Caderno Política · Análise Internacional 20 de setembro de 2026 · 8 min de leitura

Neste ano, três episódios resumem uma mudança silenciosa na vida pública ocidental. Um deputado americano foi acusado pela ex-mulher de agredi-la, junto com a filha pequena do casal, e segue candidato à reeleição. Um procurador-geral texano, já indiciado por fraude e alvo de um processo de impeachment por acusações que iam de suborno a abuso de poder, venceu com folga a prévia republicana para o Senado dos Estados Unidos. Só um terceiro político, um pré-candidato democrata ao Senado no Maine, pagou o preço de praxe: abandonou a disputa depois que uma ex-namorada o acusou publicamente de estupro. É a exceção que confirma a regra1.

A conclusão de uma reportagem publicada em 14 de setembro pelo The New York Times é direta: o escândalo político perdeu boa parte do seu poder de destruição1. E o fenômeno não é americano, nem uma simples questão de "os políticos perderam a vergonha". A pesquisa em ciência política aponta para uma causa mais estrutural, a polarização partidária, que interrompeu a cadeia de reações que historicamente ligava a revelação de uma conduta imprópria à punição eleitoral.

O novo manual da sobrevivência política

O cientista político Theodore Lowi definiu escândalo como "corrupção revelada": uma transgressão moral ou legal exposta ao julgamento público. Nesse modelo clássico, a revelação gera indignação popular, a indignação pressiona os partidos e a pressão produz alguma consequência, seja uma renúncia, um afastamento ou uma derrota nas urnas. Brandon Rottinghaus, cientista político da Universidade de Houston que estuda escândalos americanos, resume o que mudou: existe hoje um roteiro que recompensa quem resiste em vez de renunciar, porque essa resistência funciona melhor num sistema polarizado1.

O caso do procurador-geral do Texas é ilustrativo. Ele transformou cada nova denúncia numa prova de que era vítima de perseguição partidária, um discurso que reforçou sua base em vez de afastá-la1. Levantamentos da imprensa americana confirmam a dimensão da virada: ele venceu o senador que disputava a cadeira por uma margem de 25 pontos percentuais, superando um adversário com décadas de carreira e histórico de fidelidade ao próprio partido7.

Na Europa, a mesma lógica aparece com uma variação importante. Na França, a líder de extrema direita Marine Le Pen foi condenada em 2025 por desvio de fundos do Parlamento Europeu e recebeu, na sentença original, uma inabilitação de cinco anos para cargos eletivos. Em julho de 2026, porém, a Corte de Apelação de Paris manteve a condenação mas reduziu a pena de inelegibilidade para 45 meses, dos quais boa parte já suspensa, o que na prática abre caminho para que ela dispute a presidência em 2027, ainda que sob monitoramento eletrônico6. É um caso em que o Judiciário, e não o eleitorado, seguiu tratando o episódio como falta grave, mesmo que a pena aplicada tenha sido, ao final, mais branda do que a anunciada inicialmente.

Quando a filiação partidária vira identidade completa, a notícia de um escândalo deixa de ser um fato a julgar e passa a ser só mais um capítulo da disputa entre grupos.

Por que a polarização blinda quem erra

A explicação de fundo está naquilo que pesquisadores chamam de polarização afetiva: o fenômeno pelo qual eleitores nutrem simpatia crescente pelo próprio grupo político e hostilidade crescente pelo grupo rival, a ponto de a posição partidária se tornar uma identidade quase total, que molda até hábitos de consumo e vestuário1. Nesse ambiente, o eleitor tende a perdoar a falta cometida por um aliado, porque a alternativa (fortalecer o adversário) parece pior do que tolerar a transgressão.

Há também um efeito colateral sobre a imprensa. Em sistemas de mídia partidarizada, veículos alinhados a um lado tendem a minimizar acusações contra os seus e a tratar denúncias contra o adversário como prova definitiva de culpa, o que a pesquisadora húngara Veronika Patkos descreve como um ambiente em que o eleitor raramente recebe informação clara e crível sobre qualquer um dos lados1. O relatório mais recente do V-Dem Institute, publicado em março de 2026, chega a uma conclusão compatível: o mundo vive o maior nível de erosão democrática já registrado pelo instituto, com a polarização identificada como um dos mecanismos centrais de enfraquecimento da prestação de contas (accountability) em diversos países2.

O resultado é um ciclo difícil de reverter. A impunidade de um escândalo alimenta mais desvios, os desvios reforçam a desconfiança nas instituições, a desconfiança aprofunda a polarização e a polarização blinda o próximo escândalo. Rottinghaus compara o mecanismo antigo a um incêndio que renova a floresta: o escândalo tradicional corrigia o sistema, como aconteceu nos Estados Unidos depois do Watergate, quando leis de controle do poder presidencial e de fiscalização do Congresso foram aprovadas em resposta direta à crise1. Quando esse mecanismo para de funcionar, a correção também para.

O espelho brasileiro

O Brasil não observa esse fenômeno de fora. Os dados de confiança institucional produzidos no país em 2026 desenham um quadro compatível com o descrito na reportagem internacional. O Índice de Confiança Social da Ipsos-Ipec, divulgado em julho, mostra que os partidos políticos são a instituição menos confiável do país, com apenas 30 pontos numa escala de 0 a 100, seguidos de perto pelo Congresso Nacional, com 34 pontos. A confiança institucional geral (54 pontos) fica bem abaixo da confiança que os brasileiros depositam em relações pessoais próximas (63 pontos)3. Em agosto, o Datafolha registrou que 35% dos entrevistados avaliam o Congresso como ruim ou péssimo, e 78% acreditam que os parlamentares priorizam interesses próprios em vez do interesse público4.

O aspecto mais próximo do argumento central da reportagem, porém, está na percepção que o próprio eleitor brasileiro tem do fenômeno. Uma pesquisa Ipsos-Ipec mostrou que 57% dos brasileiros acham que a polarização traz mais malefícios do que benefícios ao país, 58% acreditam que ela enfraquece a democracia e 72% dizem se sentir incomodados com a radicalização política que observam na sociedade5. Ou seja: existe consciência social do problema, mas essa consciência não tem sido suficiente para restaurar o vínculo entre exposição de uma falta e punição nas urnas.

O país já tentou blindar esse vínculo por lei. A Lei da Ficha Limpa, sancionada em 2010 depois de uma iniciativa popular com mais de 1,6 milhão de assinaturas, criou hipóteses de inelegibilidade para candidatos condenados por órgão colegiado, e já barrou mais de 1,2 mil candidaturas desde então. O advogado Márlon Reis, um dos autores da proposta, aponta o esquema conhecido como orçamento secreto, o remanejamento de emendas parlamentares sem transparência sobre destino e beneficiários, como o maior escândalo de corrupção política já registrado no país8. Ainda assim, a exposição pública desse esquema não produziu o tipo de punição eleitoral em massa que a teoria clássica do escândalo previa, um sintoma adicional de que o mecanismo de responsabilização por reputação perdeu força também por aqui.

Contraponto: o escândalo ainda funciona, em certas condições

Nem todo escândalo sobrevive à polarização. O pré-candidato democrata no Maine citado no início desta análise abandonou a disputa, o que sugere que o tipo de acusação importa: crimes de natureza pessoal e violenta parecem manter poder de destruição política mesmo em ambientes polarizados, ao contrário de acusações ligadas a processos administrativos ou financeiros, mais fáceis de enquadrar como "perseguição política" pelo próprio acusado. Há também uma diferença institucional relevante: onde a decisão sobre elegibilidade cabe ao Judiciário, como na França, o escândalo ainda produz consequência formal, independentemente da opinião do eleitorado, ainda que a pena aplicada possa ser revista e reduzida ao longo do processo. O quadro descrito neste texto, portanto, não é o fim da responsabilização política, mas o deslocamento do seu centro de gravidade: do julgamento popular espontâneo para mecanismos institucionais mais formais, que resistem melhor à lógica de grupo.

Perguntas frequentes

Por que escândalos políticos deixaram de derrubar candidatos?

Porque a polarização partidária reduziu o custo eleitoral do escândalo: eleitores toleram falhas de aliados para não fortalecer o grupo rival, e políticos aprenderam a reenquadrar acusações como perseguição política, uma estratégia que tende a mobilizar sua própria base em vez de afastá-la.

O fenômeno é exclusivo dos Estados Unidos?

Não. Casos na França, na Espanha, em Israel e no Reino Unido seguem padrão semelhante, e o relatório Democracy Report 2026 do V-Dem Institute associa a polarização crescente ao enfraquecimento da prestação de contas política em diversos países ao redor do mundo.

Existe evidência desse fenômeno no Brasil?

Sim. Pesquisas de 2026 mostram que partidos políticos e Congresso Nacional são as instituições menos confiáveis do país, enquanto outra pesquisa indica que a maioria dos brasileiros reconhece os efeitos negativos da polarização, sem que isso tenha revertido o padrão de baixa punição eleitoral por escândalos.

Existe alguma exceção a essa regra?

Sim: acusações de natureza pessoal e violenta continuam a ter poder de destruição política, e sistemas em que a elegibilidade é decidida por tribunais, e não diretamente pelo eleitor, preservam parte do mecanismo tradicional de responsabilização.

Nota de atribuição: esta análise foi motivada pela reportagem "Why Scandals Don't Bring Down Politicians Anymore", de Amanda Taub, publicada pelo The New York Times em 14 de setembro de 2026. O conteúdo aqui apresentado não reproduz nem traduz o texto original: retoma seus achados centrais, credita suas fontes e os complementa com dados independentes, sobretudo sobre o contexto brasileiro. A reportagem original pode ser lida na íntegra em nytimes.com.

Ewerton Lopes — Curador Editorial