Durante anos, a professora Sabrín Masarwa, cidadã israelense de origem palestina, dividiu a rotina entre sua casa em Taibe e uma escola da cidade judaica de Ganei Tikva, onde ensinava árabe a adolescentes de 12 a 15 anos. Em 2024, uma foto dela na Marcha do Retorno, ato legal e coordenado com a polícia em que cidadãos palestinos de Israel lembram a Nakba, começou a circular em grupos de WhatsApp com uma legenda em hebraico que, segundo o El País, dizia algo como "esta é a professora que ensina os seus filhos"1. Hoje ela mora em Londres.
O caso de Masarwa é o fio condutor de uma reportagem do correspondente Antonio Pita que reúne educadores árabes e judeus punidos em Israel por opiniões expressas fora da sala de aula. O retrato é de um sistema educacional em que a fronteira entre a atividade docente e a vida cívica do professor foi, na prática, apagada. E em que a punição passou a vir não apenas do Estado, mas também de alunos, pais e redes sociais.
O roteiro da exclusão: denúncia, afastamento, isolamento
Segundo o relato do El País1, a sequência após a circulação da foto seguiu um padrão que se repete em outros casos: cobrança da direção da escola, insultos de ex-alunos, interrogatórios informais nos corredores e, por fim, o afastamento temporário determinado em conjunto pela prefeitura, pelo Ministério da Educação e pela própria escola. Uma petição pedindo a reintegração da professora reuniu 2.500 assinaturas, e o ministério acabou reconhecendo que ela não havia cometido crime algum. Masarwa, porém, não quis voltar. Hoje milita no coletivo judaico-árabe Standing Together e prepara um doutorado sobre educação para a responsabilidade compartilhada entre palestinos e israelenses.
O desfecho é revelador. Formalmente, a professora venceu. Na prática, a escola perdeu uma docente e ela perdeu o país em que vivia. É esse tipo de resultado, em que a absolvição jurídica não desfaz a punição social, que torna o fenômeno difícil de medir e fácil de subestimar.
Uma lei que dispensa o devido processo
O ambiente descrito pela reportagem ganhou base legal em novembro de 2024. Em 4 de novembro daquele ano, o Knesset aprovou uma lei que autoriza o diretor-geral do Ministério da Educação a demitir ou suspender professores e cassar suas licenças quando considerar que eles manifestaram identificação ou apoio a um ato ou organização classificados como terroristas. A mesma norma permite ao ministro cortar o financiamento de escolas onde existam essas "expressões de identificação" e cuja direção soubesse, ou devesse saber, delas. A descrição consta da petição apresentada pela organização Adalah à Suprema Corte israelense3, que contesta o fato de a lei conceder ampla discricionariedade ao ministério sem salvaguardas mínimas.
A votação terminou em 55 a 45, depois de uma obstrução da oposição que durou quase 14 horas, segundo despacho da agência alemã dpa4. O deputado Yosef Taieb, do partido ultraortodoxo Shas, defendeu o texto com o argumento de que o país não permitiria que professores apoiadores do terror lecionassem. Já a organização judaico-árabe Sikkuy-Aufoq classificou a norma como instrumento destinado a intimidar e silenciar docentes.
O ponto central, do ponto de vista educacional, é a vagueza do critério. O direito penal israelense já prevê punição para quem incita ou apoia o terrorismo, com processo, defesa e juiz. A lei de 2024 cria uma via administrativa paralela, em que a avaliação sobre o que conta como "identificação" fica nas mãos de um gestor público. O El País acrescenta que o primeiro rascunho previa até a transferência rotineira de dados de professores para os serviços de inteligência, dispositivo retirado após protestos da categoria1.
Da escola à universidade: um padrão que atravessa níveis de ensino
A pressão não se restringiu à educação básica. A criminóloga Nadera Shalhoub-Kevorkian, professora da Universidade Hebraica de Jerusalém, foi presa em 18 de abril de 2024 sob suspeita de incitação, com base em declarações dadas a um podcast. Segundo o portal Jerusalem Story6, sua defesa afirmou tratar-se da primeira prisão de um professor em Israel por produção acadêmica ou discurso. A PEN America5 registra que ela foi suspensa e reintegrada em março, interrogada em abril e acabou deixando a universidade em 30 de agosto de 2024. Seguiu depois para Princeton, nos Estados Unidos, como professora visitante.
Outro caso citado pelo El País é o de Warda Sada, demitida da Faculdade Acadêmica de Educação Kaye, em Beersheba, por publicações no Facebook feitas logo após o ataque do Hamas. Segundo o Times of Israel7, um tribunal trabalhista concluiu que a instituição não respeitou sua liberdade acadêmica nem considerou medidas menos drásticas, e fixou indenização de 200 mil shekels. O mesmo tribunal, porém, criticou a educadora por não assumir responsabilidade pelas publicações e concedeu apenas parte do valor pedido. Sada havia trabalhado 28 anos na instituição.
Entre os estudantes, o quadro é semelhante. A Adalah, centro jurídico que defende os direitos da minoria árabe em Israel, informou que 113 estudantes palestinos de 33 instituições de ensino superior a procuraram por causa de processos disciplinares abertos após 7 de outubro de 2023, quase sempre motivados por postagens em redes sociais. Em relatório posterior8, a entidade sustenta que as universidades passaram a operar dois regimes disciplinares distintos, um para estudantes judeus e outro para palestinos.
Quando o professor investigado é judeu
Os educadores árabes foram o alvo principal, mas não o único. O caso mais conhecido é o de Meir Baruchin, professor de história e educação cívica em uma escola pública de Petah Tikva, perto de Tel Aviv. Em 8 de outubro de 2023, enquanto os primeiros bombardeios israelenses atingiam Gaza, ele publicou no Facebook uma condenação às mortes de famílias inteiras. Foi demitido pela prefeitura, teve a licença revogada pelo Ministério da Educação, teve a casa revistada e ficou detido em regime de isolamento. A revista +9722 fala em quatro dias de solitária; o El País, em cinco1.
A Justiça do Trabalho determinou sua reintegração e o Ministério Público arquivou a investigação. Quando voltou à escola, em janeiro de 2024, foi recebido por uma manifestação de estudantes, com xingamentos e cusparadas, segundo os relatos reunidos pela +972 e pelo El País. Por ordem judicial, passou dois meses gravando aulas em uma sala vazia para que fossem exibidas aos alunos. Na avaliação do próprio Baruchin, ouvida pelo El País, o tempo produziu uma segunda vitória: hoje ele diz ser popular entre os estudantes, que procurariam nele opiniões que não encontram em outros lugares1.
O jornal espanhol também acompanha o caso de Sebastián Ben Daniel, israelense nascido em Buenos Aires que leciona computação na Universidade Ben Gurion do Neguev. Sob o pseudônimo John Brown, ele publica críticas duras ao Exército na rede X. Embora mantenha as opiniões fora da aula, foi suspenso por duas semanas, teve anos de aulas gravadas revisadas por uma comissão e terminou o último semestre com segurança privada após a invasão de sua sala por um vice-ministro de extrema direita, Almog Cohen1.
O efeito que não aparece nas estatísticas
Os casos individuais terminaram, em boa parte, com vitórias judiciais. É justamente por isso que eles importam menos como desfechos do que como sinais. O conceito jurídico de efeito inibidor descreve o mecanismo: quando a punição possível é grave e o critério para aplicá-la é impreciso, a maioria das pessoas não espera a punição chegar. Simplesmente deixa de falar.
Baruchin descreve exatamente isso ao El País: colegas que evitam demonstrar qualquer sentimento pelos civis de Gaza porque sabem que alunos podem gravar a aula, enviar aos pais e os pais à prefeitura1. Ben Daniel aponta uma assimetria que ajuda a entender o funcionamento do sistema. Segundo ele, defender a ofensiva militar é tratado como posição normal, não política; apenas a crítica é classificada como ideologia.
Três elementos se combinam nesse arranjo. Primeiro, uma norma vaga que transfere ao gestor a definição do que é inaceitável. Segundo, a denúncia horizontal, feita por alunos e famílias com o celular na mão. Terceiro, a ausência de proteção institucional: em vários relatos, escolas e prefeituras se anteciparam à Justiça e afastaram o professor antes de qualquer apuração. O resultado é uma escola em que o docente passa a ensinar cidadania sem poder exercê-la.
Defensores da lei de 2024 argumentam que o Estado tem o dever de impedir que a escola se torne espaço de legitimação da violência, sobretudo em um país que acabara de sofrer o ataque mais letal de sua história. A justificativa oficial do projeto mencionava casos de professores e direções que demonstrariam simpatia por atentados, especialmente em escolas de Jerusalém Oriental.
No caso de Baruchin, autoridades e parte da imprensa israelense apontaram conteúdos que, na visão delas, ultrapassavam a crítica. O Jerusalem Post9 relatou que a investigação policial tratava de suposta identificação com o Hamas e de acusações consideradas falsas contra soldados. O professor nega ter justificado os crimes de 7 de outubro e afirma ter condenado o ataque publicamente. Também Shalhoub-Kevorkian chegou a se retratar sobre declarações a respeito da violência sexual praticada naquele dia. O debate, portanto, não é apenas sobre censura, mas sobre quem define o limite entre opinião dura e apologia, e por qual procedimento.
O espelho brasileiro: liberdade de cátedra sob vigilância
A comparação com o Brasil exige cuidado. Não há no país professores presos por postagens sobre conflitos armados, nem uma lei nacional em vigor que autorize demissões sumárias por opinião. Mas o mecanismo da denúncia, da gravação em sala e da norma vaga é conhecido por aqui.
O movimento Escola sem Partido inspirou dezenas de projetos de lei que previam punições a professores por suposta doutrinação. O Supremo Tribunal Federal tem derrubado essas normas de forma consistente. Em 2020, julgou inconstitucional a lei alagoana do programa Escola Livre, com base na liberdade de ensinar e no pluralismo de ideias previstos no artigo 206 da Constituição. Na ADPF 578, ajuizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, a Corte anulou por unanimidade uma lei de Santa Cruz de Monte Castelo, no Paraná, que previa sanções a docentes, segundo o Congresso em Foco12. Mesmo assim, a Câmara de Porto Alegre promulgou em fevereiro de 2025 uma lei com advertência, suspensão e multa para professores, conforme o Sul2114, e o Tribunal de Justiça de Santa Catarina precisou derrubar em março de 2025 uma lei estadual de mesma inspiração, segundo o Brasil de Fato13.
A gravação de aulas como forma de denúncia também já teve chancela de autoridade federal. Em 2019, o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmou que filmar professores seria um direito dos alunos, declaração repudiada por sindicatos de docentes, como registrou a Tribuna do Paraná16. O efeito acumulado aparece nos dados: pesquisa do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras e Educadores, divulgada pela Agência Brasil15, indicou que nove em cada dez profissionais já sofreram ou presenciaram violência e censura, e que cerca de 45% se dizem constantemente vigiados.
| Dimensão | Israel | Brasil |
|---|---|---|
| Base legal | Lei de nov. 2024 em vigor, contestada na Suprema Corte | Leis do tipo Escola sem Partido derrubadas pelo STF e por tribunais estaduais |
| Quem decide a punição | Diretor-geral do Ministério da Educação, por via administrativa | Propostas previam sanções locais; Judiciário tem barrado |
| Esfera penal | Prisões e investigações por incitação | Sem registro equivalente de prisões por opinião docente |
| Mecanismo social | Denúncia por alunos e pais, protestos em escolas | Gravações em sala, canais de denúncia, exposição em redes |
| Efeito observado | Autocensura relatada por docentes | Cerca de 45% dos professores se sentem vigiados |
A diferença decisiva está no papel das instituições. No Brasil, o Judiciário tem funcionado como barreira contra a punição por opinião em sala de aula. Em Israel, a lei passou e a contestação ainda depende da Suprema Corte, num momento em que a própria independência do tribunal é tema de disputa política.
O que as eleições de 27 de outubro podem mudar
Israel vai às urnas em 27 de outubro de 2026, na primeira eleição nacional desde o ataque de 7 de outubro de 2023. A data, a última permitida por lei, foi confirmada pelo Parlamento em julho, segundo a AFP10, e a disputa é vista como um referendo sobre o governo de Benjamin Netanyahu. Pesquisa do Canal 12 citada pela WION11 mostrou Netanyahu empatado com o ex-chefe do Estado-Maior Gadi Eisenkot na preferência para primeiro-ministro, com 38% cada.
A educação entrou na campanha. O El País relata que, às vésperas da votação, o deputado Yinon Azoulay, do Shas, defendeu excluir professores árabes das escolas judaicas1. Segundo dados do Escritório Central de Estatísticas citados pelo jornal, Israel tem cerca de 4 mil professores árabes, concentrados no ensino fundamental. O resultado das urnas não revogará a lei de 2024 por si só, mas definirá quem a aplica, com que intensidade e se propostas mais restritivas ganharão espaço.
Para o leitor brasileiro, o caso israelense funciona como um teste extremo de uma pergunta que também circula por aqui: o professor perde parte de seus direitos civis ao entrar na profissão? A resposta que cada sociedade dá a essa pergunta diz menos sobre os professores do que sobre o tipo de cidadão que ela espera formar.
Perguntas frequentes
O que diz a lei israelense de 2024 sobre professores?
Aprovada pelo Knesset em 4 de novembro de 2024, por 55 votos a 45, a lei permite que o diretor-geral do Ministério da Educação demita, suspenda ou casse a licença de professores que, em sua avaliação, tenham manifestado identificação ou apoio a atos ou organizações considerados terroristas. Também autoriza o corte de verbas para escolas onde essas manifestações ocorram. A organização Adalah contesta a lei na Suprema Corte israelense.
Quais professores foram punidos em Israel após o 7 de outubro?
Entre os casos documentados estão a professora de árabe Sabrín Masarwa, afastada após participar de um ato legal sobre a Nakba; a pesquisadora Nadera Shalhoub-Kevorkian, presa em abril de 2024; Warda Sada, demitida após 28 anos de trabalho e depois indenizada; e o professor judeu Meir Baruchin, demitido, preso e posteriormente reintegrado pela Justiça.
Professores judeus também foram alvo?
Sim. Meir Baruchin, professor de história e educação cívica, foi demitido e detido após críticas aos bombardeios em Gaza. Sebastián Ben Daniel, professor da Universidade Ben Gurion, foi suspenso por duas semanas por publicações críticas ao Exército feitas fora da sala de aula.
Existe um paralelo com o Brasil?
Parcial. O Brasil não registra prisões de professores por opinião, mas enfrenta tentativas de punir docentes por suposta doutrinação, inspiradas no movimento Escola sem Partido. O STF tem declarado essas leis inconstitucionais com base na liberdade de cátedra do artigo 206 da Constituição. Pesquisa do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras e Educadores indica que cerca de 45% dos professores se sentem constantemente vigiados.
Por que as eleições israelenses de 27 de outubro de 2026 importam para a educação?
A coalizão que aprovou a lei de 2024 disputa a renovação de seu mandato. O resultado vai influenciar como a norma é aplicada e se propostas mais restritivas, como a de excluir professores árabes de escolas judaicas, avançam no novo Parlamento.