Sustentabilidade
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Não é impressão. Comparado ao das mulheres, o prato médio dos homens pesa mais no clima, e a diferença já foi medida em pelo menos três países, incluindo o Brasil. O achado mais recente vem do Quebec, onde uma equipe de pesquisadores calculou pela primeira vez, com metodologia detalhada, a pegada de carbono da alimentação por perfil demográfico[1]. O resultado confirma um padrão que estudos na França e no Reino Unido já haviam identificado: idade e, principalmente, gênero influenciam diretamente quanto CO2 vai parar no prato de cada pessoa.

O estudo, conduzido pelo Centro Internacional de Referência sobre Análise de Ciclo de Vida e Transição Sustentável (CIRAIG) e publicado no fim de agosto na Revista Canadense de Estudos sobre Alimentação, avaliou 58 categorias de alimentos consumidos por adultos quebequenses em 2018[1]. A pegada média chegou a 2.377 quilos de CO2 equivalente por adulto ao ano, algo próximo de 2,4 toneladas, o que corresponde a cerca de 20% da pegada de carbono total de um domicílio na província[1].

É na variação entre perfis que o dado se torna mais interessante para quem pensa políticas públicas de clima. Segundo o levantamento, homens adultos entre 19 e 50 anos chegam a emitir perto de 2,9 toneladas por ano com a própria alimentação, enquanto mulheres com 71 anos ou mais ficam na faixa de 1,7 tonelada, a extremidade mais baixa de toda a amostra[1]. Em todas as faixas etárias comparadas, o grupo masculino aparece acima do feminino correspondente.

"A alimentação das mulheres e das pessoas idosas contribui menos para as mudanças climáticas. Isso se explica principalmente pelas necessidades energéticas menores desses grupos", resume o estudo conduzido por Laure Patouillard, pesquisadora do CIRAIG e professora associada da Universidade de Quebec em Montreal.

A carne vermelha como divisor de águas

Necessidade calórica menor explica parte da distância, mas não toda ela. Um estudo publicado em 2025 pela London School of Economics and Political Science, assinado pelas economistas Ondine Berland e Marion Leroutier, isolou o efeito específico do gênero sobre a pegada de carbono ligada à alimentação e ao transporte na França, cruzando dados de mais de 15 mil pessoas[2]. A conclusão foi que as mulheres emitem, em média, 26% menos CO2 que os homens nesses dois setores somados. Mesmo depois de controlar renda e escolaridade, a diferença permanece em torno de 18%[2].

O detalhe mais relevante do estudo francês está na decomposição do resultado. A carne vermelha representa apenas 13% da pegada alimentar média de um francês, mas responde sozinha por 70% de toda a diferença de emissões entre os gêneros observada na alimentação[2]. As pesquisadoras associam o achado a normas sociais que ligam consumo de carne e masculinidade, um padrão que dados de opinião franceses corroboram: mulheres são 67% da população vegetariana e 65% da flexitariana no país[2].

Um estudo anterior, conduzido por pesquisadores da Universidade de Leeds com base em mais de três mil itens alimentares consumidos por 212 adultos britânicos, havia chegado a proporção semelhante: a dieta masculina média gerava cerca de 41% mais emissões que a feminina, sobretudo pelo maior consumo de carne e álcool. O mesmo levantamento mostrou que dietas vegetarianas emitem 59% menos carbono que dietas com carne, independentemente de quem as segue[3].

Os dados sobre o Quebec citados neste texto foram originalmente divulgados pelo jornal canadense La Presse, em reportagem de Valérie Simard sobre o estudo do CIRAIG. Leia a matéria completa em La Presse.

O que os dados brasileiros mostram

O Brasil não tem, até agora, um estudo com o mesmo nível de detalhe do quebequense cruzando pegada de carbono e perfil demográfico. Mas os dados disponíveis sobre consumo de carne por gênero, base do maior componente da diferença observada lá fora, seguem a mesma direção. Um levantamento de base populacional feito em Pelotas, no Rio Grande do Sul, aponta que homens consomem mais carnes processadas e embutidos que mulheres, replicando um padrão já registrado em pesquisa anterior no Rio de Janeiro, na qual cerca de 97% dos homens entrevistados relataram consumir carne bovina, contra 94% das mulheres[5].

Pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da USP, em obra publicada em 2024 sobre os impactos ambientais, sociais e de saúde do consumo de carne no Brasil, chegam a um número mais direto: 64% das mulheres brasileiras limitam a ingestão de carne bovina a no máximo três vezes por semana, contra apenas 51% dos homens que adotam a mesma restrição[4]. A leitura dos autores é cultural antes de nutricional. "Mulheres comem menos carne do que homens, e a carne é muitas vezes associada a poder econômico, como no caso do churrasco no Brasil", afirma uma das pesquisadoras envolvidas no projeto[4].

O estudo ELSA-Brasil, que acompanha a saúde de servidores públicos em seis capitais, reforça o quadro por outro ângulo: homens relataram consumo mais alto de carne vermelha e processada que mulheres, e o consumo elevado desse grupo alimentar esteve associado a 40% mais chance de diagnóstico de diabetes entre os participantes homens no período analisado[6]. A Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, referência oficial sobre hábitos alimentares no país, também registra a carne bovina entre os itens de maior peso calórico e financeiro no orçamento das famílias brasileiras, com consumo historicamente mais associado ao público masculino[7].

Embalagem pesa menos do que se imagina

Um mito recorrente também aparece derrubado pelo estudo quebequense: a embalagem, muitas vezes apontada pelo público como a maior vilã climática da alimentação, responde por apenas 10% da pegada de carbono do que comemos, e o transporte do supermercado até em casa, por só 3%. A produção, o processamento e a distribuição dos próprios alimentos concentram 86% do peso total[1]. Segundo pesquisa de 2024 citada no levantamento canadense, um em cada cinco quebequenses ainda acredita que a embalagem é a principal responsável pela pegada carbônica da comida, um equívoco que a nova base de dados do projeto Polariis+ ajuda a corrigir[1].

Carne e laticínios, juntos, representam quase metade da pegada alimentar de um quebequense médio, contra apenas 5% atribuídos a frutas e vegetais. Curiosamente, dentro dessa última categoria, o alimento de maior impacto não é importado, e sim o tomate cultivado localmente em estufas aquecidas com combustíveis fósseis, prova de que a forma de produção costuma pesar mais do que a distância percorrida até a mesa[1].

Contraponto

Reduzir a crise climática a escolhas individuais de prato tem limites conhecidos. Pesquisadores da própria London School of Economics fazem a ressalva de que gênero é "uma determinante pertinente entre outras variáveis explicativas", como renda, local de residência e estado de saúde, e não um destino biológico. Nem todo homem consome mais carne, nem toda mulher segue dieta de menor impacto, e fatores estruturais, como o desenho da produção agropecuária e da matriz energética de cada país, seguem pesando mais no total de emissões do que qualquer hábito de consumo isolado. Tratar a diferença de gênero como curiosidade de comportamento, sem discutir política agrícola e energética, corre o risco de individualizar um problema que é, antes de tudo, sistêmico.

O que vem a seguir

A própria equipe do CIRAIG reconhece limites no estudo divulgado pela La Presse: os dados de consumo disponíveis não capturam mudanças recentes na dieta dos quebequenses, como a queda no consumo de carne relatada em pesquisas de opinião, e o foco em mudanças climáticas deixa de lado outros indicadores ambientais relevantes, como uso de água e biodiversidade[1]. O projeto Polariis+, que originou o levantamento, pretende ampliar a base de dados sobre a pegada ambiental de diferentes estilos de vida no Canadá, com o objetivo declarado de subsidiar decisões de governos e empresas rumo à meta de neutralidade de carbono do Quebec até 2050[1].

Para o Brasil, o gargalo é justamente a ausência de um estudo equivalente que combine análise de ciclo de vida, consumo real por domicílio e recorte demográfico completo. Os dados setoriais existentes, sobre consumo de carne, sobre orçamento familiar, sobre saúde cardiometabólica, apontam todos na mesma direção observada no exterior, mas ainda não foram reunidos numa métrica única de pegada de carbono alimentar por perfil, o tipo de base que poderia orientar campanhas de redução de desperdício e de consumo de proteína animal no país com a mesma precisão que o Quebec agora tem à disposição.

Perguntas frequentes

Por que a alimentação das mulheres emite menos CO2 do que a dos homens?

Estudos no Quebec, na França e no Reino Unido apontam duas causas principais: necessidades calóricas em média menores e maior consumo de carne vermelha entre homens. Na França, a carne vermelha corresponde a apenas 13% da pegada alimentar total, mas explica 70% da diferença de emissões entre os gêneros.

Essa diferença é biológica ou cultural?

As duas coisas contribuem, mas pesquisadores apontam o componente cultural como decisivo. O consumo de carne vermelha segue associado a normas de masculinidade em vários países, incluindo o Brasil, onde o churrasco funciona como marcador de status e identidade masculina, segundo pesquisadores da USP.

O que é pegada de carbono alimentar?

É a quantidade total de gases de efeito estufa, medida em equivalente CO2, gerada pela produção, transporte, embalagem e descarte dos alimentos consumidos por uma pessoa ao longo de um período, geralmente um ano.

Comer produtos locais reduz mais as emissões do que comer menos carne?

Não necessariamente. O estudo do Quebec mostra que o tomate, cultivado localmente em estufas aquecidas, tem a maior pegada de carbono entre frutas e vegetais. A forma como um alimento é produzido costuma pesar mais no cálculo final do que a distância que ele percorreu até a mesa.

Esses achados internacionais valem para o Brasil?

O Brasil ainda não tem um estudo de pegada de carbono alimentar por gênero com a mesma metodologia do canadense. Mas dados de consumo de carne do IBGE, do estudo ELSA-Brasil e de pesquisas acadêmicas da USP mostram o mesmo padrão, homens consomem mais carne vermelha que mulheres, o que sugere uma diferença de pegada semelhante à observada no exterior.