Caderno Educação · Análise

Esta análise parte da newsletter de Kiko Llaneras publicada pelo jornal espanhol El País em 13 de setembro de 2026, sobre o desempenho dos países da OCDE no PISA 20251. O texto original não é reproduzido nem traduzido integralmente; os dados e argumentos internacionais são creditados ao longo do texto, com pesquisa complementar sobre o caso brasileiro.

Nos últimos dez anos, a nota média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no PISA caiu 22 pontos em matemática e 27 em leitura, uma perda equivalente a quase um ano inteiro de escolaridade. O fenômeno atingiu 37 dos 38 países do bloco, segundo levantamento do jornalista Kiko Llaneras publicado no El País1. É um retrocesso sem precedentes na história da avaliação, criada em 2000, e o mais inquietante talvez não seja a magnitude da queda, mas a falta de consenso sobre suas causas.

Divulgados em 8 de setembro de 2026 pela OCDE, os resultados do PISA 2025 mostram estudantes de 15 anos com desempenho pior em matemática e leitura do que os de uma década atrás em praticamente todo o mundo desenvolvido1. O debate público reagiu com um cardápio de explicações concorrentes, da pandemia às redes sociais, passando por imigração, currículos e inteligência artificial. Llaneras argumenta que provavelmente não existe uma causa única capaz de explicar o que se vê em cada país, e que a honestidade exige reconhecer quanto ainda não se sabe1.

As hipóteses em disputa

A pandemia é a explicação mais intuitiva, mas insuficiente: o declínio já era visível antes de 20201. A imigração também entra na conta, já que estudantes de origem migrante crescem em proporção em vários países e tendem a pontuar mais baixo, mas o recuo aparece igualmente entre os nativos, o que descarta um efeito puramente estatístico1. Sobra a hipótese das telas: o próprio relatório da OCDE registra que 80% dos estudantes espanhóis dedicam mais de uma hora por dia a redes sociais, e um estudo com escolares italianos associou o uso precoce dessas plataformas a notas piores em língua e matemática, mesmo controlando o desempenho anterior1.

Há ainda pistas menos discutidas, como a perda de horas de sono entre adolescentes e a queda constante do hábito de leitura por prazer, que nos Estados Unidos passou de 35% dos jovens em 1984 para 14% em 20251. E uma hipótese mais recente: a inteligência artificial. Um estudo com estudantes chineses mostrou que, depois de começar a usar chatbots, as notas de dever de casa melhoravam e as de prova pioravam, um indício de que a ferramenta estava sendo usada para automatizar tarefas em vez de apoiar o aprendizado1. Nenhuma dessas explicações, isoladamente, dá conta do quadro completo, e o próprio autor da análise conclui que o exercício mais honesto é admitir a incerteza1.

A queda é global, mas cada país está respondendo de um jeito diferente. O Brasil escolheu começar pelo celular.

O Brasil na fotografia do PISA 2025

O retrato brasileiro é distinto do europeu, mas não menos preocupante. Nesta edição, o país obteve 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências, todos abaixo da média da OCDE2. Diferente do padrão internacional, os números brasileiros ficaram estatisticamente estáveis em relação a 2022, sem queda relevante, mas também sem melhora2 3. Especialistas do movimento Todos Pela Educação e da Agência Brasil descrevem o resultado como uma década de estagnação: o país reduziu a distância para a OCDE mais porque a média internacional caiu do que porque o Brasil avançou3 4.

Os números por trás da média preocupam mais que a média em si. Apenas 28% dos estudantes brasileiros atingiram o nível básico de proficiência em matemática, contra 65% na OCDE, e praticamente nenhum chegou aos níveis mais avançados da escala2 3. A desigualdade também é maior do que a média internacional: o nível socioeconômico explica 16% da variação de desempenho em ciências no Brasil, acima dos 12% da OCDE, e mais de um terço dos participantes brasileiros está entre os 25% mais pobres de toda a amostra global3. O PISA 2025 também revelou um problema de presença: 55% dos estudantes brasileiros disseram ter faltado ao menos um dia de aula nas duas semanas anteriores ao exame, mais que o dobro da média da OCDE, de 22%5.

A aposta brasileira: tirar o celular de cena

Enquanto a Espanha e outros países europeus ainda debatem o papel das telas, o Brasil já legislou sobre o tema. A Lei federal 15.100, sancionada em 13 de janeiro de 2025, restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis por estudantes da educação básica em escolas públicas e privadas de todo o país, com exceção de usos pedagógicos autorizados6 7. O efeito na rotina escolar foi rápido: o próprio PISA 2025 registrou que a proporção de estudantes brasileiros em escolas que proíbem celular saltou de 37% em 2022 para 81% em 2025, um salto muito maior que a média da OCDE, de 49%5.

A regulamentação da lei, em fevereiro de 2025, coincidiu com o início do ano letivo que serviu de base para essa mesma edição do PISA, o que torna o Brasil um dos primeiros grandes laboratórios nacionais para medir o efeito de uma restrição ampla ao celular em sala de aula8. O Ministério da Educação abriu uma pesquisa nacional, com mais de 8 mil escolas participantes, para avaliar os efeitos do primeiro ano de aplicação da norma9.

Contraponto

Nem todo mundo vê a política como solução. Um levantamento do Centro do Professorado Paulista com professores da rede, feito ao final do primeiro semestre de aplicação da lei, encontrou que 53% dos docentes consultados afirmavam que a norma não estava sendo cumprida nas escolas, e parte do grupo relatou aumento de desinteresse e conflitos ligados à "abstinência" do aparelho10. O quadro sugere que proibir o celular sem investir em formação docente, infraestrutura pedagógica e acompanhamento pode resolver um sintoma sem tocar nas causas mais profundas do desempenho escolar, o mesmo alerta que a análise do El País faz para explicações unicausais em qualquer país1.

Uma crise paralela: o hábito de leitura em queda

Se a hipótese das telas é debatida na Europa, no Brasil ela conversa com um dado doméstico mais antigo: o país lê cada vez menos. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostrou que a proporção de leitores caiu de 56% em 2015 para 52% em 2019 e chegou a 47% em 2024, a sexta edição do levantamento, a primeira em que há mais não leitores do que leitores no país desde que a pesquisa começou, em 200711 12. Entre os adolescentes de 14 a 17 anos, 31% se declaram não leitores, a maior proporção entre as faixas etárias escolares pesquisadas12.

Parte da explicação é estrutural: o Brasil perdeu cerca de 800 bibliotecas públicas entre 2015 e 2020, e apenas quatro em cada dez escolas municipais mantêm um espaço dedicado à leitura, segundo dados do Censo Escolar citados pela reportagem do Instituto Pró-Livro13. É o tipo de dado que ajuda a entender por que o próprio PISA 2025 identificou, também no caso brasileiro, um crescimento da chamada leitura apressada, quando o estudante lê rápido mas de forma imprecisa, um sintoma que quase dobrou entre 2018 e 20254.

As escolas que ainda faltam

Llaneras termina sua análise com uma reflexão sobre a aparência das escolas: se elas parecem mais pobres, mais lentas e mais velhas do que o resto do mundo que cerca os alunos, dificilmente vão soar como um lugar que vale a pena levar a sério1. O Censo Escolar 2025 dá números a essa preocupação no caso brasileiro. Embora 95% das escolas públicas já tenham água potável, energia elétrica, banheiros e cozinha, itens básicos de estrutura pedagógica seguem escassos: apenas 47% das escolas dos anos iniciais do ensino fundamental têm biblioteca ou sala de leitura, e menos da metade das escolas de ensino médio possui laboratório de ciências14. As desigualdades regionais são ainda mais marcantes: em estados como Acre e Roraima, cerca de três em cada dez escolas não têm água potável ou energia elétrica15.

Há avanços pontuais, como o salto da conectividade à internet nas escolas públicas, de 82,8% em 2021 para 94,5% em 202516, mas o gargalo de equipamento persiste: apenas 46% das escolas têm computadores em quantidade considerada adequada, e uma em cada três não possui nenhum dispositivo disponível para uso pedagógico17. É o retrato de um sistema que digitalizou o acesso à rede antes de resolver o que ensinar e como ensinar, o exato oposto do problema europeu, onde a discussão gira em torno de retirar telas que já estão em toda parte.

O que fica claro, e o que ainda não

A comparação entre os dois cenários, o europeu e o brasileiro, sugere uma conclusão modesta, mas útil: não existe uma receita única, porque os pontos de partida são diferentes. Onde a Espanha discute como conter o excesso de estímulo digital, o Brasil ainda discute como garantir uma biblioteca, um laboratório e uma sala sem goteira. Llaneras defende que os países parem de gastar tanta energia defendendo teorias favoritas e passem a investir na mesma proporção em testá-las, com avaliações que acompanhem os mesmos alunos ao longo do tempo, algo que o PISA, por desenho, não permite fazer1. No Brasil, essa recomendação soa especialmente urgente: o país aprovou uma lei nacional sobre celulares em tempo recorde, mas ainda não tem dados capazes de dizer, com segurança, se ela está funcionando.

Perguntas frequentes

Por que as notas do PISA caíram em quase todos os países da OCDE?

Não há uma causa única identificada. Pesquisadores apontam um conjunto de fatores que atuam ao mesmo tempo, incluindo o uso de redes sociais, perda de sono, queda no hábito de leitura, efeitos residuais da pandemia e mudanças em currículos escolares, sem que nenhum deles explique isoladamente toda a queda1.

Como o Brasil se saiu no PISA 2025?

O Brasil obteve 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências, valores abaixo da média da OCDE nas três áreas. Diferente da tendência internacional de queda, os resultados brasileiros ficaram estatisticamente estáveis em relação a 2022, mantendo uma década de estagnação2 3.

A lei que proíbe celular nas escolas brasileiras já mostrou resultado?

Ainda não há dados conclusivos. A proporção de escolas com restrição ao celular saltou de 37% para 81% entre 2022 e 2025, mas levantamentos com professores indicam aplicação desigual da norma, e o Ministério da Educação segue avaliando o impacto do primeiro ano de vigência5 9 10.

A queda no PISA tem relação com a leitura?

Parte da explicação estudada é a diminuição do hábito de leitura por prazer, fenômeno observado tanto internacionalmente quanto no Brasil, onde a proporção de leitores caiu para 47% em 2024, o menor índice já registrado pela pesquisa Retratos da Leitura1 11 12.

Ewerton Lopes — Curador Editorial

Referências

  1. Kiko Llaneras. "¿Cómo se explica el desplome en PISA? Lo inquietante es que no lo sabemos". El País, 13 de setembro de 2026. Disponível em: elpais.com.
  2. Resultado PISA 2025: desempenho do Brasil, QueroBolsa.
  3. Todos Pela Educação. Nota técnica sobre o desempenho brasileiro no PISA 2025.
  4. Agência Brasil. Reportagem sobre o PISA 2025 e a estagnação do desempenho brasileiro.
  5. Blog do Vestibular. PISA 2025: dados sobre faltas, atrasos e restrição de celular nas escolas brasileiras.
  6. Lei nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025. Câmara dos Deputados.
  7. Fundação Lemann. Reportagem sobre a proibição de celulares nas escolas brasileiras.
  8. Ministério Público do Ceará (MPCE). Kit sobre a Lei nº 15.100/2025 e seu decreto regulamentador.
  9. Ministério da Educação (MEC). Pesquisa nacional sobre o impacto da lei de restrição ao celular.
  10. Centro do Professorado Paulista (CPP). Pesquisa com professores sobre a aplicação da Lei 15.100/2025.
  11. Jornal do Brasil. Considerações sobre a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.
  12. Blog Clube de Autores. Retratos da Leitura no Brasil 2024: panorama do hábito de leitura no país.
  13. Instituto Pró-Livro / Itaú Cultural. Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, dados sobre bibliotecas públicas.
  14. Todos Pela Educação. Anuário da Educação Básica 2025, capítulo sobre infraestrutura escolar.
  15. Folha do Leste. Desigualdade na infraestrutura das escolas públicas, Anuário 2025.
  16. Instituto Max Fabiani. O Censo Escolar 2025 e a pluralidade regional da educação brasileira.
  17. MegaEdu. Nota técnica sobre conectividade nas escolas públicas a partir do Censo Escolar 2025.