Quando a política vira classe de ativo: o que investidores devem aprender com a era da desordem
A revelação de que a família Trump faturou mais de US$ 1 bilhão em 2025 com criptomoedas, imóveis e acordos internacionais reacendeu um debate incômodo entre gestores de recursos: até que ponto o enfraquecimento do Estado de Direito deveria entrar na equação de risco de uma carteira — inclusive no Brasil.
Em 2025, o presidente dos Estados Unidos declarou mais de US$ 1 bilhão em rendimentos vindos de negócios de criptomoedas, participações imobiliárias e operações no mercado financeiro — um salto expressivo em relação ao ano anterior. Segundo o relatório de bens do Escritório de Ética Governamental americano, a maior fatia veio da World Liberty Financial, empreendimento cripto lançado por filhos do presidente, e do negócio de memecoins CIC Digital, que somados ultrapassaram US$ 1,1 bilhão. Outra centena de milhões chegou de resorts, hotéis e empreendimentos de licenciamento de marca em países como Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos — nações que, no mesmo período, negociavam tarifas, cooperação militar e outros temas sensíveis com o governo americano1,2.
Dias depois, veio outra notícia do mesmo campo semântico: negócios ligados a filhos do presidente e a um integrante do gabinete ajudaram a viabilizar um acordo de mineração de US$ 1,6 bilhão no Cazaquistão3. A Casa Branca nega qualquer conflito de interesse e afirma que o presidente "jamais" mistura função pública com ganho privado1. Críticos, dos dois lados do espectro político americano, discordam abertamente.
A colunista Gillian Tett, do Financial Times, usou esses episódios como ponto de partida para uma pergunta mais ampla — e mais relevante para quem investe do que parece à primeira vista: se o mundo está mesmo caminhando para uma era de maior informalidade institucional, isso deveria mudar a forma como se aloca capital? A resposta dela é sim, e o argumento vale a pena ser conhecido, ainda que O Tecido parta dele para uma discussão própria, com fontes e recorte brasileiros4.
Uma erosão que não é só americana
O fenômeno descrito não nasceu com o atual governo americano nem se limita a ele. O Índice de Transformação Bertelsmann (BTI), da fundação alemã Bertelsmann Stiftung, que acompanha 137 países em transição, registrou em sua edição mais recente o pior resultado da série histórica: pela primeira vez desde o início da medição, há mais autocracias do que democracias no mundo5. O Relatório Global sobre o Estado da Democracia 2025, do International IDEA, aponta que 94 países — 54% dos avaliados — tiveram queda em ao menos um indicador de desempenho democrático entre 2019 e 2024, com o Estado de Direito sendo a categoria de pior desempenho global, com 41% das nações em nível baixo6,7.
O Brasil não está isento desse movimento, embora o quadro seja mais ambíguo do que o discurso de "colapso institucional" sugere. No BTI, o país aparece na 23ª posição entre 137 nações, classificado como "democracia defeituosa", com nota consolidada em queda desde 20208,9. Já o levantamento mais recente do Datafolha mostra piora na confiança em sete das oito instituições pesquisadas entre dezembro de 2024 e março de 2026 — incluindo Judiciário, Legislativo, Presidência e imprensa —, com apenas 22% dos brasileiros dizendo confiar muito na Presidência da República10.
"Não é apenas uma observação de ciência política. É também uma observação de investimento."— Matt King, ex-analista-chefe do Citi e fundador da consultoria Satori, citado por Gillian Tett no Financial Times
Ao mesmo tempo, uma pesquisa da OCDE divulgada em fevereiro deste ano mostrou o Brasil como o país da América Latina e Caribe com maior avanço na confiança institucional entre 2022 e 2025 — alta de 12 pontos percentuais na confiança no governo federal e o maior índice de confiabilidade eleitoral da região11,12. Os dois retratos não se anulam: medem períodos, metodologias e dimensões diferentes da vida institucional. Mas juntos ilustram algo que qualquer investidor deveria internalizar — a qualidade institucional não é um dado fixo, é uma variável que se move, às vezes em direções opostas ao mesmo tempo, e que compõe risco tanto quanto taxa de juros ou câmbio.
O argumento de fundo: instituições movem crescimento
La tese de que a solidez institucional é determinante econômico — e não apenas pano de fundo político — tem uma base acadêmica bem estabelecida. No influente Why Nations Fail, os economistas Daron Acemoglu (MIT) e James Robinson (Universidade de Chicago) argumentam que países prosperam de forma sustentável quando desenvolvem instituições "inclusivas" — com Estado de Direito, direitos de propriedade amplos e competição econômica real — e fracassam, ou crescem de forma efêmera, sob instituições "extrativas", que concentram ganhos em pequenos grupos com acesso ao poder13,14. O crescimento sob instituições extrativas é possível, dizem os autores, mas tende a não se sustentar no longo prazo, porque desincentiva a inovação e a "destruição criativa" que sustenta produtividade.
Analistas brasileiros já aplicaram esse referencial ao país: a relação histórica entre poder público e grandes empreiteiras — expostas de forma dramática na Operação Lava Jato — é um exemplo recorrente de dinâmica extrativa citado por comentaristas que leem Acemoglu e Robinson sob a ótica local15,16. O ponto não é fazer juízo de valor sobre qual governo é "melhor" ou "pior" nesse quesito — isso caberia a outro debate, com outro tom. O ponto é que, historicamente, sempre que o acesso a contratos, licenças ou vantagens regulatórias no Brasil dependeu mais de proximidade política do que de mérito competitivo, o desfecho de longo prazo para o investidor de fora do círculo tendeu a ser ruim.
La tentação da "aposta tribal"
Voltando ao ponto levantado por Tett: alguns fundos americanos passaram a copiar deliberadamente os investimentos de figuras próximas ao poder, na aposta de que a proximidade política, por si só, é capaz de inflar o valor de um ativo4. É uma estratégia tentadora — e não exclusivamente americana. O Brasil tem seu próprio histórico de papéis que dispararam por conexão política e depois sofreram correções abruptas quando o vento mudou de direção, de estatais que oscilam com decisões de política industrial a empresas cujos contratos dependiam fortemente de uma gestão específica.
O risco dessa "aposta tribal" é estrutural, não incidental. Se o valor de um ativo depende mais de conexão do que de fundamento econômico, ele tende a subir rápido — e a desabar com a mesma velocidade quando a conexão se rompe. É a lógica descrita por King: com a chancela política certa, uma ação pode multiplicar-se; perdida essa chancela, o mesmo papel pode ser dizimado4. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a B3 mantêm regras de governança, transparência de partes relacionadas e disclosure justamente para reduzir esse tipo de assimetria — mas nenhuma regra elimina o incentivo de mercado para tentar "adivinhar" quem está por perto do poder.
O que isso muda na prática
Não se trata de prever se o mundo — ou o Brasil — está entrando ou saindo de um ciclo de maior informalidade institucional; isso é, em boa medida, uma questão em aberto e legitimamente disputada entre analistas de diferentes tradições. Trata-se de reconhecer que essa variável existe e tem preço. Títulos de renda fixa de longo prazo, por definição, dependem da expectativa de que contratos serão cumpridos e credores serão pagos segundo regras estáveis — por isso tendem a ser mais vulneráveis a deterioração do Estado de Direito do que ações de empresas com ativos reais, poder de precificação ou vantagens competitivas genuínas, argumenta King4. Para o investidor brasileiro, a leitura equivalente é observar de perto indicadores como o BTI, o Índice de Confiança Social e as pesquisas de integridade pública — não como termômetro político, mas como insumo de análise de risco-país, ao lado do câmbio, da inflação e da taxa Selic.
Esta reportagem não recomenda comprar ou vender nenhum ativo específico, e o leitor deve procurar orientação financeira qualificada antes de qualquer decisão de investimento. O que fica como convite é outro: tratar a qualidade institucional — brasileira e global — como o que ela sempre foi, ainda que raramente apareça explicitamente nas planilhas de análise: um fator de risco tão real quanto qualquer outro.
Referências
- PBS News. "How crypto, real estate and watches added up for Trump last year". Disponível em: pbs.org
- TIME. "Trump Reports Over $1 Billion in Income From Crypto Ventures". Disponível em: time.com
- Democracy Now!. "Profiting from the Presidency: Trump and Family Rake In Billions from Crypto, Real Estate & More". Disponível em: democracynow.org
- Tett, Gillian. "Investing in an age of lawlessness". Financial Times, julho de 2026. Disponível em: ft.com (acesso mediante assinatura)
- Poder360. "Conheça as instituições que medem governança e democracia". Disponível em: poder360.com.br
- RTP. "Relatório aponta tendência mundial de declínio das democracias" (International IDEA, GSoD 2025). Disponível em: rtp.pt
- Saiba Mais. "Democracia em declínio?". Disponível em: saibamais.jor.br
- ISTOÉ Independente. "Estudo aponta Brasil como exemplo de piora global do estado da democracia". Disponível em: istoe.com.br
- Espacio Bertelsmann. Apresentação do BTI sobre a democracia na América Latina. Disponível em: espaciobertelsmann.es
- Acessa.com. "Descrédito de instituições cresce, e 52% desconfiam de partidos políticos, mostra Datafolha". Disponível em: acessa.com
- Controladoria-Geral da União (CGU). "Confiança nas instituições do Brasil cresce e lidera avanços na América Latina, aponta OCDE". Disponível em: gov.br/cgu
- Agência Gov. "Índice de confiança da população no Governo do Brasil tem alta de 12 pontos a partir de 2023". Disponível em: agenciagov.ebc.com.br
- Wikipédia. "Por que as nações fracassam" (síntese da obra de Acemoglu e Robinson). Disponível em: pt.wikipedia.org
- Terraço Econômico. "Why Nations Fail?" — leitura crítica com exemplos brasileiros. Disponível em: terracoeconomico.com.br
- iHUB Lounge. "Instituições, ciclos e o olhar do investidor: o Brasil entre a falha e o potencial". Disponível em: ihublounge.com.br
- SciELO. "Instituições, desenvolvimento e inclusão" (resenha acadêmica de Why Nations Fail). Disponível em: scielo.br