Livros · Ensaio · Cultura e política
Em novembro de 1982, quando cerca de 3 mil jovens ocuparam o recém-inaugurado Sesc Pompeia para o festival O Começo do Fim do Mundo, a arquiteta Lina Bo Bardi, autora do projeto do prédio, olhou para aquela plateia de coturnos, alfinetes e cabelos espetados e fez uma pergunta ao escritor Antônio Bivar, um dos organizadores: "Mas eles não são fascistas?". Bivar respondeu que não, que eram anarquistas. A cena foi recordada por ele à Rolling Stone Brasil1, e o público estimado do festival consta de levantamento da Revista Pesquisa FAPESP.2
A dúvida de Lina é, quarenta anos depois, o ponto de partida perfeito para ler Extremo. Cómo la cultura de la transgresión y su censura nos han llevado al fascismo, ensaio lançado em setembro de 2026 pela editora madrilenha Libros Walden. Seu autor, Manuel Moreno, de 48 anos, é editor, romancista e pesquisador da imprensa alternativa espanhola, formado na cultura dos fanzines. Em entrevista ao El País3, ele resume a hipótese do livro: a estética do choque que dominou parte da música, do cinema e da literatura entre os anos 1970 e 1990 foi empurrada para fora do mainstream, encontrou abrigo na internet e, ali, acabou apropriada por uma nova ultradireita que hoje se apresenta como a verdadeira rebeldia.
O que Extremo defende
O catálogo da Libros Walden4 descreve o livro como um percurso por músicos, escritores, cineastas e artistas que exploraram assassinos em série, filmes snuff, satanismo, sadomasoquismo e estética totalitária. A lista de personagens inclui o grupo britânico Throbbing Gristle, Charles Manson, o cinema gore, Anton LaVey, Bret Easton Ellis, o black metal norueguês, o artista David Wojnarowicz, o produtor Steve Albini, o roteirista Alan Moore e a banda Death in June. Na segunda metade, o ensaio atravessa o século XXI: o fórum 4chan, os incels, o antiwokismo e as redes de extremismo violento de caráter niilista.
A tese tem duas pernas, e por isso a palavra "censura" está no subtítulo. A primeira é histórica. Segundo Moreno, a cultura da transgressão floresceu justamente quando a censura recuava: o fim do Código Hays nos Estados Unidos, o afrouxamento no Reino Unido, a morte de Franco na Espanha. No início havia o desejo de mostrar o que antes era proibido. Depois veio uma corrida para superar o gesto anterior em brutalidade, e o que nasceu como performance em pequenas salas londrinas acabou ecoando em Nine Inch Nails e Marilyn Manson, que nos anos 1990 lotavam estádios.3
A segunda perna é a reação. Contra essa cultura houve pressões de censura vindas tanto da direita religiosa quanto de setores progressistas. E contra o ambiente de correção política que se formou depois, argumenta o autor, surgiu uma contrarreação que se apropriou do vocabulário da transgressão. Moreno também não poupa a cena que descreve: aponta o esnobismo, o elitismo e uma bravata muito masculina, em que suportar o insuportável funcionava como distintivo de pertencimento.3
Contexto é tudo, ou quando a encenação deixa de ser encenação
O capítulo mais útil do raciocínio de Moreno é o que distingue jogo estético de afinidade real. O caso exemplar é o Death in June, formado por egressos de uma banda punk de extrema esquerda que, pouco depois, passou a se apresentar com fardas e letras sobre o nazismo nos mesmos circuitos alternativos de antes. No começo, diz o autor, ninguém os tomava por nazistas, porque até ontem defendiam o oposto. O critério que ele propõe é temporal: quem sustenta por quatro décadas a mesma imagem, grava versões de canções nazistas e nunca explica nem nega as acusações já não está brincando com símbolos.3
O segundo critério é o do público. Um grupo que provoca numa sala pequena fala com quem entende seus códigos; o mesmo gesto transmitido em rede nacional encontra milhões de pessoas que não os conhecem. Moreno cita episódios espanhóis, como a banda Gabinete Caligari se declarando nazista num show ainda obscuro e a apresentação escandalosa das punks Vulpes na televisão em horário infantil, para mostrar que a provocação muda de natureza quando muda de escala.3
É nesse ponto que o autor recorre a Susan Sontag. Em 1975, no ensaio "Fascinating Fascism", publicado na The New York Review of Books, Sontag examinou a reabilitação da cineasta Leni Riefenstahl e a circulação de insígnias da SS como acessório erótico e de moda, e alertou que o fascínio pela estética fascista não era neutro.5 Moreno extrai dela a ideia que dá título à entrevista:
"Há coisas que nunca deveriam ter deixado de ser nicho."
Manuel Moreno, em entrevista ao El País (2026), a partir de Susan Sontag
A observação de Lina Bo Bardi no Sesc Pompeia ganha outra camada aqui. Ela leu a superfície da roupa e viu fascismo onde havia, em grande parte, anarquismo. O problema que Moreno descreve é o inverso e mais sutil: quando o código se desprende da comunidade que o entendia, qualquer leitura se torna possível, inclusive a literal.
A censura não começou com as redes
Moreno desmonta um lugar-comum repetido tanto por conservadores quanto por nostálgicos da contracultura: o de que obras como American Psycho seriam impublicáveis hoje. Ele lembra que também eram impublicáveis na época. Stanley Kubrick recebeu ameaças por Laranja Mecânica; A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, enfrentou protestos religiosos antes da estreia; e o romance de Bret Easton Ellis teve o contrato cancelado pela editora original depois que trechos vazaram, saindo afinal por outra casa. A diferença, segundo o autor, está na velocidade: qualquer pessoa pode transformar um incômodo em escândalo viral em 24 horas, enquanto antes a polêmica ainda funcionava como publicidade e as obras chegavam ao público.3
Columbine, 11 de Setembro e o refúgio na internet
O autor situa a virada em dois marcos. O massacre de Columbine, em 1999, quando Marilyn Manson foi transformado em bode expiatório, e os atentados de 11 de setembro de 2001, que instalaram nos Estados Unidos um clima de prudência. A cultura extrema, então, migrou para a internet, onde de início cabia tudo. Ter sumido do mainstream a tornou ainda mais atraente para adolescentes. A guinada à direita, na leitura de Moreno, veio como reação ao que esses jovens passaram a enxergar como a nova hegemonia cultural: feminismo, correção política, pautas identitárias. Transgredir, nessa lógica, passou a significar atacar exatamente isso.3
O 4chan é o laboratório dessa passagem. Do fórum saíram o coletivo Anonymous e uma avalanche de memes, alguns inofensivos, outros não; num de seus subfóruns, a alt-right americana não nasceu, mas explodiu, porque ali era possível dizer o que as redes já moderadas vetavam. E o movimento repetiu a trajetória da velha contracultura: do subterrâneo para os meios de comunicação, até que convidar certas figuras para um programa de televisão passou a parecer aceitável.3
A tese não é inteiramente nova, e o leitor brasileiro fará bem em ler Moreno ao lado de Kill All Normies, da jornalista irlandesa Angela Nagle, publicado em 2017.6 Nagle já rastreava as raízes do estilo das novas direitas online até a tradição transgressora e libertina dos anos 1960 e propunha abandonar a ideia de que a transgressão é, por definição, progressista. O livro espanhol acrescenta o que faltava a ela: a arqueologia detalhada da música industrial, do gore e dos fanzines, o elo entre a geração que consumia esse material e a que hoje o reencontra, sem contexto, numa tela.
Moreno formula a dinâmica com uma imagem precisa: os tabus não se quebram, eles se alargam. A cultura da transgressão empurrou limites numa direção, veio a reação, e o erro comum é supor que um limite alargado permanece onde foi deixado. Hoje, avalia o autor, o alargamento aponta para a direita, e ele diz que já se daria por satisfeito se o pêndulo apenas voltasse ao centro.3
Sobre quem soube converter a raiva dos fóruns em voto, Moreno aponta Steve Bannon, que havia trabalhado no setor de videogames e percebeu ali um contingente de jovens furiosos, manipuláveis e até então alheios às urnas, depois canalizados para Donald Trump. A passagem de Bannon pelo universo dos games já havia sido reconstituída pelo jornalista Joshua Green no livro Devil's Bargain, de 2017.7 O próprio Moreno, porém, faz a ressalva: o fascismo não tem explicação única, e os eleitores de Trump não formam um bloco homogêneo.3
Das tribos musicais às tribos políticas
Uma das ideias mais férteis do livro vem de fora dele. Moreno recupera a observação do artista e comentarista nova-iorquino Joshua Citarella, que desde meados da década passada estuda comunidades políticas juvenis na internet. Em 2018, Citarella publicou de forma independente Politigram & the Post-left, sobre adolescentes que exploravam online desde o anarcoprimitivismo até a alt-right; em seu videopodcast Doomscroll, ele sustenta que, a partir de meados dos anos 2010, as facções políticas nas redes substituíram os gêneros musicais como principal forma de subcultura jovem.8 A revista Jacobin batizou o fenômeno de "e-deologias": identidades políticas de butique, colecionadas como figurinhas, que misturam monarquismo, ecofascismo e transumanismo em combinações improváveis.9
A explicação de Moreno é quase material. Antes, encontrar o disco de uma banda sobre a qual se tinha lido algo exigia esforço, e o esforço criava compromisso, senso de exclusividade e comunidade. Com a música disponível a um clique, essa função de distinção migrou para a política, pelo menos entre parte da juventude americana.3 Em termos de Citarella, a pergunta que resta é se uma subcultura pode se tornar política de massa. A experiência recente sugere que sim.
O espelho brasileiro
O Brasil viveu, em escala própria, a bifurcação que Moreno descreve. O acervo reunido pelo historiador Antônio Carlos de Oliveira, hoje guardado no Centro de Documentação e Informação Científica da PUC-SP, mostra que o punk paulistano dos anos 1980 abrigava desde o anarquismo que deu origem ao Movimento Anarcopunk até o ultranacionalismo de grupos como os Carecas do ABC, que foi se aproximando de ideias de supremacia branca. O próprio Oliveira relata ter recebido material tanto de quem deixou o punk rumo ao anarquismo quanto de quem migrou para o nazismo.2 A pergunta de Lina Bo Bardi, afinal, não era tão descabida: a mesma cena comportava as duas respostas.
O capítulo digital dessa história chegou às escolas. O relatório Ataque às escolas no Brasil, do grupo de trabalho de especialistas do Ministério da Educação, divulgado em novembro de 2023, contabilizou 36 ataques entre 2002 e outubro daquele ano, com 40 mortos.10 Segundo a pesquisadora Telma Vinha, da Unicamp, ouvida pela Revista Pesquisa FAPESP, a maioria dos agressores tinha menos de 18 anos, tinha poucos amigos e muitos participavam de comunidades de ódio na internet.11
A pesquisadora Michele Prado, do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP e autora de Tempestade Ideológica e Red Pill: Radicalização e Extremismo, tem mostrado como essas mensagens circulam embaladas numa estética de neon e nostalgia dos anos 1980, o chamado fashwave.12 Não por acaso, o Ministério Público do Rio Grande do Sul elaborou, com a colaboração de Prado, um glossário para famílias e educadores em que uma das categorias se chama justamente "Fandom e Subculturas Extremistas".13 É a tese de Moreno em linguagem de política pública: a porta de entrada raramente é a doutrina. É a estética, o humor cifrado, a sensação de pertencer a algo que os adultos não entendem.
Contraponto
Os limites de uma tese sedutora
O título de Extremo promete mais do que o livro pode entregar, e parte da crítica espanhola notou isso. Na revista Mondo Sonoro, o crítico Carlos Pérez de Ziriza elogia a pesquisa e dá nota 8, mas pondera que a cultura da transgressão e sua censura estão longe de ser as únicas culpadas pela onda global de extrema direita; o título funciona sobretudo como isca.14
Há também o risco de confundir genealogia estética com causalidade política. Precarização do trabalho, solidão, desconfiança nas instituições e desenho algorítmico das plataformas pesam tanto quanto qualquer herança contracultural, e o próprio Moreno admite que não há explicação única. O livro de Angela Nagle, seu antecessor mais próximo, foi criticado justamente por atribuir à esquerda online uma responsabilidade excessiva pelo avanço da alt-right.6
Por fim, a palavra "censura" no subtítulo pode ser lida como argumento contra a moderação de conteúdo, leitura que o autor não endossa. No Brasil, a própria Michele Prado avaliou que investigações contra grupos que incentivam ataques ajudaram a reduzir a circulação desse material nas redes, como registrou a Agência Brasil.12 A questão, portanto, não é censurar ou não censurar, mas distinguir obra de incitação.
O que fica do livro
Moreno, que diz nunca ter sido grande consumidor daquela cena, ainda assim defende o que ela tinha de melhor: originalidade, experimentação e a vontade de tirar o público da anestesia, o oposto do conteúdo homogêneo, inofensivo e feito para todos que, em sua visão, a inteligência artificial passou a produzir em série. Sua saída é deliberadamente analógica: sair à rua, fazer coisas sem gravá-las, voltar ao mundo físico.3
Para o leitor brasileiro, Extremo vale menos como veredicto e mais como mapa. Ele ajuda a entender por que a provocação mudou de dono, por que a rebeldia virou produto político e por que a pergunta feita por Lina Bo Bardi em 1982 precisa ser refeita hoje, com mais cuidado, diante de cada símbolo que circula sem contexto. Até o fechamento desta edição, o livro não tinha tradução anunciada em português.
Perguntas frequentes
O que é o livro Extremo, de Manuel Moreno?
É um ensaio publicado em setembro de 2026 pela editora espanhola Libros Walden que relaciona a cultura da transgressão artística dos anos 1970, 1980 e 1990, na música, no cinema e na literatura, ao ressurgimento da extrema direita na última década.
Qual é a tese central de Extremo?
A de que a estética do choque, depois de chegar ao mainstream, foi alvo de reações de censura, refugiou-se na internet e acabou apropriada por uma nova ultradireita, que passou a se apresentar como a forma mais autêntica de rebeldia contra uma suposta hegemonia progressista.
Por que se diz que a direita seria "o novo punk"?
Porque parte da ultradireita online adotou o vocabulário da transgressão contra o que considera o consenso cultural dominante. Moreno contesta a fórmula por apagar o contexto: muitos desses códigos pertenciam, nos anos 1990, à contracultura de esquerda e à cultura alternativa.
Qual o papel do 4chan nessa história?
Segundo Moreno, o fórum anônimo produziu tanto o coletivo Anonymous e memes inofensivos quanto o ambiente em que a alt-right americana ganhou força, por permitir discursos já vetados por outras redes.
O que Susan Sontag tem a ver com o debate?
No ensaio "Fascinating Fascism" (1975), Sontag analisou a atração estética exercida pelo fascismo. Moreno se apoia nela para sustentar que certos conteúdos perdem o sentido crítico e se tornam perigosos quando saem do nicho que compreendia seus códigos.
Como a tese se aplica ao Brasil?
O punk paulistano dos anos 1980 se dividiu entre vertentes anarquistas e grupos ultranacionalistas como os Carecas do ABC. Hoje, pesquisadores brasileiros associam ataques a escolas a subculturas extremistas online que usam estética e linguagem cifrada como porta de entrada.
Extremo tem edição em português?
Até 29 de setembro de 2026, não havia tradução anunciada no Brasil. O livro está disponível em espanhol pela Libros Walden.
Ewerton Lopes, Curador Editorial · O Tecido · Caderno Livros