2 de setembro de 2026
O TECIDOCaderno Economia · Mercados & Instituições
ECONOMIA
Mercados & Instituições

Quando a política vira classe de ativo: o que investidores devem aprender com a era da desordem

A revelação de que a família Trump faturou mais de US$ 1 bilhão em 2025 com criptomoedas, imóveis e acordos internacionais reacendeu um debate incômodo entre gestores de recursos: até que ponto o enfraquecimento do Estado de Direito deveria entrar na equação de risco de uma carteira — inclusive no Brasil.

Editorial do Caderno Economia· 8 min de leitura·Publicado: 03 Jul, 2026

Em 2025, o presidente dos Estados Unidos declarou mais de US$ 1 bilhão em rendimentos vindos de negócios de criptomoedas, participações imobiliárias e operações no mercado financeiro — um salto expressivo em relação ao ano anterior. Segundo o relatório de bens do Escritório de Ética Governamental americano, a maior fatia veio da World Liberty Financial, empreendimento cripto lançado por filhos do presidente, e do negócio de memecoins CIC Digital, que somados ultrapassaram US$ 1,1 bilhão. Outra centena de milhões chegou de resorts, hotéis e empreendimentos de licenciamento de marca em países como Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos — nações que, no mesmo período, negociavam tarifas, cooperação militar e outros temas sensíveis com o governo americano1,2.

Dias depois, veio outra notícia do mesmo campo semântico: negócios ligados a filhos do presidente e a um integrante do gabinete ajudaram a viabilizar um acordo de mineração de US$ 1,6 bilhão no Cazaquistão3. A Casa Branca nega qualquer conflito de interesse e afirma que o presidente "jamais" mistura função pública com ganho privado1. Críticos, dos dois lados do espectro político americano, discordam abertamente.

A colunista Gillian Tett, do Financial Times, usou esses episódios como ponto de partida para uma pergunta mais ampla — e mais relevante para quem investe do que parece à primeira vista: se o mundo está mesmo caminhando para uma era de maior informalidade institucional, isso deveria mudar a forma como se aloca capital? A resposta dela é sim, e o argumento vale a pena ser conhecido, ainda que O Tecido parta dele para uma discussão própria, com fontes e recorte brasileiros4.

Uma erosão que não é só americana

O fenômeno descrito não nasceu com o atual governo americano nem se limita a ele. O Índice de Transformação Bertelsmann (BTI), da fundação alemã Bertelsmann Stiftung, que acompanha 137 países em transição, registrou em sua edição mais recente o pior resultado da série histórica: pela primeira vez desde o início da medição, há mais autocracias do que democracias no mundo5. O Relatório Global sobre o Estado da Democracia 2025, do International IDEA, aponta que 94 países — 54% dos avaliados — tiveram queda em ao menos um indicador de desempenho democrático entre 2019 e 2024, com o Estado de Direito sendo a categoria de pior desempenho global, com 41% das nações em nível baixo6,7.

O Brasil não está isento desse movimento, embora o quadro seja mais ambíguo do que o discurso de "colapso institucional" sugere. No BTI, o país aparece na 23ª posição entre 137 nações, classificado como "democracia defeituosa", com nota consolidada em queda desde 20208,9. Já o levantamento mais recente do Datafolha mostra piora na confiança em sete das oito instituições pesquisadas entre dezembro de 2024 e março de 2026 — incluindo Judiciário, Legislativo, Presidência e imprensa —, com apenas 22% dos brasileiros dizendo confiar muito na Presidência da República10.

"Não é apenas uma observação de ciência política. É também uma observação de investimento."— Matt King, ex-analista-chefe do Citi e fundador da consultoria Satori, citado por Gillian Tett no Financial Times

Ao mesmo tempo, uma pesquisa da OCDE divulgada em fevereiro deste ano mostrou o Brasil como o país da América Latina e Caribe com maior avanço na confiança institucional entre 2022 e 2025 — alta de 12 pontos percentuais na confiança no governo federal e o maior índice de confiabilidade eleitoral da região11,12. Os dois retratos não se anulam: medem períodos, metodologias e dimensões diferentes da vida institucional. Mas juntos ilustram algo que qualquer investidor deveria internalizar — a qualidade institucional não é um dado fixo, é uma variável que se move, às vezes em direções opostas ao mesmo tempo, e que compõe risco tanto quanto taxa de juros ou câmbio.

O argumento de fundo: instituições movem crescimento

La tese de que a solidez institucional é determinante econômico — e não apenas pano de fundo político — tem uma base acadêmica bem estabelecida. No influente Why Nations Fail, os economistas Daron Acemoglu (MIT) e James Robinson (Universidade de Chicago) argumentam que países prosperam de forma sustentável quando desenvolvem instituições "inclusivas" — com Estado de Direito, direitos de propriedade amplos e competição econômica real — e fracassam, ou crescem de forma efêmera, sob instituições "extrativas", que concentram ganhos em pequenos grupos com acesso ao poder13,14. O crescimento sob instituições extrativas é possível, dizem os autores, mas tende a não se sustentar no longo prazo, porque desincentiva a inovação e a "destruição criativa" que sustenta produtividade.

Analistas brasileiros já aplicaram esse referencial ao país: a relação histórica entre poder público e grandes empreiteiras — expostas de forma dramática na Operação Lava Jato — é um exemplo recorrente de dinâmica extrativa citado por comentaristas que leem Acemoglu e Robinson sob a ótica local15,16. O ponto não é fazer juízo de valor sobre qual governo é "melhor" ou "pior" nesse quesito — isso caberia a outro debate, com outro tom. O ponto é que, historicamente, sempre que o acesso a contratos, licenças ou vantagens regulatórias no Brasil dependeu mais de proximidade política do que de mérito competitivo, o desfecho de longo prazo para o investidor de fora do círculo tendeu a ser ruim.

La tentação da "aposta tribal"

Voltando ao ponto levantado por Tett: alguns fundos americanos passaram a copiar deliberadamente os investimentos de figuras próximas ao poder, na aposta de que a proximidade política, por si só, é capaz de inflar o valor de um ativo4. É uma estratégia tentadora — e não exclusivamente americana. O Brasil tem seu próprio histórico de papéis que dispararam por conexão política e depois sofreram correções abruptas quando o vento mudou de direção, de estatais que oscilam com decisões de política industrial a empresas cujos contratos dependiam fortemente de uma gestão específica.

O risco dessa "aposta tribal" é estrutural, não incidental. Se o valor de um ativo depende mais de conexão do que de fundamento econômico, ele tende a subir rápido — e a desabar com a mesma velocidade quando a conexão se rompe. É a lógica descrita por King: com a chancela política certa, uma ação pode multiplicar-se; perdida essa chancela, o mesmo papel pode ser dizimado4. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a B3 mantêm regras de governança, transparência de partes relacionadas e disclosure justamente para reduzir esse tipo de assimetria — mas nenhuma regra elimina o incentivo de mercado para tentar "adivinhar" quem está por perto do poder.

O que isso muda na prática

Não se trata de prever se o mundo — ou o Brasil — está entrando ou saindo de um ciclo de maior informalidade institucional; isso é, em boa medida, uma questão em aberto e legitimamente disputada entre analistas de diferentes tradições. Trata-se de reconhecer que essa variável existe e tem preço. Títulos de renda fixa de longo prazo, por definição, dependem da expectativa de que contratos serão cumpridos e credores serão pagos segundo regras estáveis — por isso tendem a ser mais vulneráveis a deterioração do Estado de Direito do que ações de empresas com ativos reais, poder de precificação ou vantagens competitivas genuínas, argumenta King4. Para o investidor brasileiro, a leitura equivalente é observar de perto indicadores como o BTI, o Índice de Confiança Social e as pesquisas de integridade pública — não como termômetro político, mas como insumo de análise de risco-país, ao lado do câmbio, da inflação e da taxa Selic.

Esta reportagem não recomenda comprar ou vender nenhum ativo específico, e o leitor deve procurar orientação financeira qualificada antes de qualquer decisão de investimento. O que fica como convite é outro: tratar a qualidade institucional — brasileira e global — como o que ela sempre foi, ainda que raramente apareça explicitamente nas planilhas de análise: um fator de risco tão real quanto qualquer outro.

Este artigo foi inspirado pela coluna "Investing in an age of lawlessness", de Gillian Tett, publicada no Financial Times em julho de 2026. O texto original, ao qual O Tecido credita a análise inicial de Matt King e da consultoria Satori, pode ser lido (mediante assinatura) em: ft.com/content/94aa54f6-7fe0-4829-8877-d6408ffe3d0f. Esta reportagem é um texto original, com apuração e fontes próprias, e não constitui tradução ou reprodução do artigo do Financial Times.

Referências

  1. PBS News. "How crypto, real estate and watches added up for Trump last year". Disponível em: pbs.org
  2. TIME. "Trump Reports Over $1 Billion in Income From Crypto Ventures". Disponível em: time.com
  3. Democracy Now!. "Profiting from the Presidency: Trump and Family Rake In Billions from Crypto, Real Estate & More". Disponível em: democracynow.org
  4. Tett, Gillian. "Investing in an age of lawlessness". Financial Times, julho de 2026. Disponível em: ft.com (acesso mediante assinatura)
  5. Poder360. "Conheça as instituições que medem governança e democracia". Disponível em: poder360.com.br
  6. RTP. "Relatório aponta tendência mundial de declínio das democracias" (International IDEA, GSoD 2025). Disponível em: rtp.pt
  7. Saiba Mais. "Democracia em declínio?". Disponível em: saibamais.jor.br
  8. ISTOÉ Independente. "Estudo aponta Brasil como exemplo de piora global do estado da democracia". Disponível em: istoe.com.br
  9. Espacio Bertelsmann. Apresentação do BTI sobre a democracia na América Latina. Disponível em: espaciobertelsmann.es
  10. Acessa.com. "Descrédito de instituições cresce, e 52% desconfiam de partidos políticos, mostra Datafolha". Disponível em: acessa.com
  11. Controladoria-Geral da União (CGU). "Confiança nas instituições do Brasil cresce e lidera avanços na América Latina, aponta OCDE". Disponível em: gov.br/cgu
  12. Agência Gov. "Índice de confiança da população no Governo do Brasil tem alta de 12 pontos a partir de 2023". Disponível em: agenciagov.ebc.com.br
  13. Wikipédia. "Por que as nações fracassam" (síntese da obra de Acemoglu e Robinson). Disponível em: pt.wikipedia.org
  14. Terraço Econômico. "Why Nations Fail?" — leitura crítica com exemplos brasileiros. Disponível em: terracoeconomico.com.br
  15. iHUB Lounge. "Instituições, ciclos e o olhar do investidor: o Brasil entre a falha e o potencial". Disponível em: ihublounge.com.br
  16. SciELO. "Instituições, desenvolvimento e inclusão" (resenha acadêmica de Why Nations Fail). Disponível em: scielo.br
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