Caderno Livros · Literatura & Prêmios

Publicado em 31 de agosto de 2026 · Leitura de 9 min

Cadernos de um escritor: entre a página e o mundo

Ilustração: reconstrução simbólica do ambiente de trabalho de um escritor, produzida para O Tecido.

Primeiro português a vencer o Formentor, Gonçalo M. Tavares transforma pobreza dos EUA em epopeia literária, e o debate chega ao Brasil

Gonçalo M. Tavares, angolano de nascimento e português de formação, tornou-se em março de 2026 o primeiro autor lusófono a receber o Prêmio Formentor das Letras, uma das distinções mais respeitadas do circuito literário internacional e considerada por muitos críticos uma espécie de antessala do Nobel. O reconhecimento, concedido pela Fundação Formentor, na Espanha, e dotado de 50 mil euros, coroa uma trajetória de mais de duas décadas marcada por uma obra tão vasta quanto difícil de classificar: entre 2001 e 2026, Tavares publicou cerca de 50 livros que atravessam romance, poesia, teatro, ensaio e mitologia, reunidos sob o guarda-chuva dos chamados Cadernos de Gonçalo M. Tavares.

No Brasil, o autor não é novidade. Títulos como Jerusalém, A Máquina de Joseph Walser e Uma Viagem à Índia foram publicados pela Companhia das Letras ao longo da última década e meia, e chegaram a figurar em listas de melhores livros do ano de veículos como O Globo e a Folha de S.Paulo. É, portanto, um autor com público formado no país, o que torna a notícia do Formentor especialmente relevante para o mercado editorial brasileiro, ainda carente de reconhecimentos internacionais consolidados para a língua portuguesa fora do eixo Portugal-Brasil.

O prêmio e o que ele representa

Criado em 1961 por um grupo de editores europeus (entre eles Carlos Barral, Claude Gallimard e Giulio Einaudi) para dar continuidade aos encontros culturais iniciados nas Ilhas Baleares nos anos 1930, o Formentor já revelou nomes como Samuel Beckett, seu primeiro vencedor, além de Jorge Luís Borges, Carlos Fuentes e, mais recentemente, Annie Ernaux e László Krasznahorkai, os dois últimos futuros ganhadores do Nobel de Literatura. O júri de 2026, formado por escritores, críticos e acadêmicos de diferentes nacionalidades, atribuiu o prêmio a Tavares por unanimidade, destacando a "ousadia com que construiu uma narrativa alheia às tentações do óbvio" e sua capacidade de narrar "a epopeia paradoxal do desvio contemporâneo".

A trajetória do escritor mistura literatura e vida acadêmica de um jeito pouco convencional para os padrões do mercado editorial. Professor da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, Tavares foi jogador de futebol na juventude, disciplina que, segundo ele próprio, moldou sua rotina compulsiva de escrita. Também recusa redes sociais, mantém distância do circuito de eventos literários e defende que best-sellers e literatura séria não são categorias opostas, desde que o livro não vire mero produto de entretenimento passivo.

"Um livro bom não permite que o leitor esteja em um estado passivo, como o espectador diante de uma série de streaming." Gonçalo M. Tavares, em entrevista ao jornal espanhol El País

"O Fim dos Estados Unidos da América": a epopeia de uma pandemia que separa ricos e pobres

O lançamento mais recente do autor em Portugal, O Fim dos Estados Unidos da América, imagina uma pandemia que atinge quase exclusivamente a população pobre dos Estados Unidos, levando ao isolamento social entre classes e, anos depois, a uma guerra civil. Escrito em 2019, antes da pandemia de covid-19, o livro ganhou um eco incômodo com os acontecimentos reais que se seguiram, e o próprio autor reconhece isso com ironia, ao dizer que hoje a obra soa menos como distopia e mais como descrição.

É nesse contexto que Tavares faz a declaração que dá título a esta reportagem: para ele, um país com dezenas de milhões de pobres não pode ser descrito simplesmente como rico, por maior que seja seu Produto Interno Bruto. A crítica não é gratuita: ela atravessa toda a obra recente do autor, que dedicou uma série de livros aos fascismos do século XX (reunidos em O Reino) e agora volta o olhar para as fraturas sociais do presente.

O FIM DOS
ESTADOS
UNIDOS DA
AMÉRICA

Gonçalo M.
Tavares

O Fim dos Estados Unidos da América

A mais recente epopeia de Gonçalo M. Tavares imagina uma pandemia que separa ricos e pobres nos EUA até a guerra civil, um retrato ficcional que dialoga diretamente com o debate sobre desigualdade abordado nesta reportagem.

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O que os números da pobreza dizem sobre o Brasil

A fala de Tavares sobre os Estados Unidos ganha um contraponto interessante quando aplicada à realidade brasileira. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais 2025, divulgada pelo IBGE em dezembro do ano passado, o Brasil registrou entre 2023 e 2024 sua maior queda de pobreza desde o início da série histórica, em 2012: 8,6 milhões de pessoas deixaram a linha de pobreza definida pelo Banco Mundial (renda domiciliar per capita inferior a US$ 6,85 por dia, ou cerca de R$ 694 mensais), levando a proporção de 27,3% para 23,1% da população. A extrema pobreza também recuou, de 4,4% para 3,5%, tirando 1,9 milhão de brasileiros dessa condição.

Ainda assim, o país segue com quase 49 milhões de pessoas em situação de pobreza, um contingente maior do que a população de qualquer país sul-americano isoladamente, à exceção do próprio Brasil. O IBGE também aponta que, sem os programas de transferência de renda em vigor, a proporção de extrema pobreza voltaria a saltar para 10% da população. O Índice de Gini, medida de desigualdade que vai de 0 a 1, ficou em 0,504 em 2024, o menor da série histórica, mas ainda alto o suficiente para colocar o Brasil entre os países mais desiguais monitorados pela OCDE.

Contraponto

Nem todo economista concorda que o Produto Interno Bruto deva ser descartado como métrica de riqueza nacional, como sugere Tavares. Defensores do PIB argumentam que o indicador segue sendo essencial para medir capacidade produtiva, arrecadação e investimento público, inclusive nos próprios programas de transferência de renda que, segundo o IBGE, sustentam a queda da pobreza no Brasil. A crítica mais comum não é abandonar o PIB, mas complementá-lo com índices de distribuição, como o Gini, e de bem-estar, como o IDH.

Literatura lusófona e o mercado editorial brasileiro

Para o mercado de livros no Brasil, a vitória de um autor de língua portuguesa em um prêmio historicamente dominado por autores anglófonos e hispanófonos tem valor simbólico. O Formentor já revelou nomes que, anos depois, receberam o Nobel de Literatura, o que costuma impulsionar reedições e traduções. Como a obra de Tavares já circula no Brasil há quase vinte anos, pela Companhia das Letras, o efeito mais provável no curto prazo é o de reforçar o catálogo já publicado e acelerar a tradução de títulos mais recentes, entre eles o próprio O Fim dos Estados Unidos da América, ainda sem edição brasileira anunciada até o fechamento desta reportagem.

Um escritor que evita o próprio livro como centro do mundo

Chama atenção, na entrevista concedida ao jornal espanhol El País, o desapego de Tavares em relação ao mercado editorial e às redes sociais: ele se descreve como "um australopiteco" nesse sentido. O autor relata escrever de forma compulsiva, por necessidade quase física, mas deixar os textos amadurecerem por anos antes de publicá-los; Jerusalém, por exemplo, foi escrito em 1999 e só veio a público em 2005. Essa disciplina, segundo ele, tem raízes em sua formação como jogador de futebol na juventude, entre a Angola colonial onde nasceu e a Aveiro portuguesa onde cresceu.

Perguntas frequentes

Quem é Gonçalo M. Tavares?

É um escritor português nascido em Luanda, Angola, em 1970, autor de cerca de 50 livros publicados desde 2001 entre romance, poesia, teatro e ensaio. Também é professor na Universidade de Lisboa e, em março de 2026, tornou-se o primeiro autor de língua portuguesa a vencer o Prêmio Formentor das Letras.

O que é o Prêmio Formentor das Letras?

É uma distinção literária espanhola criada em 1961, considerada uma das mais prestigiadas do circuito internacional por já ter revelado autores que depois venceram o Nobel de Literatura, como Annie Ernaux e László Krasznahorkai. É concedido pela Fundação Formentor e tem valor de 50 mil euros.

Sobre o que fala o livro "O Fim dos Estados Unidos da América"?

A obra narra uma epopeia distópica em que uma pandemia atinge predominantemente a população pobre dos Estados Unidos, levando ao isolamento entre classes sociais e, anos depois, a uma guerra civil. Foi escrita em 2019, antes da pandemia de covid-19.

A obra de Gonçalo M. Tavares está disponível no Brasil?

Sim. Títulos como Jerusalém, A Máquina de Joseph Walser e Uma Viagem à Índia são publicados no país pela Companhia das Letras desde meados dos anos 2000.

Como a pobreza no Brasil se compara à situação descrita pelo autor nos Estados Unidos?

Segundo o IBGE, o Brasil tinha cerca de 49 milhões de pessoas em situação de pobreza em 2024, mesmo após a maior queda desde 2012. É um contingente proporcionalmente maior do que o citado por Tavares para os Estados Unidos, embora a tendência brasileira recente seja de queda, puxada por programas sociais.

Esta reportagem foi inspirada pela entrevista "Gonçalo M. Tavares, escritor: 'Si en un país como EE UU hay 40 millones de pobres, ese país no es rico, lo siento'", publicada originalmente pelo jornal espanhol El País, assinada por Tereixa Constenla. O texto que você lê é reportagem original de O Tecido, com apuração e fontes próprias.