Tecnologia · Inteligência Artificial
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agente autônomo · pouco usado chat simples · uso massivo

Ilustração: O Tecido. Enquanto chatbots simples somam bilhões de usuários mensais, agentes autônomos de IA seguem restritos, em grande parte, a públicos técnicos.

Por que quase ninguém fora da bolha de tecnologia usa agentes de IA

A indústria de tecnologia já decidiu que agentes autônomos são o próximo grande salto da inteligência artificial. O público em geral, no entanto, ainda não recebeu o convite, e os números começam a mostrar essa distância.

Há uma frase que resume o desconforto que tomou conta de parte do Vale do Silício nas últimas semanas: quase ninguém fora da própria indústria de tecnologia usa, ou sequer conhece, um agente de IA. A provocação partiu de Josh Miller, CEO da The Browser Company, criadora do navegador Arc (adquirido pela Atlassian por 610 milhões de dólares em 2024) e do navegador com IA integrada Dia. Em uma publicação na rede social X que viralizou, Miller questionou por que, apesar de bilhões de dólares investidos e de modelos cada vez mais capazes, o "público em geral não dá a mínima" para agentes autônomos, segundo relato da revista Wired.1

A revista americana ouviu Miller em entrevista e reconstruiu o argumento central de sua provocação: agentes de IA, tal como a indústria os concebe hoje, não são exatamente um produto. São uma tecnologia de bastidor, um "harness" que orquestra ferramentas e tarefas, sendo apresentada ao público como se fosse, por si só, uma proposta de valor clara.1 Para efeito de comparação, a reportagem cita que os agentes Codex e ChatGPT Work, da OpenAI, somam cerca de 10 milhões de usuários semanais, e que produtos equivalentes da Anthropic (Claude Code e Cowork) registram adoção na mesma faixa, segundo pessoas próximas à empresa ouvidas pela Wired. Já chatbots de uso geral, como o próprio ChatGPT e o Gemini, do Google, somam cerca de 1 bilhão de usuários ativos mensais cada um.1

Esse fenômeno, batizado informalmente de "o problema dos agentes", não é exclusividade americana. Levantamentos recentes do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), conduzidos pelo Cetic.br, sugerem que o Brasil vive um descompasso semelhante entre entusiasmo corporativo e apropriação real por parte de usuários comuns.

O que os números brasileiros revelam sobre esse descompasso

A pesquisa TIC Domicílios 2025, divulgada em dezembro pelo Cetic.br em parceria com o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), mostrou que 32% dos usuários de internet no país, cerca de 50 milhões de pessoas com 10 anos ou mais, já utilizaram alguma ferramenta de inteligência artificial generativa.2 É um salto expressivo frente aos anos anteriores, mas o próprio estudo faz uma ressalva importante: a adoção é significativamente maior entre grupos de maior renda e escolaridade, o que indica um uso ainda concentrado em chatbots de tarefas simples (escrever textos, tirar dúvidas, gerar imagens) e não em fluxos autônomos e complexos como os agentes descritos por Miller.2

No ambiente corporativo, o retrato é parecido. A pesquisa TIC Empresas 2025, também do Cetic.br, mostrou que a adoção de IA por empresas brasileiras com dez ou mais funcionários passou de 13% em 2024 para 17% em 2025, o primeiro salto expressivo desde que o indicador começou a ser medido, em 2021. Entre as grandes empresas, o avanço foi maior, de 38% para 50% no mesmo período, mas a maioria das pequenas empresas, que representam 87% do universo pesquisado, ainda não incorporou a tecnologia de forma estruturada.3

"Ninguém quer agentes de IA porque agentes de IA não são uma coisa. É um enquadramento inventado pela nossa indústria para se referir, coletivamente, a algo." Josh Miller, CEO da The Browser Company, em entrevista à revista Wired¹

Por que o produto ainda não decolou

Segundo a reconstrução da Wired, Miller atribui parte do problema a um efeito de bolha dentro da própria indústria. Ele relata que, ao negociar a venda da The Browser Company no ano passado, praticamente todos os líderes de laboratórios de IA que encontrou citaram o filme Ela (Her, 2013), de Spike Jonze, como referência de visão de produto, uma narrativa de ficção científica que, na avaliação dele, não reflete o que a maioria das pessoas realmente quer no dia a dia.1 O exemplo mais concreto que ele oferece é o de sucesso: a funcionalidade mais usada do navegador Dia não é apresentada como "agente" nenhum, mas como um resumo matinal personalizado, com lista de tarefas puxada da agenda e do e-mail do usuário. Por trás, há um agente de IA operando; para quem usa, é apenas uma tela de bom dia.1

Esse diagnóstico de produto tem eco em dados de mercado sobre projetos corporativos de IA agêntica. Segundo previsão da consultoria Gartner, mais de 40% dos projetos com agentes de IA em empresas devem ser cancelados até o fim de 2027, por causas como custos crescentes, resultados de retorno pouco claros e infraestrutura ainda imatura para sustentar sistemas autônomos.4 O relatório Hype Cycle for Generative AI 2026, da mesma consultoria, avaliou 30 tecnologias de IA generativa e não encontrou nenhuma no chamado "platô de produtividade", estágio em que uma tecnologia já entrega valor consistente e mensurável. Protocolos de comunicação entre agentes, como o Model Context Protocol (MCP) e o protocolo agente a agente (A2A), aparecem como as tecnologias menos maduras de toda a lista.5

A distância entre "poder fazer" e "querer usar"

Há uma diferença relevante entre o que os modelos de IA já são tecnicamente capazes de executar e o que as pessoas efetivamente demandam. A maior parte do uso de IA generativa hoje, tanto no Brasil quanto globalmente, ainda se concentra em tarefas relativamente simples: buscar informação, redigir textos, tirar dúvidas em conversa. Agentes autônomos, que navegam em sites, executam ações em múltiplas etapas e tomam decisões sem supervisão constante, representam um salto de complexidade que a maioria dos usuários não pediu, e para o qual ainda não existe uma interface amplamente compreendida.

Contexto: o que muda no setor público e na saúde

O descompasso entre capacidade técnica e adoção também aparece em setores regulados. No setor público brasileiro, o Cetic.br mediu pela primeira vez o uso de IA nas prefeituras em julho de 2026 e encontrou presença da tecnologia em apenas 27% dos municípios, com falta de capacitação das equipes como principal barreira apontada. Já na área de saúde, a pesquisa TIC Saúde 2025 mostrou que 18% dos estabelecimentos do país já utilizam IA, concentrada sobretudo em tarefas operacionais e administrativas, e não em decisões clínicas autônomas.

Contraponto: é cedo demais para declarar fracasso?

O outro lado do argumento

Nem todo analista do setor concorda que a baixa adoção atual sinalize um problema estrutural de produto. A própria Gartner, apesar de prever alto índice de cancelamento de projetos corporativos no curto prazo, mantém previsões otimistas para o médio prazo: estima que até 2028 um terço dos aplicativos corporativos incorporará algum tipo de agente e que 15% das decisões rotineiras de negócio serão tomadas por sistemas autônomos.6 Sob essa ótica, o momento atual seria comparável ao início de outras ondas tecnológicas, como a dos aplicativos de smartphone ou da própria internet comercial, em que a infraestrutura amadurece antes de o produto de massa aparecer. A diferença, segundo críticos como Miller, é que aplicativos de sucesso raramente venderam a própria tecnologia como proposta de valor; venderam o resultado que ela entregava ao usuário final.

O que vem a seguir

Miller afirma à Wired que sua crítica não é dirigida a laboratórios específicos, mas a um padrão de pensamento coletivo do setor, e que espera que sua provocação chegue a fundadores e times de produto para além da OpenAI e da Anthropic.1 O recado, lido a partir de São Paulo, tem relevância direta para o mercado brasileiro: empresas nacionais que investem em automação com IA enfrentam desafios adicionais de infraestrutura e capacitação técnica, o que amplia o risco de repetir, em escala local, o mesmo hiato entre expectativa e uso real que hoje preocupa parte do Vale do Silício.

Para o usuário comum, o próximo capítulo talvez não venha com o rótulo "agente de IA" estampado na embalagem. Se a hipótese de Miller estiver correta, ele vai aparecer disfarçado de recurso simples, como uma tela de bom dia, um resumo de agenda ou um lembrete automático, entregando o resultado do trabalho autônomo sem exigir que ninguém entenda a engrenagem por trás.

Perguntas frequentes sobre agentes de IA

Por que poucas pessoas usam agentes de IA fora do setor de tecnologia?

Segundo a análise do CEO Josh Miller à revista Wired, o problema é de produto, não de capacidade técnica: agentes de IA são apresentados como uma categoria tecnológica abstrata, e não como soluções simples e voltadas a uma necessidade concreta do usuário final.

Quantos brasileiros já usam inteligência artificial generativa?

Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br/NIC.br, cerca de 50 milhões de brasileiros (32% dos usuários de internet com 10 anos ou mais) já utilizaram alguma ferramenta de IA generativa, com adoção concentrada em grupos de maior renda e escolaridade.

Qual a diferença entre um chatbot de IA e um agente de IA?

Um chatbot responde perguntas em uma conversa. Um agente de IA executa tarefas de várias etapas de forma mais autônoma, como navegar em um site, preencher formulários ou orquestrar outras ferramentas, com supervisão humana reduzida.

Qual a taxa de fracasso de projetos corporativos com agentes de IA?

A consultoria Gartner estima que mais de 40% dos projetos corporativos com agentes de IA serão cancelados até o final de 2027, principalmente por custos elevados, retorno pouco claro e infraestrutura ainda imatura.

Em números

10 mi
usuários semanais dos agentes Codex/ChatGPT Work (OpenAI), patamar citado como similar para Claude Code/Cowork (Anthropic)
Fonte: Wired
~1 bi
usuários ativos mensais de chatbots como ChatGPT e Gemini
Fonte: Wired
32%
dos usuários de internet no Brasil (~50 milhões) já usaram IA generativa
Fonte: Cetic.br/NIC.br, TIC Domicílios 2025
17%
das empresas brasileiras já usam IA (alta de 13% em 2024)
Fonte: Cetic.br, TIC Empresas 2025
40%+
dos projetos corporativos com agentes de IA devem ser cancelados até 2027
Fonte: Gartner

Linha do tempo

  • 2024The Browser Company vende o navegador Arc à Atlassian por US$ 610 milhões.
  • Jun/2025Gartner projeta cancelamento de 40% dos projetos de agentes de IA até 2027.
  • Dez/2025TIC Domicílios aponta 50 milhões de brasileiros usando IA generativa.
  • Jun/2026TIC Empresas mostra alta na adoção de IA por empresas brasileiras, de 13% para 17%.
  • Ago/2026Post viral de Josh Miller reabre debate sobre adoção de agentes de IA pelo público geral.

Glossário

Agente de IA
Sistema que executa tarefas de múltiplas etapas de forma autônoma, com supervisão humana reduzida.
Harness
Camada técnica que orquestra ferramentas e chamadas de IA para executar uma tarefa; geralmente invisível ao usuário final.
MCP (Model Context Protocol)
Protocolo aberto que permite a um agente de IA se conectar a ferramentas e fontes de dados externas.
Hype Cycle
Metodologia da Gartner que mapeia o grau de maturidade e expectativa em torno de tecnologias emergentes.

Referências

  • 1.Knight, Will. "Why Normal People Aren't Using AI Agents". Wired, 2026. wired.com/story/why-normal-people-arent-using-ai-agents
  • 2.Cetic.br/NIC.br. "TIC Domicílios 2025: 50 milhões de brasileiros já usam IA". cetic.br
  • 3.Cetic.br. "Uso de IA por empresas brasileiras avança e atinge 17%". cetic.br
  • 4.Gartner, via Forbes Brasil. "40% dos Projetos com Agentes de IA Serão Cancelados até 2027". forbes.com.br
  • 5.Gartner, via Hardware.com.br. "Hype Cycle for Generative AI 2026". hardware.com.br
  • 6.Gartner, via ABES. "Gartner prevê agentes de IA em 40% das aplicações empresariais até 2026". abes.org.br
  • 7.Cetic.br. "TIC Saúde 2025: uso de IA na saúde brasileira". cetic.br