Em junho de 2026, um relatório de quase duzentas páginas colocou em xeque algo que universidades raramente admitem publicamente: que parte de sua produção acadêmica pode estar sendo avaliada por critérios políticos, não científicos. O documento, encomendado pelos reitores da Universidade Vanderbilt e da Universidade Washington em St. Louis a uma comissão liderada pelo filósofo Paul Boghossian, da New York University, examinou o estado das humanidades e das ciências sociais humanísticas em instituições americanas de elite.1 A reação ao relatório, mais do que o relatório em si, é o que interessa a quem acompanha a saúde institucional da ciência hoje, inclusive fora dos Estados Unidos.
Em artigo de opinião publicado no Washington Post neste domingo, o reitor de Vanderbilt, Daniel Diermeier, argumenta que o próprio tom das respostas confirmou o diagnóstico do relatório. Segundo ele, associações de professores e departamentos inteiros reagiram atribuindo motivações políticas aos autores do estudo, em vez de discutir metodologia ou evidências.1 A American Association of University Professors (AAUP) de Vanderbilt e de Washington University chegou a divulgar nota conjunta classificando o documento como um pretexto para retirar dos professores o controle sobre seus próprios departamentos, e pediu que o relatório fosse retirado de circulação.2
O que o relatório encontrou
A comissão reuniu dez pesquisadores de instituições como Harvard, Princeton, University of Chicago e Northwestern, além da própria NYU, e passou cerca de seis meses examinando publicações, currículos e políticas departamentais em disciplinas como antropologia, sociologia, história e estudos literários.3 A conclusão central não foi de colapso generalizado. Os autores reconheceram a persistência de pesquisa rigorosa em todas as áreas estudadas, mas identificaram, nas palavras do próprio documento, uma deterioração de padrões acadêmicos alimentada pela substituição de critérios políticos por critérios propriamente acadêmicos na avaliação de pesquisas.1
O relatório cita declarações públicas de lideranças de associações profissionais como evidência do problema. A presidência da American Anthropological Association, por exemplo, afirmou em 2021 que o projeto político da antropologia é desafiar o que chamou de senso comum do consumismo capitalista. Já a presidência da American Sociological Association defendeu, em discurso de posse no mesmo ano, uma sociologia emancipatória centrada em categorias como supremacia branca, colonialismo e patriarcado.1
A reação dividiu a própria comunidade científica
Nem toda crítica ao relatório veio de quem discorda do diagnóstico. Publicações como a Boston Review e o jornal estudantil Student Life, de Washington University, levantaram questões legítimas sobre a metodologia, o financiamento da pesquisa e as posições filosóficas prévias de Boghossian, conhecido crítico do relativismo epistêmico.4 Outros pesquisadores apontaram que o próprio relatório, ao classificar como problemática qualquer pesquisa orientada por objetivos como antirracismo ou descolonização, também carregaria um projeto normativo, e não apenas descritivo.5
Diermeier reconhece que parte do debate é saudável. O problema, segundo ele, está na diferença entre discordar das conclusões com base em evidências e desqualificar o relatório por associação política, especialmente depois que a secretária de Educação dos Estados Unidos citou o documento em carta pública, quase um ano após sua encomenda original.1
Contraponto
Críticos do relatório argumentam que ele reproduz, em linguagem mais moderada, o mesmo tipo de enquadramento ideológico que diz combater. Para pesquisadores como os que assinam a crítica publicada em resposta ao documento, a ênfase em neutralidade institucional não é ausência de posição política, mas uma escolha normativa específica, historicamente associada aos Chicago Principles e ao Relatório Kalven da Universidade de Chicago, de 1967.5
Do outro lado, defensores do relatório respondem que reconhecer um problema não é o mesmo que resolvê-lo por decreto, e que o próprio documento evita recomendar demissões ou punições, propondo antes que padrões sejam reforçados nos espaços onde já são definidos: revistas científicas, bancas de concurso e comitês de promoção.1
O eco brasileiro: Centro Maria Antônia e o manifesto pelo pluralismo
O debate americano tem um paralelo direto na universidade pública brasileira. Em abril de 2026, um grupo interdisciplinar de professores e pesquisadores se reuniu no Centro Universitário Maria Antônia, da Universidade de São Paulo, para redigir o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica. O documento já reúne mais de 1.500 assinaturas de pesquisadores vinculados a cerca de duzentas instituições de ensino superior em vinte e seis estados brasileiros.6
O manifesto brasileiro diagnostica, em termos muito próximos aos do relatório americano, um ambiente de exigência de conformidade ideológica, autocensura e intolerância ao dissenso nas universidades públicas, e propõe três pilares de resposta: neutralidade institucional, liberdade acadêmica e pluralismo curricular. Uma pesquisa do Instituto Sivis, citada pelos próprios signatários, mostrou que 48% dos estudantes brasileiros de ensino superior afirmam já ter evitado debater assuntos controversos em sala de aula por medo de represálias.7
Assim como em Vanderbilt, o manifesto brasileiro gerou um contramanifesto quase imediato. Pesquisadores ligados a áreas como ciência política e estudos sociais argumentam que a doutrina da neutralidade institucional é, ela mesma, uma posição moral substantiva, importada sem mediação de um contexto histórico distinto, o dos Estados Unidos da década de 1960. Para esses críticos, exigir silêncio institucional da universidade pública brasileira em momentos como o assassinato da vereadora Marielle Franco, ex-aluna da Universidade Federal Fluminense, em 2018, equivaleria a esvaziar a própria função social da instituição.8
Confiança pública: o dado que ninguém quer perder
O argumento mais concreto de Diermeier talvez não seja filosófico, mas estatístico. Ele cita pesquisas que mostram a confiança pública nas universidades americanas caindo de 57% para 38% em pouco mais de uma década.1 No Brasil, o quadro histórico é diferente, ainda que não necessariamente mais estável. Um estudo publicado na revista Psicologia Escolar e Educacional, conduzido durante a pandemia de covid-19, registrou índices de confiança de 91% em cientistas e 82% em universidades brasileiras entre os respondentes da amostra, valores muito superiores aos observados para instituições políticas no mesmo período.9 A disputa atual em torno de neutralidade e pluralismo pode ser lida, em parte, como uma tentativa de proteger esse capital de confiança antes que ele siga a trajetória americana.
Perguntas frequentes
O que é o relatório Boghossian?
É o Relatório sobre o Estado da Pesquisa nas Humanidades e das Ciências Sociais Humanísticas, encomendado em 2025 pelos reitores da Universidade Vanderbilt e da Universidade Washington em St. Louis a uma comissão de dez pesquisadores liderada pelo filósofo Paul Boghossian, da New York University, e divulgado em junho de 2026.13
O relatório afirma que toda a produção acadêmica das humanidades é politizada?
Não. O documento reconhece pesquisa rigorosa em todas as disciplinas examinadas, mas identifica um padrão, presente em algumas áreas e não em outras, de substituição de critérios acadêmicos por critérios políticos na avaliação de trabalhos científicos.1
O que é neutralidade institucional?
É o princípio segundo o qual universidades, como instituições, evitam adotar posições oficiais sobre questões políticas e sociais controversas, preservando a liberdade individual de professores e estudantes para chegar às próprias conclusões. A ideia deriva do Relatório Kalven, produzido pela Universidade de Chicago em 1967.5
Existe um debate equivalente no Brasil?
Sim. Em abril de 2026, o Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica, redigido na Universidade de São Paulo e assinado por mais de 1.500 pesquisadores, levantou preocupações semelhantes sobre conformidade ideológica e autocensura nas universidades públicas brasileiras, gerando também um contramanifesto crítico à proposta.68
Referências
- Diermeier, Daniel. "A report exposed a crisis in academia. The response was telling." The Washington Post, 14 set. 2026. Disponível em: washingtonpost.com.
- Vanderbilt Hustler. Cobertura sobre a nota conjunta da AAUP de Vanderbilt e Washington University.
- St. Louis Magazine / Student Life. Cobertura sobre a composição da comissão liderada por Paul Boghossian.
- Boston Review. "The Wrong Way to Criticize the Humanities."
- Misreading the Humanities: A Critique of the Vanderbilt–Washington University Report.
- Manifesto "Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica", redigido no Centro Universitário Maria Antônia, Universidade de São Paulo, abril de 2026.
- Instituto Sivis. Pesquisa sobre autocensura entre estudantes brasileiros de ensino superior.
- A Terra é Redonda. "Pela universidade pública" e "Universidade em disputa: entre pluralidade, neutralidade e poder."
- Estudo sobre confiança institucional no enfrentamento à pandemia de covid-19, publicado na revista Psicologia Escolar e Educacional (PePSIC).