Ciência · Neurociência

Imagine uma sequência de sons repetida até a monotonia: três tons graves, um agudo, de novo e de novo. De repente o padrão se quebra e surgem quatro graves seguidos. Num adulto acordado, o cérebro registra a quebra com uma pequena oscilação elétrica, um sinal de surpresa que surge em frações de segundo e que desaparece em pessoas em coma ou em sono profundo. Agora coloque um recém-nascido diante do mesmo teste. Se o sinal aparecer, o que exatamente ele está dizendo?

Essa é a pergunta que move um dos campos mais ativos da neurociência atual, tema de reportagem de Carl Zimmer publicada nesta segunda-feira (5) no The New York Times1, dentro de um projeto do jornal dedicado às grandes perguntas ainda sem resposta na ciência. O tema parece restrito, mas não é. Saber quando a consciência começa obriga os pesquisadores a decidir o que ela é e como detectá-la em quem não fala. Por extensão, a mesma questão alcança pacientes com lesões cerebrais graves, experimentos com tecido cerebral humano e o debate sobre inteligência artificial.

Medir o que não se pode perguntar

Com adultos, o caminho mais direto para saber se alguém teve consciência de algo é perguntar. Com bebês, a via é indireta. Os cientistas partem de assinaturas cerebrais que, em adultos, acompanham a experiência consciente e verificam se elas também aparecem nos pequenos. A lógica é a de um conjunto de indícios: nenhum marcador isolado resolve a questão, mas vários surgindo na mesma fase do desenvolvimento seriam um sinal forte de que algo mudou ali.

Um dos estudos que inauguraram essa abordagem foi publicado na revista Science em 2013 pela equipe do neurocientista Sid Kouider, em Paris, como divulgou o Inserm2. O grupo registrou a atividade elétrica cerebral de 80 bebês de 5, 12 e 15 meses enquanto eles viam rostos exibidos por frações de segundo. Em todas as idades apareceu uma onda tardia com o mesmo perfil observado em adultos que percebem conscientemente uma imagem. A diferença estava no relógio. Em adultos, essa resposta surge por volta de 300 milissegundos; nos bebês de 5 meses, começava perto de 900 milissegundos, e nos mais velhos, em torno de 750. A conclusão dos autores foi que o mecanismo já existe na primeira infância, mas opera em câmera lenta e acelera com o amadurecimento.

Experimentos mais recentes empurraram essa fronteira até o nascimento. Segundo o NYT, pesquisadores na Alemanha acomodaram recém-nascidos num berço revestido de sensores magnéticos, aplicaram o teste dos sons dissonantes com fones de ouvido e registraram nos bebês a mesma resposta característica vista em adultos.1

Janela de emergência da consciência segundo as duas principais hipóteses Linha do desenvolvimento entre 20 semanas de gestação e 15 meses de vida, com a faixa da hipótese de início precoce a partir de cerca de 26 semanas e a faixa da hipótese de início tardio a partir de 12 meses. QUANDO A CONSCIÊNCIA PODE COMEÇAR Hipótese de início precoce (a partir do 3º trimestre) Início tardio (12 meses+) 20 sem 26 sem conexões sensoriais Nascimento resposta a sons dissonantes 5 meses onda tardia (~900 ms) 12 meses 15 meses Escala ilustrativa, não proporcional ao tempo.
As duas leituras dominantes sobre o surgimento da consciência humana. Fontes: Bayne et al., Trends in Cognitive Sciences (2023); Kouider et al., Science (2013); The New York Times (2026). Elaboração: O Tecido.

Do caderno de Darwin à mesa de cirurgia

A ideia de que bebês não têm vida consciente é antiga. Charles Darwin, que acompanhou o desenvolvimento dos filhos em anotações a partir de 1839, concluiu que crianças muito pequenas não mostravam traço algum de consciência, como recupera a reportagem do NYT.1 A crença não ficou restrita à história natural. Ela moldou a prática médica por mais de um século.

Até a década de 1980, era frequente operar recém-nascidos sem anestesia adequada. O raciocínio combinava duas premissas: o sistema nervoso imaturo não processaria a dor de forma relevante, e os anestésicos ofereciam mais risco do que benefício. A virada veio em 1987, quando o pediatra Kanwaljeet Anand e colegas publicaram na The Lancet um ensaio randomizado com 16 bebês prematuros submetidos a cirurgia cardíaca, hoje disponível no Portal de Boas Práticas da Fiocruz3. Metade recebeu o opioide fentanil além do regime anestésico padrão. O grupo que ficou sem ele apresentou resposta hormonal de estresse muito mais intensa e mais complicações circulatórias e metabólicas no pós-operatório. No mesmo ano, a Academia Americana de Pediatria passou a considerar antiética a cirurgia neonatal sem anestesia, segundo levantamento histórico do Human Progress4.

Uma premissa filosófica equivocada sustentou, durante décadas, uma prática clínica que hoje seria inaceitável.

O episódio mostra que a pergunta sobre a consciência infantil nunca foi apenas especulativa. Quando a resposta está errada, a conta é paga por quem não pode reclamar.

Redes que se acendem em conjunto

Outro marcador vem da organização das redes cerebrais. Em adultos acordados, regiões distantes do cérebro funcionam de modo coordenado; sob anestesia ou em sono profundo, essa coordenação se desfaz. Em Londres, o Developing Human Connectome Project adaptou um aparelho de ressonância magnética funcional para escanear centenas de bebês, e a equipe da neurocientista Lorina Naci, do Trinity College Dublin, vem analisando esses registros. De acordo com o NYT, o grupo encontrou nos recém-nascidos redes de atividade semelhantes às de adultos despertos, e sinais parecidos também em bebês nascidos antes do tempo.1

Em 2023, Naci, o filósofo Tim Bayne, da Universidade Monash, e colegas publicaram na Trends in Cognitive Sciences a primeira revisão desses marcadores aplicados a bebês, disponível em acesso aberto5. O texto organiza o debate em dois polos. A visão de início tardio sustenta que a consciência depende de capacidades cognitivas que dificilmente existem antes do primeiro aniversário. A visão de início precoce afirma que ela provavelmente já está presente no nascimento e pode surgir no terceiro trimestre de gestação. Os autores concluem que a pesquisa recente favorece o segundo grupo, com uma ressalva importante: o objeto em discussão é a consciência primária, a experiência sensorial básica, e não formas que exigem reflexão ou noção de si.

A fronteira das 26 semanas

Se a consciência pode estar presente ao nascer, a pergunta seguinte é inevitável: e antes? Existe um piso razoavelmente aceito. Segundo os pesquisadores ouvidos pelo NYT, antes de cerca de 26 semanas de gestação ainda não existem as conexões neurais que permitiriam ao cérebro receber sinais dos sentidos e integrá-los numa experiência unificada.1 O que acontece depois dessa marca permanece em aberto. Na Universidade de Tübingen, na Alemanha, o neurocientista Joel Frohlich e colegas registram os campos magnéticos do cérebro fetal com um equipamento de magnetoencefalografia no qual gestantes voluntárias apoiam a barriga.

Uma enquete com participantes de dois grandes congressos sobre consciência, conduzida pela filósofa Claudia Passos-Ferreira, da Universidade de Nova York, e publicada em 2026 na Neuroscience of Consciousness6, ajuda a medir a temperatura do campo. Segundo o NYT, a maioria dos especialistas estimou que os bebês já têm alguma consciência ao nascer.1 Em artigo de 2024 na revista Neuron, a própria Passos-Ferreira argumentou7 que o conjunto das evidências de neuroimagem e de estudos comportamentais sustenta a tese de que recém-nascidos são conscientes.

Mais complexo que o cérebro adulto

O achado mais intrigante talvez seja o que questiona a imagem da consciência como uma escala de um único eixo, do apagado ao plenamente desperto. Ao contabilizar as interações entre regiões do cérebro segundo a segundo, a equipe de Naci observou que o cérebro do bebê exibe mais complexidade do que o de um adulto acordado, informa a reportagem do NYT.1 A hipótese da pesquisadora é que o recém-nascido seja consciente de outro modo, mais aberto ao ambiente e menos filtrado do que o adulto, que aprendeu a selecionar o que importa.

Se a hipótese se confirmar, a consciência deixa de ser pensada como um interruptor ou um regulador de intensidade e passa a ser descrita como um espaço com várias dimensões. A consequência ultrapassa a pediatria: qualquer teste calibrado apenas em adultos pode falhar em reconhecer formas de experiência organizadas de maneira diferente.

O que está em jogo no Brasil

No Brasil, a discussão tem endereço concreto: as UTIs neonatais. Cerca de 340 mil bebês nascem prematuros por ano no país, mais de 12% dos nascimentos, segundo dados do Ministério da Saúde citados pela Sociedade Brasileira de Pediatria9, o que coloca o Brasil entre os dez países com maiores índices de prematuridade do mundo. Em 2023, quase 12% dos partos ocorreram antes de 37 semanas, acima da média global de cerca de 10%, conforme levantamento divulgado pela Agência Brasil10.

A maior parte desses bebês nasce depois da marca de 26 semanas, justamente na janela em que, para a corrente do início precoce, a experiência consciente pode começar a se organizar. Isso não transforma hipótese em certeza, mas desloca o ônus da prova. Procedimentos dolorosos, ruído constante, luz intensa e separação da família passam a ser avaliados não só pelo efeito fisiológico, mas pela possibilidade de serem efetivamente vividos.

A legislação recente aponta nessa direção. A Lei 15.198/2025, que instituiu o Novembro Roxo e o Dia Nacional da Prematuridade, prevê o direito dos pais de acompanhar os cuidados com o bebê em tempo integral e garante acompanhamento psicológico e ambulatorial especializado para a família por pelo menos dois anos após a alta, como detalhou o Conselho Federal de Enfermagem11. O Método Canguru, política do SUS que estimula o contato pele a pele entre pais e prematuros, parte de premissa semelhante: o recém-nascido responde ao ambiente sensorial e afetivo, e esse ambiente faz diferença.

Por que a pergunta vai além do berço

Os bebês são o caso-teste ideal porque existe um ponto de acordo universal: em algum momento cada um de nós ainda não era consciente, e em outro passou a ser. Como observou ao NYT o neonatologista Topun Austin, da Universidade de Cambridge, mesmo sem saber quando a transição acontece, é certo que ela acontece.1 Localizá-la permitiria observar a consciência surgindo, em vez de descrevê-la apenas quando já está formada.

O mesmo instrumental interessa a quem trata pacientes com distúrbios de consciência após lesões cerebrais, a quem pesquisa células cerebrais humanas implantadas em animais e ao debate sobre máquinas que poderiam, um dia, ter algum tipo de experiência. Em todos esses casos, a questão é a que os recém-nascidos impõem: como reconhecer uma experiência em quem não pode relatá-la. A ciência ainda não tem a resposta, mas já dispõe de ferramentas para formular a pergunta de modo testável.

Perguntas frequentes

Bebês recém-nascidos são conscientes?

Não há consenso definitivo. A revisão publicada em 2023 na Trends in Cognitive Sciences e uma enquete com especialistas publicada em 2026 indicam que a maioria dos pesquisadores considera provável que o recém-nascido já tenha alguma forma de consciência primária, ou seja, experiência sensorial básica, sem reflexão ou noção de si.

A partir de quantas semanas de gestação pode haver consciência?

Pesquisadores consideram que, antes de cerca de 26 semanas, o cérebro fetal ainda não tem as conexões necessárias para integrar sinais dos sentidos numa experiência unificada. O que ocorre depois disso, até o nascimento, permanece em investigação.

Como os cientistas medem consciência em quem não fala?

Por marcadores identificados em adultos: a resposta elétrica a sons fora do padrão, a onda cerebral tardia diante de imagens rápidas, a coordenação entre redes cerebrais vista em ressonância magnética funcional e reações como piscadas e variações da pupila. A presença de vários marcadores na mesma fase é tratada como indício forte.

Recém-nascidos sentem dor?

Sim. Desde o ensaio de Anand e colegas publicado na The Lancet em 1987, a medicina assume que recém-nascidos, inclusive prematuros, sentem dor, e a anestesia e a analgesia em cirurgias neonatais tornaram-se padrão.

O que muda para bebês prematuros no Brasil?

O Brasil tem cerca de 340 mil nascimentos prematuros por ano, mais de 12% do total. Se a consciência pode surgir no terceiro trimestre, as condições das UTIs neonatais, como dor, ruído, luz e presença dos pais, ganham peso não só fisiológico, mas também em termos de experiência vivida pelo bebê.

Nota editorial. Este artigo parte da reportagem “Are Babies Conscious?”, de Carl Zimmer, publicada pelo The New York Times em 5 de outubro de 2026, e foi complementado por pesquisa independente em fontes científicas e institucionais. Não se trata de tradução nem de reprodução do texto original. Os créditos das informações atribuídas ao NYT estão indicados ao longo do texto.