A volatilidade recorde do mercado acionário sul-coreano expõe uma tensão que também atravessa a bolsa brasileira: o apetite do investidor de varejo por ganhos rápidos pode inflar índices no curto prazo e destruir capital no longo prazo.
Poucos mercados acionários entregaram, em 2026, um espetáculo tão contraditório quanto o sul-coreano. O índice Kospi acumula um dos maiores ganhos do mundo neste ciclo, impulsionado pela demanda global por chips de memória e pela onda de investimento em inteligência artificial1. Ao mesmo tempo, sua trajetória diária tem sido tão errática que passou a preocupar quem observa o mercado de fora: não pelo tamanho da alta, mas pela forma como ela acontece.
Foi esse contraste que motivou Ruchir Sharma a escrever, na coluna de opinião do Financial Times, que a Coreia do Sul enfrenta hoje um problema de reputação criado pelo próprio sucesso de sua bolsa. Segundo reportagens que acompanharam a publicação, Sharma calcula que a volatilidade do Kospi superou 60% neste ano e chegou perto de 100% durante o meio do ano, um patamar que, de acordo com registros que remontam à década de 1980, só foi superado em quatro momentos da história recente de mercados globais2.
Companhia indesejada: Nigéria, Turquia, Grécia e o próprio Brasil
O ponto mais incômodo do argumento está na comparação. Os quatro episódios de volatilidade mais intensos que o atual, segundo o levantamento citado por Sharma, ocorreram em países que atravessavam crises financeiras profundas: Nigéria, Turquia, Grécia e o Brasil2. Nesses casos, os saltos bruscos de preços refletiam colapsos cambiais, calotes ou rupturas institucionais. A Coreia do Sul, ao contrário, vive um momento de expansão econômica e lucro corporativo recorde. É justamente essa dissonância, entre fundamentos sólidos e comportamento de mercado típico de crise, que Sharma aponta como o verdadeiro problema.
O motor da montanha-russa: o investidor de varejo
Um dos pilares do argumento de Sharma é o papel do investidor pessoa física na formação dos preços. A alta participação de capital de varejo, especialmente em produtos alavancados, tende a amplificar movimentos que, em mercados dominados por investidores institucionais, seriam mais suaves2. Reportagens locais associam o fenômeno a uma cultura de especulação já bastante estudada na Coreia do Sul, em que a bolsa passa a ser tratada como um atalho para enriquecimento rápido, desviando poupança de aplicações mais produtivas, inclusive de empresas coreanas sólidas2.
Há ainda uma camada estrutural pouco comentada fora do mercado financeiro: apesar do tamanho e da sofisticação econômica do país, o MSCI mantém a Coreia do Sul na categoria de mercado emergente, e não desenvolvido. O motivo não é econômico, mas cambial: o won só é negociado durante o horário comercial de Seul, o que dificulta o acesso de investidores internacionais fora daquele fuso3. Seul aposta na ampliação do horário de negociação da moeda como caminho para reverter essa classificação, mas o problema de fundo, a dependência de fluxo especulativo doméstico, é outro.
O espelho brasileiro: quem realmente compra a alta da Bolsa
O Brasil aparece no argumento de Sharma como lembrança de um passado turbulento, mas o presente do mercado local oferece um contraponto mais sutil e, talvez, mais revelador. A B3 também vive um ciclo de recordes em 2026: o Ibovespa acumulou mais de dez recordes nominais só nos primeiros meses do ano, superando a casa dos 190 mil pontos pela primeira vez na história4. Só que, diferentemente do que ocorre na Coreia do Sul, essa alta é puxada majoritariamente por capital estrangeiro: dados de início de 2026 mostram que investidores internacionais respondem por cerca de 59% do volume negociado na bolsa brasileira, enquanto pessoas físicas brasileiras participam com pouco mais de 11%5.
Isso não significa que o investidor brasileiro esteja alheio à especulação. Pelo contrário: entre os que operam renda variável no país, o apetite por operações de curtíssimo prazo é robusto. A própria B3 informa que mais de 5,6 milhões de brasileiros investem em renda variável e que cerca de 300 mil atuam como traders, com o day trade respondendo por 62% da receita que a bolsa obtém junto a investidores pessoa física6.
O que os dados dizem sobre quem tenta viver de day trade
Um estudo conduzido por pesquisadores da FGV, com base em registros da Comissão de Valores Mobiliários sobre operações no mini contrato futuro do Ibovespa entre 2013 e 2015, oferece um retrato duro dessa aposta. Do universo de quase 20 mil pessoas que começaram a operar day trade nesse período, uma fração persistiu por mais de 300 pregões na tentativa de transformar a atividade em fonte de renda. Entre esses persistentes, 91% terminaram no prejuízo, e apenas um punhado conseguiu lucro médio diário compatível com uma renda razoável7. Pesquisas mais recentes de mesas proprietárias sugerem alguma melhora na qualificação dos traders, mas o padrão histórico de perdas concentradas segue sendo a referência mais robusta disponível sobre o tema no país8.
O paralelo com a Coreia do Sul, portanto, não está na origem do capital que empurra os índices para cima, que no Brasil vem de fora, mas na forma como parte do investidor doméstico se relaciona com a bolsa: menos como reserva de valor de longo prazo, mais como arena de aposta. É esse comportamento, e não o tamanho do rali, que Sharma associa a um risco de reputação para os mercados que o hospedam.
Contraponto
Nem todos os analistas veem a alta participação de varejo como um problema em si. Parte do mercado argumenta que a maior presença de pequenos investidores amplia a liquidez, distribui a propriedade das empresas listadas e reflete avanços genuínos de inclusão financeira, tanto na Coreia do Sul quanto no Brasil.
No caso coreano, defensores das reformas de governança corporativa conhecidas como "Value Up" apontam que elas já reduziram parte do histórico desconto de avaliação aplicado às ações locais, e que a volatilidade recente reflete também entusiasmo legítimo com o ciclo de semicondutores e inteligência artificial, não apenas especulação9. No caso brasileiro, especialistas ouvidos pela imprensa financeira ponderam que a atual valorização do Ibovespa é sustentada por fundamentos, como juros em direção de queda e preços de ativos ainda descontados frente a pares internacionais, e que eventual volatilidade futura tende a vir de fatores político-eleitorais específicos de 2026, e não de um excesso estrutural de especulação5.
O que fica da comparação
A coluna de Sharma não recomenda medidas específicas, mas deixa um convite implícito à reflexão para qualquer mercado emergente que dependa de capital de varejo para sustentar parte de seu volume: a diferença entre uma bolsa vibrante e uma bolsa instável nem sempre está no tamanho dos ganhos, e sim na previsibilidade do comportamento coletivo por trás deles. Para o Brasil, o dado mais relevante talvez não seja o desempenho recente do Ibovespa, mas o fato de que, mesmo depois de mais de uma década de estudos mostrando que a imensa maioria de quem tenta viver de day trade perde dinheiro, a atividade segue sendo uma parte estruturalmente relevante da receita da própria bolsa. Isso sugere que o apelo emocional da especulação de curto prazo resiste, no Brasil como na Coreia do Sul, a qualquer evidência estatística em contrário.
Perguntas frequentes
O que Ruchir Sharma quis dizer ao chamar o mercado sul-coreano de "passivo nacional"?
Ele argumenta que a volatilidade extrema do Kospi, mesmo em meio a uma alta histórica, está prejudicando a imagem internacional da Coreia do Sul, associando o país a um comportamento de mercado tipicamente ligado a crises financeiras, e não a uma economia em expansão.
Por que a comparação com Nigéria, Turquia, Grécia e Brasil chama atenção?
Porque, segundo dados citados na coluna, esses foram os únicos episódios de volatilidade acionária mais intensos que o atual desde os anos 1980, todos ocorridos durante crises financeiras profundas, o que contrasta com o momento de crescimento econômico que a Coreia do Sul vive hoje.
O Brasil tem um problema de especulação parecido com o da Coreia do Sul?
Em parte. A alta recente do Ibovespa é puxada principalmente por capital estrangeiro, diferente do caso coreano, mas o país tem uma cultura de day trade consolidada, com estudos acadêmicos mostrando que a grande maioria de quem tenta viver dessa atividade perde dinheiro.
O que é o chamado "desconto coreano" (Korea Discount)?
É o fenômeno histórico em que ações sul-coreanas negociam a múltiplos de avaliação mais baixos que concorrentes internacionais, atribuído em parte à governança corporativa fraca das grandes conglomerados familiares (chaebols) e à proteção limitada a acionistas minoritários.
Por que a Coreia do Sul ainda é classificada como mercado emergente pelo MSCI?
A classificação não considera o desempenho ou o tamanho da economia, mas o funcionamento do mercado de câmbio. O won só é negociado no horário comercial de Seul, o que limita o acesso de investidores internacionais e é hoje o principal obstáculo apontado pelo MSCI para a promoção do país à categoria de mercado desenvolvido.
Referências
- Ruchir Sharma, "Why the world's hottest stock market is a national liability", Financial Times, 21 de setembro de 2026.
- Seoul Economic Daily, cobertura sobre a coluna de Ruchir Sharma no Financial Times.
- Reportagem sobre a classificação da Coreia do Sul pelo MSCI e a restrição cambial do won.
- B3, comunicados sobre recordes nominais do Ibovespa em 2026.
- Acionista.com.br, análise sobre a composição do fluxo de capital estrangeiro e doméstico na B3 em 2026.
- B3 / Bora Investir, dados sobre o perfil do investidor pessoa física e participação do day trade na receita da bolsa.
- Chague, F. e Giovannetti, B., estudo acadêmico sobre desempenho de day traders no mini contrato futuro do Ibovespa (dados CVM, 2013-2015).
- Monitor Mercantil, levantamento de mesas proprietárias sobre qualificação e renda de day traders.
- Reportagens sobre o programa de reformas de governança corporativa "Value Up" na Coreia do Sul.