Caderno Livros
Ewerton Lopes Curador Editorial 27 de julho de 2026 8 min de leitura

Um autor descobre, dois meses depois de publicar seu livro sobre a era da desinformação, que parte das citações que atribuiu a fontes reais nunca foi dita por ninguém. O caso, revelado pelo Financial Times, é sintoma de um problema que a indústria editorial ainda não sabe nomear direito.

No início deste ano, o escritor americano Steven Rosenbaum recebeu um telefonema que colocou em xeque três anos de trabalho. Segundo reportagem do Financial Times, seu livro de não ficção sobre o futuro da verdade e da tecnologia continha citações fabricadas por ferramentas de inteligência artificial, apresentadas como falas reais de entrevistados e documentos consultados. Rosenbaum afirma ter usado IA apenas para organizar pesquisas e resumir material de origem, mas parte desses resumos acabou se transformando, no processo, em frases que pareciam transcrições literais. O episódio, ocorrido dentro de uma editora tradicional, com múltiplas rondas de revisão editorial, ilustra um tipo de falha que passa despercebido pelos métodos convencionais de checagem: a alucinação de um modelo de linguagem não se parece com um erro de digitação, ela se parece com um fato.

O caso não é isolado. Ainda de acordo com a reportagem do FT, editoras internacionais relatam encontrar, semanalmente, manuscritos que suspeitam terem sido produzidos com apoio intensivo de IA, sem conseguir estabelecer com precisão onde termina a assistência tecnológica e onde começa a autoria humana. Em março, a editora francesa Hachette retirou de circulação no Reino Unido o romance de terror "Shy Girl", da autora Mia Ballard, após acusações de que o livro teria sido parcialmente escrito por inteligência artificial. Ballard nega a acusação, mas o episódio reforça um temor recorrente entre executivos do setor: o de que o público talvez simplesmente não se importe com quem, ou o que, escreveu o livro que está lendo.

A alucinação de um modelo de linguagem não se parece com um erro de digitação. Ela se parece com um fato. SOBRE O CASO ROSENBAUM, SEGUNDO REPORTAGEM DO FINANCIAL TIMES

Quem paga a conta do treinamento

A discussão sobre autoria ganhou um capítulo financeiro concreto na semana passada. A Justiça americana deu aprovação final ao acordo entre a Anthropic e um grupo de autores e editoras que a processou por usar cerca de 482 mil livros, obtidos de bibliotecas piratas, para treinar seus modelos de linguagem sem autorização ou pagamento. O valor, de 1,5 bilhão de dólares, é descrito por advogados das duas partes como a maior indenização por direitos autorais já registrada, e deve resultar em pagamentos de aproximadamente 3 mil dólares por obra aos titulares que reivindicarem a compensação[1]. O acordo não decide, porém, a questão de fundo: uma decisão anterior do mesmo processo já havia considerado que treinar modelos de IA com livros comprados legalmente pode se enquadrar em uso justo (fair use) segundo a lei americana. O que tornou a empresa responsável não foi o treinamento em si, mas a origem pirata de boa parte do material.

No Brasil, uma disputa paralela tramita no Congresso Nacional. O capítulo de direitos autorais do Projeto de Lei 2338/2023, o chamado Marco Legal da IA, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e agora em análise na Câmara dos Deputados, prevê que plataformas de inteligência artificial identifiquem as obras protegidas usadas no treinamento de seus modelos, obtenham consentimento dos autores e paguem remuneração pelo uso comercial desse conteúdo[2][3]. Entidades como a Associação Brasileira de Direito Autoral, a Federação Nacional dos Jornalistas e a União Brasileira de Compositores divulgaram manifesto público defendendo a manutenção integral desse capítulo, alertando para o risco de ele ser esvaziado no texto final aprovado pela Câmara[4]. Já setores ligados à indústria de tecnologia argumentam que as exigências de identificação e remuneração podem encarecer o desenvolvimento de IA no país e afastar investimentos, tornando o Brasil um dos mercados mais restritivos do mundo para a tecnologia[5]. O Ministério da Cultura, por sua vez, defende publicamente a manutenção das regras, citando estimativas de perdas bilionárias para criadores em cenários sem remuneração obrigatória[6].

Contraponto: nem toda editora vê a IA como ameaça

Executivos do setor livreiro ouvidos pelo Financial Times relativizam o alarme. Para eles, ferramentas de IA já assistem discretamente pesquisa, checagem de fatos, revisão gramatical e resumo de material de origem há anos, sem que isso comprometa a autoria quando há supervisão humana clara. Selos como o "Human Authored", lançados por associações de autores nos Estados Unidos e no Reino Unido, tentam justamente formalizar essa distinção: permitem uso de IA para revisão ortográfica e gramatical, mas não para geração de texto, e funcionam como um rótulo de transparência voluntária, não como proibição.

No mercado editorial brasileiro, a cobertura especializada da PublishNews descreve 2025 como um ano de exposição mais do que de transição: capas geradas por IA, tradução assistida e pesquisa automatizada já fazem parte da rotina de várias editoras, e o debate deslocou-se de "usar ou não usar" para "como declarar o que foi usado"[7].

O leitor brasileiro que já lê menos

Esse debate chega a um Brasil que lê cada vez menos, independentemente da inteligência artificial. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, divulgada em novembro de 2024, mostrou que 53% da população não leu sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento, a primeira vez, em quase duas décadas de série histórica, que não leitores superam leitores no país. O número de leitores caiu de 100,1 milhões em 2019 para 93,4 milhões em 2024, uma redução de 6,7 milhões de pessoas em quatro anos[8].

É nesse cenário de público que já se afasta do livro que a ansiedade sobre autoria artificial ganha um peso adicional. Se a confiança do leitor em um livro de não ficção depende, em parte, de acreditar que os fatos e as vozes citadas são reais, um escândalo como o de Rosenbaum não corrói apenas a reputação de um autor específico. Ele fragiliza um contrato de confiança que a indústria editorial já vinha tentando reconstruir com um público cada vez mais disperso entre podcasts, vídeos e resumos automatizados de best-sellers.

Rosenbaum, segundo a reportagem do FT, hoje trabalha com um revisor de fatos para reconstruir seu livro palavra por palavra antes de publicar uma nova edição. Ele diz não estar abandonando o uso de inteligência artificial, mas defende a criação de salvaguardas editoriais específicas para um mundo em que a IA já faz parte do fluxo de produção de livros, quer as editoras admitam isso abertamente, quer não. Para o mercado brasileiro, ainda sem uma lei específica aprovada e com um público leitor encolhendo, a pergunta não é mais se a inteligência artificial vai integrar a cadeia do livro. É quem vai assumir a responsabilidade quando ela errar.

Nota de atribuição editorial: Esta reportagem foi inspirada pelo artigo "The new premium product: books written by people", de Daniel Thomas, publicado pelo Financial Times em ft.com. O texto original foi utilizado como referência factual e ponto de partida temático; a análise, a seleção de fontes, os dados brasileiros e as conclusões apresentadas aqui são produção independente do Caderno Livros de O Tecido, com apuração e sourcing próprios.