A guerra entre Estados Unidos e Irã completa mais de seis meses sem sinal de desfecho, e a mais recente aposta de Washington para forçar uma resolução esbarrou num obstáculo conhecido: a China. Em 24 de agosto, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, lançou a operação batizada de "Dia D econômico", com a meta de isolar Teerã de seus parceiros comerciais[1]. O problema é que, segundo análise publicada pelo jornal espanhol El País assinada pelo economista Simon Johnson (Nobel de Economia 2024) e por Amir Kermani, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, quase todos os caminhos para uma paz duradoura passam justamente por Pequim, e a China não demonstra pressa em cooperar[1].
O impasse chinês
O raciocínio dos autores é direto: guerras terminam quando um lado se rende, quando as elites de ambos os lados se cansam das perdas, ou quando um terceiro ator poderoso impõe a paz. Nenhum desses três caminhos parece próximo no caso Irã-EUA. Teerã não sinaliza rendição, Washington não arrisca uma invasão em larga escala, e o único terceiro capaz de inclinar a balança, a China, prefere observar[1].
Reportagens recentes reforçam esse quadro. Segundo levantamento da CNN Business, a China compra a maior parte do petróleo iraniano exportado, num fluxo estimado entre US$ 3,9 bilhões e US$ 4,2 bilhões apenas em um mês do ano anterior, movimentado majoritariamente por refinarias independentes chinesas conhecidas como "teapots"[2]. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos já aplicou mais de uma dezena de rodadas de sanções contra essas refinarias, terminais portuários e frotas de navios desde o início do ano, sem conseguir interromper o comércio de forma duradoura[3].
Esse é o núcleo do argumento de Johnson e Kermani: nenhuma ameaça americana à China é totalmente crível, porque Pequim controla o fornecimento de minerais críticos essenciais às cadeias de semicondutores, o que dá à China uma carta de barganha que Washington não tem como neutralizar rapidamente[1].
Ormuz, sanções e o mercado de petróleo
O conflito atual começou no fim de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel atacaram alvos iranianos, levando o Irã a restringir o trânsito pelo estreito de Ormuz, via por onde passava cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos globalmente antes da guerra[4]. Um cessar-fogo firmado em junho, seguido de um memorando de entendimento, não se sustentou na prática: o Irã segue limitando a navegação pelo estreito e os Estados Unidos continuam bloqueando a maior parte dos navios ligados ao país[1].
Nos primeiros dias de setembro, novos ataques entre as partes voltaram a pressionar os preços. O Brent chegou a superar US$ 97 por barril, enquanto o WTI passou dos US$ 92, alta atribuída à retomada de ataques contra sistemas de radar iranianos e a retaliações contra posições americanas na região[5]. Analistas da Marisks, empresa de inteligência marítima, descrevem um cenário em que petroleiros comerciais passaram a ser usados deliberadamente como instrumento de pressão econômica recíproca, borrando a fronteira entre confronto militar e transporte comercial[6].
A China, por sua vez, entrou na crise com reservas de petróleo bem acima da média, mais de 1,2 bilhão de barris, e ainda mantém mais de 1,15 bilhão mesmo após meses de conflito[1]. Isso reduz sua exposição imediata a uma eventual interrupção prolongada em Ormuz, por onde passava cerca de 60% das importações chinesas de petróleo antes da guerra, e explica em parte por que Pequim não sente urgência em pressionar por uma solução[1].
O Golfo busca alternativas
Um efeito colateral da guerra é a erosão da confiança de parceiros históricos de Washington nas garantias de segurança americanas. Segundo o artigo original, Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos têm buscado diversificar alianças regionais, com Doha e Abu Dhabi mantendo diálogo direto com Teerã e usando incentivos econômicos como forma de reduzir riscos[1]. Para os autores, qualquer solução estável para a crise precisaria combinar maior integração econômica regional com uma saída negociada para o programa nuclear iraniano, possivelmente absorvendo-o como tecnologia civil numa cadeia de suprimento elétrico liderada pela China[1].
O que isso significa para o Brasil
O impacto no Brasil chega principalmente pelo preço do petróleo e pela aversão global ao risco. Como o país é exportador líquido de petróleo desde 2019, tem superávit comercial e reservas internacionais elevadas, analistas de mercado avaliam que o efeito local tende a ser negativo, mas limitado, mesmo com pressão sobre o Ibovespa e o câmbio em momentos de escalada[8]. A Petrobras, especificamente, pode se beneficiar do lado da receita: estimativas de mercado indicam que o lucro líquido da estatal pode subir entre 15% e 25% a cada alta sustentada de US$ 10 no barril do Brent[8].
O contraponto é o custo doméstico. O Brasil ainda importa derivados como gasolina e diesel, e a capacidade da Petrobras de segurar o repasse de preços nas bombas é limitada no tempo, sobretudo após a privatização de refinarias como a Rlam, na Bahia[9]. Isso mantém no radar do Banco Central o risco de um choque inflacionário via combustíveis, com possível reflexo na comunicação do Copom sobre o ritmo de corte de juros, ainda que sem mudança brusca na decisão imediata[10].
Perguntas frequentes
Por que a China é vista como decisiva para o fim da guerra entre EUA e Irã?
Porque é a principal compradora do petróleo iraniano e controla o fornecimento de minerais críticos usados por setores estratégicos americanos, incluindo semicondutores. Isso limita o poder de pressão de sanções que não contem com a cooperação chinesa[1].
O cessar-fogo de junho de 2026 ainda está em vigor?
Formalmente sim, mas na prática nunca foi cumprido de forma integral. O Irã segue restringindo o trânsito pelo estreito de Ormuz e os Estados Unidos continuam bloqueando embarcações ligadas a Teerã[1].
O Brasil está exposto a essa guerra?
De forma indireta e limitada. O país é exportador líquido de petróleo, o que ajuda a amortecer parte do choque, mas segue importando derivados, o que mantém risco inflacionário e de câmbio em cenários de escalada prolongada[8][9].
O que é a operação "Dia D econômico"?
É o nome dado pelo secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, à ofensiva lançada em 24 de agosto de 2026 para tentar isolar o Irã de todos os seus parceiros comerciais, ampliando sanções sobre compradores de petróleo iraniano[1].