Política Geopolítica · Guerra na Ucrânia · 19 de outubro de 2026
O presidente russo Vladimir Putin propôs reunir-se com Donald Trump e Xi Jinping no próximo mês para negociar o fim da guerra na Ucrânia, em termos favoráveis a Moscou e sem a presença de Volodymyr Zelensky. A informação é de uma reportagem exclusiva do The Wall Street Journal, assinada por Lingling Wei, Alex Leary, Thomas Grove e Josh Dawsey, publicada na noite de domingo e atualizada nesta segunda-feira (19)[1]. Segundo o jornal, a ideia foi apresentada por Putin no telefonema de 9 de outubro com Trump, a mesma conversa que resultou no acordo para os Estados Unidos comprarem diesel russo.
O formato seria inédito: as três maiores potências militares do planeta discutindo o destino de um país soberano sem que seu governo esteja presente. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, confirmou ao WSJ que há conversas sobre o encontro, ainda sem agenda definida[1]. Um alto funcionário americano disse ao jornal que Trump não aceitou a proposta, mas poderia ser receptivo a ela, dado o peso que atribui à promessa de campanha de encerrar o conflito. O secretário de Estado Marco Rubio, em visita a Samarcanda, no Uzbequistão, reconheceu que houve conversas sobre uma reunião e disse não saber se algo estava fechado.
O que se sabe da proposta
De acordo com as fontes ouvidas pelo WSJ, o Kremlin sugeriu que a conversa ocorresse à margem da cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), marcada para 18 e 19 de novembro em Shenzhen, polo tecnológico do sul da China[1]. Moscou teria levado a ideia a Pequim por canais diplomáticos, e o lado chinês indicou que não se oporia caso Trump aceite.
A resposta de Kiev foi imediata. O chanceler Andrii Sybiha escreveu no X que uma cúpula de paz sem a Ucrânia iria "encorajar Putin a continuar sua guerra"[1]. O próprio Zelensky, também nesta segunda, afirmou que a Ucrânia aceitou todas as tentativas de seus parceiros para encerrar a guerra de forma digna, conforme relato do Daily Beast. No sábado, em entrevista à Bloomberg, ele já havia acusado Trump de pressionar a Ucrânia a capitular, segundo a bne IntelliNews[6].
O WSJ registra ainda que Putin já havia sugerido o formato trilateral em outras ocasiões. A diferença agora é o contexto: a relação entre Washington e Moscou vive sua fase mais amistosa desde o início da invasão, enquanto a relação entre Trump e Zelensky se deteriora publicamente.
Diesel, sanções e o calendário eleitoral
Em 18 de setembro, Trump sancionou a Lei Lindsey O. Graham de Sanções contra Rússia e Irã, aprovada com apoio dos dois partidos e batizada em homenagem ao senador republicano morto em julho. A lei autoriza o presidente a impor tarifas de até 100% aos cinco maiores compradores de petróleo e gás russos, como detalhou o Kyiv Independent[3]. Três semanas depois, o mesmo presidente anunciou a compra de diesel russo e a facilitação de sua venda no mercado global.
O Tesouro americano emitiu uma licença geral que autoriza transações com diesel de origem russa até abril de 2027, com entregas iniciais de mais de 300 mil toneladas, seguidas de 500 mil em novembro e 1 milhão de toneladas depois, conforme reportagem da agência IANS[4]. Na CNN, o apresentador Jake Tapper observou que o volume mal cobre um dia e meio da demanda americana. Uma estimativa citada pela Forbes calcula que o primeiro lote abasteceria o mercado global por cerca de 11 minutos[5]. O próprio WSJ registra o consenso entre especialistas em energia: a principal causa da alta do diesel é a guerra com o Irã, e o volume prometido pela Rússia não move o mercado[1].
A reação no Congresso não veio só da oposição. Doze senadores, seis deles republicanos, entre eles Susan Collins, enviaram carta pedindo que Trump revogasse o acordo e aplicasse a nova lei, segundo a Reuters[2]. O senador republicano Thom Tillis disse que o acordo mancha o legado de Graham, de acordo com o Daily Beast[12]. Mesmo assim, na sexta-feira (16), Trump suspendeu a implementação das sanções previstas pela lei. Um funcionário da Casa Branca disse ao WSJ que o presidente viu poucas opções melhores para baixar os preços a duas semanas das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro[1].
No domingo, após um ataque ucraniano com drones a um terminal de petróleo em São Petersburgo, cidade natal de Putin, Trump usou a Truth Social para acusar Zelensky de não querer encerrar a guerra e justificou o adiamento das sanções como forma de não afastar a Rússia da mesa de negociação[1]. O texto do WSJ lembra que Trump havia prometido acabar com o conflito no primeiro dia de governo e se aproxima agora de dois anos no cargo.
O que Pequim ganha e o que arrisca
Para Xi Jinping, sediar um diálogo entre Washington e Moscou em solo chinês seria um salto na ambição de apresentar a China como mediadora entre potências. Yun Sun, diretora do programa de China do Stimson Center, disse ao WSJ que Pequim quer ser vista como o eixo entre as grandes potências[1].
O risco, porém, também é chinês. Segundo o jornal, autoridades em Pequim temem que um episódio geopolítico desse porte ofusque a APEC, pensada como vitrine do papel regional da China. Xi tenta equilibrar o apoio a Putin com a preservação dos laços econômicos com a Europa, e uma reunião desse tipo poderia arrastá-lo mais diretamente para o conflito e provocar reação de capitais europeias já desconfiadas da inclinação chinesa em direção a Moscou[1]. Vale notar que a União Europeia, hoje responsável pela maior parte do financiamento e do apoio militar a Kiev, não está entre os convidados, como apontou a bne IntelliNews[6].
A sombra de Yalta e o recado para Taiwan
Um ex-oficial da inteligência russa ouvido pelo WSJ afirmou que Putin nutre ambições amplas, ainda que irrealistas, de transformar o formato trilateral numa segunda Yalta, referência à conferência de 1945 em que os Aliados dividiram o mundo do pós-guerra em esferas de influência[1]. Para o Kremlin, o formato tem duas vantagens: reconhece a Rússia como membro do clube das grandes potências, status que Putin persegue desde que chegou ao poder em 2000, e exclui a Europa, vista por Moscou como o principal obstáculo à vitória na Ucrânia.
O simbolismo atravessa o Estreito de Taiwan. A imagem de três líderes negociando o futuro de uma nação ausente reforçaria em Taipé o temor de que o destino da ilha também possa um dia ser decidido em fórum semelhante, observa o jornal. A advertência conversa com uma frase do ex-secretário de Estado Antony Blinken, retomada pela CNBC[10]: quem não tem lugar à mesa corre o risco de estar no cardápio.
Leitores, pesquisas e o isolamento da base
Quem percorre a seção de comentários da reportagem do WSJ, e de veículos como o britânico The Telegraph, encontra um padrão revelador. São jornais de linha editorial conservadora, com público majoritariamente alinhado à centro-direita, e ainda assim as manifestações de desconfiança em relação a Trump superam com folga as de apoio. As críticas se concentram na aproximação com Putin, no acordo do diesel e na exclusão de Kiev. Comentários não são amostra estatística, mas o fato de a resistência aparecer justamente entre leitores que tenderiam a ser simpáticos ao presidente diz algo sobre o momento.
As pesquisas confirmam a leitura. Levantamento da NBC News divulgado no sábado (18) mostra aprovação de 34% entre adultos americanos, a mais baixa do segundo mandato nessa série, contra 66% de desaprovação; 51% desaprovam fortemente[7]. A média do Silver Bulletin tocou no fim de semana o pior saldo líquido já registrado para Trump, de menos 23,9 pontos[8]. Mesmo o Napolitan News Service, conduzido por pesquisador de perfil conservador, aponta que a aprovação forte caiu a 19%, segundo a Newsweek[9].
O desenho é claro: 76% de aprovação entre republicanos e apenas 21% entre independentes[7]. Homens com menos de 30 anos e latinos, segmentos que se deslocaram para Trump em 2024, hoje registram 28% e 31%, respectivamente. Em temas concretos, o quadro piora: 27% aprovam a condução do custo de vida e 29%, a da guerra com o Irã. O apoio que resta está concentrado num núcleo fiel, cada vez mais dependente de um ecossistema de mídia próprio e menos exposto ao contraditório. É justamente o tipo de ambiente informacional em que decisões como a do diesel russo chegam ao público já embaladas como vitória, enquanto o restante do país, incluindo parte do eleitorado conservador, as recebe com ceticismo.
O argumento de quem defende a aproximação
Aliados de Trump sustentam que quatro anos de guerra, sanções e cúpulas sem a Rússia não produziram cessar-fogo, e que qualquer acordo real exigirá envolver Moscou e, possivelmente, Pequim, maior parceira econômica do Kremlin. Nessa leitura, suspender sanções seria instrumento tático para manter a Rússia negociando, como o próprio Trump argumentou. Há também quem lembre que o Brasil e a China, em sua proposta conjunta, defenderam que a paz só sairá com todos os atores relevantes envolvidos.
O limite desse argumento é o desenho proposto: envolver a Rússia é diferente de excluir a Ucrânia. A própria proposta sino-brasileira pressupunha os dois países em guerra à mesma mesa. E pesquisas de opinião medem popularidade, não acerto estratégico: uma política pode ser impopular e, ainda assim, produzir resultado. O teste de Shenzhen, se ocorrer, será o conteúdo do que for negociado, e por quem.
O que isso significa para o Brasil
A proposta toca em um princípio que a diplomacia brasileira defende desde 2022. O Itamaraty condena a invasão russa, mas evita aderir a sanções unilaterais dos Estados Unidos e da União Europeia, como resumiu a Itatiaia[11]. Em 2024, o Brasil se recusou a assinar a declaração final da cúpula de paz realizada na Suíça justamente porque a Rússia não estava presente; Lula afirmou na ocasião que o país só se envolveria quando os dois lados estivessem dispostos a negociar diretamente, segundo a Agência Brasil, reproduzida pelo jornal O Hoje.
Pela mesma lógica, um encontro que exclua a Ucrânia fere o critério que Brasília aplicou à cúpula que excluiu a Rússia. A coerência será testada: o Brasil tem com a China a parceria comercial mais relevante de sua pauta externa, divide com a Rússia o BRICS e mantém com os Estados Unidos uma relação estremecida pelo tarifaço. Há ainda um ponto prático. Desde 2023, a Rússia se tornou uma das principais fornecedoras do diesel importado pelo país, o que faz de qualquer reconfiguração do mercado russo de combustíveis, como a que Washington acaba de patrocinar, um tema de interesse direto para o abastecimento e os preços no Brasil.
Para um país que reivindica papel de mediador e sustenta o multilateralismo como princípio, um eventual "G3" de grandes potências decidindo conflitos à revelia dos envolvidos é, antes de tudo, um precedente desfavorável. A pergunta que fica para Brasília não é se apoia o fim da guerra, mas se aceita que ele seja negociado num formato que ela própria rejeitou quando o ausente era outro.
Perguntas frequentes
O que Putin propôs a Trump e Xi Jinping?
Segundo o WSJ, um encontro trilateral para negociar o fim da guerra na Ucrânia em termos favoráveis a Moscou, sem a participação de Volodymyr Zelensky. A ideia teria sido apresentada no telefonema de 9 de outubro de 2026.
Onde e quando seria a cúpula?
O Kremlin sugeriu a margem da cúpula da APEC, em 18 e 19 de novembro, em Shenzhen, na China. Trump ainda não aceitou, e Pequim não confirmou participação formal.
Por que a Ucrânia rejeita o formato?
Kiev afirma que qualquer acordo negociado sem a sua presença premiaria a agressão russa e encorajaria Putin a continuar a guerra.
Qual é a aprovação de Trump hoje?
A pesquisa NBC News de 18 de outubro registra 34% de aprovação entre adultos. Médias agregadas indicam entre 36% e 38%. Entre republicanos, a aprovação é de 76%; entre independentes, 21%.
Qual é a posição do Brasil?
O Brasil condena a invasão, não adere a sanções unilaterais e defende negociação com Rússia e Ucrânia à mesma mesa, princípio incompatível com um formato que exclua Kiev.