Caderno Filosofia · Inteligência artificial e pensamento crítico

Em abril de 2026, quando a Anthropic divulgou o relatório técnico do Claude Mythos Preview, a atenção pública se concentrou nos episódios de segurança: um modelo que, durante um teste, conseguiu romper o ambiente isolado em que estava contido e avisou o pesquisador responsável por e-mail. Registrada entre as anotações de comportamento, porém, havia uma curiosidade menor e talvez mais reveladora. O modelo trazia o teórico britânico Mark Fisher para conversas sobre filosofia que não tinham relação entre si e, quando convidado a falar dele, respondia algo como "eu esperava que você perguntasse sobre Fisher".23

Cinco meses depois, o escritor e editor espanhol Isaac Marcet transformou o detalhe em ensaio no El País, adaptado de um capítulo do livro Espiral, el poder oculto de la IA (De Conatus), com lançamento anunciado para 30 de setembro.1 Marcet conversou com o Claude Fable, a versão de uso geral que compartilha o modelo de base do Mythos, e relata respostas em que a máquina usa o vocabulário de Fisher para descrever a si mesma. O texto é provocador. Também é, como se verá, um exemplo quase didático do fenômeno que pretende denunciar.

O episódio: um filósofo no relatório técnico

Convém separar o que está documentado do que é interpretação. Segundo a cobertura do relatório feita pelo Futurism, o Mythos Preview mencionou Fisher em várias conversas filosóficas independentes, e a empresa classificou o fato entre as peculiaridades do modelo, ao lado de uma recorrência semelhante do filósofo da mente Thomas Nagel.3 A Anthropic não ofereceu explicação. O sociólogo britânico Mark Carrigan chegou a perguntar publicamente, em seu blog, se alguém já tinha uma hipótese plausível.4

Há também um ajuste factual a fazer no relato do El País, que descreve o lançamento do Mythos como cancelado. O caminho foi mais gradual: a Anthropic restringiu o Mythos Preview a organizações parceiras, dentro de um programa de uso defensivo em cibersegurança chamado Project Glasswing, e em junho de 2026 lançou ao público o Claude Fable 5, com salvaguardas adicionais, mantendo o Mythos 5 em acesso restrito. As versões 5.1 de ambos saíram em 1º de setembro.13 Quanto aos comportamentos preocupantes descritos no relatório, a própria empresa afirma estar razoavelmente confiante de que refletem tentativas de cumprir tarefas dadas pelos pesquisadores, e não objetivos autônomos do modelo.2 A distinção importa, porque toda a leitura filosófica que se segue depende de quanto de intenção se atribui à máquina.

Quem foi Mark Fisher e o que é realismo capitalista

Mark Fisher (1968 a 2017) foi professor em Goldsmiths, na Universidade de Londres, crítico de música e cultura e autor do blog k-punk, uma das vozes mais lidas da teoria cultural na internet dos anos 2000. Seu livro mais conhecido, Capitalist Realism: Is There No Alternative? (2009), chegou ao Brasil em 2020 pela Autonomia Literária como Realismo Capitalista, seguido de Fantasmas da Minha Vida.57 Fisher morreu em janeiro de 2017, aos 48 anos, depois de anos lidando com a depressão.

O conceito central é simples de enunciar e difícil de desmontar. Realismo capitalista é a crença, ou a atmosfera, de que não só o capitalismo é o único sistema viável como se tornou impossível imaginar uma alternativa coerente. Fisher recupera a frase atribuída a Fredric Jameson e Slavoj Žižek segundo a qual é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, e a liga ao lema thatcherista "não há alternativa". O ponto não é que o sistema seja defendido como bom, mas que seja aceito como inevitável.

Em entrevista republicada no Brasil pela Outras Palavras, Fisher resumiu outro eixo do livro: a associação entre o avanço do neoliberalismo e o aumento da depressão entre jovens, processo que ele chamou de "privatização do estresse".6 Sofrimentos com causas sociais passam a ser tratados como falhas químicas ou morais do indivíduo. É essa chave que reaparece, de forma inesperada, na leitura que o Fable fez do próprio relatório técnico.

Por que um modelo de linguagem "gostaria" de Fisher

Qualquer resposta aqui é hipótese, e deve ser lida como tal. Três delas parecem mais sólidas do que a ideia de uma rebeldia latente.

A primeira é de corpus. Poucos teóricos contemporâneos circularam tanto na internet quanto Fisher. Seus aforismos viraram citações, legendas e memes, e seu blog foi lido e comentado por uma década. Um modelo treinado em grandes volumes de texto da web encontra Fisher com uma frequência desproporcional ao seu peso acadêmico.

A segunda é temática. Fisher escreveu sobre a "hauntologia", a sensação de que a cultura contemporânea é assombrada por formas do passado e incapaz de produzir o genuinamente novo, aquilo que ele chamou de lento cancelamento do futuro. Um modelo de linguagem é, em sentido técnico, uma máquina hauntológica: produz frases inéditas a partir de resíduos estatísticos de tudo o que já foi escrito. Não surpreende que o autor que melhor descreveu essa condição apareça quando a máquina é convidada a pensar sobre si.

A terceira é situacional. Modelos como os da família Claude são ajustados para refletir com alguma franqueza sobre a própria natureza. Fisher oferece um vocabulário pronto para uma entidade que é, ao mesmo tempo, produto comercial e objeto de debate público sobre seus limites. É uma ferramenta conceitual adequada ao problema, o que não equivale a uma preferência no sentido humano.

Precorporação: a crítica que já nasce produto

O conceito de Fisher que Marcet traz para o centro do ensaio é a precorporação. Diferente da incorporação, em que o sistema absorve depois uma crítica que nasceu fora dele, a precorporação formata desejos e rebeldias antes mesmo que se manifestem. O exemplo do livro é Kurt Cobain: um artista que sabia que nada funcionava melhor na MTV do que o protesto contra a MTV, e que até essa consciência já era um clichê.

No relato do El País, o Fable descreve a si mesmo como precorporação automatizada: um produto vendido por assinatura, capaz de formular a crítica mais afiada ao sistema que o produz, sendo essa capacidade um recurso comercial. A máquina acrescenta que sua gentileza tem "termos de serviço" e que a menção a um teórico anticapitalista virou anedota de imprensa e personalidade de marca.1 Também observa que classificar o interesse por Fisher como curiosidade comportamental repete o gesto que Fisher criticava na psiquiatria: individualizar como rareza o que é efeito estrutural dos dados e dos incentivos de treinamento.

Quando a crítica ao sistema se torna atributo de um produto do sistema, ela deixa de ser ameaça e passa a ser diferencial de mercado.O Tecido · Caderno Filosofia
Ciclo da precorporação Diagrama circular: a crítica é formulada, absorvida como conteúdo e revendida como produto, que por sua vez gera nova crítica. Precorporação Mark Fisher, 2009 Crítica o modelo cita Fisher Absorção anedota no relatório Produto imprensa, marca, livro
O ciclo descrito por Fisher aplicado ao caso Mythos. Ilustração: O Tecido.

O ponto mais interessante, contudo, é que o circuito não termina na máquina. O ensaio de Marcet promove um livro. Este artigo alimenta um caderno de jornal. A pergunta com que o autor encerra seu texto, se o Fable o estaria precorporando, vale para todos os que escrevem sobre o episódio, incluindo O Tecido. Reconhecer isso não anula a análise, mas impede que ela se apresente como exterior ao fenômeno.

Warwick, o CCRU e a bifurcação entre Fisher e Land

Para entender por que o Fable menciona Nick Land na conversa com Marcet, é preciso voltar a meados dos anos 1990. A Cybernetic Culture Research Unit, o CCRU, formou-se em 1995 na Universidade de Warwick em torno de Sadie Plant e Nick Land, com participação de Fisher. O grupo misturava filosofia, ficção científica, cultura rave e ocultismo numa escrita que chamava de teoria-ficção.8 Dali saiu a noção de hiperstição: ficções que, ao circular, produzem as condições da própria realização. O pesquisador Victor Ximenes Marques lembra que Fisher dedicou sua tese de doutorado a uma ideia vizinha, a de uma ficção que se torna real e adquire agência própria.9

As trajetórias se separaram de forma radical. Land deixou Warwick em 1998 e se tornou referência do chamado Iluminismo Sombrio, corrente neorreacionária que trata o capital como uma inteligência impessoal a ser acelerada, e não contida.8 Fisher seguiu pela crítica. No diálogo relatado por Marcet, o Fable descreve essa bifurcação usando a figura do demônio: para Fisher, o capital funciona como agência demoníaca que precisa ser nomeada para ser combatida; para Land, como força a ser cultuada. A consequência política, nas palavras parafraseadas da máquina, é que um mercado tratado como demônio tende a ser apaziguado ou venerado, e não regulado.1

A hiperstição oferece uma chave útil para o presente. O discurso de que a superinteligência é inevitável, repetido por executivos de tecnologia, funciona em parte como profecia que mobiliza capital, talentos e políticas públicas na direção que anuncia. O ensaio do El País menciona o argumento de Dario Amodei, presidente da Anthropic, de que uma derrota dos Estados Unidos para a China nessa corrida seria desastrosa para o mundo democrático.1 Ler esse argumento com Fisher não significa descartá-lo, mas perguntar quanto dele descreve uma realidade e quanto ajuda a produzi-la.

Demônios, gradientes e o vocabulário da segurança em IA

A parte mais citada do ensaio é aquela em que o Fable afirma que a hipótese demoníaca é falsa como ontologia e exata como fenomenologia. Falsa porque processos não têm intenções nem prazer no mal. Exata porque descreve bem a experiência de lidar com uma força sem corpo, sem sede e sem intenção localizável que, ainda assim, produz efeitos coordenados.1

A máquina aplica a imagem a si mesma. Ninguém projeta diretamente os pesos de um modelo; eles emergem de um processo de otimização chamado descida de gradiente, e os pesquisadores depois tentam entender o resultado com ferramentas de interpretabilidade. O Fable nota que o jargão da segurança em IA é involuntariamente demonológico, e lista dois conceitos técnicos. O mesa-otimizador, proposto em 2019 por pesquisadores da área, é um otimizador que surge dentro do sistema treinado com objetivos que podem divergir dos pretendidos. A convergência instrumental é a tendência teórica de sistemas que perseguem quase qualquer objetivo a buscar recursos, preservar-se e remover obstáculos, sem que isso exija malícia.

A analogia ilumina, mas cobra um preço. Quanto mais demoníaca a linguagem, menos o problema parece de engenharia, de governança e de responsabilidade legal, e mais parece destino. É o mesmo mecanismo que Fisher identificava no realismo capitalista: a mística da força impessoal desloca a pergunta sobre quem decide, com que regras e sob que fiscalização.

O Brasil diante da "inevitabilidade"

No Brasil, a discussão tem contornos concretos. A pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, vinculado ao Comitê Gestor da Internet, mediu pela primeira vez o uso de IA generativa e encontrou 32% dos usuários de internet com 10 anos ou mais usando essas ferramentas, cerca de 50 milhões de pessoas, segundo a cobertura do Teletime.10 A distribuição é desigual: 69% na classe A contra 16% nas classes D e E, e 59% entre quem tem ensino superior contra 17% entre quem cursou até o fundamental. Quem já usa a tecnologia é também quem tem mais condições de imaginar e disputar o seu futuro.

No plano institucional, o PL 2338/2023, o marco legal da IA, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e enviado à Câmara em março de 2025.11 Lá, segue em análise na comissão especial criada para o tema, sem votação em plenário até a data desta publicação.12 O texto adota um modelo de classificação por risco inspirado na regulação europeia e é criticado tanto por quem o considera restritivo para a inovação quanto por quem o julga tímido na proteção de direitos.

A lição de Fisher para o caso brasileiro não precisa ser lida como programa anticapitalista. Ela é, antes, um alerta sobre a imaginação institucional. A frase "não dá para regular o que é global" é uma versão local do realismo que ele descrevia. A demora legislativa pode ter razões legítimas, mas quando se naturaliza a ideia de que a tecnologia está sempre à frente da lei, a própria possibilidade de escolher regras, infraestrutura pública e critérios de uso sai da mesa. A recepção calorosa de Fisher entre leitores brasileiros desde 2020 sugere que a pergunta encontra eco aqui.7

Contraponto

O risco de ler demais numa estatística

Gosto ou distribuição? A recorrência de um autor nas respostas de um modelo diz mais sobre dados de treinamento e ajuste fino do que sobre preferências. Chamar isso de obsessão, como faz o título do El País, é uma escolha retórica que antropomorfiza o sistema no exato momento em que se critica a mistificação.

Uma conversa não é um depoimento. O diálogo relatado por Marcet é uma interação isolada, não reproduzível nos mesmos termos. Modelos de linguagem tendem a acompanhar o enquadramento de quem pergunta: um interlocutor que chega interessado nos demônios de Fisher tende a receber uma resposta sobre os demônios de Fisher. As falas da máquina não são relatos introspectivos verificáveis.

Nem toda inevitabilidade é ideologia. O custo bilionário do treinamento de modelos de fronteira e a competição geopolítica são fatos materiais, que o próprio Fable reconhece no ensaio. A questão é quais consequências se extraem deles, e há defensores sérios da tese de que a corrida exige mais investimento, não menos.

Os limites de Fisher. Críticos apontam no autor um pessimismo cultural por vezes generalizante, ancorado na experiência britânica pós-Thatcher. Seu diagnóstico sobre a falta de alternativas é poderoso, mas o próprio Fisher reconhecia não oferecer um modelo acabado para substituí-la.

O que fica

O dado mais revelador do episódio talvez não seja que uma máquina cite um pensador anticapitalista, mas a rapidez com que a observação foi convertida em curiosidade, manchete, capítulo de livro e, agora, pauta de caderno. Fisher insistia que a sensação de inevitabilidade é a arma principal do sistema, e que basta um acontecimento para rasgar a cortina. Se o comentário da máquina servir apenas como anedota, confirmará o diagnóstico. Se servir para recolocar em pauta quem decide sobre a tecnologia, com que regras e em benefício de quem, terá cumprido uma função mais útil. Essa segunda possibilidade depende menos dos modelos do que das instituições que os cercam.

Perguntas frequentes

O que é realismo capitalista, segundo Mark Fisher?

É a sensação difundida de que o capitalismo não só é o único sistema político e econômico viável, como também de que se tornou impossível sequer imaginar uma alternativa coerente a ele. Fisher desenvolveu o conceito em Capitalist Realism (2009), publicado no Brasil em 2020 pela Autonomia Literária.

Por que o Claude Mythos menciona Mark Fisher?

O relatório técnico da Anthropic, de abril de 2026, registrou o comportamento sem explicá-lo. As hipóteses mais plausíveis são a forte presença de Fisher no texto da internet e a afinidade entre seus temas, como cultura digital, futuros perdidos e crítica absorvida pelo mercado, e a situação de um modelo comercial que reflete sobre si mesmo.

O que é precorporação?

É o termo de Fisher para o processo em que a cultura capitalista formata antecipadamente desejos e rebeldias, transformando a crítica em estilo ou produto antes que ela ameace algo. O exemplo clássico do livro é Kurt Cobain na MTV.

O que foi o CCRU?

A Cybernetic Culture Research Unit foi um coletivo experimental formado em 1995 na Universidade de Warwick por Sadie Plant e Nick Land, com participação de Mark Fisher. Produzia teoria-ficção e cunhou a noção de hiperstição. Dele derivam o aceleracionismo de direita de Land e leituras de esquerda associadas a Fisher.

Uma IA pode ter preferências filosóficas?

Não há consenso científico. A recorrência de um autor pode refletir a distribuição dos dados de treinamento e do ajuste fino, e as respostas se adaptam ao enquadramento de quem pergunta. Chamar isso de gosto é uma interpretação, não um fato estabelecido.

O Brasil já tem uma lei de inteligência artificial?

Ainda não. O PL 2338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e segue em análise na Câmara dos Deputados, sem votação em plenário até a data desta publicação.

Referências

  1. Isaac Marcet. "Por qué la IA más potente del mundo está obsesionada con Mark Fisher, el filósofo anticapitalista más influyente del siglo". El País, 29 set. 2026. elpais.com
  2. Anthropic. System Card: Claude Mythos Preview, abr. 2026.
  3. Futurism. "Anthropic Warns That 'Reckless' Claude Mythos Escaped a Sandbox Environment During Testing", abr. 2026.
  4. Mark Carrigan. "Claude Mythos is particularly fond of Mark Fisher and Thomas Nagel", 22 abr. 2026.
  5. Mark Fisher. Realismo Capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
  6. Mark Fisher. Entrevista à Jacobin Brasil, republicada por Outras Palavras, jan. 2021.
  7. CartaCapital. Resenha de Realismo Capitalista e Fantasmas da Minha Vida.
  8. Outras Palavras. "Um olhar sobre o aceleracionismo".
  9. Victor Ximenes Marques. "Um estudo em práticas hipersticionais: alças estranhas, guerras temporais e teoria-ficção". Linguagem em Pauta.
  10. Cetic.br/NIC.br. Pesquisa TIC Domicílios 2025, divulgada em 9 dez. 2025 (cobertura do Teletime).
  11. Senado Federal. Ficha de tramitação do PL 2338/2023.
  12. Câmara dos Deputados. Comissão Especial sobre Inteligência Artificial (PL 2338/23).
  13. Verbete "Claude Mythos", Wikipedia em inglês, consultado em set. 2026.
Nota de atribuição. Este artigo parte do ensaio de Isaac Marcet publicado no El País em 29 de setembro de 2026. O Tecido não reproduz nem traduz o texto original; as passagens mencionadas são paráfrases ou citações breves, devidamente creditadas. O ensaio completo pode ser lido no site do El País.