Longevidade · Tecnologia e envelhecimento
Até pouco tempo atrás, criar um aplicativo exigia contratar programadores, dominar linguagens de código e investir somas consideráveis. Em outubro de 2026, o jornal britânico The Telegraph publicou uma reportagem sobre um grupo improvável de desenvolvedores: pessoas com mais de 60 anos, sem formação técnica, que passaram a construir seus próprios sites e aplicativos apenas descrevendo o que queriam a uma ferramenta de inteligência artificial.1 O caso mais simbólico é o de James Green, 81 anos, ex-diretor de escola no condado de Lincolnshire, que precisou perguntar à IA onde ficava a tecla enter do próprio notebook e, seis semanas depois, tinha no ar um site que combina vídeos caseiros com faixas de jazz.
A reportagem descreve um fenômeno real, mas lida a partir do Brasil ela pede uma segunda pergunta. Se a barreira técnica para programar caiu, quem de fato está em condições de atravessá-la? Os dados brasileiros sobre envelhecimento, conectividade e uso de IA sugerem que a resposta, por enquanto, é uma minoria bem específica.
O que é vibe coding e por que ele interessa à longevidade
O método usado pelos entrevistados tem nome: vibe coding, ou programação por conversa. Em vez de escrever código, a pessoa pede em linguagem comum algo como "crie um aplicativo de orçamento doméstico" ou "deixe o fundo num azul mais claro", e o modelo de IA gera o código correspondente. A expressão foi cunhada em fevereiro de 2025 pelo engenheiro Andrej Karpathy, um dos fundadores da OpenAI, e se espalhou tão rápido que o dicionário Collins a escolheu como palavra do ano de 2025.5
Segundo dados da empresa Vercel citados pelo Telegraph, cerca de 63% das pessoas que experimentam essas ferramentas não têm formação em programação.1 Para a longevidade, o ponto central não é a técnica, e sim o deslocamento do valor. Robert Furman, fundador de uma escola britânica de vibe coding ouvido pelo jornal, argumenta que quem passou três, quatro ou cinco décadas num setor conhece melhor do que ninguém os problemas que valem a pena resolver.1 Quando escrever código deixa de ser o gargalo, saber o que construir passa a pesar mais. E isso é algo que a experiência acumula.
Quatro perfis, quatro motivações
Os casos reunidos pela reportagem britânica têm em comum a falta de formação técnica, mas divergem no propósito, e essa diferença importa para entender o fenômeno.1
James Green, JazzEra
Ex-diretor de escola e autor de musicais, começou a usar o Claude depois de ficar viúvo. Seu único custo foi a assinatura mensal da ferramenta. Não pensa em transformar o projeto em negócio: disse ao jornal que, na idade dele, "é uma questão de preencher o tempo".
Janet Gourand, JanetGPT
Ex-executiva de RH e fundadora da comunidade Tribe Sober, de apoio a quem deixou o álcool, alimentou um chatbot com os materiais do programa de sua organização. Testou com 20 usuários e cogita vendê-lo como produto independente.
Mick Brown, HeyUp
Ex-gesseiro de Sheffield, criou com o Codex um aplicativo de exercícios curtos com peso do corpo em menos de um mês. Publicou na App Store, mas teve de fazer ajustes exigidos pela Apple para cumprir regras de privacidade de dados.
Liz Blacklock, CareBoodle
Enfermeira, criou com duas colegas um aplicativo para ajudar cuidadores domiciliares a reconhecer sinais precoces de delirium. Contratou um especialista para desenvolvê-lo, captou £ 75 mil e agora estuda o vibe coding em parceria com a Universidade de Worcester.
Há, portanto, pelo menos três lógicas diferentes convivendo sob o mesmo rótulo: o projeto como ocupação e sentido para o tempo livre, o projeto como extensão de uma causa já existente e o projeto como negócio. O último caso, aliás, nem é vibe coding no sentido estrito, o que mostra como a fronteira entre "fazer sozinho com IA" e "contratar quem faça" continua porosa.
O retrato brasileiro: 32 milhões de pessoas e um gargalo digital
O Brasil tem hoje um contingente de idosos maior do que a população de muitos países. Segundo o Censo Demográfico 2022, são cerca de 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, perto de 16% da população, num crescimento de 56% em relação a 2010.2 O mesmo levantamento registrou um índice de envelhecimento de 80 idosos para cada 100 crianças de até 14 anos.
A conectividade desse grupo, porém, avança em ritmo bem mais lento. A pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br/NIC.br, mostra que dos 28 milhões de brasileiros que não usam a internet, 16 milhões têm 60 anos ou mais.3 Entre os idosos desconectados, 52% apontam como principal motivo o fato de não saberem usar. E entre os que estão on-line, 81% acessam a rede exclusivamente pelo celular, proporção superior à de qualquer outra faixa etária, conforme detalhou o coordenador da pesquisa, Fábio Storino.3
O dado mais revelador para esta discussão é o da inteligência artificial generativa, medida pela primeira vez na edição de 2025. Em média, 32% dos usuários de internet no país já recorreram a essas ferramentas, o que equivale a cerca de 50 milhões de pessoas. Entre os usuários com 60 anos ou mais, a proporção cai para cerca de 6%.3
A distância entre 6% e 32% muda a leitura da reportagem britânica. O vibe coding pressupõe acesso a um computador, conexão estável, assinatura paga de uma ferramenta de IA e alguma familiaridade prévia com ambientes digitais. Para um idoso que usa a internet só pelo celular, muitas vezes com plano pré-pago, publicar um site seguindo passo a passo as instruções de um chatbot é uma tarefa de outra ordem. Os personagens do Telegraph são, em sua maioria, profissionais com carreira consolidada em países de renda alta. No Brasil, o mesmo perfil existe, mas é estreito.
A barreira deixou de ser a linguagem de programação. Passou a ser ter um computador, uma conexão estável e alguém que ensine o primeiro passo.
Empreendedorismo sênior encontra uma ferramenta nova
Há, ainda assim, um terreno no qual o fenômeno tende a ganhar relevância no país: o empreendedorismo depois dos 60. Levantamento do Sebrae citado pela série sobre longevidade da Folha de S.Paulo aponta um recorde de 4,5 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais, e a proporção dos que abriram negócio por identificar um nicho de mercado subiu de 55% para 58% entre 2024 e 2025.6 Ou seja, uma parcela crescente desse público empreende por oportunidade, não apenas por necessidade.
É exatamente nesse ponto que o argumento de Furman encontra eco. Uma enfermeira aposentada sabe quais informações faltam a um cuidador de madrugada. Um contador com 40 anos de profissão conhece os erros que pequenos comerciantes repetem todo mês. Um mestre de obras entende o que um cliente precisa ver antes de aprovar um orçamento. Até agora, transformar esse conhecimento em ferramenta digital dependia de pagar uma equipe. Com a programação por conversa, o protótipo pode sair por algumas mensalidades de assinatura, o que reduz o custo de testar uma ideia antes de investir de fato nela.
O caso de Liz Blacklock, porém, serve de lembrete: o aplicativo que captou investimento foi feito com ajuda profissional. O vibe coding barateia o primeiro rascunho. Levar um produto a escala, com segurança, conformidade legal e manutenção, continua exigindo conhecimento técnico.
O que faria diferença no Brasil
Se a programação por conversa reduz a distância entre ter uma ideia e testá-la, o desafio brasileiro é anterior: fazer com que o idoso chegue à ferramenta. Storino, do Cetic.br, observa que apenas entregar um aparelho conectado não resolve, porque não inclui a pessoa no processo de aprendizagem.3 A inclusão digital que funciona tende a ser mediada, com alguém que acompanha os primeiros usos.
A partir daí, três frentes parecem decisivas. A primeira é tratar o letramento em IA como parte das políticas de envelhecimento ativo, e não como curso avulso de informática. A segunda é ensinar, junto com a criação, noções básicas de privacidade e segurança, já que o idoso que publica um aplicativo também passa a ser responsável pelos dados de quem o usa. A terceira é aproximar gerações: programas de mentoria em que jovens com repertório técnico e profissionais experientes com repertório de domínio construam juntos podem aproveitar o melhor dos dois lados.
O Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) já prevê o direito à educação e à participação em atividades que estimulem a cidadania.8 Num país que envelhece rapidamente, garantir que a geração de 60 anos ou mais participe da transformação digital como criadora, e não apenas como usuária ou alvo de golpes, é uma questão de política pública. A reportagem britânica mostra que a idade, por si só, não impede ninguém de programar. Os números brasileiros mostram que renda, escolaridade e acesso ainda impedem muita gente.
Perguntas frequentes
O que é vibe coding?
É a criação de software a partir de instruções em linguagem comum dadas a uma ferramenta de inteligência artificial, que gera o código correspondente. O termo foi cunhado por Andrej Karpathy em fevereiro de 2025 e eleito palavra do ano de 2025 pelo dicionário Collins.
Pessoas com mais de 60 anos conseguem criar aplicativos sem saber programar?
Sim. Reportagem do The Telegraph de outubro de 2026 relata casos de britânicos entre 60 e 81 anos que criaram sites, chatbots e aplicativos com ferramentas como Claude e Codex. Lançar um produto com segurança e conformidade legal, porém, costuma exigir apoio técnico.
Quantos idosos brasileiros usam inteligência artificial?
Segundo a TIC Domicílios 2025, do Cetic.br/NIC.br, cerca de 6% dos usuários de internet com 60 anos ou mais usaram IA generativa, contra 32% na média dos internautas brasileiros.
Quais são os riscos de criar um aplicativo com IA sem conhecimento técnico?
Os principais são falhas de segurança no código, já que estudo da Veracode encontrou vulnerabilidades em 45% das tarefas testadas, e descumprimento de leis de proteção de dados, como a LGPD no Brasil, sobretudo quando o aplicativo coleta informações de saúde.
Quantos empreendedores com mais de 60 anos existem no Brasil?
Levantamento do Sebrae aponta recorde de 4,5 milhões de empreendedores com 60 anos ou mais, com aumento da parcela que abre negócio por identificar uma oportunidade de mercado.
Este artigo foi produzido a partir da reportagem "Meet the over-60s taking on the tech bros with their own apps", de Blaise Cloran, publicada pelo The Telegraph em 13 de outubro de 2026. Os casos citados foram resumidos e analisados com base nesse texto; o contexto brasileiro e os demais dados vêm de fontes independentes listadas nas referências. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido integralmente.