a posição do dólar como moeda de reserva e a confiança no crédito do Tesouro americano.

Quando a regra do jogo vira dúvida, o primeiro preço a se mover não é o da bolsa. É o do dinheiro emprestado ao governo por dez anos.

Por que o mercado de títulos é o termômetro

O argumento de Rubin encontra um mercado de títulos já tensionado. Em 15 de setembro, o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano superou 5% pela primeira vez desde julho de 2007, num movimento associado a petróleo caro, riscos inflacionários e preocupação fiscal.2 No início de outubro, a taxa chegou a 5,366% durante o pregão, e o título de 30 anos tocou 5,732%, os maiores níveis para cada vencimento desde 2002, segundo levantamento do Herald Business com base no Wall Street Journal.3

O pano de fundo fiscal ajuda a entender a sensibilidade. O Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) estimou o déficit federal do ano fiscal de 2026, encerrado em 30 de setembro, em US$ 1,99 trilhão, o maior em cinco anos.3 O mesmo órgão projeta que a dívida em poder do público alcance 101% do PIB em 2026, proporção registrada pela última vez em 1946, com pagamentos líquidos de juros próximos de US$ 1 trilhão.4 Em setembro, o Federal Reserve elevou a taxa básica em 0,25 ponto, para a faixa de 3,75% a 4%, a primeira alta desde 2023.3

Rendimento do Treasury de 10 anos em 2026 Pontos selecionados: fevereiro 4,02%; abril 4,31%; julho 4,66%; 2 de setembro 4,79%; 15 de setembro 5,04%; início de outubro 5,37%; 15 de outubro 5,10%. 4,0% 4,5% 5,0% 5,5% 4,024,314,664,795,045,375,10 fevabrjul2 set15 setinício out15 out Linha tracejada: patamar de 5%, rompido pela primeira vez desde 2007
Rendimento do título de 10 anos do Tesouro dos EUA, pontos selecionados de 2026 (% ao ano). Fontes: YCharts/Departamento do Tesouro, Forecasts.org, Trading Economics, Herald Business/WSJ e FRED/Federal Reserve. Séries semanais e diárias combinadas; uso ilustrativo.

Os números mais recentes mostram alívio parcial: a série oficial do Federal Reserve registrou 5,10% em 15 de outubro.5 Ainda assim, o patamar permanece acima do que o próprio CBO projetava em fevereiro, cerca de 4,1% de média anual. É nesse ponto que o argumento de Rubin se torna concreto. Num mercado que já cobra caro para financiar o governo americano, um conflito pós-eleitoral prolongado poderia ampliar o prêmio exigido pelos investidores, com efeito direto sobre o custo da dívida pública, as hipotecas e o crédito ao consumidor. A conta, nesse cenário, não fica restrita a Washington.

Estado de direito como ativo econômico

O segundo eixo do artigo é menos visível nas telas de cotação, mas pesa nas decisões de investimento de longo prazo. Rubin cita a Turquia e a China como exemplos de economias em que a fragilidade das instituições jurídicas aparece como obstáculo explícito ao investimento, e recorre aos "espíritos animais" de John Maynard Keynes para descrever o tipo de confiança que sustenta a disposição de empreender e investir.1

Os indicadores internacionais mostram que os Estados Unidos já não estão imunes a essa discussão. No Índice de Estado de Direito 2025 do World Justice Project, o país registrou o terceiro ano consecutivo de queda, com recuo em sete dos oito fatores avaliados, e figurou entre os dez países com maiores perdas.6 A nota geral caiu 2,8%, e o país ocupa a 27ª posição entre 143. Uma análise publicada pela Just Security a partir da edição anterior do índice mostrou que o subindicador de transição legal do poder havia recuado 12,4% desde 2016.7

Para economistas, esse tipo de deterioração raramente provoca uma ruptura de um dia para o outro. O efeito costuma ser cumulativo: projetos adiados, exigência maior de retorno para compensar incerteza jurídica, diversificação gradual de reservas. É justamente por ser lento que o risco tende a ser ignorado até o momento em que deixa de ser.

O mecanismo institucional em disputa

A hipótese mais técnica citada por Rubin, a de que o secretário-geral da Câmara poderia recusar credenciais de deputados eleitos, tem sido examinada por especialistas em direito eleitoral. Um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso, citado por reportagem da rede States Newsroom, observa que a recusa em dar posse, mesmo provisória, a um parlamentar com credenciais válidas do estado só ocorreu duas vezes no primeiro dia de uma nova legislatura desde 1933.8

O professor Derek Muller, no Election Law Blog, classifica parte desses cenários como alarmismo, mas lembra um detalhe relevante: como o clerk não é membro da Câmara, seus atos não estariam protegidos pela doutrina que limita a interferência do Judiciário em decisões internas do Legislativo.9 Em outras palavras, a via existe no papel, mas estaria sujeita a contestação judicial imediata. O histórico recente também conta: quando o presidente tentou alterar regras eleitorais por decreto, os tribunais suspenderam a medida, citando a ausência de papel constitucional da Presidência nessa matéria.10

O que isso significa para o Brasil

O calendário brasileiro torna a discussão especialmente próxima. O país decide no domingo, 25 de outubro, o segundo turno presidencial entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que obtiveram respectivamente 47,03% e 45,16% dos votos válidos no primeiro turno.14 Nove dias depois, os americanos vão às urnas. E a próxima reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, está marcada para 3 e 4 de novembro, coincidindo com a votação nos Estados Unidos.

O canal de transmissão mais direto é o diferencial de juros. Segundo análise da Nomad, o dólar fechou setembro em R$ 5,17, sustentado pela entrada de capital estrangeiro na bolsa e pela Selic ainda elevada, de 13,75% ao ano após o corte de setembro. A mesma análise aponta que o risco de crédito do país já pesava contra o real pela cautela com o noticiário eleitoral doméstico.15 Um choque de incerteza nos Estados Unidos que eleve os Treasuries reduziria a atratividade relativa dos ativos brasileiros justamente no momento em que o país atravessa sua própria transição política.

Há ainda um efeito menos óbvio. Investidores globais costumam tratar o título americano como o ativo livre de risco de referência. Se a própria referência passa a carregar um prêmio político, o custo de capital para economias emergentes sobe por tabela, independentemente dos fundamentos locais. Para o Banco Central, isso significa decidir os juros de novembro com duas incertezas eleitorais abertas ao mesmo tempo, uma dentro e outra fora do país. O Brasil, que enfrentou em 2022 e 2023 a contestação de resultados e os ataques de 8 de janeiro em Brasília, conhece por experiência própria o valor econômico de instituições eleitorais que funcionam e são reconhecidas.

O que observar até 3 de janeiro de 2027

  • Rendimento do Treasury de 10 anos: movimentos bruscos na semana da eleição indicam se o mercado passou a incorporar o risco institucional.
  • Certificação estadual dos resultados: atrasos no envio das credenciais à Câmara seriam o primeiro sinal concreto de disputa.
  • Comunicado do Copom de 4 de novembro: menções a volatilidade externa e câmbio vão mostrar como o BC leu o ambiente.
  • Dólar frente ao real: a combinação de duas eleições em nove dias tende a ampliar oscilações de curto prazo.
  • Posse do novo Congresso em 3 de janeiro: data em que a hipótese envolvendo o clerk seria testada na prática.

Perguntas frequentes

O que Robert Rubin argumenta no artigo do New York Times?

Que uma eventual interferência do governo Trump nas eleições de meio de mandato de 3 de novembro de 2026 seria um risco econômico subestimado, com potencial de elevar juros, enfraquecer o investimento e corroer a confiança no dólar e no crédito do Tesouro americano.

Por que uma crise eleitoral afetaria os juros dos Estados Unidos?

Porque investidores exigiriam um prêmio maior para financiar um governo cuja estabilidade institucional estivesse em dúvida. Com o título de 10 anos acima de 5% e déficit de US$ 1,99 trilhão no ano fiscal de 2026, o mercado já está sensível a qualquer fator adicional de incerteza.

O que é a brecha envolvendo o clerk da Câmara?

É a hipótese de que o secretário-geral da Câmara dos Representantes, responsável por reconhecer credenciais dos eleitos antes da escolha do presidente da Casa, se recuse a reconhecer deputados de um partido. Especialistas consideram o cenário improvável e sujeito a contestação judicial imediata.

Como a eleição americana pode afetar o Brasil?

Principalmente pelo diferencial de juros e pelo câmbio. Treasuries mais altos reduzem a atratividade relativa de ativos brasileiros e pressionam o real. O efeito coincide com o segundo turno brasileiro, em 25 de outubro, e com a reunião do Copom de 3 e 4 de novembro.

O governo americano admite planos de interferir nas eleições?

Não. A Casa Branca classifica as preocupações como alarmismo político, a chefe de gabinete Susie Wiles negou uso militar para suprimir votos e o Departamento de Segurança Interna afirmou que o ICE não planeja operações em locais de votação.

Este texto é uma análise editorial do O Tecido inspirada no artigo de opinião de Robert E. Rubin publicado em 21 de outubro de 2026 no The New York Times. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido; trechos e ideias atribuídos ao autor estão devidamente creditados. Os demais dados foram obtidos em fontes independentes, listadas abaixo.

Referências

  1. RUBIN, Robert E. "In Six Decades of Public Life, I Never Thought I Would Write This Piece". The New York Times, 21 out. 2026. nytimes.com
  2. Trading Economics. "US 10-Year Treasury Yield Tops 5%". Set. 2026.
  3. Herald Business. "US fiscal deficit nears $2tr as tariff revenue falls short, debt costs surge". Out. 2026.
  4. Mortgage Professional America. "Treasury dismisses IMF debt alarm as US yields hold above 5%". Out. 2026.
  5. Federal Reserve / FRED. Série DGS10, rendimento do Treasury de 10 anos. Out. 2026.
  6. ABA Business Law Today. "Rule of Law Recession Accelerates as Authoritarian Trend Deepens, WJP Index Finds". Mai. 2026.
  7. Just Security. "Rule of Law Index 2024". Out. 2024.
  8. States Newsroom. "How the US House could overturn the midterm election results". 2026.
  9. Election Law Blog. "Fearmongering about stealing Congress on January 3, 2027". 2026.
  10. Associated Press, via Election Law Blog. "After quiet off-year elections, Democrats renew worries about Trump interfering in the midterms". Dez. 2025.
  11. States Newsroom. "Trump administration rules out mass ICE enforcement at the polls in midterms". Jul. 2026.
  12. ROIC.ai. "CBO's Swagel: debt concerns have minimal impact on Treasury yields". Out. 2026.
  13. Saxo. "2026 US midterm elections: What different outcomes could mean for markets". Set. 2026.
  14. TNH1. "Quando será o segundo turno das eleições? Veja a data". Out. 2026.
  15. Nomad. "Análise mensal do dólar e perspectivas, outubro de 2026". Out. 2026.
  16. NFIB. Small Business Economic Trends, junho de 2026. Jul. 2026.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido · Caderno Economia