Enquanto países vizinhos registram as piores notas em duas décadas, o Brasil sustenta um desempenho estável no Pisa 2025 e reduz a distância histórica que o separa das economias mais ricas.
O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, mais conhecido pela sigla Pisa, divulgou nesta terça-feira os resultados do ciclo de 2025, e o retrato da América Latina é, de forma geral, desanimador. Argentina e México anotaram as piores pontuações em matemática desde que a série histórica começou, em 2006. Chile registrou queda tanto em matemática quanto em leitura. Colômbia e Costa Rica mostraram estagnação, ainda que com sinais de avanço na inclusão de estudantes de escolas públicas na amostra avaliada. O Brasil, no entanto, seguiu um caminho distinto: nem avançou de forma expressiva, nem despencou. Ficou parado, mas em um patamar que, olhando para a década anterior, representa uma recuperação relevante.
De acordo com o jornal espanhol El País, que analisou os resultados regionais em profundidade, a região latino-americana como um todo segue muito abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com destaque negativo para a Argentina governada por Javier Milei, cujo corte de mais de 45% no orçamento da educação pública coincidiu com a pior nota em matemática da história do país no exame.
O panorama regional traçado pelo Pisa 2025
O exame, aplicado a cada três anos pela OCDE a estudantes de 15 anos em todo o mundo, avalia competências em leitura, matemática e ciências. Segundo a reportagem do El País sobre os resultados de 2025, a Argentina caiu de 379 para 367 pontos em matemática entre 2018 e 2025, perdendo 11 pontos apenas nos últimos três anos, com apenas 24% dos estudantes atingindo o nível mínimo de proficiência, contra 65% na média da OCDE. O México também recuou, chegando a 388 pontos em matemática, a pior marca desde 2006, enquanto o Chile viu a proporção de alunos com desempenho insuficiente em matemática subir dez pontos percentuais desde 2015.
Fora da América Latina, os Estados Unidos surpreenderam pelo lado negativo em leitura, com o pior resultado da série histórica iniciada em 2000, embora ainda tenham ficado acima da média da OCDE. A própria organização do exame alertou para problemas na taxa de resposta dos estudantes norte-americanos, o que impede descartar viés nos dados daquele país.
Brasil: notas estáveis e distância histórica em queda
No caso brasileiro, os números divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), autarquia do Ministério da Educação responsável pela aplicação do exame no país, mostram 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências, valores praticamente idênticos aos de 2022. A média de 23 países da OCDE ficou em 466 pontos em leitura, 469 em matemática e 486 em ciências.
O dado mais relevante, porém, está na trajetória de longo prazo. Segundo a Agência Brasil, a diferença entre o desempenho brasileiro e a média da OCDE caiu de 102 para 58 pontos em leitura, de 131 para 92 em matemática e de 113 para 77 em ciências, quando se compara o ciclo de 2006 com o de 2025. Como cada 20 pontos equivalem, em média, a um ano escolar completo, o Brasil ainda carrega um atraso de cerca de 4,6 anos em relação aos países ricos em matemática, mas essa distância já foi consideravelmente maior.
Outro ponto destacado pela reportagem da Agência Brasil é o comportamento dos estudantes após a pandemia: entre 2018 e 2025, o país recuperou e superou o desempenho em ciências registrado antes da covid-19, e teve perdas menores que a média da OCDE em leitura e matemática, um resultado que contrasta com o quadro de deterioração mais acentuado observado em vizinhos como Argentina e Chile.
Dados do Pisa 2025 mostram que 72% dos estudantes brasileiros afirmaram ter interesse por diversos assuntos escolares, e apenas 16% consideram a escola uma perda de tempo, percentual bem abaixo da média da OCDE (24%). Estudantes que valorizam a escola tiveram, em média, 35 pontos a mais em ciências do que os colegas que não valorizam, um efeito superior ao observado na média da OCDE (27 pontos).
Contraponto
Nem todos os especialistas leem a estabilidade brasileira como uma boa notícia. Para parte da comunidade educacional, manter a mesma nota por três ciclos seguidos, em um cenário de pós-pandemia e de forte investimento em recuperação da aprendizagem, pode indicar que as políticas adotdas ainda não produziram um salto de qualidade suficiente. O próprio Inep reconhece que o Brasil segue distante da meta de universalizar competências básicas: apenas uma fração pequena dos estudantes atinge os níveis mais altos de proficiência em matemática, patamar em que países como Coreia do Sul, Japão e Singapura concentram parcelas expressivas de seus alunos. A leitura otimista da redução da distância histórica convive, portanto, com a constatação de que o ritmo de melhoria ainda é lento diante do tamanho do desafio.
O fator celular: uma aposta brasileira em teste
Um dos pontos que diferencia o debate educacional brasileiro do de outros países da região é a Lei nº 15.100, sancionada em janeiro de 2025 e regulamentada em fevereiro daquele ano, que restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais por estudantes da educação básica em escolas públicas e privadas de todo o país. Segundo o Ministério da Educação, a norma não impõe proibição absoluta, mas estabelece parâmetros de uso, reservando o celular para momentos com finalidade pedagógica definida pelo professor.
O tema também aparece nos próprios questionários contextuais do Pisa 2025, que perguntam aos estudantes sobre o uso de celulares em sala de aula. Segundo o Chile, apontado no levantamento do El País, a proporção de escolas que proíbem o uso de celulares saltou 25 pontos percentuais entre 2022 e 2025, e o Brasil caminha em direção semelhante, ainda que os efeitos sobre o desempenho só devam aparecer com clareza nos próximos ciclos da avaliação.
Uma pesquisa nacional conduzida pelo MEC, com mais de 8 mil escolas públicas e privadas de todas as regiões do país, busca medir o primeiro ano de implementação da Lei 15.100/2025. Levantamentos independentes, como o realizado pelo Centro do Professorado Paulista, apontam que parte dos professores ainda percebe dificuldades de cumprimento da norma no dia a dia escolar, o que reforça a necessidade de acompanhamento contínuo dos seus efeitos sobre a aprendizagem.
Como o Brasil se compara aos vizinhos
Colocado lado a lado com os países da região, o Brasil ocupa uma posição intermediária. Está atrás de Uruguai, Chile, Costa Rica, México, Colômbia e Peru em ciências, mas à frente de países como Equador, Argentina, El Salvador, República Dominicana, Paraguai e Guatemala. Em leitura, o resultado brasileiro coloca o país no pódio regional, atrás apenas de Uruguai e Chile, segundo o levantamento do El País a partir da base de dados da OCDE.
Já em matemática, área historicamente mais frágil para o Brasil, o país aparece atrás de Uruguai, Chile, México, Costa Rica, Peru e Colômbia, e à frente apenas de países como Argentina, Equador, El Salvador, República Dominicana, Paraguai e Guatemala. A OCDE destaca ainda que parte da aparente estagnação de países como Colômbia e Costa Rica está relacionada à ampliação do acesso ao ensino médio, que passou a incluir estudantes de grupos historicamente excluídos da avaliação, um movimento que também ocorre no Brasil e que tende a pressionar as médias para baixo justamente porque reflete maior inclusão.
Perguntas frequentes
O Brasil melhorou ou piorou no Pisa 2025?
O Brasil manteve notas estatisticamente estáveis em relação a 2022: 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências. O país não avançou de forma expressiva, mas também não sofreu as quedas registradas por vizinhos como Argentina, México e Chile.
Por que a Argentina teve o pior resultado em matemática em 20 anos?
Segundo a reportagem do El País, a queda argentina está associada a um corte superior a 45% no orçamento da educação pública durante o governo de Javier Milei, além do aumento da desigualdade entre estudantes com melhor e pior desempenho registrado entre 2022 e 2025.
O que é o Pisa e com que frequência ele é aplicado?
O Pisa é o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, aplicado pela OCDE a cada três anos a estudantes de 15 anos em dezenas de países, para medir competências em leitura, matemática e ciências.
A lei que restringe o celular nas escolas já influenciou o resultado do Pisa 2025?
A Lei 15.100/2025 entrou em vigor no início do ano letivo em que o exame foi aplicado, o que torna prematuro atribuir a ela qualquer efeito direto sobre as notas. Seus impactos devem ser mais visíveis nos próximos ciclos da avaliação.
Como o Brasil se compara a outros países da América Latina no Pisa 2025?
O Brasil ocupa posição intermediária na região: fica atrás de países como Uruguai, Chile e Costa Rica na maioria das áreas, mas à frente de Argentina, Paraguai e Guatemala, com destaque para o resultado relativamente melhor em leitura.
Referências
- El País. Los países de Latinoamérica retroceden en el informe PISA 2025 y Estados Unidos se hunde en lectura, 8 set. 2026. Disponível em: elpais.com.
- Agência Brasil. Pisa: Brasil reduz diferença para países ricos no desempenho escolar, 8 set. 2026.
- Ministério da Educação (MEC). Pesquisa nacional do MEC avalia impacto da lei de celulares.
- Fundação Lemann. Proibição de celulares nas escolas levanta debate sobre educação.
- Jusbrasil / MPCE. Lei nº 15.100/2025: Restrição do Uso de Celulares nas Escolas.